Há 50 anos, em setembro de 1964, a Congregação Sefardi Paulista inaugurava sua primeira sinagoga, na Rua Bela Cintra. Trinta anos mais tarde, em setembro de 1995, era inaugurada a sinagoga Beit Yaacov da Rua Veiga Filho. Abrigando mais de mil pessoas, é uma das mais suntuosas de São Paulo e, decerto, das mais bonitas do Brasil.

A Congregação Beit Yaacov foi fundada no final da década de 1950, quando judeus originários de Alepo e de Beirute se estabeleceram em São Paulo. Haviam sido obrigados a deixar seus países de origem devido à crescente hostilidade árabe com a população judaica. O Brasil, que, no início da década de 1920, vivia um gradativo processo de industrialização e urbanização, apresentava-se, em virtude de suas possibilidades de expansão econômica, como uma alternativa atraente para imigrantes das mais diversas origens, inclusive para milhares de judeus.

O número de judeus sírio-libaneses de São Paulo crescia à medida que novas famílias se juntavam às que já aqui estavam e, em outubro de 1959, foram lançadas as bases daquela que viria a ser a Congregação e Beneficência Sefardi Paulista, uma das mais respeitadas e tradicionais comunidades judaicas do Brasil.

Hoje composta por cerca de 800 famílias, a Congregação Beit Yaacov conta com duas sinagogas em São Paulo, além de uma no Guarujá, uma sede para o movimento juvenil da Congregação, o Netzah, e uma sede de Assistência Social. Além de sua atuante Kehilá, a Beit Yaacov é conhecida por sua ativa presença em todas as áreas sociais, culturais e filantrópicas da comunidade judaica de São Paulo.

Pano de fundo

A partir das duas primeiras décadas do século 20, uma mudança na política de imigração dos Estados Unidos e Canadá, impondo cotas que limitavam o número de pessoas de um mesmo grupo étnico a entrar naqueles países, redirecionou o fluxo de imigrantes de vários países para a América do Sul, inclusive o Brasil, que passava por um período de profundas transformações. Até a década de 1930, não havia uma política migratória seletiva, cenário que se modificou a partir de então, quando, à semelhança de outros países, o Brasil, também, instituiu “cotas de imigração”.

Após liderar a Revolução de 1930, Getúlio Vargas assumiu o poder, dando início à chamada Era Vargas. Seu governo - autoritário e centralizado - foi caracterizado pelo populismo, nacionalismo e trabalhismo. Vargas instaurou um novo modelo de desenvolvimento, com forte incentivo à industrialização. Nesse período, foram realizados pesados investimentos nas áreas de infraestrutura, sendo criadas a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Hidrelétrica do Vale do São Francisco.

Em 1937, Vargas fechou o Congresso e instalou o chamado “Estado Novo”, de fato institucionalizando o regime ditatorial vigente desde 1930. A Constituição de 1937, inspirada no fascismo italiano, foi elaborada para ser uma Carta “livre das peias da democracia liberal”, nas palavras do então Ministro da Justiça Francisco Campos. Perseguiram-se opositores políticos, principalmente, partidários e simpatizantes do socialismo, e judeus. Foi através do Itamaraty que o governo exerceu com mais vigor sua veia antissemita inspirada nas teorias nazistas. Contudo, segundo o historiador americano Jeffrey Lesser, um dos maiores especialistas no tema da imigração judaica, estima-se que nas décadas de 1920 e 1930 tenham entrado no País uns 57 mil judeus. Ainda em 1937, entra em vigor uma legislação baseada em “cotas de imigração”. Apesar de serem supostamente abrangentes, essas novas leis somente prejudicaram os refugiados de origem judaica.

Circulares secretas expedidas pelo Itamaraty reforçaram sua exclusão, fazendo com que o número dos judeus que conseguiram entrar no País fosse menor do que a cota liberada, pois alguns diplomatas usaram de todos os artifícios para barrá-los. Em 1941, é decretada uma nova lei de imigração, mais severa ainda, como tentativa de conter sua entrada no país.

