Morashá
Yom Yerushalayim

Yom Yerushalayim

Yom Yerushalayim – o Dia de Jerusalém – é o aniversário da libertação e unificação da cidade sob soberania judaica, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Este ano, celebraremos, na data, 50 anos da reunificação de Jerusalém, ocorrida em junho de 1967.

Edição 95 - Março de 2017


Yom Yerushalayim constitui um dos quatro feriados – além de Yom HaShoá (Dia do Holocausto), Yom HaZikaron (Dia da Recordação) e Yom HaAtzmaut (Dia da Independência) – adicionados ao calendário judaico no século 20. Em 23 de março de 1988, o Knesset aprovou a Lei de Yom Yerushalayim, tornando o dia um feriado nacional.

Yom Yerushalayim é celebrado oficialmente por meio de cerimônias estatais e serviços in memoriam no dia 28 do mês hebraico de Iyar.

O Rabinato Chefe de Israel declarou esse dia como uma data religiosa festiva por marcar a recuperação do Kotel HaMaaravi – o Muro Ocidental. Um dos temas do Dia de Jerusalém é um verso do Livro de Salmos: Ke´ir shechubrá lá yachdav – “És uma cidade unificada e coesa para unir” (Salmos 122:3).

Exílio judaico de Jerusalém

O Rei David fez de Jerusalém capital de seu reino e centro religioso do Povo Judeu no ano de 1003 a.E.C. Quarenta anos depois, seu filho, o Rei Salomão, construiu o primeiro Templo Sagrado, transformando a cidade na próspera capital de um império que se estendia do Rio Eufrates até o Egito.

Nos séculos seguintes, a Cidade de David foi conquistada e reconquistada, ficando apenas por breves períodos de tempo nas mãos de nosso povo.  No ano de 586 a.E.C., Nabucodonozor, rei da Babilônia, a conquistou e destruiu o Templo Sagrado. Passaram-se cinquenta anos, e o Rei Ciro, da Pérsia, permitiu que os judeus retornassem a Jerusalém e reconstruíssem o seu Templo Sagrado.

Em 332 a.E.C foi a vez de Alexandre, o Grande, conquistá-la. A posterior profanação do Templo Sagrado e a campanha para extirpar o judaísmo, promovida pelo governante selêucida Antíoco IV, resultou em uma revolta liderada por Yehudá, o Macabeu, que reinaugurou o Templo (164 a.E.C.) e restabeleceu a independência judaica sob a dinastia hasmoneia. Essa revolta judaica bem sucedida e a reinauguração do Templo Sagrado é o que celebramos em Chanucá.

Um século mais tarde, Pompeu impôs o domínio romano sobre Jerusalém. O Rei Herodes (ca. 73 a.E.C. – 4 a.C.), nomeado governador da Judeia pelos romanos, remodelou o Templo Sagrado em um edifício de grande esplendor e ergueu magníficos edifícios públicos.

Após a morte de Herodes, o domínio romano se tornou extremamente opressivo e no ano de 66 da E.C estourou uma revolta contra Roma. Em 70 E.C., legiões romanas lideradas por Tito conquistaram Jerusalém e destruíram o Templo, massacrando em sua fúria milhões de judeus e levando milhares como escravos. Sessenta e cinco anos depois, Adriano, imperador romano, arrasou a cidade. Em suas ruínas, ele construiu uma colônia romana, que seria habitada por seus legionários – Aelia Capitolina. Seus planospara a cidade incluíam templos para as principais divindades da região e alguns deuses romanos. Isso foi o estopim que desencadearia a revolta de Bar Kochba, que levou três anos para que os romanos conseguissem conter – e que causou a ira de Adriano. Determinado a extirpar o judaísmo de sua província, proibiu as circuncisões, expulsou os judeus de Jerusalém – naquele então, já Aelia Capitolina – e renomeou a Judeia, chamando-a de Syria Palaestina.  Proibiu aos judeus a entrada na cidade sob pena de morte, exceto em um dia a cada ano – em Tisha b’Av – data que marca a queda do primeiro e do segundo Templos Sagrados. 

