Morashá
Talentos musicais em Buchenwald: 1937-1945 Entrada principal do campo de Buchenwald

Talentos musicais em Buchenwald: 1937-1945

por Reuven Faingold

Um campo sinistro, localizado na Alemanha, perto da cidade de Weimar, Buchenwald abrigou milhares de prisioneiros judeus, entre eles virtuosos músicos e compositores, como Arno Nadel, Hermann Leopoldi, Paul Morgan e Benzion Moskovitz.

Edição 107 - Abril de 2020


O CAMPO

Buchenwald, localizado a oito quilômetros da cidade de Weimar e edificado em 1937, foi considerado o primeiro lager, campo em alemão, estabelecido na Alemanha. Construído como campo de trabalho para comunistas e dissidentes políticos, tornou-se um enorme complexo presidiário que abrigou prisioneiros de diversas nacionalidades.

O primeiro grupo de prisioneiros foi conduzido ao campo em julho de 1937. No final da 2ª Guerra Mundial 50 mil prisioneiros haviam sido mortos em Buchenwald vitimados pela fome, excesso de trabalho, execuções diárias pelas SS e terríveis experiências médicas. Esse campo sinistro abrigou milhares de prisioneiros judeus, a maioria deles deportados após a Kristallnacht (9-10 novembro de 1938), meses após a anexação da Áustria e Checoslováquia.

MÚSICA EM BUCHENWALD

Apesar do clima de tortura reinante, os prisioneiros relembram músicas compostas e tocadas em Buchenwald. Um sobrevivente descreveu esses momentos: “As SS transmitiam pelos alto-falantes do lager as músicas e composições de Zarah Leander1”. Era uma música marcial e contagiosa, tocada pela orquestra de Buchenwald na praça central, pela manhã e à noite, durante o controle de prisioneiros e na saída e chegada dos grupos de trabalho. Havia, também, a música executada durante as chamadas das listas de detentos para controle de presença, momentos em que aquelas pessoas, naquele submundo, sonhavam com a tão almejada liberdade, julgando, em seu delírio, ser o momento mais fácil para fugir da vigilância dos guardas. Havia,ainda, a música clássica tocada geralmenteà noite, no sótão do Effekten kammer2, interpretada por um quarteto de cordas dirigido por Maurice Hewitt3, e a música de jazz da orquestra de Jiri Zak”.

Durante anos Buchenwald manteve atividades culturais, chegando a contar com renomadas figuras do mundo do espetáculo alemão, como o pianista judeu-austríaco Hermann Leopoldi (née Kohn), os músicos judeus alemães Jura Soyfer e Löhner Beda e o célebre comediante Paul Morgenstern ou Morgan. Como em Dachau, a vivência mais frequente em Buchenwald era a “tortura musical” organizada pelas SS. O canto forçado era uma forma de castigo para humilhar os prisioneiros. Depois de um dia extenuante de trabalho, os detentos eram obrigados pelos guardas a cantar, em voz alta, diversas músicas.

Um prisioneiro registrou o seguinte relato: “Como poderíamos cantar bem e de forma afinada? Éramos um coral de 10 mil homens, que, mesmo em condições normais, e sabendo cantar, precisaria de semanas de treino para poder se apresentar... E como vencer, ainda, as leis da acústica? O espaço onde nos reuniam media 300 passos de largura; portanto, as vozes dos homens que estavam no extremo do recinto chegavam até os ouvidos de Arthur Rödl [comandante do campo] quase um segundo depois da voz dos que estavam perto da porta”.

O campo oferecia uma oportunidade única de castigo arbitrário para os prisioneiros. As autoridades planejavam concursos para selecionar a melhor música do campo. Com uma dose de ironia, prisioneiros e guardas escolhiam a canção vencedora. Daí surgiu o “Buchenwaldlied” (Canto de Buchenwald), considerado o hino oficial desse campo nazista.

“BUCHENWALDLIED”

Concebido em ritmo de marcha, o Buchenwaldlied fala da tão esperada liberdade além dos muros do campo. Para os prisioneiros, entoar essa música era um verdadeiro ato de resistência. Um prisioneiro revelou: “O Kapo andava pelo campo, enquanto os demais detentos cantavam. Se percebia que alguém não abria suficientemente a boca para entoar a música, batia na pessoa. Mas, a canção de Buchenwald também nos trazia momentos de prazer, pois era a nossa música”. Ao cantar a frase Chegará ainda o dia em que seremos livres”, se os SS notavam a alegria estampada nos rostos dos detentos, castigavam-nos com a perda de alguma refeição.