Com o término da 2a Guerra Mundial, em maio de 1945, e a saída de Getúlio do poder, deposto em outubro pelas Forças Armadas, o Brasil volta a abrir suas portas à imigração judaica, composta em grande parte por sobreviventes do Holocausto. Com a decisão das Nações Unidas sobre a Partilha da Palestina, em 29 de novembro de 1947, e a criação do Estado de Israel, em maio de 1948, centenas de milhares de judeus se viram forçados a deixar os países árabes.

Os judeus alepinos estavam entre as primeiras vítimas da intransigência árabe sobre a criação de um Estado judaico na então Palestina sob Mandato Britânico. Apenas 48 horas após a aprovação da Partilha, um violento pogrom eclodiu em Alepo. Os árabes, com o sinal verde das autoridades, invadem a cidade, destruindo e queimando sinagogas, casas de estudo, escolas e residências. Dos 10 mil judeus que lá viviam, mais de 6 mil deixaram a cidade nos dias e meses seguintes. Deixavam para trás propriedades e vidas bem estabelecidas, econômica e financeiramente, para recomeçar em países que os acolhessem. Não portavam documentos, pois o governo sírio cancelara sua cidadania; e seus passaportes, que perderam a validade nos meses seguintes, não podiam ser renovados.

Os judeus sírios foram, em sua maioria, para o Líbano, outros para Israel e algumas famílias para a Europa, principalmente para a cidade de Milão. O distante Brasil ainda não fazia parte de suas opções, mas uma série de fatores fez com que eles passassem a olhar para o País como um possível lugar onde refazer suas vidas. Na década de 1950 o Brasil já passara a ser uma alternativa atraente para imigrantes judeus devido às boas perspectivas econômicas e à facilidade de obtenção de vistos de entrada e de futura cidadania. Em janeiro de 1956, Juscelino Kubitschek toma posse como presidente. Durante seu governo, o Brasil começou a transformação de país agrícola em industrial, através do chamado Plano de Metas: “Cinquenta anos em cinco”. O principal objetivo desse plano era o desenvolvimento econômico, priorizando a dinamização do processo de industrialização baseado na política de substituição das importações. Foi uma época de desenvolvimento, efervescência econômica, geração de empregos e implantação de pujantes polos industriais.

Atraído pelas convidativas perspectivas econômicas do País, Edmond Safra, oriundo do Líbano, chega ao Brasil em 1952. Ele percebera que eram imensas as oportunidades econômicas locais. No ano seguinte, seu pai, Jacob Elie Safra, deixa Beirute com a família para se radicar em São Paulo. Muitas famílias de judeus sírios que viviam em Milão e Beirute decidem segui-lo. Nos anos seguintes, outros judeus sírio-libaneses, também, mudam-se para o Brasil. Algumas famílias se estabeleceram por um breve período de tempo no Rio de Janeiro, mudando-se poucos anos depois para São Paulo, onde já tinham familiares e conhecidos. Estava plantada a semente da futura Congregação Beit Yaacov.

A chegada em São Paulo

Na década de 1950, São Paulo exercia grande poder de atração. Com quase 2,7 milhões de pessoas, tornara-se a primeira cidade do Brasil em população. Movida pelos investimentos públicos e privados, sua economia crescia a taxas elevadas, abrindo oportunidades econômicas e de emprego.

Como relatam vários membros da Congregação chegados a São Paulo nessa época, a adaptação ao Brasil foi favorecida por inúmeros fatores, entre os quais a existência na capital paulista de uma população judaica já bem enraizada e dotada de sólidas instituições comunitárias, escolas e sinagogas. Entre outras, a Sinagoga da Abolição (Sinagoga Israelita Brasileira Shaar Hashamaim), inaugurada em 1929, que havia sido fundada pela primeira comunidade sefaradita de São Paulo, composta por judeus oriundos da Turquia, do Marrocos, Grécia e Itália.

Estima-se que entre os anos de 1930 a 1940, 20 mil judeus tenham vindo para São Paulo, em fuga do nazismo. Não eram apenas judeus da Alemanha, mas, também, da Itália e dos países vizinhos. Em 1936, judeus alemães fundaram a Congregação Israelita Paulista (CIP), hoje na Rua Antônio Carlos. Em 1957 é inaugurada a Hebraica, criando um espaço para lazer e recreação onde os judeus pudessem reunir-se.