No século 3, o enfraquecido Império Romano se dividiu em duas partes: o do Ocidente e o do Oriente, conhecido como o Império Bizantino. Sob domínio bizantino, a Cidade de David voltou a se chamar Jerusalém, mas continuou proibida a presença judaica na Cidade Santa. Jerusalém foi transformada em um centro cristão sob o Imperador Constantino, sendo a Igreja do Santo Sepulcro a primeira das inúmeras estruturas grandiosas construídas na cidade.

Em 638 E.C., exércitos muçulmanos tomaram a cidade aos bizantinos. Nesse mesmo ano, o Califa Omar, soberano muçulmano, permitiu que os judeus retornassem, criando-se um grande enclave judaico ao norte do Monte do Templo – o coração de Jerusalém. Adriano, imperador de Roma, havia construído um templo para uma de suas divindades sobre as ruínas do nosso Templo Sagrado. Em seguida, vieram os bizantinos e lá ergueram sua igreja. Quando os muçulmanos conquistaram a cidade, aplainaram o local, construindo
a Cúpula da Rocha e a Mesquita de El Aksa.

Em 1099, os Cruzados conquistam Jerusalém, assassinando quase todos os seus habitantes judeus e muçulmanos. Destruíram sinagogas, reconstruíram antigas igrejas e das mesquitas fizeram santuários cristãos. 

No ano de 1187, Saladin, à frente dos muçulmanos, vence os Cruzados, e novamente os judeus tiveram livre acesso a Jerusalém. Em 1247, a cidade foi capturada pelo Sultanato mameluco egípcio.

Quando Nachmânides chega da Espanha, não encontrou um número suficiente de judeus em Jerusalém para constituir um minyan! Em uma carta a seu filho, desabafou: “Escrevo-lhe esta carta de Jerusalém, a Cidade Santa… a mais arruinada dentre todas as cidades… Deparamo-nos com uma casa destruída com colunas de mármore e uma bonita cúpula, e a convertemos em uma sinagoga... As casas da cidade foram abandonadas, e qualquer um pode delas se apossar”. Nachmânides recriou a comunidade judaica de Jerusalém e a mesma se desenvolveu.

Em 1517, Jerusalém foi tomada pelo Império Otomano, desfrutando um período de paz e renovação no governo de Suleiman, o Magnífico, quando foram construídas as belas muralhas do que hoje conhecemos como a Cidade Velha. Suleiman trouxe uma era de “paz religiosa”, e recebeu em seus domínios os judeus que haviam sido expulsos da Espanha, em 1492. Contudo, menos de um século depois, o regime turco imporia pesados impostos e inúmeras restrições aos judeus de Jerusalém. Mas, nem isso impediu que o Povo Judeu continuasse a voltar em grande número à Cidade Santa.

Em meados do século 19, a cidade murada de Jerusalém encontrava-se tão superpovoada de judeus que alguns de seus moradores tiveram a ideia de se mudar para fora dos muros. Sir Moses Montefiore ergueu um complexo fora dos muros e vinte famílias judias passaram a viver nesse local. Não tardou para que brotassem outros enclaves judaicos e a nova cidade de Jerusalém se estendeu além do que se tornou conhecido como a “Cidade Velha”.

Os ingleses venceram os turcos otomanos no Oriente Médio durante a 1a Guerra Mundial e, em 11 de dezembro de 1917, o General Sir Edmund Allenby, Chefe do Estado Maior da Força Expedicionária Egípcia, adentrou Jerusalém. De 1922 a 1948, a cidade foi o centro administrativo das autoridades britânicas em Eretz Israel (que, à época, era chamada de Palestina), confiada à Grã Bretanha pela Liga das Nações.

Os ingleses dividiram a Cidade Velha em quatro bairros: o Bairro Árabe (ou Muçulmano), que cobria metade de sua área, o Bairro Cristão, o Bairro Judeu e o Bairro Armênio. Essas designações, no entanto, eram artificiais: o censo dos próprios mandatários ingleses indicava que a maioria dos habitantes do Bairro Árabe eram judeus.

