Morashá
Oculta sob os holofotes COMPANHIA DE CANTORES E DANÇARINOS FRANCESES DIANTE DO PORTÃO DE BRANDENBURGO, EM BERLIM, DURANTE UMA TURNÊ PELA ALEMANHA. NO CENTRO, FLORENCE WAREN, QUE OCULTAVA SEU JUDAÍSMO. NA EXTREMA ESQUERDA, SEU PARCEIRO DE DANÇA, FREDERIC APCAR.

Oculta sob os holofotes

Durante a 2ª Guerra Mundial, enquanto Paris estava em mãos do Terceiro Reich, vários oficiais nazistas podiam ser vistos entre o público que assistia Florence Waren dançar. Eles jamais desconfiaram que se tratava de uma jovem judia. “Oculta sob os holofotes”, como ela costumava dizer, passou a ajudar judeus e a Resistência francesa

Edição 111 - Junho de 2021


Florence Waren nasceu Sadie Rigal, em Joanesburgo, África do Sul, em 28 de março de 1917. Ela mudaria o nome, já adulta, em Paris, ao abraçar a carreira artística. Filha de David Rigal e Gertrude Woolf Rigal, Florence teve seis irmãos.

O casal se definia como “judeus relativamente observantes”. O pai era um caixeiro viajante para a loja de departamentos Jagger e a mãe tinha sido professora em Nova York. Após a morte de seu irmão caçula em 1919, durante a epidemia da Gripe Espanhola, sua mãe, Gertrude, sofreu um colapso nervoso, sendo internada em uma instituição psiquiátrica na África do Sul. Seu pai, então, assumiu a responsabilidade pela criação dos filhos.

Sem recursos financeiros, depois do casamento dos irmãos mais velhos, Florence e seu pai se mudaram para uma pensão no centro de Joanesburgo.

Ainda criança, após assistir a apresentação do Les Ballets Russes1, uma das mais famosas companhias de balé do mundo, Florence decidiu que queria ser bailarina.

Naquela época, uma prima sua dirigia uma pequena escola de dança e, em troca de ajuda no local, ministrou-lhe gratuitamente aulas durante anos. Florence nunca concluiu o Ensino Médio, mas tinha absoluta dedicação a suas aulas de dança. A dança era sua vida e ela progrediu rapidamente, chegando a vencer diversas competições na África do Sul. Seu sonho era ser uma das bailarinas do Ballet Russes de Monte Carlo, como passou a ser chamada essa companhia de balé nos anos de 1930. Assim, em 1938, aos 21 anos, contando com a ajuda de familiares e amigos, mudou-se para Londres e, em seguida, para Paris, sonhando com uma carreira no balé.

Precisando encontrar um meio de se sustentar, ela participou de uma audição no importante cabaret Bal Tabarin, sendo prontamente aceita.

Localizado no no 36 da Rue Victor-Massé, no 9o Arrondissement, o cabaré foi inaugurado em 1904 pelo compositor e líder de orquestra Auguste Bosc (1868–1945). O sucesso não se fez esperar. Em 1928, Pierre Dubout e Pierre Sandrini, diretor artístico do Moulin Rouge e filho da primeira bailarina Emma Sandrini, assumiram o Bal Tabarin. Sandrini introduziu números de balé em seus espetáculos, e guarda-roupa e cenários magistralmente desenhados pelo famoso Erté, conceituado artista russo radicado em Paris, mestre par excellence da Art Déco. Os shows eram renovados anualmente, sempre com um tema diferente, como Os Planetas ou A Sinfonia, enquanto outros eram inspirados em figuras históricas como Cleópatra ou Madame de Pompadour. Após a Guerra, o Bal Tabarin foi comprado pelos donos do Moulin Rouge, que o fecharam em 1953.

Apresentar-se no cabaré Bal Tabarin certamente não era o que Florence sonhara, mas aquele emprego permitia que ela tivesse dinheiro suficiente para pagar aulas de dança e o aluguel de um apartamento que dividia com outra moça. Nessa época decide adotar o nome artístico de Florence Waren.

Na capital francesa, ela teve aulas com professores russos famosos, sempre extremamente severos com seus alunos. Florence era uma jovem de caráter forte e quando um deles bateu-lhe com um batôn na panturrilha, ela reagiu impetuosamente, quebrando-o. Viu-se obrigada a comprar outra varinha, caso contrário o professor não lhe permitiria voltar às aulas.

No verão de 1939, incentivada por Pierre Sandrini, Florence foi a Londres para participar de uma audição para uma vaga no Ballet Russes de Monte Carlo, um desdobramento da companhia que tanto a inspirara a princípio. Ela conseguiu a vaga de seus sonhos e sua estreia nos palcos do Ballet Russe seria em dezembro de 1939. Mas, em setembro daquele ano, eclode a 2ª Guerra Mundial, e Florence viu seu sonho ruir.

