Morashá
Simcha Rotem, Codinome Kazik Simcha Rotem discursando na cerimônia comemorativa do 70º aniversário da Revolta do Gueto de Varsóvia no Monumento aos Heróis do Gueto, em Varsóvia, 19 de abril de 2013

Simcha Rotem, Codinome Kazik

Último combatente vivo do Levante do Gueto de Varsóvia, Simcha Rotem morreu em dezembro de 2018, aos 94 anos. Alma de guerreiro, lutou incansavelmente em inúmeras batalhas contra os inimigos de seu povo. Uma de suas missões mais importantes foi conseguir retirar do gueto, em chamas, os combatentes judeus ainda vivos. Sua atuação foi tão simbólica do espírito de heroísmo dos jovens judeus, que Claude Lanzmann o escolheu para a cena final de seu épico filme, “Shoah”.

Edição 103 - Abril de 2019


Os comandantes da Organização Judaica de Combate que liderou o Levante do Gueto de Varsóvia, conhecida por seu acrônimo em polonês, ZOB (Zydowska Organizacja Bojowa), sabiam que estava perdida a luta dentro do gueto, que ardia em chamas. Kazik foi então incumbido de ir para o lado ariano organizar a fuga dos companheiros, que assim teriam a possibilidade de continuar a luta. No filme “Shoah”, Kazik relata o momento em que, após dias planejando a fuga, volta para o gueto. “Não vi nenhuma alma viva.... E pensei, sozinho, em meio àquela total desolação, ‘Sou o último judeu’”. O filme termina com essas palavras de desespero.

Mas, na vida real, a história da ZOB e de Kazik não termina aí. O jovem guerreiro não sucumbe ao desespero; levanta-se para continuar a luta. Repentinamente ele encontra mais de 80 companheiros e consegue levá-los para um local seguro. Entre eles, estavam dois de seus comandantes, Zivia Lubetkin1 e Marek Edelman2.

Em seu livro “Memórias de um Combatente do Gueto de Varsóvia”3, publicado em 1994, Kazik reconta sua história.

Um judeu de Varsóvia

Simcha nasceu em 10 de fevereiro de 1924, em Czerniaków, um bairro de Varsóvia. Era o mais velho dos quatro filhos de Miriam e Zvi Ratheiser. Seus pais sobreviveram à guerra, mas de seus três irmãos - Israel, Dina e Raya – apenas Raya sobreviveu.

A mãe era uma mulher bonita e afável. Os poloneses cristãos diziam que “ela não parecia judia”, “elogio torto” que ela detestava. O pai era um chassid que trabalhava duro para sustentar a família, e era o chazan da sinagoga. A família vivia em um apartamento em um bairro de classe trabalhadora, onde havia poucos judeus, e Simcha cresceu brincando principalmente com crianças cristãs.

Fisicamente ele se parecia com a mãe, ademais tinha modos e fala “de polonês de Varsóvia”. Essas características permitiram-lhe esconder sua identidade judaica durante a Guerra, fato determinante para a ZOB em sua luta contra os nazistas. Ele era o courrier ideal, transitando para dentro e fora do gueto, por toda a Polônia, sem despertar suspeitas. “Durante a Guerra, enquanto eu estava fora do gueto, não usava faixa no braço com a estrela de David e nem o triângulo amarelo nas minhas roupas. Tomava o trem em direção à estação mais próxima do meu destino e ia aonde era preciso”.

Em 1934, a família muda-se para um apartamento mais espaçoso. Na época, os pais tinham uma loja que vendia materiais de construção. A maioria dos clientes eram cristãos e mantinham um bom relacionamento com seus pais, em particular com Miriam, sua mãe.

Simcha estudou num cheder, indo em seguida para uma escola pública administrada pela comunidade judaica. Bom aluno, adorava matemática. Foi nessa época que sentiu na pele, pela primeira vez, o antissemitismo polonês. A caminho da escola era assediado por cristãos, mas sempre revidava os ataques. Em 1938, um ano antes de seu Bar Mitzvá, filiou-se ao movimento da juventude sionista, Ha-No’ar Ha-Zioni.  