O compositor Fritz Löhner Beda foi preso em 1 de abril de 1938 e transportado de Dachau a Buchenwald em 23 de setembro desse mesmo ano. Lá, com Hermann Leopoldi (1888-1959), Beda compôs o hino “Das Buchenwaldlied”:

 

Ó, Buchenwald, não posso te esquecer, porque és o meu destino.

Só aquele que te abandona,

pode apreciar quão maravilhosa é a

liberdade!

Ó, Buchenwald, não choramos nem

reclamamos, seja qual for o nosso destino, no entanto vamos dizer “sim” à vida; pois chegará o dia da nossa liberdade!    

 

Löhner Beda foi deportado e morreu em Auschwitz em 1942. Dois anos após sua morte, o Buchenwaldlied ecoava durante a entrada triunfal das forças americanas. Pela primeira vez, os sobreviventes cantavam essa canção a plenos pulmões, em liberdade!

Enquanto Hermann Leopoldi sofria maus tratos em Buchenwald, sua mulher e sogro, que já haviam conseguido imigrar para os Estados Unidos, tentavam desesperadamente obter um visto também para ele. Após terem conseguido obtê-lo mediante suborno, esse visto chega às mãos de Leopoldi em 11 de abril de 1939 e ele parte para Nova York. Sua contribuição à vida artística americana é conhecida. Em 1949, voltou com sua esposa para Viena, onde faleceu em 1959.

“JUDENLIED” – UM HINO AO ANTISSEMITISMO

Como na maioria dos campos, em Buchenwald os prisioneiros recebiam trato diferenciado de acordo com a hierarquia racial do Terceiro Reich. Os judeus estavam na base da pirâmide e os abusos eram diários. Esses maus tratos foram descritos no “Judenlied” (Canção do Judeu), um grotesco hino antissemita de cinco linhas, composto por um prisioneiro alemão que queria cair nas graças das SS. Descreve minuciosamente os abusos infligidos aos prisioneiros de Buchenwald. Este hino de cinco linhas era entoado durante as chamadas diárias para conferência de prisioneiros, e os judeus eram obrigados a cantá-lo durante horas.

A música diz: “Tudo aquilo que fizemos foi explorar, especular e mentir. Agora nossas mãos calejadas deverão fazer o primeiro trabalho. Somos conhecidos por nossas caras feias. Da noite para o dia, a nação descobriu que somos uma fraude. Agora, nossos narizes aduncos de judeu estão de luto”.

Em dezembro de 1938, vários judeus foram convocados à praça central do campo. A banda foi forçada a tocar até os prisioneiros esgotarem suas forças. Depois os obrigaram a dançar uma valsa e, finalmente, já sem forças, foram açoitados ao ritmo da música.

Na hora de matar prisioneiros de guerra soviéticos, a administração de Buchenwald utilizou a música para ocultar o ruído causado pelos disparos. Certa vez, o campo inteiro foi forçado a cantar durante os fuzilamentos de prisioneiros. Como em Dachau, os guardas usavam alto-falantes para transmitir suas ordens, colocar música germânica e difundir propaganda nazista.

Nesse campo também se desenvolviam atividades musicais clandestinas. Uma das primeiras bandas foi composta por prisioneiros judeus, como lembrou o prisioneiro Carlebach: “Uma noite, esgotados e sujos, alguns até cobertos de sangue, voltamos do trabalho e ficamos paralisados e chocados. Sobre duas mesas da barraca, havia quatro dos nossos, todos judeus, tocando Mozart. Somente quem passou pelos horrores de Buchenwald entende o significado daquilo. O impacto foi incrível, pois aqueles prisioneiros, que estavam à beira do suicídio, reagiram com coragem e confiança”. Obviamente, os quatro músicos foram descobertos e severamente castigados. Aquilo era considerado uma “prática ilegal da música”.

PAUL MORGAN - ATOR E COMEDIANTE

George Paul Morgenstern ou Paul Morgan (1886-1938) foi uma das estrelas do espetáculo da década de 1920. Junto com Kurt Robitschek abriu, em Berlim, uma das casas de shows mais destacadas da época do Weimar: o Kabarett der Komiker, abreviado, Kadeko. Nascido de família judia austríaca, desde criança gostava do palco. Ao eclodir a 1ª Guerra, obteve trabalho na casa de shows “Simpl”,substituindo Fritz Grünbaum, artista judeu que se havia alistado. Estudou teatro e literatura, atuando também em casas de teatro de menor porte.

