Morashá
Judeus da Alemanha: da  República ao Terceiro Reich Bandeiras com suásticas no lançamento do filme Triunfo da Vontade, 1935

Judeus da Alemanha: da República ao Terceiro Reich

Nas primeiras décadas do século 20, os judeus alemães eram os mais cultos, ricos e poderosos dentre seus irmãos de outras nacionalidades, exercendo profunda influência no mundo judaico. Em Berlim, eles atingiram seu ponto mais alto. Mas, no início da década de 1930, desabou sobre sua tranquilidade e prosperidade uma sombra que aumentava assustadoramente. O ano de 1933 é o divisor de águas em sua história, o início da guerra que Hitler declarou contra os judeus.

Edição 107 - Abril de 2020


No início do século 20, viviam 587 mil judeus no Império Alemão (Deutsches Reich1), criado em janeiro de 1871 após a vitória da Prússia na Guerra Franco-Prussiana. O novo Deutsches Reich, que congregava todos os estados alemães, era governado pelo imperador, o Kaiser Wilhelm I. A população judaica havia sido emancipada em 1867, mas a maioria das restrições civis e políticas que ainda restavam somente foram abolidas com o novo império. Eram muitas as portas que ainda permaneciam fechadas, mas o antissemitismo era mais brando que em outros países e eles se consideravam privilegiados por viverem na Alemanha, a nação mais poderosa do continente europeu, econômica e militarmente.

Os judeus participavam de seu florescimento; prosperaram e alguns se tornaram muito ricos. Metade dos bancos privados estavam em mãos de judeus, tendo os empreendedores da comunidade fundado indústrias inovadoras e cadeias de lojas de departamentos. O crescente bem-estar judaico e a convicção de que tinham seu lugar no seio da nação alemã os levaram à construção de majestosas sinagogas.

Embalados na recém-adquirida segurança, poucos perceberam as mudanças que sofrera o nacionalismo alemão. A unificação do país era fruto da ação das elites militares prussianas autocráticas e antissemitas, e, resultou num nacionalismo com ranço conservador e xenofóbico. Embora variasse a intensidade de sua virulência, as manifestações antissemitas existiram até mesmo nos anos dourados do judaísmo alemão. Mas, como não afetava o status legal, esse antissemitismo era visto pelos judeus como um problema social e cultural e poucos perceberam seu perigo.

1ª Guerra Mundial

A 1ª Guerra eclodiu na Europa em agosto de 1914. Além da Alemanha, o conflito envolveu a França, Inglaterra, o Império Austro-Húngaro, Sérvia, Itália, o Império Russo e Otomano e os Estados Unidos. Havia judeus lutando em todos os exércitos.

Na Alemanha era grande o apoio público à guerra, como mostram as fotografias da época. Um judeu, Walther Rathenau, assumiu o Departamento de Suprimentos do Ministério da Guerra. Uma das mentes mais brilhantes de Berlim, nos oito meses em que ficou à frente do cargo ele implantou a primeira economia moderna planificada da Europa.

À medida que foi-se arrastando o conflito que os alemães haviam previsto vencer em alguns meses, eles começaram a procurar “culpados”. Surgiram rumores de que a culpa era dos judeus, “pelo fato de ainda não terem acumulado riqueza suficiente”. Em agosto de 1916, Rathenau escreveu: “Quanto mais judeus morrerem neste conflito, mais persistentes serão as queixas de que eles não fizeram nada além de ficar atrás das linhas de frente e de lucrar”. Palavras proféticas. Em outubro, o Ministério da Guerra realizou de um censo nas Forças Armadas para determinar o número de judeus na linha de frente. O levantamento teve um efeito devastador sobre a moral judaica. O censo refutou as acusações: 80% dos soldados judeus estavam na linha de frente, mas, convenientemente, tornaram-se públicas apenas as acusações de “covardia” e não os resultados.

Em meados de 1918, a derrota alemã era inevitável. Cinco milhões de seus concidadãos estavam mortos e, dos 100 mil judeus que lutaram nas fileiras do exército alemão, 12 mil morreram. O país estava à beira do colapso e nas ruas o povo clamava por paz.

O Kaiser Guilherme II foi forçado pelas elites militares a abdicar e, para facilitar as negociações de paz com os Aliados, o Oberste Heeresleitung (Comando Supremo do Exército) apoiou a constituição de um governo civil. Em 9 de novembro de 1918 foi criada a República de Weimar. A Constituição entrou em vigor no final do ano seguinte, cabendo a um judeu, Hugo Preuss, na época Ministro do Interior, redigir seu anteprojeto.