O início da 2ª Guerra

Em 1º de setembro de 1939 inicia-se a 2ª Guerra. Os exércitos do Terceiro Reich invadem a Polônia e sitiam Varsóvia, debaixo de pesado bombardeio.

A família de Simcha decide mudar-se para o bairro judeu. Desde os primeiros dias há escassez de alimentos e era ele, na época com 15 anos, quem ia ao antigo bairro buscar pão com um amigo de seu pai, um volksdeutsch4.

À medida que o bairro judeu vai sendo mais castigado pelos bombardeios alemães, seus pais e avós voltam para o antigo apartamento. No entanto, não havia local seguro. Um dia após Yom Kipur, uma bomba atinge o prédio onde moravam e mata seu irmão, Israel, e seus avós maternos. Ferido, Simcha fica preso nos escombros. Quando conseguiu libertar-se, correu para o abrigo na casa ao lado, onde encontrou seus pais e as duas irmãs.

No dia 29 de setembro, os alemães tomam Varsóvia e a perseguição aos judeus é iniciada. Eles são cruelmente maltratados e levados ao trabalho forçado, enquanto são promulgados decretos para humilhar, isolar e minar sua sobrevivência. O tratamento que lhes reservavam os alemães era infinitamente pior do que o reservado aos poloneses cristãos. E, quando se tratava da população judaica, estabelecia-se uma “colaboração” entre poloneses e nazistas, principalmente na prática de “entregar”, de bom grado, os judeus aos alemães.   Com o contínuo racionamento, pelos alemães, dos alimentos destinados aos judeus, Simcha passa a ir às aldeias onde conseguia adquirir alimentos, ainda que a um preço salgado.

No fatídico dia 15 de novembro de 1940, os nazistas trancafiaram os 375 mil judeus de Varsóvia dentro do gueto - uma área pequena e decadente. Nos meses seguintes, despejam outros 150 mil das regiões vizinhas no gueto já superpovoado. A área era cercada por um muro alto e as portas de saída vigiadas por homens armados. Nenhum judeu podia entrar nem sair.

Os Ratheiser encontram um quarto pequeno onde vivem até conseguir um lugar maior. As terríveis condições de vida pioram. Nas palavras de Simcha, “Precisávamos, a todo custo, de comida, e assim fui tentando minha sorte com o contrabando..., mas foi minha mãe quem mais ajudou. Ela visitava seus antigos conhecidos no lado ariano e voltava com alimentos”.

Os riscos que o rapaz assumia eram cada vez maiores, e seus pais, temendo que fosse morto durante uma de suas “empreitadas”, convencem-no a deixar o gueto e ir para Klwów, uma pequena aldeia onde viviam alguns parentes. Ao chegar, encontra trabalho com um camponês que sabia que ele era judeu. Todos os dias o jovem ia à casa do patrão, onde podia comer à vontade. Mas, a culpa lhe corroía a alma: “Os habitantes do gueto, inclusive minha família, sofrem de fome e doenças enquanto eu aqui estou, entre a grama verde e o céu azul”...

Por seis meses ele sequer teve notícias do que se passava no Gueto de Varsóvia. Nem imaginava que durante as sete semanas da Grande Deportação, a grande “Aktion”, iniciada na noite de 22 de julho de 1942, véspera de 9 de Av, dia de luto para o Povo Judeu, os nazistas haviam deportado 235.741 mil judeus do gueto para Treblinka, onde a maioria deles foram assassinados nas câmaras de gás e outros 12 mil enviados para outros campos. Tampouco sabia que qualquer judeu, onde quer que estivesse, era alvo da fúria homicida alemã.

Na aldeia onde estava viviam apenas 20 famílias judias. Mas, mesmo assim, os alemães instituíram um gueto no local. Simcha viu, pela primeira vez, “um alemão matar a sangue frio, à luz do dia, um judeu que fora visto fora do gueto. ”.

Ele decide voltar para Varsóvia, mas antes de deixar o vilarejo compra um documento que “comprovava” que ele era polonês cristão.