Os ingleses mantiveram as restrições turcas para os judeus no Kotel – o Muro Ocidental – lugar mais sagrado do judaísmo, próximo ao Monte do Templo. Apenas uma viela estreita fora deixada para as orações dos judeus e era proibido trazer bancos onde pudessem sentar-se. E aqueles que ousassem tocar o shofar em Rosh Hashaná ou ao término de Yom Kipur eram presos, surrados e aprisionados pelas autoridades britânicas.

Quando terminou o Mandato Britânico, em 14 de maio de 1948, e de acordo com a resolução das Nações Unidas de 29 de novembro de 1947, Israel proclamou sua independência tendo Jerusalém como sua capital. Na tentativa de derrotar o recém-criado Estado Judeu, os países árabes lançaram um ataque geral que resultou na Guerra da Independência de 1948-1949. As linhas do armistício criadas ao final da Guerra dividiram Jerusalém em dois, com a Jordânia ocupando a Cidade Velha e áreas ao norte e ao sul, e Israel mantendo as partes oeste e sul da cidade.

Pela primeira vez em 3000 anos, a Cidade Velha de Jerusalém estava Judenrein – livre de judeus. Sob domínio jordaniano, a metade das 58 sinagogas da Cidade Velha foram demolidas e o cemitério judeu no Monte das Oliveiras foi saqueado, sendo suas lápides usadas como material de pavimentação e construção. De 1948 a 1967, a antiga parte oriental de Jerusalém permaneceu controlada pelos jordanianos.

Mais uma vez, foi tomada ao Povo Judeu, mas continuou presente em nossas orações, em nossas canções e em nossas saudades. Pouco antes da Guerra dos Seis Dias, a maior cantora e poeta de Israel, Naomi Shemer, compôs uma bela canção, repleta de nostalgia e melancolia, Yerushalayim shel Zahav – “Jerusalém de Ouro”, que se tornou um hino de saudade por nossa Capital Eterna. De certa forma, a canção se tornou o hino nacional oficioso de Israel, ao lado do Hino Oficial de Israel, Hatikva – a Esperança.

Reunificação de Jerusalém

Quando, em 1967, irrompeu a Guerra dos Seis Dias, Israel contatou a Jordânia, por intermédio das Nações Unidas e da Embaixada dos EUA, e enviou uma mensagem ao Rei Hussein de que se a Jordânia se abstivesse de atacar Israel, este país agiria da mesma forma, não avançando contra a Jordânia. No entanto, pressionada pelo Egito e com base em relatórios fraudulentos dos serviços de inteligência, a Jordânia atacou o Estado Judeu. 

Em 28 do mês hebraico de Iyar, terceiro dia da Guerra, enquanto o exército israelense combatia o exército jordaniano, o comando das forças armadas de Israel percebeu que era possível recuperar a Cidade Velha. Tinham planos detalhados de como conquistar todas as partes da Terra de Israel que estavam sob governo jordaniano. Contudo, até aquele momento havia uma exceção – a Cidade Velha, pois sua compacta muralha e seus mirantes, feitos para repelir os invasores, tinham-na tornado praticamente invulnerável. De fato, em 1948, dezenas de combatentes judeus haviam perdido a vida tentando penetrar seus bastiões.

Mas então, durante a Guerra dos Seis Dias, quando ocorriam vitórias milagrosas em cada uma das frentes, o sonho de retomar a Cidade Velha estava prestes a se tornar realidade.

A ordem de atacar foi dada à 55ª Brigada de Paraquedistas de Mordechai “Motta” Gur. Os paraquedistas entraram pela Porta dos Leões. Para sua grande surpresa, além de tiros ocasionais de franco-atiradores, encontraram pouca resistência. As forças jordanianas haviam deixado o lugar na noite anterior. As tropas israelenses avançaram diretamente para o Monte do Templo. As palavras imortais de Motta Gur, “Har HaBayit b´yadenu – “o Montedo Templo está em nossas mãos”, ouvida nos rádios dos bunkers e dos abrigos antibombas e nas bases em todo Israel, proclamaram que o sonho de 2.000 anos finalmente se tornara realidade: o Povo Judeu tinha voltado à sua antiga capital.