Querendo salvar as forças armadas, as elites militares pressionaram o governo republicano a aceitar um humilhante acordo de paz. O Tratado de Versalhes, assinado em junho de 1919, atingiu a Alemanha moral e economicamente. Os republicanos deveriam ter obrigado os generais a assumir a responsabilidade sobre os acordos, mas não o fizeram, e as consequências foram desastrosas.

A República de Weimar

A República começou com uma onda de esperança, principalmente para os judeus, que, finalmente, estavam em pé de igualdade com os outros cidadãos. Eles se engajaram na reconstrução da nação e sua participação na vida econômica, política e cultural alcançou proporções sem precedente.

Até então, eles haviam sido excluídos das universidades, dos cargos no governo e dos altos postos no Judiciário e na administração pública. Na nova República havia 24 judeus no Reichstag (Parlamento Alemão)e seis serviam como ministros do governo central. Outros foram eleitos primeiros-ministros da Prússia, Saxônia e Baviera. Walther Rathenau tornou-se Ministro da Reconstrução e, em seguida, das Relações Exteriores.

Os judeus se tornaram jornalistas, dramaturgos, poetas, diretores e críticos de teatro; donos de galerias, atores, pianistas, maestros. Não havia quem amasse a arte, o teatro e a música mais do que um judeu alemão, e os mais ricos patronos e colecionadores de arte pertenciam à burguesia judaico-alemã. Eles tiveram um papel de destaque nas ciências. Albert Einstein, por exemplo, mudou radicalmente nossa visão do universo; e Paul Ehrlich descobriu a quimioterapia.

Muito do que é admirado, hoje, como a Era de Ouro da cultura de Weimar foi criado por judeus como Mahler, Zweig, Werfel, Husserl, Hofmannsthal, Ehrlich, Willstättter, Mauthner, Kafka. Os principais nomes da famosa Escola de Frankfurt também eram judeus: Mannheim, Adorno, Fromm, Marcuse, Horkheimer e Walter Benjamin. Berlim, epicentro da cultura de Weimar, foi onde os judeus atingiram seu ponto mais alto.

Os antigos preconceitos, porém, estavam vivos, e a estes foram adicionadas acusações do tipo “na guerra, os judeus esfaquearam a Alemanha pelas costas” ou “a República é parte de uma conspiração bolchevique judaica para dominar o mundo”. E, quando a hiperinflação detonou uma grave crise, a direita não precisou de muito esforço para “convencer” um grande número de alemães de que os “culpados” de todos os males – a derrota militar, a crise econômica, o capitalismo, o comunismo, a sífilis e assim por diante, eram os judeus. Nos anos de hiperinflação o antissemitismo era mais feroz do que em 1933.

Em Munique, um dos grupos de direita, o então inexpressivo Partido Nacional Socialista do Trabalhadores (NSDAP), elegeu Adolf Hitler para encabeçar o movimento. Sua plataforma política advogava a erradicação dos judeus da Alemanha, por meios legais, se possível; caso contrário, através da violência, deportação e morte. Esses grupos de direita foram responsáveis por um dos assassinatos mais devastadores do pós-guerra: em 24 de junho de 1922, Rathenau foi baleado e morreu.

Em Munique, em 8 de novembro do ano seguinte, Hitler tentou um coup d’état, o chamado Putsch da Cervejaria. Preso, é julgado por alta traição e condenado a cinco anos de prisão. Após 8 meses, no entanto, estava em liberdade. Enquanto esteve preso escreveu seu testemunho político, Mein Kampf, Minha Luta. Seu ódio contra os judeus transborda pelas páginas. Para ele, dois perigos ameaçavam destruir a Alemanha – os judeus e o bolchevismo. Em conversa com o major Josef Hell, em 1922, declarou que, se chegasse ao poder, seu objetivo seria uma Alemanha Jüdenrein – livre de judeus, e sua prioridade, “o extermínio de judeus”.

Vida judaica na década de 1920

Em 1925, viviam na Alemanha 564 mil judeus, um terço dos quais em Berlim. O judaísmo reformista ou liberal era dominante. As altas taxas de conversão e casamentos mistos, que, em 1918, atingiam 21% e 30%, respectivamente, haviam resultado num encolhimento da população judaica. Apenas o constante fluxo de imigração de “Ostjuden” (como eram chamados os judeus do Leste, especialmente os de língua iídiche) mantinha os números relativamente estáveis.