Não há dúvida que a existência de uma comunidade judaica estabelecida facilitou a absorção dos recém-chegados sírio-libaneses, a despeito de todas as dificuldades inerentes à sua condição de imigrantes. Tendo que viver numa cidade que não conheciam, com um idioma que não falavam, teriam que refazer suas vidas e encontrar algum meio de sustento.

No entanto, apesar de não falar português, a maioria dominava outros idiomas além do árabe, como francês, italiano e, em alguns casos, ladino e inglês. Isto não apenas permitiu que aprendessem com certa rapidez o português, cuja raiz latina lhes era familiar, mas foi preponderante para sua absorção no mercado de trabalho brasileiro, ávido por empresários arrojados e profissionais qualificados.
A maioria dos integrantes dessa primeira leva trazia grande experiência comercial adquirida em sua cidade de origem. Após um período de adaptação, começaram a atuar nos mais diferentes setores da economia brasileira, principalmente na indústria têxtil, estendendo-se à importação e exportação, ao comércio de modo geral, à construção e incorporação civil e ao setor financeiro.

A partir de 1968, teve início no Brasil uma acelerada expansão econômica. O chamado “milagre brasileiro” começava a atrair muitos imigrantes ao Brasil, principalmente a São Paulo, consolidado como o centro industrial do País. Muitos dos judeus sírio-libaneses aqui chegados, nos idos da década de 1950, logo após se estabelecerem com solidez “chamavam” familiares e amigos. Assim, novos grupos chegaram da década de 1950 à de 1970, sempre ajudados pelos que vieram primeiro. Na época, a maioria morava nas redondezas da Praça Roosevelt e da Avenida Paulista. Apesar de não ser expressivo o número de famílias de origem sírio-libanesa, eram fortes os laços que as uniam. Quase todos se conheciam, o que colaborou para o fortalecimento de antigas amizades, enquanto outros laços se estreitaram, dando origem à formação de novas famílias em terras brasileiras.

A vida social era intensa, reuniam-se em suas próprias casas ou no clube A Hebraica para um carteado. Frequentavam cafés, restaurantes e clubes que, em meados de 1955, já permitiam antever a metrópole cosmopolita na qual São Paulo se transformaria. O Café Barba Azul e o Restaurante Fasano eram alguns desses pontos de encontro. Muitos casamentos e festas de Bar Mitzvá eram realizados no próprio Fasano ou no Restaurante Baiúca. Rapidamente se estruturou a vida comunitária desses novos brasileiros. Desde os primeiros anos, várias famílias criaram o hábito de se reunir não apenas para o lazer, mas para juntas celebrarem as festas do calendário judaico. A maior dificuldade era manter as leis da casherut, pois, na época, apenas vinho e carne casher eram encontrados com relativa facilidade em São Paulo.

Na época, a maioria dos recém-chegados de origem alepina e libanesa frequentavam a Sinagoga da Abolição. O chazan Elias Mizrahi, que falava árabe, encarregou-se de apresentar as famílias sírio-libanesas aos demais frequentadores da sinagoga. No entanto, acostumados com as tradições de Aram Tsobá1, ou Alepo (Síria), os recém-chegados estranharam alguns costumes, bem como as diferenças na forma de conduzir os serviços religiosos e na entoação das rezas. Por isso, pediram um salão separado onde pudessem manter seus tradicionais rituais religiosos.

Criando as bases da Congregação

Uma das características marcantes dos judeus alepinos sempre foi o grande apego às suas tradições religiosas e aos seus ritos, sua forma de rezar e às melodias gravadas em seus corações, ao longo dos séculos. Por isso, onde quer que se estabelecessem, sempre procuravam juntar-se a uma comunidade que seguisse os mesmos rituais. Quando esta não existia, fundavam uma. E em São Paulo não foi diferente.

Após superarem as primeiras dificuldades de adaptação, algumas famílias, lideradas por Jacob Safra, decidem formar sua própria congregação, construindo uma sinagoga e um centro de estudos judaicos. Os fundadores da futura Beit Yaacov queriam uma congregação que seguisse as tradições de Aram Tsobá em sua nova terra. No dia 21 de outubro de 1959, reuniu-se no salão da sinagoga da Rua Abolição, uma assembleia constituinte para criar uma sociedade civil, religiosa e beneficente, sem fins lucrativos, que teria o nome de Congregação Sefardi Paulista.