A volta para Varsóvia

Ao chegar ao gueto descobre que sua família estava numa fazenda em Czemiakow, considerada local de trabalho pelos alemães. O nome de Simcha não constava na lista dos trabalhadores, a maioria jovens do movimento sionista Dror, mas ao chegar à fazenda ele consegue ficar com o pai. É lá que lhe contam sobre a Grande Deportação. Um membro do movimento juvenil Akiva, do partido Sionistas Gerais, incumbe-o de voltar ao gueto para entregar um pacote a Lutek Rotblatt, líder do movimento. Ao lá chegar, ele fica abalado. “Era um lugar fantasmagórico… ruas inteiras sem vivalma...” Ele retorna à fazenda, mas, em dezembro, os nazistas obrigam os judeus a voltar para o Gueto de Varsóvia, onde estima-se que restavam apenas 70 mil judeus. Simcha passa a trabalhar num dos armazéns onde os   alemães   “reuniam” as propriedades pilhadas aos judeus.

Nessa altura, ele já era membro ativo na ZOB, na unidade da rua Mila. Um de seus comandantes era Zivia Lubetkin. Os jovens da ZOB estavam decididos a enfrentar os nazistas, mas para uma ação militar eram necessárias armas e ajuda. Movimentam-se em busca de fundos para a compra de armamento, sendo alguns enviados ao lado ariano para pedir ajuda. A resposta da resistência polonesa foi “Aguardem”. Mas o tempo se esgotava para os judeus.... Após inúmeros apelos, a resistência polonesa lhes fornece dez pistolas velhas e uma pequena quantidade de munição.

A Rebelião de janeiro de 1943

A ZOB sabia que os nazistas não tardariam a liquidar o gueto. Discursando na Polônia, em 2013, na cerimônia que marcou o 70º aniversário do Levante, Simcha lembrou que, “no início de 1943, a maioria dos judeus do Gueto de Varsóvia já haviam sido assassinados e os que restavam sabiam que seu fim seria o mesmo. O que os jovens da ZOB queriam era o direito de escolher o tipo de morte que lhes tocaria”.

Em janeiro de 1943 os nazistas reiniciaram as deportações, mas os integrantes da ZOB estavam dispostos a enfrentá-los, mesmo com seu mísero arsenal de algumas pistolas. O grupo de Simcha nem isso tinha; suas armas eram facas e barras de ferro. Mas os judeus foram ao ataque e, em todo o gueto, podiam ser ouvidos tiroteios. Alguns alemães morreram e suas armas foram tomadas. Três dias depois, chocados pela inesperada reação judaica, os nazistas interromperam as deportações. A ZOB festejou: “Não podíamos sonhar com mais do que isso”. Sabiam, no entanto, que os alemães voltariam...

Simcha convence sua família a deixar o gueto. Vai até Siekierki, perto de Varsóvia, onde vivia um polonês que dissera à sua mãe que os esconderia. Com esse polonês, cavou um pequeno esconderijo no palheiro e depois foi buscar sua família, voltando logo em seguida para o gueto. Numa de suas visitas percebeu que a irmã Raya, de dez anos, não sobreviveria naquelas condições. Levou-a consigo e conseguiu que duas irmãs polonesas cristãs, Anna Wachalska e Marysia Sawicka, escondessem a menina em sua casa. Quando Stefan Siewierski5, sobrinho das irmãs, foi detido pela Gestapo, Raya foi enviada para outro local.

Preparando a Revolta de Abril

Dentro do Gueto o tempo dos jovens combatentes era voltado à preparação para a luta com os nazistas. Uma das primeiras operações de que Simcha participou foi a libertação de judeus detidos pela Polícia Judaica e que seriam entregues à Gestapo. Entre eles havia membros da ZOB. Simcha foi enviado para sondar o local onde estavam os presos. Conseguiram libertá-los. Essa ação deu um grande impulso à credibilidade da organização. Até então, a revolta armada recebia apoio apenas de um grupo restrito entre os judeus que ainda viviam no gueto.  