A maioria da população judaica pertencia à classe média e ganhava a vida no comércio e profissões liberais. Nos centros urbanos, mais de um terço dos advogados e médicos eram judeus. Eles também desempenhavam um papel proeminente em todas as formas de entretenimento.

Em final do século 19, fora criada, em Berlim, a Centralverein (União Central dos Cidadãos Alemães da Fé Judaica). O nome foi cuidadosamente escolhido. “Não somos judeus alemães, mas sim cidadãos alemães da fé judaica”. A organização defendia uma síntese do judaísmo e do “do germanismo” e rejeitava o sionismo. Até 1904, o número de sionistas era irrisório, apenas seis mil. Mas o sionismo alemão mudaria com o advento de uma nova geração comprometida em travar uma guerra contra a assimilação e a conversão. Um dos seus porta-vozes, Kurt Blumenfeld, de família rica e bem integrada, chegou a declarar: “A falência da emancipação foi o ‘segredinho escuso’ suprimido pela burguesia judaico-alemã”.

A juventude contava com inúmeros movimentos juvenis judaicos e, em 1917, a comunidade judaica estruturou seu programa de assistência social criando a Zentralwohlfahrtstelle.

O antissemitismo, porém, continuava vivo e ativo. Até os que defendiam a assimilação reconheciam sua virulência. O dramaturgo Arthur Schnitzler o definiu como “uma emoção desenfreada, mas sem um papel importante na política ou na sociedade”.

No final da década, os eventos favoreceram o crescimento da extrema direita. O desemprego aumenta extraordinariamente, o número de comunistas cresce e o extremismo substitui o ideal democrático de Weimar. Anunciava-se um futuro muito sombrio.

O fatídico ano de 1933

No dia 30 de janeiro de 1933, o então presidente Hindenburg nomeia Adolf Hitler chanceler. Ele vai rapidamente transformar a frágil democracia alemã em uma ditadura unipartidária baseada em um nacionalismo e autoritarismo e uma ideologia racista e antissemita.

O evento não gera pânico entre os judeus, apenas apreensão. A Centralverein exorta a comunidade: “Devemos esperar com calma”. Apesar dessa exortação, logo em seguida houve um êxodo de artistas, intelectuais e cientistas judeus, entre eles Otto Klemperer, Bruno Walter, Max Liebermann e Albert Einstein.

Mal chegado ao poder, o Führer, “o líder” em sua tradução, ordena o aprisionamento de comunistas e oponentes. Quando, em 27 de fevereiro, um “oportuno” incêndio destrói o Reichstag, os nazistas acusam os comunistas. Na manhã seguinte, um decreto presidencial dá à Hitler poderes emergenciais. O decreto suspendia os direitos civis constitucionais e declarava estado de emergência. Tropas de choque, as Sturmabteilung (SA), entram em ação, efetuando prisões em massa. Em 23 de março, o Reichstag dava plenos poderes legislativos e executivos a Hitler.

Desde os primeiros meses Hitler tinha a última palavra tanto na legislação nacional quanto na política externa e sua visão acerca da “Questão Judaica” foi essencial para o desenvolver dos eventos que culminariam no Holocausto. Para o Führer, a luta contra os judeus era uma confrontação de dimensões apocalípticas, uma guerra contra um inimigo que ameaçava a própria sobrevivência da Alemanha.

A vida judaica entra em colapso

A primeira manifestação anti-judaica organizada ocorreu na Alemanha nazista (também chamada de Terceiro Reich) no dia 1º de abril. O Führer ordenara o boicote a todas as lojas e escritórios pertencentes a judeus. Nesse dia, tropas de choque das SA tomaram posição na frente dos mesmos. Janelas e portas foram pichadas com o Maguen David (Estrela de David) ao lado de termos pejorativos, caricaturas grotescas e suásticas.

Houve protestos, num primeiro momento. Os judeus pediam aos nazistas que se lembrassem de sua contribuição e lealdade à Alemanha, mas seus esforços foram inúteis. Os judeus da Diáspora também protestaram contra os maus-tratos aos quais seus irmãos estavam sendo submetidos. Quando se espalhou a notícia de um boicote iminente às lojas judaicas, programou-se uma manifestação no Madison Garden, em Nova York, em 27 de março. Começava, também, uma campanha de boicote aos produtos alemães.