O texto abaixo foi retirado do website das Forças de Defesa de Israel (FDI):

“A ordem, ansiosamente aguardada, de tomar a Cidade Velha foi dada ao amanhecer do terceiro dia da guerra, 7 de junho de 1967. O Comando atribuiu essa tarefa aos paraquedistas, que deslancharam o ataque nas colinas Augusta-Victoria e no Monte das Oliveiras, com vista para a Cidade Velha. Após atirar na direção da brecha da entrada, a Porta dos Leões, o comando do leste avançou muito rapidamente e irrompeu pela Cidade Velha. Os paraquedistas correram na direção do Domo da Rocha, localizado próximo aos últimos vestígios do Templo – o Muro Ocidental – onde, na presença do Comandante do setor e do Vice-comandante das Forças Armadas, o General Rabino Shlomo Goren, Capelão-chefe das FDI, deu um longo sopro de Shofar anunciando a libertação do Kotel HaMaaravi e que a Cidade Velha de Jerusalém, capital dividida de Israel, estava a partir de então reunificada”.

Naquele mesmo dia, o Ministro da Defesa Moshe Dayan declarou: “Esta manhã, as Forças de Defesa de Israel libertaram Jerusalém. Unificamos Jerusalém, capital dividida de Israel. Retornamos ao mais sagrado de nossos lugares santos, para nunca mais daqui sair. Aos nossos vizinhos árabes, estendemos também nesta hora – e com ênfase especial nesta hora – nossa mão em sinal de paz. E a nossos concidadãos cristãos e muçulmanos, solenemente prometemos plena liberdade e direitos religiosos. Não viemos a Jerusalém em busca dos lugares santos de outros, nem para interferir com os que aderem às outras fés, mas para salvaguardar a sua integralidade, e para viver aqui juntamente com os demais, em união”.

Após a libertação de Jerusalém pelas Forças de Defesa de Israel, as muralhas que a dividiam foram derrubadas. Três semanas depois, o Knesset, parlamento israelense, promulgava uma lei unificando a cidade e estendendo a soberania de Israel sobre toda a sua parte ocidental.

A reunificação da cidade foi um divisor de águas na história da tolerância religiosa, pois Jerusalém foi aberta a fieis de todos os credos. A reunificação de Jerusalém permitiu a volta dos judeus ao Muro e a outros lugares sagrados. Permitiu, também, que israelenses de fé cristã ou muçulmana visitassem seus lugares sagrados na Jerusalém Oriental, de onde haviam sido banidos pela Jordânia desde 1948.

Um ano mais tarde, o governo do Estado de Israel decidiu que o dia que celebrava a libertação e reunificação de Jerusalém – 28 de Iyar – seria feriado nacional. Nesse dia, Yom Yerushalayim, celebramos a reunificação da cidade e o vínculo eterno e inquebrável do nosso povo com Jerusalém.

Amor por Jerusalém

Jerusalém não é apenas mais uma cidade do Estado de Israel. Tampouco é meramente sua capital, na prática ou no título. Jerusalém é mais, é um símbolo.

Um símbolo pode ser uma coisa muito poderosa, especialmente para um povo sem pátria. Jerusalém e tudo o que simboliza foi o que manteve nosso povo vivo na Diáspora. Em tempos inquietantes – especialmente durante os mais árduos – o sonho de retornar a Jerusalém foi o que permitiu que nosso povo perseverasse. Durante as perseguições e pogroms, nas mãos da Inquisição, oprimidos pelo Império Russo, e nos campos de morte nazistas, os judeus sussurravam para si próprios “Amanhã em Jerusalém” – e isso foi o que lhes deu forças para sobreviver ou aguentar as provações pelas quais passaram.

Jerusalém é uma cidade, uma capital, um símbolo; é, também, a alma de Eretz Israel. Israel sem Jerusalém é como um corpo sem alma. A cidade é associada com tudo o que é sagrado na Terra: acima de tudo, é onde a Shechiná – a Presença explícita de D’us no mundo – deseja habitar. É associada, também, ao Templo Sagrado e à Torá. É única entre todas as cidades, pois faz parte do mundo, mas está acima do mundo.  O Talmud ensina que há uma Jerusalém terrena e uma Jerusalém Celestial. A cidade constitui uma passagem direta, entre o mundo terreno e o mundo celestial. É o portal para os Céus – uma passagem do físico para o espiritual.