Nesse período, Simcha fazia parte do grupo de combate liderado por Hanoch Gutman, localizado na Área dos Fabricantes de Vassouras (Brush makers)6. Os jovens de cada grupo viviam e treinavam juntos e sabiam que juntos lutariam e provavelmente morreriam. Mesmo em meio à desesperança brotaram relacionamentos amorosos. Simcha se apaixonou por Dvora Baran, uma jovem encantadora. Quando a revolta eclodiu, eles estavam juntos. A moça tombou em combate, aos 23 anos, enquanto Simcha estava em missão no lado ariano.

O início da Revolta

Os nazistas iniciam a liquidação final do gueto em 18 de abril de 1943, véspera de Pessach. Queriam “presentear” Hitler com uma Varsóvia “Judenfrei” (livre de judeus), em seu aniversário, dia 30 de abril. Durante a madrugada, dois mil nazistas e colaboradores, pesadamente armados, cercam o gueto com tanques e, às quatro da manhã, entram no Gueto Central.

“Quando vi o tamanho da força alemã, senti que não éramos nada”, recorda Rotem em um testemunho ao Memorial do Holocausto de Yad Vashem. “O que poderíamos fazer com nosso patético armamento, quase inexistente, diante do tremendo poder de fogo alemão... e sua enorme força de Infantaria... Senti-me totalmente impotente. Mas essa impotência foi seguida por um extraordinário sentimento de exaltação espiritual… Aquele era o momento pelo qual estávamos esperando... de enfrentar a todo-poderosa Alemanha...”.

Em todo o gueto os judeus ouviam os sons de metralhadoras e explosões de granadas vindos do Gueto Central, mas na área Brush makers, onde estavam Simcha e seu grupo, a calmaria prevaleceu naquele primeiro dia. Às cinco da tarde, os alemães bateram em retirada. “Quando nos reunimos, à noite, constatamos que nossas baixas tinham sido irrisórias – apenas duas. Sabíamos que naquele dia centenas de alemães tinham tombado, mortos ou feridos”.

Os judeus festejam, eufóricos. Haviam provado a si mesmos e ao resto do mundo que enfrentariam os alemães com armas em punho. “Mas não tínhamos ilusões sobre nossas chances. Mataríamos todos os que pudéssemos, mas sabíamos o que nos esperava”...

No dia seguinte, Simcha vê uma unidade das SS se aproximando. Alguns minutos depois, explode a grande carga de explosivos que seu grupo colocara sob a entrada. Os nazistas fogem sob o fogo dos jovens judeus, abandonando seus feridos. Uma centena de nazistas são mortos. Retornam mais tarde, temerosos, correndo rente aos muros. Os rebeldes atacam, novamente, com coquetéis Molotov e tiros de pistola; e os alemães novamente batem em retirada.

Durante três dias as tentativas alemãs de entrar no gueto falharam, e as baixas em vidas judias eram poucas. Mas, no terceiro dia, os nazistas mudam de estratégia, não mais enfrentando os judeus de frente. Tomam posições fora do muro do gueto, castigando os judeus com metralhadoras, canhões, aviões e lança-chamas. Os jovens combatentes se veem lutando contra um inimigo fora de seu alcance. Os nazistas começam, sistematicamente, a incendiar o gueto. Centenas de judeus são queimados vivos.

A ZOB não planejara um esquema de retirada nem preparara seus próprios bunkers. Os jovens pretendiam lutar corpo-a-corpo com o inimigo até o fim; mas, com os prédios ruindo, os rebeldes tiveram que abandonar suas posições. Hanoch Gutman encarregou Simcha de encontrar um bunker para se abrigarem. Escolhido por sua “aparência de ariano”, saiu vestindo um uniforme das SS. Arriscava ser morto pelos próprios judeus, mas assim podia movimentar-se livremente. Encontrou um bunker. Os judeus lá escondidos receberam os combatentes, e queriam se juntar a eles. Mas não havia armas suficientes. Após se reunirem com os outros dois grupos na área, cerca de 100 combatentes estavam abrigados no bunker. Mas, apesar do perigo, decidem sair e se juntar à luta dos que estavam no Gueto Central.