Para as igrejas cristãs, o boicote foi o primeiro teste em relação à atitude oficial que adotariam nos 12 anos seguintes em relação à “questão judaica”. Como escreveu o historiador Klaus Scholder, “Nenhum bispo, nenhum representante da Igreja fez uma declaração pública contra a perseguição”. Em geral, a atitude das Igrejas Cristãs foi a de um “antissemitismo moderado”. Eram contra a violência nazista, mas apoiavam a “luta contra a influência judaica na economia e na vida cultural na Europa”. E, quando externava preocupação, esta era apenas em relação aos judeus convertidos.

Salvaguardando a “pureza“ ariana

O choque causado pelo boicote foi suplantado pelo abalo provocado pelas leis antissemitas introduzidas logo a seguir, quando foi legalmente adotada a definição de um Nicharier, “um não ariano. No Terceiro Reich, um Nicharier era qualquer pessoa que descendesse de um não-ariano, especialmente de pais ou avós judeus. No deturpado pensamento nazista, um Nicharier era uma pessoa “racialmente inferior” e a força da nação germânica era baseada na “pureza do sangue”.

O objetivo das novas leis era “limpar” a nação alemã da presença judaica, e resultaram na exclusão dos judeus de áreas importantes: a própria estrutura estatal (Lei do Serviço Civil), saúde (Lei dos Médicos), a estrutura social (a revogação das licenças dos advogados judeus). Durante algum tempo, os veteranos da 1ª Guerra não foram incluídos, causando, assim, uma cisão na comunidade judaica.

Uma agressiva campanha para disseminar os “ideais” do regime é iniciada por Joseph Goebbels, ministro da Propaganda. Uma das metas era “limpar” a vida cultural alemã da influência judaica. O primeiro grande passo foi dado pelos estudantes das universidades que determinaram “a queima pública de livros indesejáveis”, em sua maioria de autores judeus. Na noite do dia 10 de maio, foram acesas fogueiras e, em grandiosas cerimônias mais de 20 mil livros foram queimados em todo o Reich, 10 mil deles em Berlim apenas.            

Em um discurso, Hitler reafirmou a necessidade de acelerar o ajuste de contas com os “criminosos” da cultura alemã. A ofensiva nazista ultrapassava todos os limites.

Tentando manter a vida judaica

As principais figuras da comunidade judaica procuravam tranquilizar a comunidade, afirmando que “o futuro da vida judaica na Alemanha não estava irremediavelmente ameaçado”.

A situação causou um despertar espiritual no judaísmo alemão, com um sopro de vitalidade em sua vida comunitária. A imprensa judaica também teve um papel preponderante no fortalecimento do espírito dos judeus alemães.

Determinados a manter, de alguma forma, a vida judaica, em setembro de 1933 foi criada a Representação Nacional dos Judeus Alemães (Reichsvertretung Deutscher Juden). Sediada em Berlim, a entidade coordena as atividades comunitárias e o Rabino Leo Baeck é eleito presidente. As atividades educacionais e culturais do Reichsvertretung foram o início de um movimento judaico de resistência moral.

A Organização Sionista da Alemanha, que conquistara uma força extraordinária, levou a metade dos assentos no conselho comunitário, entre todas as organizações, em 1935. E, entre os movimentos sionistas juvenis, estava o Habonim Noar Chalutzi, fundado em 1933.

O movimento Hechalutz, o maior de todos, preparava seus membros para se estabelecerem em Eretz Israel.

Entre outros, as novas leis do Terceiro Reich levaram a comunidade a estabelecer suas próprias escolas, em todos os níveis, para as crianças judias que haviam sido expulsas das escolas públicas. E o Kulturbund, um projeto através do qual judeus organizavam e realizavam atividades culturais para a sua comunidade, absorveu milhares de artistas judeus, sumariamente excluídos da vida cultural e artística alemã. Em seu primeiro ano, o projeto apresentou 69 óperas e 117 concertos para plateias exclusivamente judias.

Mas, os nazistas queriam que os judeus perdessem suas esperanças de um futuro no Reich. Em 1934, um memorando endereçado a Heydrich2 deixa claro a sua intenção:

“O objetivo da política judaica deve ser a total emigração dos judeus…Devem ser restritas as oportunidades de vida, não apenas em termos econômicos. Para os judeus, a Alemanha tem que se tornar um país sem futuro”.

Apesar da crescente perseguição e segregação, algumas lideranças ainda eram contrárias à emigração “apressada”. Outros, como Georg Kareski, por exemplo, representante dos Sionistas Revisionistas, pregavam uma emigração imediata, a qualquer custo. Kareski, inclusive, não descartava a cooperação, se necessário, com a Gestapo para ajudar os judeus.