O grupo elegeu como presidentes honorários Jacob Elie Safra e o rabino Itzhak Dayan, que fora o mohel da comunidade de Alepo e veio residir no Brasil. Nessa mesma ocasião foi eleita a primeira diretoria, estabelecendo como meta primordial a construção de uma sede que abrigaria a sinagoga. Os fundos necessários para a compra do terreno da Rua Bela Cintra foram obtidos junto a dez famílias, enquanto os recursos para a construção foram destinados pela família Safra.

O projeto da nova edificação coube ao renomado arquiteto judeu italiano Jorge Wilheim. O projeto incluía lindos vitrais e o uso de mármore branco. Orientado pelos rabinos, Wilheim traçou a planta, sempre atento às tradições da comunidade e as necessidades do culto. Seguindo a tradição sefaradita, a Tebá ficou no centro do salão, voltada na direção de Jerusalém. Tomou-se também cuidado com o correto posicionamento do Hechal, onde são guardados os sefarim, com as áreas de circulação da Torá e dos assentos, tanto dos homens como das mulheres, no mezanino.

Ainda sem sede própria, a Congregação começou a atuar em várias áreas. Foi criado o Talmud Torá, que visava ministrar uma sólida educação judaica para crianças na faixa de dois a 14 anos. Apesar da existência de várias escolas judaicas em São Paulo, as famílias da Congregação mandavam seus filhos para instituições não judaicas. E, enquanto a formação laica era feita nas melhores instituições educacionais do Brasil, as aulas de religião e língua hebraica e a transmissão dos ritos tradicionais ficaram a cargo da Congregação, através do Talmud Torá, que, em junho de 1960, já contava com 80 alunos.

Na área assistencial, foi criado um fundo de ajuda e, em maio de 1961, foi criado o Comitê das Damas da Congregação. O Comitê que atuava para atender pessoas com poucos recursos passou a administrar o Talmud Torá, sob a orientação dos rabinos, bem como a organizar eventos beneficentes para arrecadar fundos e as festas de Purim e Simchá Torá.

Em novembro daquele ano de 1961 chegaram a São Paulo, vindo do Oriente Médio, os primeiros sefarim para a nova sinagoga, todos acondicionados conforme o costume entre judeus orientais, em lindas caixas de prata ornamentadas, ou Tiks. É costume entre os judeus sírios-libaneses retirar todos os sefarim do Hechal, a cada ano, durante o Kol Nidrei, que dá início ao Yom Kipur, o Dia do Perdão, diante da Kehilá.
 
Finalmente, em dezembro do ano seguinte, na presença de seus filhos, familiares e demais membros da comunidade, Jacob Elie Safra colocou a pedra fundamental da nova sinagoga. A construção foi executada em ritmo acelerado, pois se pretendia concluir a obra em abril de 1963. Mas, uma série de imprevistos atrasou a construção e o presidente honorário e grande benfeitor da sinagoga não conseguiu vê-la pronta. Jacob Elie Safra faleceu em 28 de maio de 1963 e, como homenagem, a nova sinagoga foi chamada de Beit Yaacov, a “Casa de Jacob”.

O moderno edifício, terminado em 1964, possuía, além da ampla sinagoga com capacidade de 400 pessoas, entre homens e mulheres, salas para orações em pequenos grupos, salas de estudos, biblioteca e dependências administrativas.

A Sinagoga Beit Yaacov foi inaugurada em setembro daquele mesmo ano, com 50 famílias congregadas para as Grandes Festas, na presença do rabino Itzhak Dayan e de autoridades públicas e comunitárias. O serviço religioso era conduzido de acordo com a tradição de Aram Tsobá, sendo lido e cantado, em grande parte, pelos membros da sinagoga, juntamente com o rabino oficiante.

A sinagoga passou a polarizar os eventos religiosos da comunidade, realizando cerimônias de Brit Milá, Bar Mitzvá e casamentos. Abria-se um novo capítulo nos anais da comunidade judaica sírio-libanesa em terras brasileiras.