Seu pai queria que ela retornasse para a África do Sul, onde estaria em segurança. Mas ela respondeu que não voltaria, pois não queria desistir de sua carreira artística.

Em maio de 1940, os exércitos alemães atacam a Holanda, Bélgica e França.  Quando as tropas alemãs se aproximam de Paris, Florence e uma amiga deixam a cidade em busca de refúgio em um pequeno vilarejo. No entanto as duas moças são expulsas da cidade a pedradas, pois tendo nascido na África do Sul, Florence era cidadã britânica e o sentimento antibritânico era muito forte na região. São obrigadas, portanto, a voltar para Paris.

Em junho, a França capitula diante do exército alemão e assina um armistício com a Alemanha de Hitler. A batalha pela França durara apenas 46 dias. O país é, então, dividido – o norte e a costa do Atlântico ficam sob ocupação nazista, enquanto o sul e o sudeste passam a ter um governo leal à Alemanha, o Regime de Vichy.

De volta a Paris, Florence segue a recomendação de Pierre Sandrini, um dos donos do Bal Tabarin que se tornara um grande amigo, de não se identificar como judia perante as autoridades alemãs no controle da cidade.

Mas, sendo cidadã britânica, ela não estava totalmente a salvo, pois os alemães passam a aprisionar civis aliados em campos de internação, por considerá-los “inimigos estrangeiros”. Cerca de quatro mil cidadãos britânicos residentes na França são detidos pelos alemães e levados de trem para um campo de internamento (Konzentrationslager), em Besançon, próximo à fronteira alemã. Entre eles, estava Florence. Ela ficou meses presa em Besançon. As condições do campo eram duras, tendo centenas de pessoas morrido de pneumonia, diarreia, intoxicação, disenteria e ulcerações causadas pelo frio intenso.

No início de 1941, Florence foi libertada e autorizada a retornar a Paris, com a obrigação de se apresentar diariamente na delegacia local e sem poder deixar a cidade. Florence volta a dançar no Bal Tabarin, que passou a ser o cabaré preferido dos oficiais nazistas do Terceiro Reich.

Após seu retorno, a princípio Florence dormia nos camarins, pois não tinha autorização para sair à noite. O toque de recolher ia das 21 às 5:00 da manhã, enquanto Paris ficava deserta, às escuras. Mas à medida que Florence foi se tornando conhecida e uma artista de sucesso, ela consegue um passe que lhe permitia circular à noite. E com essa permissão, ela começa a acompanhar os judeus que se viam obrigados a mudar de um esconderijo a outro.

Foi no Bal Tabarin que ela conheceu Frederic Apcar, também dançarino com quem manteve um relacionamento inicialmente profissional, mas que se transformou em um vínculo afetivo. Conhecidos como “Florence et Frederic”, se tornaram rapidamente uma das duplas de dançarinos de salão mais famosas da França e essa parceria duraria mais do que seu relacionamento afetivo. Florence dizia que estava “se escondendo sob os holofotes”, dançando e se apresentando na França e na Alemanha. O luxo marcava os trajes da dupla. Para a linda dançarina, maravilhosos vestidos bordados, com joias e flores na cabeça; para ele, elegantes fraques. Juntos deslizavam pelo palco transbordando glamour. Na maioria das fotos, ela dava a impressão de estar flutuando nos braços dele.

Fora dos palcos, Florence mantinha amizade com membros da Resistência e os ajudava ativamente, escondendo e transportando armas e pessoas. Ao lado de cantores como Charles Trenet, Edith Piaf e Maurice Chevalier, “Florence et Frederic” foram em turnê a quatro campos de prisioneiros de guerra franceses, na Alemanha. Ela retornou trazendo uma mala de cartas, obviamente ilegais, dos soldados para suas famílias.

Florence escondeu seus correligionários judeus, ajudando a encontrarem moradias seguras, que iam trocando com frequência. Alguns deles eram amigos do mundo dos Music Halls, como o compositor Maurice Lebovici. Pessoas como Maurice eram “transferidas” e escondidas através de uma rede informal de artistas e seus amigos, muitos dos quais, como Florence, tinham seus contatos na Resistência.