Trinta e sete mil dos cerca de 525 mil judeus na Alemanha deixaram o país em 1933. Os que queriam partir se defrontavam com sérias dificuldades. Uma era encontrar um país que lhes abrisse as portas, outra era de origem econômica. O imposto sobre a emigração era proibitivo e os judeus que emigravam eram obrigados a deixar a Alemanha sem recursos. Os nazistas queriam se livrar deles, mas estavam determinados a depená-los, antes.

Estranhamente, as autoridades amenizavam as exigências para a emigração judaica quando o destino era a então Palestina. Em agosto de 1933, foi concluído o Acordo de Haavará(Acordo de Transferência) entre a Federação Sionista da Alemanha, o Banco Anglo-Palestino (sob a direção da Agência Judaica) e as autoridades alemãs. Este acordo permitia aos judeus vender seus bens na Alemanha e, com os recursos, adquirir produtos alemães enviados em seguida à Palestina britânica. O acordo permitiu a saída de cerca de 60 mil judeus alemães para Eretz Israel.

As Leis de Nuremberg de 1935

Em 1935, são publicadas as Leis de Nuremberg. São proibidos os casamentos e relações sexuais entre judeus e alemães, para não “manchar a pureza da raça ariana”. A lei da Cidadania definia a diferenciação legal entre os “cidadãos do Reich” – pessoas de sangue ariano, que gozavam de direitos políticos e civis plenos, e os não-arianos classificados como “sujeitos do Estado”, sem direitos. O decreto racista de que “nenhum judeu poderia ser alemão” afetou-os gravemente, pois a grande maioria deles se consideravam alemães e eram genuinamente assimilados na cultura alemã. O alemão era sua língua; a literatura alemã, a sua literatura. E a filosofia alemã e seus valores eram os seus valores.

Os judeus alemães começam a funcionar como um corpo único, pois os eventos externos haviam apagado as diferenças que costumavam dividi-los. De acordo com a definição nazista, viviam então na Alemanha cerca de 475 mil “judeus de religião judaica” e 300 mil “judeus cristãos” (convertidos ao Cristianismo). Perante a lei eram iguais o “judeu-judeu” ou o “judeu-cristão. Ainda havia 750 mil Mischlinge – meio-judeus, fruto de casamentos mistos, de primeiro e segundo grau.

Apesar de abalados, ainda havia os que mantinham a esperança de que as novas leis permitissem uma vida judaica segregada, porém, viável, no Terceiro Reich. A situação era desesperadora e deixar o país, algo que até então era impensável, era a única saída para aquele sofrimento.

Até 1935, milhares conseguiram emigrar, mas isso era cada vez mais difícil. As poucas portas abertas a refugiados judeus estavam-se fechando ainda mais, inclusive para a Palestina britânica. Em 1936, estourara em Eretz Israel a Grande Revolta nacionalista árabe, contra o domínio colonial e a imigração judaica. A reação britânica foi o aumento de restrições impostas à entrada de judeus. Como afirmou Chaim Weizmann, em 1936: “O mundo parece estar dividido em duas partes – os lugares onde os judeus não podem viver, e aqueles onde não podem entrar”.

Jogos Olímpicos de 1936

Em 1931, o Comitê Olímpico Internacional escolheu Berlim para a realização dos Jogos Olímpicos de 1936. Um ano antes da realização dos Jogos, as Leis de Nuremberg haviam excluído os judeus dos esportes. Os atletas judeus que se haviam qualificado para os Jogos foram dispensados pelo comitê.

A delegação alemã não queria judeu algum em suas fileiras e seus atletas tinham como objetivo provar a superioridade da raça ariana. Em protesto a essas medidas, as associações atléticas norte-americana e inglesa ameaçaram boicotar os Jogos.

O Führer decidiu adotar uma trégua “olímpica”. “É da maior importância o desenrolar grandioso e sem incidentes dos Jogos Olímpicos para a imagem da nova Alemanha aos olhos dos estrangeiros”, revela um memorando da época.

Mestres em propaganda, mascaram o racismo, o crescente militarismo e o antissemitismo retirando as evidências das áreas olímpicas e locais turísticos. A estratégia foi um sucesso, e praticamente todos os convidados, inclusive o Presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, saíram da Alemanha tranquilizados. Até alguns judeus foram ludibriados, passando a acreditar que o pior estava para trás. Mas os eventos sucessivos indicaram que o pior ainda estava por vir...