Em abril daquele mesmo ano a Congregação contratou o rabino Menachem Mendel Diesendruck. Pessoa de grande carisma e erudição, o rabino foi o líder espiritual da Kehilá até 1974, ano de seu falecimento. Graduado em filosofia pela Academia da Áustria, ele era, também, responsável pela educação religiosa das crianças.
 
A década de 1970

Consolidado como o centro industrial do País, São Paulo passara a atrair um grande número de imigrantes. Cresceu o número de judeus sírio-libaneses que se estabeleceram nessa cidade durante toda a década de 1960, principalmente a partir de seus últimos anos, com famílias vindas principalmente do Líbano. Muitos decidiram deixar o país perante o crescente número de refugiados palestinos nesse país e o acirramento do conflito entre estes e as forças libanesas. Esse êxodo se completou com a eclosão da segunda guerra civil libanesa em 1975.

Em 1974, um grupo de jovens da Congregação criou um movimento juvenil, o Netzah. As lideranças comunitárias passaram a se dar conta do quão importante era que os jovens da Beit Yaacov tivessem um ponto de encontro, um local onde pudessem se encontrar e conviver. O objetivo seria formar jovens idealistas, inculcar-lhes amor a Israel, sem, no entanto, deixar de lado a religião através da educação não-formal, centrada em encontros aos sábados à tarde, machanot (acampamentos) e viagens de grupos a Israel.

Durante a década de 1970 cresceu a atuação social da Congregação Beit Yaacov dentro da comunidade judaica e na sociedade brasileira. Uma nova geração de mulheres começa a atuar na área social e o Comitê das Damas expande seu trabalho.

Nesse período, o Talmud Torá contrata novos profissionais para aprimorar ainda mais os estudos que ministrava e multiplica suas atividades. No ano de 1973, o rabino Efraim Laniado, descendente de uma família de renomados rabinos de Alepo, é convidado a integrar o quadro rabínico. Quando, em 1974, falece o rabino Diesendruck, seu lugar é assumido pelo rabino Laniado. Com o crescimento da comunidade, aumentou a necessidade da contratação de mais profissionais da área religiosa e educativa na Congregação. Assim, o rabino Jacob Garzon é agregado ao quadro rabínico da instituição. Em 1978, o rabino Chahoud Chreim, de Alepo, que durante anos liderara a comunidade judaica de Beirute, percebendo que a vida judaica no Líbano chegara ao fim, deixa aquela cidade rumo a São Paulo. Em 1980, torna-se rabino-chefe da Beit Yaacov, posto que manteve durante 18 anos, até seu falecimento, em 1998.

Décadas de 1980 e 1990

A partir de 1980, a cidade praiana do Guarujá se tornara o local de veraneio de grande parte da comunidade. Em 1985, Joseph Safra dá início ao projeto de construção de uma filial da Beit Yaacov no litoral. A nova sinagoga, um projeto do arquiteto Maurício Kogan, teve sua construção patrocinada pelo Banco Safra. E, em 1987, com o início de suas atividades, foi contratado o chazan Jô Sasson, que, posteriormente, assume o cargo de rabino da Beit Yaacov da Rua Bela Cintra, na capital.

O Comitê das Damas continuou sua reestruturação e mais voluntárias se juntaram a seus quadros, ampliando, desta forma, sua atuação na comunidade. Foi criado o Projeto “Criança Sorriso”, que, visando atender crianças carentes, adotou duas creches nas favelas de São Paulo. E foi desenvolvido um trabalho comunitário em conjunto com a Federação e outras entidades paulistas, como a Unibes.

Em  fevereiro de 1993 é criada a revista Morashá. Seu primeiro exemplar, com 35 páginas, é lançado em maio e distribuído a 5 mil lares. Com o passar dos anos a tiragem da revista foi sendo ampliada assim como seu número de páginas e tornou-se um marco na comunidade judaica brasileira. Hoje com 90 páginas e suplementos nas Grandes Festas ou em outas ocasiões especiais, a revista é distribuída gratuitamente a 27 mil domicílios.