Em 1917, Morgan se casou e poucos anos depois começou uma carreira de sucesso no cinema. Três anos mais tarde já era ator, cantor e compositor de teatro amplamente reconhecido na Alemanha.

Por 1920, Paul Morgan e Fritz Grünbaum (retornado do front), montaram uma parceria atuando em Berlim. Naquela época, estrelas de renome internacional já haviam atuado com eles. Mas a tranquilidade da dupla Morgan-Grünbaum chega ao fim quando jornais alemães colocam na lista negra a casa de espetáculos onde atuavam. Com isso, ambos tiveram grandes problemas econômicos e, pouco tempo depois, grupos das SA (polícia nazista à paisana) invadiram o teatro, interditando suas apresentações por fazerem uma sátira contra Hitler.

Após receber um convite para Hollywood, Morgan viajou à Califórnia por nove meses. Também tentou abrir uma casa de espetáculos na Suíça, mas, sem êxito, volta à Áustria. Em Viena, a vida estava difícil para os artistas judeus, mas Morgan tinha esperança de que Hitler deixasse o poder. Quando decide deixar a Europa, já era tarde demais. Paul Morgan foi detido em março de 1938 e levado a Dachau com outros artistas. Depois, é deportado a Buchenwald onde atuaria em performances informais que os prisioneiros realizavam nas barracas.

Em paralelo, desde Viena, sua mulher trabalhava desesperadamente para obter documentos e resgatar Morgan. Conseguiu visto para a Holanda, mas já era tarde. Em 10 de dezembro 1938, Paul Morgan falece em Buchenwald por esgotamento físico.

ARNO NADEL - DIRETOR E COMPOSITOR

Na última carta, pouco antes de sua deportação a Buchenwald, Arno Nadel invocou a D´us para “proteger a Alemanha, uma civilizada nação de poetas e pensadores”, mas não sobreviveu a seu próprio destino, e, mesmo alimentando patriotismo, acabou morrendo em Auschwitz, em 1943.

Compositor e diretor de orquestra, pintor, poeta e dramaturgo, Arno Nadel era um talento versátil. Amante da música judaica, ele colecionou temas do shtetl e músicas litúrgicas de sinagoga. O crítico Max Osborn (1870-1946) assim se referiu a ele: Nadel era um ser humano talentoso, com uma criatividade suprema”.

Nascido na Lituânia em 3 de outubro de 1878, de família chassídica, Nadel iniciou sua educação musical em Köenigsberg com o famoso chazan4 Eduard Birenbaum, continuando com Robert Schwalm. Em 1895 matriculou-se no “Instituto Judaico para Formação Docente”, de Berlim. Formado, lá se estabeleceu, iniciando seus estudos de composição com Max Julius Loewengard e Ludwig Mendelssohn.

As primeiras composições de Nadel incluem uma Marcha Fúnebre pela morte do Imperador Frederico, 1901 e Der Parom (O Ferry, 1910). Escreveu ainda música de câmara para quartetos de cordas, uma para quintetos e uma suite para dois pianos, além de canções.

Ele foi responsável pelo suplemento musical do jornal dos judeus sionistas. Trabalhou também como crítico para o Vossische Zeitung, Vorwärts e a Freiheit die Musik (Revista Liberal da Música), escrevendo também para periódicos. Nadel ministrava aulas particulares de Teoria Musical e História da Arte.

Em 1916, dirigiu o coral da sinagoga Kottbusser Ufer, cargo que lhe renderia a supervisão musical de todas as sinagogas de Berlim. Nessa época, Nadel dedicava-se a fazer arranjos de obras litúrgicas, das melodias de porções semanais da Torá e da música popular judia. Suas obras mais conhecidas foram Jüdische Liebeslieder (Berlim, 1923); Jontefflieder (Berlim, sem data) e Jüdischer Verlag (Berlim, 1919). Com exceção das Zemirot Shabat (Berlim, 1937), muitas de suas composições de 1933 sobreviveram em manuscritos.

A comunidade judaica de Berlim encomendou a Arno Nadel arranjos para suas músicas litúrgicas. Assim, em 1938, compilou uma coletânea de sete volumes de música para sinagogas, isto é, para chazanut, a música cantada pelos cantores litúrgicos, e para coral e órgão. Esta antologia reflete a paixão de Nadel pelo repertório de música judaica, principalmente canções da Europa Oriental, comumente apresentadas pelos chazanim.