Até então, a estabilização do regime e o crescimento econômico haviam exigido uma relativa “moderação”, por parte dos nazistas. Mas, a Alemanha já economicamente forte e a política de apaziguamento adotada pela França e Grã-Bretanha sinalizavam que não haveria uma retaliação ao antissemitismo e expansionismo alemão.

As deduções de Hitler estavam corretas. Perante as sucessivas agressões alemãs – em fevereiro de 1936, Hitler reocupara Renânia e na sequência incorporara, em março, a Áustria e, em setembro, a Checoslováquia – Neville Chamberlain, primeiro ministro da Grã-Bretanha, declara, após reunir-se com Hitler em 30 de setembro de 1938: “Volto da Alemanha trazendo a paz para nossos tempos”.

Hitler volta a esbravejar nos imensos comícios: “O perigo não eram os bolcheviques, eram os judeus (…) uma conspiração judaica mundial ameaçava destruir a Alemanha e o mundo. É intensificado o processo de “arianização”, um eufemismo para o sequestro e roubo de propriedades judaicas. O confisco do capital judaico e a venda forçada de empresas controladas (Arianisierung) por judeus se torna prática diária.

Enquanto cresciam, em todo o Terceiro Reich, a brutalidade e o assassinato, o mundo assistia, inerte. A situação tornara-se tão desesperadora que Franklin D. Roosevelt, presidente dos EUA, convocou uma conferência internacional, em julho de 1938, em Evian-les-Bains, para tentar encontrar uma solução para os refugiados que queriam sair da Alemanha e da Europa. Apesar de manifestarem sua “simpatia”, nenhum dos países presentes abriu suas portas para abrigá-los.

Para Hitler, a conferência em Evian-les-Bains foi uma prova de que “ninguém queria os judeus” e “ninguém se importava com o seu destino, não havendo para onde mandá-los”. A expansão militar do território alemão tornava impossível conseguir um Reich Jüdenrein, pois centenas de milhares de judeus nas nações a serem conquistadas acabariam sendo incorporados ao Reich. Para o ditador, era preciso encontrar-se outra “solução”, algo “definitivo” ao “problema judaico”.

Kristallnacht, a Noite dos Cristais

A noite de 9 de novembro de 1938, Kristallnacht – Noite dos Cristais, marcou o início da segunda fase da perseguição judaica, mais brutal e violenta, e mais mortal.

Hitler precisava apenas de um pretexto para dar vazão à violência contra os judeus. O pretexto surgiu em 7 de novembro, quando Herschel Grynszpan, jovem refugiado judeu que vivia em Paris, entrou armado na embaixada alemã e atirou em Ernst von Rath, terceiro-secretário. Hoje sabemos que o jovem tomara aquela atitude “incentivado” por agentes alemães. Ele estava transtornado pela notícia de que seus pais e milhares de outros Ostjuden havia sido sumariamente expulsos da Alemanha e abandonados em terra-de-ninguém, na fronteira alemã-polonesa.

No dia 9, morre von Rath. A violência que se segue não foi, absolutamente, «uma reação espontânea aos acontecimentos na embaixada alemã, em Paris”, mas uma violência orquestrada com precisão por Hitler e outros líderes nazistas. Dentro de poucas horas, irromperam tumultos em todo o território alemão e austríaco. Turbas enlouquecidas percorriam as ruas das cidades, atacando os judeus e vandalizando suas propriedades. Oficiais nazistas deram ordens para incendiar as sinagogas e os rolos da Torá, e os céus ficaram iluminados pelas labaredas. Um barulho ensurdecedor de milhares de vidraças estilhaçadas convenceu os judeus de que não havia mais lugar para eles no Terceiro Reich.

A violência matou 91 deles, milhares ficaram feridos e desabrigados. Trinta mil judeus foram enviados aos campos de concentração de Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen,10 mil dos quais morreram e os demais foram libertados, sob a condição de deixar a Alemanha.

Os danos materiais foram imensos: saquearam 7.500 lojas, destruíram cemitérios judaicos e atacaram mais de mil sinagogas, das quais 267 foram arrasadas. Os nazistas responsabilizaram os judeus pelos “distúrbios” e destruição, impondo uma multa exorbitante a ser paga por eles. Não se ouviu nenhuma voz em seu favor. As igrejas cristãs mantiveram-se em total silêncio, com exceção do padre católico Bernhard Lichtenberg que declarou: ”Os templos que foram destruídos também são a Casa de D’us”. Ele pagou com a vida por suas manifestações públicas em favor dos judeus.