A vida dentro dos bunkers era desesperadora: o calor era insuportável, não havia ar, água ou comida. No décimo dia, o gueto já estava destruído. Não sobrara nada além de ruínas ardentes e corpos carbonizados. A maioria dos guerreiros judeus ainda estavam vivos, mas sem possibilidade de revidar já que o inimigo se mantinha fora de seu alcance. Os comandantes da ZOB sabiam que chegara a hora de deixar o gueto para ter alguma chance de continuar a luta.

Em 29 de abril, o comando geral da ZOB – Mordechai Anielewicz, Zivia Lubetkin, Michael Rosenfeld e Hirsh Berlinski-Met – decidiu enviar Simcha e Zygmunt Fryderych ao lado ariano para se reunirem com Yitzhak Zuckerman7, conhecido por seu codinome, “Antek”. Este, que já estava lá há duas semanas tentando obter ajuda da Resistência Polonesa, costumava dizer que Simcha era “seu assistente e assessor de campo”.

O resgate dos remanescentes

Em suas missões de reconhecimento, Simcha descobrira um túnel que levava ao outro lado do muro do Gueto. Ele e Zygmunt o utilizaram para chegar ao lado ariano. Um polonês viu Simcha sair e este disse-lhe ser um comerciante polonês que ficara preso dentro do gueto. Após felicitá-lo por ter conseguido sair, o homem o instruiu como evitar a patrulha alemã postada por perto para impedir a fuga de judeus.

Simcha e Zygmunt foram rapidamente ao apartamento de Anna Wachalska, sendo em seguida levados por Stefan Siewierski para o de Feigl Peltel, a courrier do partido Bund. O local se tornara a base de operações. Ao chegar, Antek ouviu, abalado, as notícias do Gueto, mas não havia tempo para desespero. Cada minuto era crucial; tinham que encontrar uma forma de retirar seus camaradas. Sabiam que não encontrariam ajuda, só poderiam contar consigo mesmo e com os dedicados poloneses que os ajudavam: Stefan Siewierski, Ana Wachalska e Marysia Sawicka, Kostek, Tadek Shayngut e Wladyslaw Gajek (codinome, Krzaczek) do PPR (o Partido dos Trabalhadores Poloneses)

Os obstáculos à sua frente eram enormes: teriam que voltar ao Gueto, encontrar os companheiros e levá-los para fora do muro; conseguir um meio de transporte e levá-los a um esconderijo relativamente seguro. Sabiam que a única forma de entrar e sair do Gueto era através dos esgotos, e eles precisavam encontrar pessoas que trabalhassem nos esgotos de Varsóvia para guiá-los.

Já se haviam passado cinco dias desde que Kazik deixara o Gueto, e ainda não haviam conseguido colocar o plano em prática. Não haviam achado quem aceitasse guiá-los e nem meios de transporte. O grande receio era chegarem tarde demais.

Conseguiram a ajuda do chamado “Rei dos Chantagistas”, o rei dos Shmaltsovniks8, em troca de uma grande quantia. Não lhe revelaram que pretendiam resgatar judeus, disseram-lhe que “um grupo de cristãos poloneses entrara no Gueto antes da revolta e a AK9 (Armia Krajowa) queria resgatá-los”.

A rota pelos esgotos

Sete dias se passaram até conseguirem pôr o plano em prática. No dia 8 de maio, às 22h, um grupo liderado por Simcha, acompanhado por dois trabalhadores, desceu no bueiro do esgoto em frente do apartamento do “Rei” dos Shmaltsovniks.

Com cerca de dois metros de altura, o esgoto central em Varsóvia era um labirinto com um fluxo poderoso de detritos. O trajeto era longo, difícil e os guias ameaçavam abandoná-los. Chegaram ao gueto às duas da manhã. Simcha subiu a escada de ferro na parede do esgoto enquanto os demais permaneceram embaixo, com os guias. O que ele viu o deixou desesperado... corpos e mais corpos... e ruínas....

Freneticamente, começou a percorrer os locais onde sabia que havia grupos de luta. Corria de um lado para outro, sinalizava com sua lanterna, chamava, gritava as senhas. No filme de Lanzmann, ele relembra que, de repente, ... “Uma calma súbita se apoderou de mim. Sentia-me tão bem no silêncio do gueto em ruínas, próximo aos corpos inertes que me eram tão queridos, que senti vontade de ficar ali, esperando pela aurora, pelos alemães... Mataria alguns deles e depois seria morto… Via-me tombando em batalha como o último judeu do Gueto de Varsóvia”.