No ano 2000 foi lançado um site de conteúdo, o mais acessado no Brasil para quem procura informações sobre o judaísmo. Da revista Morashá originou-se o Instituto Morashá de Cultura, uma entidade responsável por trazer ao Brasil personalidades religiosas e laicas, entre as quais, os Grão-Rabinos de Israel Ovadia Yossef Z’’L, Mordechai Eliahu, Shlomo Amar, Bakshi Doron e Meir Lau; o Grão-Rabino da França, Joseph Sitruk; o rabino e psiquiatra Abraham Twersky; o rabino Laibl Wolf; Rabino-Chefe da Grã Bretanha e da Commonwealth, Lord Jonathan Sacks  e  o falecido professor Yosef Hayim Yerushalmi.

Outros marcos

Com o passar dos anos, a sinagoga da Rua Bela Cintra se tornou pequena para o crescente número de associados. E, em 1991, Joseph Safra percebeu que chegara a hora de construir uma sinagoga, com dimensões condizentes ao tamanho de seu quadro de sócios. A construção dessa nova sinagoga foi patrocinada pelos irmãos Moise e Joseph Safra.

O local escolhido foi o bairro de Higienópolis, onde se concentrava a maior parte de seus membros. Desde meados da década de 1960, muitas famílias sírio-libanesas haviam deixado a Praça Roosevelt e a Avenida Paulista, passando a morar naquele bairro.

A cerimônia de colocação da Pedra Fundamental ocorreu em 19 de setembro de 1993. Perante grande público, o rabino Efraim Laniado disse em seu discurso: “Quando uma criança nasce, oramos a D’us para que ela cresça. Nossa sinagoga nascerá grande e, com a ajuda de D’us, há de se tornar pequena para o tamanho de nossa comunidade”. Suas palavras se concretizaram em curto espaço de tempo, pois a sinagoga já é pequena para o tamanho da comunidade.

Novamente se torna imprescindível aumentar o quadro rabínico. Em 1994, o rabino Y. David Weitman, famoso em todo o Brasil por seu dinamismo e erudição, integrou-se ao grupo de rabinos da Beit Yaacov, liderados pelo rabino Chahoud Chreim. Logo depois, foram contratados os rabinos Haim Cohen e Avraham Cohen e, posteriormente, o rabino Isaac Shrem.

Na década de 1990, o Talmud Torá deu origem ao Atelier Judaico, com aulas para ambos os sexos. Devido ao grande aumento no número de alunos, foi transferido para um local mais amplo. Nesse espaço as crianças aprendiam sobre judaísmo e tradições e desenvolvem conhecimentos básicos da língua hebraica. 

Nova Sinagoga Beit Yaacov

Após dois anos de construção, foi inaugurada, em 1995, a sinagoga da Rua Veiga Filho. O projeto foi de responsabilidade do consagrado arquiteto francês, Alain Raynaud. Trata-se de uma imponente estrutura, com capacidade para mil pessoas. Por sua beleza clássica e solene, constitui uma referência para a comunidade judaica de São Paulo e do Brasil.

Em estilo neoclássico, destaca-se pela riqueza de detalhes e seus belos trabalhos em madeira entalhada. À entrada da sinagoga, nota-se de imediato a beleza de suas paredes e portas revestidas em madeira, meticulosamente entalhadas por profissionais do Liceu de Artes e Ofícios. Seu salão principal é dotado de um vão livre com um pé direito de 12 metros de altura, que ganha maior imponência pela ausência de colunas em seu interior. No centro do salão há uma imponente Tebá, voltada na direção de Jerusalém.

O Hechal possui uma parochet (cortina) em veludo bordado, que forra as portas onde ficam guardados os sefarim, todos acondicionados em lindas caixas de prata ornamentadas. Os mais de 50 rolos da Torá da Beit Yaacov, distribuídos pelas três sinagogas, são motivo de orgulho para a comunidade. Alguns muito antigos foram trazidos de Alepo e Beirute por membros da comunidade. Outros foram doados por fiéis da Congregação no decorrer dos anos. A partir de sua inauguração, a Sinagoga Beit Yaacov passou a atrair os eventos religiosos da comunidade, acolhendo centenas de cerimônias de Brit Milá, Bar Mitzvá e casamentos, também de membros de outras congregações, que a escolhem por sua amplidão e beleza.