Nos meses seguintes, a expulsão dos judeus do Reich tornou-se prioridade e novas medidas foram instituídas para dificultar ainda mais sua vida. Foram banidos de teatros, cinemas, museus, clubes esportivos, parques, instituições, hospitais e banheiros públicos. Viram-se obrigados por lei a vender propriedades, empresas, obras de arte, joias. Não lhes era permitido possuir carro, carteira de motorista, passaportes. A imprensa judaica também é banida.

A comunidade judaica estava à beira da falência e seus membros procuravam deixar o país. Algumas rotas de fuga estavam temporariamente abertas. Xangai tornou-se um asilo para judeus alemães e austríacos; dezenas de milhares encontraram refúgio nos países europeus vizinhos e, outros, nas Américas. A Grã-Bretanha aceitou 10 mil crianças judias vindas da Alemanha, Áustria e Checoslováquia, os chamados Kindertransports. E, apesar das restrições impostas pelos britânicos em 1939, muitos judeus conseguiram chegar à então Palestina por meio de viagens ilegais organizadas pelos sionistas.

Nos primeiros seis anos da ditadura nazista, segundo estimativas do Alto Comissariado para Refugiados da Liga das Nações, 315 mil judeus deixaram o país. Os que se refugiaram em países ocupados pelos nazistas seriam capturados por eles e exterminados.

De acordo com o censo nazista de maio de 1939, viviam no Terceiro Reich (nas fronteiras de 1937) 213 mil judeus (segundo definição das Leis de Nurenberg). No final do ano eram 190 mil – 90% deles viviam em 200 cidades.

Os que haviam permanecido eram, em sua maioria, judeus de meia-idade ou idosos. A esperança de conseguir sair do país era cada vez menor. Ainda havia alguns com posses, mas a grande maioria havia empobrecido, dependendo das organizações sociais para sobreviver. Apenas 16% dos chefes de família tinham algum emprego fixo.

A 2ª Guerra Mundial

A Alemanha invadiu a Polônia em 1º de setembro de 1939, deflagrando a 2ª Guerra Mundial. A partir de abril do ano seguinte a Alemanha nazista conquistaria rapidamente o resto da Europa: Dinamarca (abril de 1940), Noruega (abril de 1940), Bélgica (maio de 1940), Holanda (maio de 1940), França (maio de 1940), Iugoslávia (abril de 1941), Grécia (abril de 1941) e Luxemburgo (maio de 1940). Em 22 de junho de 1941, as forças alemãs invadiram a União Soviética, mas encontraram resistência.

Milhões de judeus que viviam nos países tomados pelos alemães caem em mãos nazistas, que, com a maior rapidez e violência, aplicaram as políticas antissemitas já “elaboradas e testadas” na Alemanha. Os judeus foram segregados, expropriados, concentrados em guetos, levados à morte por fome e doenças, deportados e exterminados. Como morriam, pouco importava; o importante era o resultado final.

O tratamento reservado pelos nazistas aos judeus que haviam permanecido na Alemanha era diferente, mas a meta final era a mesma. Desde o primeiro dia da guerra foram proibidos de deixar suas casas depois das 20 horas, sendo-lhes vedada a entrada em determinadas áreas, em várias cidades.

Não foram criados guetos na Alemanha, mas as severas leis de moradia forçavam os judeus a viver em áreas determinadas, concentrando-os em “casa judaicas” (“Judenhäuser”). Os judeus fisicamente aptos eram obrigados a trabalho forçado compulsório. E tiveram que abrir mão de seus bens considerados “essenciais para o esforço de guerra”, tais como rádios, câmeras, bicicletas, eletrodomésticos, assim como casacos de pele, pianos e outros objetos de valor.

Uma lei promulgada em julho de 1939 transformou a Representação Nacional dos Judeus Alemães, a Reichsvertretung, em Associação do Reich de Judeus na Alemanha (Reichsvereinigung der Juden in Deutschland). Seu trabalho ficou sujeito às ordens do Ministro do Interior. A associação absorveu todas as 1.500 organizações e instituições e as 1.600 instituições religiosas da comunidade existentes em 1939. Leo Baeck, que permanecera à frente das novas organizações, empenhava-se a organizar a saída de judeus do país e a manter em funcionamento as escolas judaicas e as instituições beneficentes. Mas, todas as atividades chegam ao fim em 1943, pois quase todos os seus dirigentes e a maioria dos assistidos haviam sido “transferidos”, a maioria direto para sua morte nas câmaras de gás. Leo Baeck foi deportado em janeiro de 1943 para Gueto de Theresienstadt, sobrevivendo à Shoá. Os bens da Reichsvereinigung (cerca de 170 milhões de marcos), foram confiscados pelos nazistas.