Mas sua alma combatente, que lutava pela salvação de seu povo, não o deixou desistir. Levantou, voltou ao bueiro e gritou: “Vamos embora! Não há mais ninguém”. Foi quando ouviu um barulho. Ia disparar sua arma, mas decidiu gritar a senha da ZOB. Dez camaradas apareceram. Em poucos minutos, Simcha soube que chegara com um dia de atraso.... Os jovens lhe relataram os últimos oito dias.

A morte de Mordechai Anielewicz, o lendário comandante do Levante, que será sempre lembrado por seu legado de coragem e idealismo, e dos 100 combatentes que estavam com ele na rua Mila 18. E de milhares de outros judeus.

Decidido a salvar quem ainda podia ser salvo, mandou dois do grupo de volta ao gueto com a ordem de reunir o restante dos sobreviventes e trazê-los para o esgoto.

De volta ao lado ariano, ao anoitecer, Simcha e seu grupo contataram os companheiros que estavam nos esgotos, para alertá-los de que, na manhã seguinte, à saída do bueiro, haveria um transporte esperando para levá-los para a floresta. Às cinco horas da manhã seguinte eles estavam de prontidão cercando o bueiro; seus companheiros de luta começaram a sair. Pareciam fantasmas.

Ao ver um policial polonês se aproximando, Simcha foi até ele para dizer-lhe para não se intrometer, pois se tratava de uma operação clandestina da Resistência polonesa.

Quando perceberam que ninguém mais saía, a tampa do bueiro foi fechada e o caminhão seguiu em direção à floresta Lomianki, onde já havia um grupo de combatentes do gueto. Driblando milagrosamente as patrulhas alemãs, chegaram à floresta. Mas, era um esconderijo temporário, pois sendo pequena, não havia muito onde se esconder.De volta a Varsóvia, Simcha passou para Antek os nomes dos cerca de 80 combatentes que haviam sido resgatados, entre eles, Zivia Lubetki, com quem Antek viria a se casar em 1947, já em Israel.

Simcha manteve contato com sua família até o início da revolta e, depois disso, só conseguiu ter notícias deles em maio. Soube, então, que sua irmã Dina, de 12 anos, voltara ao gueto à sua procura, pouco antes do início da Revolta, e fora morta. No restante da guerra Simcha continua suas atividades clandestinas junto à ZOB e a Resistência polonesa, ajudando, especialmente, de todas as formas, as centenas de judeus que ainda permaneciam em Varsóvia, escondidos.

Continuou lutando ao lado dos partisans poloneses contra os nazistas, participando, em agosto de 1944, da fracassada Revolta de Varsóvia. Após o término da guerra, junto com Abba Kovner, passa a integrar uma nova organização com mais de 50 participantes: os “Vingadores”, Nakam. Nas palavras de Kovner, “Não imaginávamos que sobreviveríamos e, enquanto não acertarmos as contas com os alemães, não teremos o direito de seguir em frente”. 

Simcha Rotem também foi ativo na organização Brichá, que ajudava os judeus europeus remanescentes a atravessar fronteiras e emigrar ilegalmente para a Palestina do Mandato, apesar das restrições impostas pelas políticas da Grã Bretanha, como o White Paper, de 1939.

Após a Guerra

Em 1947, ele e os sobreviventes de sua família emigraram para a então Palestina. Simcha juntou-se à Haganá e lutou na Guerra da Independência.

“Em teoria, um período de minha vida terminara e um novo se iniciava, em nossa Pátria ancestral. Mas, aquela época de minha vida é parte inseparável do meu ser até hoje, um eixo em torno do qual gira o meu pequeno mundo”.

Simcha casou-se e teve dois filhos. Ao mais velho, ele deu o nome de Eyal, um acrônimo para “Irgun Yehudi Lochem”, ZOB, em hebraico. Posteriormente, dirigiu uma cadeia de supermercados, até se aposentar, em 1986.