Nadel colecionou manuscritos antigos de música judaica. Partituras feitas àmão por Birnbaum e manuscritos com dedicatórias de grandes mestres faziam parte de sua extensa biblioteca musical. Escreveu libretos, sete dramas e mais de mil poemas e peças de teatro judeu polonês e russo. Dentre os principais, a coleção de poesias “Der Ton: Die Lehre von Gott und Leben” (O tom: Um estudo acerca de Deus e a Vida), datado em 1920. Como músico expressionista, ele ganhou popularidade com poesias inspiradas na filosofia taoísta. Sua coletânea Der weissagende Dionysos (1925), foi fruto de 25 anos de intensa pesquisa. Com o advento e fortalecimento do Nazismo, suas publicações foram proibidas. O talentoso e versátil Nadel também se dedicou à pintura. Admirador do expressionismo, criou o ciclo Vierzig Gestalten der Bibel (Quarenta Personagens Bíblicos) e vários autorretratos. Ao receber um visto de entrada para a Inglaterra, já estava debilitado e desanimado. Foi deportado do campo de Buchenwald para Auschwitz em 12 de março de 1943, onde foi assassinado.

Pouco antes de sua deportação, entregou sua biblioteca a um vizinho, que salvou parte do material. Terminada a guerra, esse vizinho a entregou a um colecionador amigo da família Nadel, Eric Mandell (1902-1988), que adquiriu essa coleção de manuscritos e partituras e as levou aos Estados Unidos. Atualmente, a coleção está no “Arquivo do Graetz College”, na Filadélfia.

O chazan Benzion Moskovits nasceu em 03 de fevereiro de 1907 em Leordina, na época Hungria e hoje Romênia. Ainda criança, frequentava a Yeshivá de Bratislava, acompanhando com sua bela voz o rabino Viznitzer. Posteriormente, em 1923, estreou oficialmente como chazan nos Yamim Noraim, os dias santos de Rosh Hashaná e Yom Kipur, na sinagoga de Kosice. Como outros tantos cantores litúrgicos, Moscovitz trabalhava também como mohel fazendo circuncisões.  

Em 1931, Benzion Moscovits estava em Bratislava. Por volta de 1938, o rabino de Viznitz o aconselhou a procurar uma vaga de chazan na Grã-Bretanha. Enquanto solicitava essa vaga no Reino Unido, morava numa casa de família judia na Antuérpia, Bélgica.

Em 1938, ele viu um anúncio de jornal sobre uma vaga de cantor litúrgico que se abria na sinagoga de Amsterdã. Candidatou-se, competindo com 78 candidatos e chegando à fase final. Moskovits portava uma carta de recomendação escrita por um conceituado rabino da Bratislava, bisneto de Moses Schreiber z”l (1762-1839), o Chatam Sofer. Viajou à Amsterdã dias antes da competição para ensaiar com o coral, tocando partituras da chazanut holandesa.

Em 1939, sem aguardar o resultado da competição, Benzion Moskovits voltou à Antuérpia para embarcar rumo ao Reino Unido. Grande foi sua surpresa quando um amigo o encontrou na estação de trem e lhe perguntou o que fazia ali, pois tinha sido o vencedor do concurso de cantores litúrgicos, tendo sido nomeado chazan de uma sinagoga em Amsterdã. Imediatamente, retornou à Holanda, assumindo o posto de cantor principal da “Congregação Benei Teiman”, uma sinagoga também conhecida como “Lekstraat Shul”.

Em 1940 os nazistas invadiram os Países Baixos. Dois anos depois, Moskovits foi deportado a Westerbork, campo de trânsito nazista. Em 1944, chega a Buchenwald. Ele cantava para prisioneiros com partituras achadas em um caderno contrabandeado. Comandou as orações de Rosh Hashaná e Yom Kipur no campo. Obrigado a cantar para os nazistas, foi sua voz quem lhe salvou a vida.

Em 1945, Benzion Moskovits foi enviado a Theresienstadt, participando das marchas da morte. Ele sobreviveu à Shoá, mas seus pulmões estavam danificados pelo trabalho forçado em minas de asbesto. Segundo um depoimento dele próprio, sua voz estava deteriorada, e chegando a Amsterdã teria afirmado: “Isto acontece quando não escutas teu rabino! ”, uma alusão àquele conselho do Viznitzer Rebe de procurar um trabalho no Reino Unido.