Com o início do racionamento de alimentos, os judeus recebiam rações cada vez menores. Também foram restringidos os horários em que comprar alimentos e outros suprimentos. As famílias judias enfrentavam escassez dos produtos mais básicos, mas nada comparado à “política de inanição” adotada pelos nazistas nos guetos do Leste.

Em outubro de 1940, cerca de sete mil judeus de Baden e Saarpfalz, ao sudoeste do país, foram deportados para regiões da França ocupada, para ceder lugar aos alemães que haviam sido repatriados após o início da guerra. As autoridades francesas prenderam a maioria desses judeus alemães no campo de internação de Gurs, nos Pireneus.

A situação foi-se deteriorando, rapidamente. Em maio de 1941, ainda havia 169 mil; até outubro desse ano, outros 5 mil haviam conseguido deixar a Alemanha, Todos os bens de judeus alemães que “deixavam o Reich” em virtude de imigração, morte ou “deportação para o Leste” eram automaticamente confiscados.

Em setembro de 1941, um decreto proibiu os judeus de usarem transporte público e tornou-se obrigatório que todos, com mais de 6 anos de idade, que viviam sob domínio alemão, portassem a Estrela de David amarela (o Maguen David) preso na roupa.

A deportação sistemática de judeus da Alemanha iniciou-se naquele setembro, após ordens explícitas de Hitler. A princípio, os veteranos de guerra judeus e os parceiros em casamentos mistos, considerados “casamentos privilegiados”, foram excluídos da política de deportação.

Mais de 50 mil judeus do chamado Grande Reich Alemão (que incluía a Áustria) foram deportados para os guetos no Leste Europeu, Lodz, Vinsk, Riga e Kovno, entre o início de novembro de 1941 e o final de outubro de 1942.

Os judeus proeminentes do Grande Reich Alemão, os veteranos da 1ª Guerra e os judeus de países da Europa Ocidental eram deportados para o gueto de Theresienstadt (Terezin), próximo a Praga. Usado pelas SS como “vitrine” do tratamento “humano” dispensado aos judeus, esse campo era mais uma “estação de trânsito”, “a caminho do Leste”, para os centros de matança na Polônia. Mais de 30 mil morreram no próprio gueto de Theresienstadt devido à fome, doenças e maus tratos.

No período de outubro de 1942 a março do ano seguinte, os judeus da Alemanha foram “transferidos” diretamente para Auschwitz e outros centros de matança sistemática. Foram exterminados na Shoá 90% dos judeus que viviam na Alemanha, em 1939.

Nos primeiros meses de 1943, as autoridades nazistas anunciaram que o Reich finalmente estava Judenrein, livre de judeus. Em Berlim, a cidade que vira o ponto alto dos judeus da Alemanha, no final de 1942 restavam apenas 32 mil judeus.
No ano seguinte tinham sido drasticamente reduzidos a 238 pessoas. Eram chamados “U-Boats” ou “submarinos”, viviam escondidos e conseguiram salvar-se quase sempre com a ajuda de não judeus. Havia também 800 Mischlinge e outros cerca de 5mil que conseguiram escapar à deportação por serem casados com não-judeus.

No dia 2 de maio de 1945, quando Berlim se rendeu ao Exército Vermelho, restavam apenas 162 judeus da outrora poderosa e orgulhosa comunidade.

Também chamado de Kaiserlich Deutsches Reich ou Kaiserreich. Note-se que o termo Deutsches Reich foi o nome oficial da Alemanha não apenas no período dos Kaisers, mas também durante a República de Weimar e no regime nazista

2Reinhard Tristan Eugen Heydrich, oficial superior nazista durante a 2ª Guerra Mundial, um dos principais arquitetos do Holocausto. Era Chefe da Segurança.

BIBLIOGRAFIA

Friedlander, Saul, Nazi Germany and the Jews: 1933-1945. eBook Kindle

Elon, Amos, Pity of It All: A Portrait of Jews in Germany, 1743-1933. Kindle Edition

www.educabras.com

Sachar, Howard M, The Course of Modern Jewish History. Kindle Edition

Friedlander, Saul, Nazi Germany And The Jews: The Years Of Persecution: 1933-1939. eBook Kindle