Assim sendo, Yom Yerushalayim celebra bem mais do que um dia no qual a cidade foi libertada do domínio estrangeiro. Yom Yerushalayim é um dia de graças e júbilo pela simples existência da cidade – júbilo pelo fato de termos merecido, neste mundo, um ponto de conexão com o mundo superior – e que D’us nos tenha dado, a nós, judeus, a soberania sobre esse lugar. É a Cidade de D’us, que Ele confiou a nós.

Há cinquenta anos, Jerusalém em sua totalidade voltou a seus legítimos donos – o único povo que fez dela a sua capital – um povo que durante 2.000 anos rezou por ela, nostálgico, falando da cidade, chorando por ela, lamentando-se e escrevendo livros, canções e poemas sobre sua Cidade Eterna. Os filhos de Jerusalém voltaram a seu Lar eterno – para nunca mais dele se afastar.

Hoje as palavras do Profeta Zacharias deixaram de ser apenas um sonho e uma promessa que ajudaria nosso povo a atravessar uma Diáspora longa e dura. Hoje são uma realidade palpável: “Voltarão a sentar anciãos e anciãs nas ruas de Jerusalém ... e as praças da cidade ficarão repletas de crianças que brincarão também em suas ruas” (Zacharias 8:4).

Assim como se cumpriram as palavras deste profeta, assim também em breve se cumprirão as palavras dos demais profetas. O retorno do Povo Judeu a Jerusalém assinala o início de uma nova era – um tempo de paz e de prosperidade para todos – quando o mundo inteiro será preenchido com luz e Divindade e a santidade de Jerusalém e da Terra de Israel se disseminará por toda a Terra.

Que seja a vontade de D’us que esse tempo venha muito em breve, em nossos dias – bekarov beyamenu. Amén, ken yehi ratson.

BIBLIOGRAFIA
Why Celebrate Jerusalem Day? Sara Yoheved Rigler - http://www.aish.com/jw/j/Why-Celebrate-Jerusalem-Day.html
Love of Jerusalem - Change and Renewal
Rabi Adin (Even Israel) Steinsaltz - Maggid Books
Jerusalem Day - A Historical Introduction - https://www.knesset.gov.il/holidays/eng/ jer_intro.htm
Jerusalem Day - https://en.wikipedia.org/wiki/Jerusalem_Day

“Jerusalém de Ouro”
Yerushalayim Shel Zahav

Yerushalayim Shel Zahav é uma canção israelense composta por Naomi Shemer. É considerada o hino nacional oficioso de Israel, ao passo que Hatikva, “A Esperança”, é seu hino oficial. “Jerusalém de Ouro” descreve o anseio de 2.000 anos do Povo Judeu de retornar à sua Capital Eterna. Naomi Shemer adicionou um verso final à canção após a Guerra dos Seis Dias para comemorar a reunificação de Jerusalém. 

Ela compôs a canção para o Festival da Canção Israelense, realizado em 15 de maio de 1967, na noite seguinte após o
19º Yom HaAtzmaut – Dia da Independência do Estado de Israel. À época, a Cidade Velha ainda era controlada pelo Reino Hashemita da Jordânia. Os judeus haviam sido banidos da Cidade Velha e lhes era proibido estar nas áreas sob controle jordaniano, tendo sido os lugares sagrados judaicos profanados e danificados durante esse período.

Apenas três semanas após a publicação da canção, irrompeu a Guerra dos Seis Dias. Yerushalayim shel Zahav se tornou o grito de batalha para levantar o ânimo das Forças Armadas de Israel (FDI).

A própria Naomi Shemer cantou para as tropas antes da Guerra, fazendo com que os soldados das FDI fossem os primeiros no mundo a ouvi-la.