Encerrada a 2ª Guerra, Moskovits retomou seu lugar na sinagoga “Lekstraat Shul”, trabalhando também como desenhista e gravador de joias. Logo depois, abriu sua joalharia em Amsterdã. Sua doença piorou, desenvolvendo um câncer de pulmão. Seu último serviço religioso foi em Pessach de 1968. Moskovits faleceu em 18 de setembro daquele ano, dias antes de Rosh Hashaná. Foi enterrado em Muiderberg e, depois, trasladado a Israel.

A LIBERTAÇÃO DE BUCHENWALD

Durante os últimos anos da guerra, Buchenwald manteve o costume de organizar apresentações musicais curtas dentro do campo, principalmente aos domingos. O público era composto geralmente pelos próprios detentos. Concertos, cantos e sátiras faziam parte desses “programas”. Foram contabilizados 25 concertos com salas sempre lotadas, não apenas de prisioneiros, mas também de guardas, oficiais e até dos próprios comandantes do campo.

Buchenwald foi libertado pelas tropas americanas em 11 de abril de 1945. Milhares de prisioneiros haviam sido encaminhados às marchas da morte. Até esvaziar-se por completo todo o campo, os detentos foram transferidos a um campo de refugiados. Durante todo esse tempo, o exército americano retirou-se dessa zona, e no início de julho de 1945 o campo foi evacuado totalmente e entregue às tropas soviéticas.

PALAVRAS FINAIS

Como no campo de Dachau (ver Faingold, Morashá, Ed. 90, dez. 2015). Buchenwald também utilizou a música como forma de pressão e tortura.

A Kristallnacht levou ao campo prisioneiros judeus, aumentando consideravelmente o número de profissionais da música. A experiência mais marcante em Buchenwald era a famosa tortura musical organizada pelos homens das SS.

O canto forçado era um castigo para humilhar os reclusos. Encerrado mais um dia extenuante de trabalho, no início da noite, os detentos eram obrigados a entoar, em voz alta, as mais diferentes melodias.

O Buchenwaldlied era uma música que falava da liberdade além dos muros do campo. Para os prisioneiros, entoar o Buchenwaldlied era um ato de resistência e heroísmo. A possibilidade de poder cantá-la trazia aos judeus momentos de prazer, mantendo a esperança da tão sonhada liberdade. Essa canção foi cantada com a força que ainda lhes restava quando da entrada das tropas americanas no campo. Renomadas personalidades de talento passaram por Buchenwald. Figuras do mundo artístico como Jura Soyfer, Arno Nadel, Hermann Leopoldi, Fritz Löhner-Beda, Benzion Moskovits e Paul Morgan fazem parte de uma galeria de artistas judeus que iluminaram a época da Segunda Guerra. Alguns não conseguiram suportar os maus tratos administrados no campo, enquanto outros tiveram a sorte de poder sobreviver a ele.

1Zarah Leander era uma cantora e atriz de origem sueca que fez enorme sucesso na Alemanha nazista, especialmente na década 1930-1940.

2Effekten kammer, recinto onde os objetos eram classificados, listados com detalhes e guardados em sacolas de papel. As joias eram trancadas em um armário de aço.

3Músico comunista tcheco que liderava uma pequena orquestra que tocava jazz em Buchenwald. Pouco se sabe sobre a vida de Jiri Zak.

4Chazan, cantor litúrgico, plural chazanim

BIBLIOGRAFIA

Arno Nadel Collection. Graetz College Archives, Philadelphia.

Berl, H. (1926). Das Judentum in der Musik, Stuttgart: Deutsche Verlags-Anstalt.

Hippen, R., 1988. Es Liegt in der Luft: Kabarett im Dritten Reich, Zürich: Pendo-Verlag.  

Kasack, H. (1956). ‘Arno Nadel.’ Mosaiksteine: Beitrage zu Literatur und Kunst. Frankfurt am Main, Suhrkamp, 243–48.

Keller, M., (Ed.). (2006). Erich Mendel/Eric Mandell: Zwei Leben für die Synagoge. Essen, Klartext.

Stompor, S., (2001). Judisches Musik- und Theaterleben unter dem NS-Staat, Hannover: Europaisches Zentrum fur Judische Musik.

 

Prof. Reuven Faingoldé historiador e educador; PHD em História e História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém. é responsável pelos projetos educacionais do “Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto” de São Paulo.