Rotem foi ativo porta-voz e membro do comitê de Yad Vashem responsável por selecionar os “Justos entre as Nações”, os não-judeus que ajudaram a salvar nossos irmãos durante o Holocausto. Em 2013, participou de uma cerimônia em Varsóvia, pelos 70 anos do Levante do Gueto, onde recebeu, das mãos do chefe de Estado polonês, Bronislaw Komorowski, a comenda da Grã-Cruz da Polônia Restituta, uma das mais altas condecorações do governo polonês.

No entanto, em abril de 2018, Simcha Rotem, eterno vigilante das atrocidades contra o Povo Judeu, manifestou sua censura ao atual presidente polonês, Andrzej Duda: “Fiquei muito frustrado, desapontado e mesmo surpreso com seu sistemático desrespeito à diferença fundamental entre o sofrimento da nação polonesa depois de ter sido tomada pela Alemanha nazista, que eu não desmereço, e o metódico genocídio de meus irmãos e irmãs, cidadãos judeus poloneses, pela máquina exterminadora da Alemanha nazista, ignorando o fato de que essa máquina de extermínio contou com vários cúmplices poloneses”. E continuou: “Somente quando a sociedade polonesa enfrentar realmente a amarga verdade histórica, revelando seu escopo e intensidade, poderá haver uma chance de que tais horrores não se repitam”.

O nome Simcha Rotem está gravado na história do heroísmo do Povo Judeu e, como declarou o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, por ocasião de seu falecimento, em 22 de dezembro de 2018, em Jerusalém, “Sua história será guardada para sempre nos anais de nosso povo”.

Rotem deixou dois filhos e cinco netos.

1Uma das líderes e única mulher na Alto Comando do grupo de resistência ZOB, Zivia Lubetkin sobreviveu ao Holocausto e emigrou para a então Palestina sob Mandato Britânico, em 1946. Ajudou a organizar a Brichá, cuja missão era levar ilegalmente os sobreviventes judeus à Palestina do Mandato. Casou-se com Yitzhak Zuckerman, sub-comandante da ZOB. Juntamente com outros combatentes e partisans, fundou o Kibutz Lohamei HaGueta’ot e o museu Casa dos Combatentes.

2Co-fundador da ZOB, Marek Edelman se tornou o líder do Levante do Gueto de Varsóvia, após a morte de Mordechai Anielewicz. Após a guerra, ele permaneceu na Polônia, tornando-se cardiologista. Faleceu aos 90 anos, em outubro de 2009, celebrado como herói pelos judeus e poloneses nacionalistas. Este ano, a cidade de Varsóvia instituiu o ano de 2019 como “o ano de Marek Edelman”.

3Não havendo menção em contrário, todas as demais referências mencionadas neste artigo são desse livro de memórias de Simcha Rotem.

4Volksdeutsch – Nome dado pelos nazistas aos alemães que viviam fora do Reich.

Por suas ações em prol dos judeus, Ana Wachalska, Marysia Sawicka e Stefan Siewierski foram agraciados por Yad Vashem como “Justos entre as Nações”.

6O Gueto de Varsóvia era dividido em três áreas distintas: Gueto Central, Área dos Fabricantes de Vassouras (Brush makers) e a área Tobbens-Schultz.

Yitzhak Zuckerman, “Antek”, era o sub-comandante da ZOB. Servia de intermediário entre o comando da Organização e os comandantes da AK – Armia Krajowae, e AL- Armia Ludowa, organizações polonesas de resistência.

Shmaltsovnik é uma gíria polonesa pejorativa usada na 2ª Guerra Mundial para as pessoas que chantageavam judeus escondidos ou poloneses que protegiam judeus durante a ocupação.

Armia Krajowa, organização clandestina na Polônia ocupada pelos nazistas. Atuava em conjunto com o governo polonês no exílio e tinha como intenção libertar a Polônia de seus invasores nazistas e russos na 2ª Guerra Mundial.

BIBLIOGRAFIA

Rotem, Simcha (Kazik), Memoirs of a Warsaw Ghetto Fighter, Yale University Press, 2002