Certo dia, enquanto Florence abrigava duas irmãs judias que haviam fugido de um campo de internamento, um policial a seguiu após ela ter-se apresentado, como era obrigada a fazer todos os dias, à delegacia. Ele a abordou em uma ponte sobre o Rio Sena, disse-lhe para não se assustar, permanecer em silêncio sem se virar para ver seu rosto. Revelou-lhe, então, que sua senhoria a havia delatado alertando as autoridades sobre o fato de que ela escondia judeus. E lhe avisou que seu apartamento seria revistado. “Você precisa tirá-las de lá esta noite”, afirmou. Naquela mesma noite, então, ela acompanhou pelas ruas escuras até um convento, as duas jovens judias que escondia. No trajeto, viu nazistas invadindo um orfanato e atirando crianças judias pelas janelas dos andares altos. As duas irmãs judias que ela abrigara conseguiram escapar para a costa sul da França e a visitaram em 1948, quando ela se apresentava em Nova York. Reconhecendo-a em um cartaz, correram para ver o seu show.

Tempos mais tarde, o mesmo policial alertou Florence uma segunda vez, na época em que ela escondia armas em seu apartamento.

Anos mais tarde, em uma entrevista publicada no jornal New Times, seu filho Mark Waren falou sobre a participação de Florence na Resistência: “Imagino que ela estivesse constantemente com medo, mas não acho que era algo sobre o qual ela pensasse muito. Era o que se fazia, na época”.

Já perto do fim da ocupação, em 1944, logo após seu retorno de uma viagem a Berlim, Fred Apcar foi informado de que Florence seria presa por suas atividades clandestinas. Imediatamente, ele alugou uma casa em um subúrbio de Paris, onde abrigou Florence e outros artistas judeus. Mesmo vivendo na clandestinidade, ainda assim ela continuou a ajudar a Resistência. Ela ajudou Gilbert Doukan, um judeu herói da Resistência que havia escapado de Drancy, a passar por um grupo de policiais e soldados em uma estação de trem, usando um disfarce, como se fosse sua linda esposa francesa. Quando o viu novamente, já durante um desfile na Libertação de Paris, Doukan usava o uniforme de oficial francês.

Certa manhã, soldados norte-americanos passaram em um tanque e pediram a Florence e Frederic orientação de como chegar a Paris. Florence e Frederic foram então à capital francesa para assistir “de camarote” a libertação da cidade pelos Aliados.

“Oculta sob os Holofotes” foi a própria forma de sobrevivência encontrada por Florence, mas ela não conseguiu isso sozinha. Sem o apoio das pessoas ao seu redor, a dançarina não teria escapado dos nazistas. Infelizmente, a maioria dos judeus na Europa não conseguiram encontrar amigos tão leais quanto ela.

Vida pós-guerra

Ao término da 2ª Guerra Mundial, o governo francês declarou Florence Waren uma “residente privilegiada”. Em 1948, “Florence et Frederic” fizeram uma turnê pelos Estados Unidos, apresentando-se no famoso nightclub Copacabana,em Nova York. Lá ela conheceu Stanley Waren, um jovem ator, diretor e professor, por quem ela se apaixonaria. Em seu primeiro encontro, o casal foi a uma delicatessen e entabulou uma discussão tão acalorada que acabaram ambos sendo expulsos do local. Florence decidiu abandonar a turnê, seu par Frederic e permanecer em Nova York com Waren, com quem se casou em 1949.

Aos 42 anos, deu à luz seu único filho, Mark. Ela continuou sua carreira, fazendo apresentações na Broadway e apareceu no famoso Ed Sullivan Show. Foi diretora do Departamento de Dança e Teatro do City College, trabalhando ainda como coreógrafa com seu marido nos espetáculos que ele dirigiu na África, China e em Taiwan.

Seu grande amigo e parceiro de dança Frederic faleceu em 2008, em Las Vegas, após uma longa carreira como produtor de shows no Hotel e Cassino Dunes.

Florence Waren faleceu aos 95 anos, no dia 12 de julho de 2012, em sua residência, em Manhattan, deixando marido, filho e neta. “Dancing Lessons” é o título do documentário que seu filho produziu sobre sua vida.

1        Les Ballets Russes foi uma companhia de balé itinerante, em Paris, que se apresentou em toda a Europa entre 1909 e 1929 e em turnês pela América do Norte e do Sul, sem nunca, no entanto, se ter apresentado na Rússia. Originalmente concebida por Sergei Diaghilev, Les Ballets Russes é considerada a companhia de balé mais influente do século 20. Os nomes Ballet Russe de Monte Carlo e The Original Ballet Russe (no singular) referem-se a companhias formadas após a morte de Diaghilev, em 1929.

BIBLIOGRAFIA

Florence Waren Hid From the Nazis by Dancing for Them, artigo publicado em 27 de março de 2017 no site https://us-holocaust-museum.medium.com/dancing-for-her-life-a-story-of-survival

Florence Waren, jewish dancer who resisted nazis, dies at 95, artigo publicado em 4 de Agosto de 2012 no jornal The New York Times