Apesar da preferência que a comunidade tem demonstrado pelas instalações da Beit Yaacov para suas cerimônias religiosas festivas, a sinagoga é primordialmente um centro de estudos, com cursos e shiurim sobre ampla gama de assuntos religiosos, de ética e história judaica.

Hoje, dezenas de cursos e aulas são ministrados pelos rabinos e professores, na Beit Yaacov, para ambos os sexos e todas as idades. Desde crianças pequenas jovens sendo preparados para o Bar Mitzvá, até senhores de mais idades. Há, também, aulas para mulheres de diferentes faixas etárias.

A Beit Yaacov, onde várias personalidades judaicas de grande renome foram homenageadas, tornou-se um fórum no qual grandes personalidades do mundo judaico, laico e religioso, proferem palestras sobre temas atuais, de interesse comunitário e mundial. Em 27 de janeiro de 2009 foi feita uma comemoração no Dia Internacional do Holocausto, com a presença de várias autoridades, entre elas, o então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Presença na área educacional

No ano 2000, foi dada a partida para um audacioso projeto: criar a primeira instituição de ensino judaico bilíngue do Brasil. A iniciativa resultou na fundação da Escola Beit Yaacov, que começou suas atividades em fevereiro de 2001. Atualmente, as instalações da escola estão em 32 mil m2 de terreno e 18 mil m2 de construção.

Na instituição, o ensino dos idiomas português, inglês e hebraico encontra-se perfeitamente integrado e sua qualidade é garantida pela equipe de educadores brasileiros, americanos, ingleses e israelenses. Altamente qualificados, em constante atualização e comprometidos com os princípios da instituição, os docentes levam adiante o objetivo de habilitar os alunos a atuarem na sociedade com senso crítico, iniciativa, criatividade, independência e responsabilidade social.

Presença na área filantrópica

Em 1991, Assistência Social Beit Yaacov criou o programa de Atividades Sociais e Acompanhamento e Assistência Integrada da Família, com o objetivo de promover o bem-estar de famílias ou pessoas em situação social limítrofe. O projeto atualmente atende por volta de 200 famílias que se afastaram dos padrões de vida normal. Foi criado, também, um projeto de Assistência à Saúde da Família e, desde 1997, a Assistência Social Beit Yaacov  mantém campanhas de distribuição de medicamentos em diversas comunidades carentes da cidade São Paulo.

Em 2001, o Assistência Social Beit Yaacov estabeleceu uma Clínica de Odontologia, com um tratamento odontológico eficiente e totalmente gratuito ao alcance da comunidade carente.  O Projeto Odontologia expandiu suas atividades em novembro de 2003, incluindo desde então o tratamento dentário de crianças, como, também, a realização de um trabalho de orientação e prevenção. A Terceira Idade, também, é contemplada, com encontros de lazer, jogos, filmes, palestras, passeios e aulas de ginástica uma vez por semana.

Hoje

Apesar da Sinagoga Beit Yaacov Veiga Filho concentrar a maioria das atividades da Congregação Sefaradi Paulista, a cinquentenária sinagoga da Bela Cintra continua suas atividades religiosas. Há sempre fieis na dependência da sinagoga participando dos minianim diários, das várias aulas e shiurim.

No Shabat e nas Festas várias centenas de fiéis participam das rezas, e as antigas melodias da tradição de Aram Tsobá podem ser ouvidas no interior da sinagoga.

A Sinagoga Beit Yaacov Veiga Filho é, no entanto, a atual sede principal da Congregação. Mais de 2.000 judeus a frequentam. Quem entra em suas dependências, encontra a qualquer hora do dia um constante movimento de crianças, jovens e adultos, homens e mulheres que participam das inúmeras aulas, orações, shiurim, e atividades culturais, assim como de atividade assistênciais.
As Sinagogas da Beit Yaacov são orgulhos de nossa comunidade, locais onde se ensinam aos jovens os valores religiosos, da família, amor a Israel e da união do nosso povo. As sinagogas são verdadeiros Beit Haknesset, locais de reunião onde avôs, pais e filhos participam juntos das rezas de Shabat e das Grandes Festas e aprendem o que de belo nossa tradição tem a ensinar.

É isso o que a Beit Yaacov vem fazendo há 50 anos...