Em 7 de junho, as FDI conquistaram Jerusalém Oriental e a Cidade Velha aos jordanianos. Quando Naomi Shemer ouviu os paraquedistas cantando Yerushalayim Shel Zahav no Muro Ocidental, ela escreveu o verso final, em contraposição às frases de lamento do segundo verso. A frase sobre o shofar que soa no Templo do Monte é uma referência ao evento ocorrido poucas horas antes, naquele mesmo dia.

Muitas das palavras da canção se referem às Sagradas Escrituras e à poesia judaica tradicional e seus temas, em especial os que versam sobre o exílio e as saudades que os judeus nutriam por Jerusalém. O próprio nome da canção é uma referência a uma joia especial mencionada num famoso conto talmúdico sobre Rabi Akiva. Um famoso verso da canção, “Para todas as suas canções, sou uma harpa (violino), é uma referência a uma das “Canções de Sion”, de Rabi Yehudah HaLevi: “Choro como os chacais quando penso em seu sofrimento; mas, sonhando com o fim de sua prisão, sou como uma harpa para suas canções”.

A canção ecoa tristes referências bíblicas à destruição de Jerusalém e o subsequente exílio do Povo Judeu. O verso “Esta a cidade solitária” é o primeiro do Livro
de Eichá (Lamentações) – um
dos 24 livros do Tanach – lido
em Tisha b’Av. “Se eu te esquecer, ó Jerusalém”, é uma citação
do Salmo 137: “Às margens dos rios da Babilônia nos sentávamos e chorávamos, lembrando de Sion”. 

Yerushalayim Shel Zahav
POR NAOMI SHEMER

O vento das montanhas,
claro como o vinho,
E o cheiro dos pinheiros
É levado pela brisa do crepúsculo
Junto com o som dos sinos.

E no sono profundo da
árvore e da pedra,
Presa em um sonho,
Está a cidade solitária
E no seu coração - um muro.

Jerusalém de ouro
De bronze e de luz
Eu sou um violino para todas as suas canções
Voltamos aos poços de água,
Ao mercado e à praça
O shofar chama no Monte do Templo
Na Cidade Velha.
E em cavernas nas montanhas
Milhares de sóis brilham
Descemos novamente ao Mar Morto
Pelo caminho de Jericó

Jerusalém de ouro
De bronze e de luz
Eu sou um violino para todas as suas canções
Porém hoje venho cantar para ti
E te coroar
Eu sou o menor dos teus filhos
E um dos últimos poetas.
Teu nome queima os lábios
Como o beijo de um serafim
Se eu te esquecer, ó Jerusalém
Que é toda de ouro

Jerusalém de ouro
De bronze e de luz
Eu sou um violino para todas as suas canções

Os Paraquedistas Choram

POR HAYIM HEFER

Este muro ouviu muitas orações
Este muro viu muitos outros muros tombarem
Este muro sentiu o toque de mulheres em luto, que choravam por seus filhos
Este muro sentiu bilhetes e pedidos serem depositados entre suas pedras
Este muro viu Rabi Yehuda Halevi ajoelhado à sua frente
Este muro viu césares levantarem e caírem
Mas este muro nunca antes tinha visto paraquedistas chorarem.

Este muro os viu cansados e aflitos
Este muro os viu feridos e mutilados
Correndo em sua direção com os corações disparados, em alegria, choro, ou silêncio
Rastejando como predadores pelas ruelas da Cidade Velha
Cobertos de pó e com os lábios rachados, 
Murmurando: “Se eu te esquecer, ó Jerusalém”...
Eles são leves e velozes como as águias; ferozes e valentes como leões
Seus tanques são como as carruagens de fogo do profeta Eliahu
E eles passam em fúria como um trovão
Relembrando os milhares de anos em que nem tínhamos um muro aonde derramar nossas lágrimas.
E eis que chegam ao Muro
E, com a respiração pesada, soluçam em silêncio.
E o contemplam em doce lamentação.
As lágrimas escorrem e eles se entreolham confusos.
Como podem os paraquedistas chorar?
Como podem tocar o muro com tanta emoção?
O que aconteceu de repente
Que seu choro se transformou em canto?
Talvez porque estes garotos de dezenove anos, que nasceram junto com o Estado de Israel,
Carregam sobre seus ombros
dois mil anos de dispersão.