Morashá
A Polônia e a negação do passado Campo de concentração de Auschwitz

A Polônia e a negação do passado

por Jaime Spitzcovsky

Com o objetivo de tentar apagar páginas trágicas da história de seu país e de sufocar o debate e a pesquisa, o governo polonês aprovou uma lei que prevê até 3 anos de prisão a quem apontar cumplicidade polonesa em crimes cometidos durante o Holocausto. A ofensiva provocou forte reação internacional, capitaneada por Israel e entidades judaicas.

Edição 99 - Abril de 2018


Um “ato de obscuridade histórica e um ataque à democracia”, definiu o Congresso Judaico Mundial. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu descreveu a lei polonesa como “distorção da verdade, um reescrever da história e uma negação do Holocausto”.

Em Israel, sobreviventes do Holocausto protestaram diante da Embaixada da Polônia. Uma mulher segurava um cartaz: “Ainda tenho pesadelos lembrando o que os poloneses fizeram”. Dos Estados Unidos, partiram pedidos para Washington suspender relações diplomáticas com Varsóvia.

A primeira votação da lei polonesa ocorreu na Câmara dos Deputados no dia 26 de janeiro, exatamente véspera do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. A data foi escolhida pelas Nações Unidas porque, a 27 de janeiro de 1945, tropas soviéticas libertaram o campo de extermínio de Auschwitz, localizado no sul da Polônia.

Depois de aprovada pelo Sejm, a câmara baixa do Parlamento, a lei passou por aprovação do Senado, e, no começo de fevereiro, foi sancionada pelo presidente Andrzej Duda. O governo da Polônia disparou também campanhas para defender sua iniciativa e registrou aumento de popularidade no cenário doméstico. O índice de aprovação do premiê Mateusz Morawiecki, na pesquisa do instituto polonês IBRiS, subiu de 55% para 57%, enquanto o presidente Andrzej Duda testemunhou sua taxa alcançar 57%, um aumento de 8 pontos percentuais em relação à sondagem do mês anterior.

Desde 2015, a Polônia é governada pelo Partido da Lei e Justiça, dono de uma cartilha ideológica baseada no nacionalismo e no conservadorismo católico. Seus líderes defendem plataformas anti-imigração e xenófobas, além de surfarem na onda antiglobalização, em curso sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, após a crise financeira internacional de 2008-9.

No cenário europeu, o avanço de grupos de extrema direita, baseados em ideologias de exacerbado nacionalismo, se verificou nas eleições presidenciais francesas, nas quais, apesar da vitória de Emmanuel Macron, Marine Le Pen amealhou uma votação histórica para seu partido, a Frente Nacional. Áustria e Hungria, entre outros países do velho continente, também testemunharam o fortalecimento de partidos com plataformas anti-imigração, anti-islâmica e antissemita.

O governo polonês entrou em choque recentemente com outros países europeus, que criticaram uma série de medidas voltadas a limitar a liberdade de imprensa e a tentar restringir a autonomia do poder judiciário. Apesar dos atritos, o Partido da Lei e Justiça deseja manter a Polônia na União Europeia, à qual Varsóvia aderiu em 2004, mas critica o que define como “excesso de poderes concentrados” em Bruxelas.

Na sua ofensiva nacionalista e populista, o partido governista polonês conta com uma estrela ascendente: Patryk Jaki, 32 anos, vice-ministro da Justiça e com manifestas ambições de crescer na política local. Jaki é descrito como “a figura por trás” da lei do Holocausto e argumenta que o projeto busca acabar com a “cultura enganosa de vergonha” sobre o tratamento reservado aos judeus na Polônia durante a 2ª Guerra Mundial.

“Quem acusar, publicamente e contra os fatos, a nação polonesa, ou o Estado polonês, de ser responsável ou cúmplice dos crimes nazistas cometidos pelo Terceiro Reich alemão...ou outros crimes contra a paz e a humanidade, ou crimes de guerra, ou, ao contrário, diminuir de forma extensiva os verdadeiros perpetradores, estará sujeito a uma multa ou a uma pena de prisão de até três anos”, sustenta um dos trechos da lei patrocinada por Patryk Jaki.

No começo do conflito, mais de 3 milhões de judeus viviam na Polônia, à época epicentro da vida judaica na Europa. Sobreviveram ao Holocausto apenas cerca de 300 mil, menos de 10%. Após 1946 e com a instalação do regime comunista imposto por Moscou, a população judaica caiu para 100 mil. Atualmente, a comunidade contabiliza menos de 10 mil integrantes, segundo dados do Congresso Judaico Mundial.

Vários pesquisadores do Holocausto e da 2ª Guerra Mundial se empenham em combater a ofensiva nacionalista vinda de Varsóvia, em especial os historiadores Jan Gross e Jan Grabowski, ambos nascidos na Polônia, mas vivendo no exterior. Gross leciona em Princeton, nos EUA, enquanto Grabowski trabalha na Universidade de Ottawa, no Canadá.

Os dois acadêmicos se dedicam a estudar a relação entre poloneses e judeus durante o Holocausto. Em 2000, Gross publicou o livro “Neighbours” (Vizinhos), no qual relata o massacre da população judaica do vilarejo de Jedwabne, em 1941, por outros habitantes do local. Estimativas falam em até 1,6 mil mortos.

Gross teve sua obra traduzida para o polonês. Em 2001, numa cerimônia para marcar os 60 anos da tragédia, o então presidente polonês, Aleksander Kwasniewski, visitou Jedwabne e pediu desculpas. “Isso foi um crime particularmente cruel”, declarou ele em discurso transmitido ao vivo pela TV polonesa. A iniciativa presidencial enfrentou forte resistência em meios políticos do país.

As iniciativas de Kwasniewski ficaram para trás, assim como o diálogo do governo polonês com o historiador Jan Gross. Atualmente, o autor de “Neighbours” enfrenta uma campanha publicitaria contra seu trabalho, apoiada por autoridades em Varsóvia, ligadas ao Partido da Lei e Justiça.

Em janeiro de 2016, o atual presidente, Andrezj Duda, pediu a “reavaliação” de uma condecoração governamental outorgada a Gross, sob o argumento de que o historiador “buscava destruir o bom nome da Polônia”. A iniciativa não prosperou, após intensa reação doméstica e, sobretudo, internacional.

Mais um historiador polonês no radar dos nacionalistas poloneses, Jan Grabowski publicou o livro “Caça aos Judeus: Traição e Morte na Polônia ocupada pela Alemanha”. Em entrevista recente à mídia israelense, Grabowski disse que, num “cálculo conservador”, 200 mil judeus foram assassinados por iniciativa direta de poloneses, sem participação de nazistas.

Após a guerra também foram registrados trágicos episódios de violência contra judeus que sobreviveram ao Holocausto. Entre os ataques, o Pogrom de Kielce, quando, a 4 de julho de 1946, militares e civis poloneses atacaram um centro de refugiados e mataram 42 pessoas. Feriram mais de 40.

Em meio à ofensiva nacionalista do governo de Varsóvia, é importante também lembrar que houve poloneses empenhados em salvar judeus e que pagaram, por suas iniciativas, com a própria vida. Em 30 de janeiro, logo após a tramitação da lei do Holocausto na Câmara dos Deputados em Varsóvia, o Yad Vashem, em Jerusalém, realizou uma cerimônia para homenagear a família Dziadosz, que se arriscou para salvar judeus nos anos 1940.

O Yad Vashem já homenageou 6.706 poloneses por suas ações durante a 2ª Guerra Mundial.

Tais ações do Yad Vashem são altamente elogiáveis. Inadmissíveis, no entanto, são as iniciativas recentes do governo polonês, arquitetadas para ofuscar um capítulo trágico da história de seu país.

Jaime Spitzcovsky foi editor internacional e correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim