Morashá
A Rainha Esther e a Festa das Máscaras ANTIGO PERGAMINHO MANUSCRITO COM A MEGUILAT ESTHER

A Rainha Esther e a Festa das Máscaras

Em Purim, é costume crianças e mesmo adultos usarem máscaras ou fantasias. a data é conhecida por ser a Festa das Máscaras já que seu tema principal é a ocultação ou a dissimulação: quase tudo em sua história é oculto e secreto e sua narrativa é constituída por uma série de voltas e reviravoltas e uma súbita virada na sorte.

Edição 113 - Dezembro de 2021


Falando-se metaforicamente, quase todos os personagens da Meguilat Esther1 “usam máscaras”, especialmente sua protagonista, a Rainha Esther, que esconde sua identidade judaica até o final da história. Na verdade, um dos mistérios na história de Purim é o fato de o Rei Achashverosh, que, há quatro anos buscava uma rainha, ter escolhido Esther, após ter analisado mais de 1.400 pretendentes, sem saber praticamente nada sobre sua família e origem. Como alguém se torna rainha de um império sem que sua vida tenha sido previamente escrutinizada? Ademais, é curioso e irônico que Haman, o antagonista da história, que era obcecado pelos judeus e os queria exterminar, um a um, nunca tivesse sequer suspeitado que sua Rainha era judia, era um “deles”! Na Meguilat Esther há muitos outros mistérios e segredos. Até mesmo o próprio nome da Rainha Esther era um disfarce; seu nome verdadeiro era Hadassah (Meguilat Esther 2:7). O Talmud (Chullin 139b) nos ensina que a razão para ela ser chamada Esther, e não Hadassah, é o fato do nome Esther derivar da palavra hebraica Hester (oculto) e aludir a um versículo da Torá no qual D’us afirma: Va Anochi Haster Astir Panai: “e Eu me ocultarei, certamente ocultarei Minha face” (Deuteronômio 31:18).

O outro protagonista na história de Purim, Mordechai, também é uma figura disfarçada. Ele age encoberto, em coordenação com Esther, para frustrar o plano de Haman de uma Solução Final da Questão Judaica. Um aspecto misterioso da vida de Mordechai é que apesar de ser o líder do Povo Judeu, à época, e um conselheiro de confiança do Rei Achashverosh, ele trabalhava na sombra. Por que razão ele não teria usado sua posição de influência – especialmente após desmascarar uma trama para matar o Rei, salvando sua vida – para anular o decreto de Haman? Mordechai também exibe emoções conflitantes ao longo de toda a narrativa de Purim: ele reage com angústia ao ouvir o decreto genocida de Haman contra os judeus e, ainda assim, diz à Rainha Esther que com ou sem sua ajuda, os judeus seriam salvos, de alguma forma: “Pois se ficares em silêncio e nada fizeres desta vez, tenho fé de que socorro e salvação para os judeus lhes advirá de outro lugar” (Meguilat Esther 4:14).

O arquivilão de Purim, Haman, também é uma figura envolta em mistério. De onde teria vindo e como se havia tornado primeiro-ministro de tão poderoso império? A Meguilat Esther não nos esclarece isso. Apenas revela sua genealogia: ele pertence à nação de Amalek – personificação do mal neste mundo e antítese e arqui-inimigo dos Filhos de Israel. O fato de sabermos que Haman era um amalequita nos basta para entender por que era consumido pelo desejo de aniquilar o Povo Judeu. Era parte de seu DNA espiritual um ódio assassino, inato e obsessivo, aos judeus – assim como o foi para seu futuro alter ego, Adolf Hitler. Somente no Midrash encontramos alguma informação sobre Haman. Lá está escrito que Mordechai e Haman se conheciam há muito tempo – muito antes de Haman se tornar primeiro-ministro. O Midrash tambémconta que Haman tinha sido cabeleireiro e atendente dos banhos, em um pequeno vilarejo. E por que essa informação é relevante? Talvez o propósito do Midrash seja alertar o Povo Judeu para o fato de que, muitos dos homens poderosos e perigosos que nos odeiam, começaram como figuras sem importância. Essa explicação também se aplica a Hitler – pintor fracassado e soldado medíocre, que viria a ser o líder poderoso de uma nação poderosa, e que trouxe ao mundo a morte, exterminando mais de seis milhões de judeus.

O Rei Achashverosh também é uma pessoa enigmática. O Talmud não o tem em alta consideração: considera-o pessoa instável e facilmente manipulável. Ainda que não fosse um antissemita raivoso como Haman, de acordo com o Talmud ele também não era muito amigo dos judeus. Na verdade, no Livro de Esther, vemos a facilidade com que ele concorda com o plano diabólico de seu primeiro-ministro de exterminar o Povo Judeu.

Contudo, ao final da história de Purim, é o próprio Achashverosh quem defende sua bela rainha judia e salva o seu povo – o Povo de Israel. É ele quem ordena o enforcamento de Haman e quem dá aos judeus o direito de se defender contra seus inimigos. Também foi o Rei Achashverosh quem prestigiou Mordechai, nomeando-o primeiro-ministro no lugar de Haman. Quem era, na verdade, o Rei Achashverosh? Um inimigo do Povo Judeu que foi influenciado por sua encantadora rainha judia ou um tolo, inconsequente, que foi manipulado pelo mais execrável dos homens, mas que, felizmente, voltou a si, em tempo? Não o sabemos. O rei continua sendo uma figura enigmática.

Mas, na Meguilat Esther, não são apenas os protagonistas e os antagonistas que usam máscaras. Em nível mais profundo, toda a história de Purim, em sua essência e conteúdo, é uma história cheia de disfarces. Ainda que não haja nem um único fenômeno sobrenatural na Meguilat Esther, a história é constituída por uma série de eventos estranhamente bem-sincronizados. Tudo no Livro de Esther é entrelaçado: não há pontas soltas. Na história de Purim, os temas religiosos são disfarçados. Não há referências explícitas a milagres, profecias ou orações. E, contudo, a Rainha Esther diz a Mordechai que o segredo para a salvação dos judeus do decreto de Haman não está em seus poderes de persuasão e sedução, mas no jejum de todo o Povo Judeu, durante três dias.

Todos os principais participantes na história de Purim estão mascarados, mas é D’us quem usa o maior disfarce. Na Meguilat Esther, D’us não é mencionado– nem uma única vez! – nem mesmo implicitamente. A ausência do Nome de D’us nesse Livro constitui a “máscara das máscaras” de Purim. A Meguilat Esther é, sem sombra de dúvida, um livro sagrado. É um dos livros do Tanach, e quando o estudamos – seja em Purim ou em qualquer outro dia do ano – estamos cumprindo o mandamento de estudar a Torá. Além disso, recita-se uma bênção antes e depois de sua leitura, na festa de Purim, em que agradecemos a D’us por Seus milagres salvando-nos da tentativa de Haman de aniquilar nosso povo. No entanto, a ausência do Nome Divino em Meguilat Esther é muito estranha, dando a entender que Ele não teve participação na história.  

Máscaras e encobrimento são temas constantes na Meguilat Esther, mas é a ocultação da Face Divina – a máscara usada por D’us ao longo de toda a história – o que está no âmago da festa de Purim. Realmente, a ocultação Divina – Va Anochi Haster Astir Panai,“e Eu me ocultarei, certamente ocultarei Minha face” – é o tema principal dessa festa. Na história do Povo Judeu, o decreto de Haman foi o mais terrível, ainda que tivesse sido frustrado. Somente Hitler, Yimach shemó v’zichro2, chegou perto de conseguir o que Haman planejara: exterminar cada um dos judeus, homens, mulheres e crianças, da face da Terra. Quando o decreto de Haman foi enviado aos quatro cantos do reino persa – e tudo indicava que o Povo Judeu houvesse sido condenado ao extermínio –, cada um daqueles judeus deve ter pensado que D’us os abandonara.

No entanto, ao final da história, essa ocultação da Face Divina mostrou não ser mais do que uma máscara. Uma vez removida, revelou-se uma Face Divina repleta de misericórdia e favorecimento – uma total reviravolta na sorte do Povo Judeu. Isto porque não apenas Haman foi executado na mesma forca que havia armado para Mordechai; e não apenas porque Mordechai assume o lugar de Haman como primeiro-ministro do Império Persa, mas porque foram os judeus que triunfaram sobre seus inimigos, os mesmos que haviam planejado exterminá-los. Em vez de sofrimento e morte, “luz e júbilo, e felicidade e honra” (Meguilat Esther 8:16) recaíram sobre os judeus.

A aterradora ameaça de genocídio não apenas desapareceu, mas foi substituída por júbilo e salvação. E como a história de Purim gira em torno de segredos e ocultações, especialmente a ocultação Divina, celebramos o acontecido usando máscaras e fantasias.

Um mundo de ocultação

O mundo em que vivemos é permeado por ocultações e dissimulações. A palavra hebraica para “mundo”, Olam, deriva-se da palavra Helem, ocultação. O universo físico, que é o mais inferior dos mundos, oculta a Existência Divina. D’us é a única Realidade – somente Ele é realmente real –, ao passo que a existência de todos e tudo é tênue e completamente dependente d’Ele. E, ainda assim, a maior parte de nós não consegue perceber D’us e muitos ainda questionam ou mesmo negam Sua Existência.

Podemos entender por que é necessário um certo grau de ocultação Divina para que o mundo exista. Se D’us Se revelasse em toda a Sua glória, toda a Criação, inclusive os mundos espirituais mais elevados – que são finitos – seriam nulos e anulados por Sua Infinitude.

No entanto, o fato de a ocultação Divina ser necessária para que nosso mundo possa existir não significa que essa ocultação tenha de ser absoluta. Na verdade, certas vezes e em certos lugares, D’us efetivamente revelou algo de Sua glória aos seres humanos, particularmente no Monte Sinai, quando Ele deu Sua Torá aos Filhos de Israel. Durante os 40 anos em que Moshé Rabenu liderou o Povo de Israel pelo deserto, a Presença Divina era palpável, particularmente no lugar em que ficava o Mishkan, o Tabernáculo. Da mesma forma, quando os Filhos de Israel viviam na Terra de Israel, eram inúmeras as profecias e era possível comunicar-se com D’us por meio de Seus profetas e do Urim VeTumim3. Mas depois da queda do Primeiro Templo de Jerusalém e consequente expulsão dos judeus da Terra de Israel e do início da Diáspora judaica – onde e quando ocorre a história de Purim –, a Presença Divina deixou de ser evidente, não sendo mais possível consultá-La como no passado. Estava-se diante de uma dupla medida de ocultação Divina. O versículo da Torá em que D’us diz “e Eu esconderei, certamente esconderei o Meu rosto...” (Deuteronômio 31:18) tinha, de fato, se tornado realidade.

O Nome Divino não aparece na Meguilat Esther porque a história de Purim constitui o exemplo clássico do que ocorre quando D’us Se oculta, fazendo com que Sua Existência e Sua Presença deixem de ser evidentes. Quando isso ocorre, o mundo se cobre de escuridão: tudo se torna encoberto e incerto. Na falta de profecias, o futuro se torna ainda mais imprevisível do que já é e mesmo o presente se torna sombrio. A ocultação do Rosto Divino talvez não incomode os seres humanos quando os seus planos se concretizam e tudo em sua vida corre bem. Mas em momentos de crise – quando as coisas não saem de acordo com o planejado e o homem se vê diante de uma situação incerta e assustadora –, a incapacidade de perceber D’us e de com Ele se comunicar se torna um problema grave. O Livro de Esther retrata essa escuridão – a ansiedade, confusão e sofrimento que surgiram quando o Povo Judeu se viu diante de uma grave crise – a ameaça de genocídio – e D’us estava incomunicável e, aparentemente, em nenhum lugar onde O pudessem encontrar.

A razão pela qual a história de Purim é um relato feliz é o fato de ter terminado bem: os heróis saem vencedores e os vilões perdem. Sof Tov, Hakol Tov, afirmam nossos Sábios: “Quando acaba bem, fica tudo bem”. Mas a geração de judeus que viveu os eventos narrados na Meguilat Esther certamente não sabia que a história terminaria bem. E se não tivesse sido tão fortuita, as coisas poderiam ter terminado de forma bem trágica para eles.

Nós, que conhecemos o final da história de Purim, ouvimos a leitura da Meguilat Esther com alegria e nos divertimos fazendo barulho sempre que o nome de Haman é mencionado. Mas Haman não era objeto de riso e deboche para os judeus cuja vida ele pôs em risco. Eles sofreram muitíssimo enquanto a ameaça de genocídio pairava sobre sua cabeça. E, de fato, foi terror e desespero o que levou todo o Povo Judeu a jejuar durante três dias seguidos, noite e dia. E quanto à Rainha Esther, principal personagem da história, ela também enfrentou grandes provações durante todo o tempo em que exerceu um papel que nunca escolheu para si – o de salvadora do Povo Judeu.

Há quem considere muito bonita e romântica a história de Esther, a bela, encantadora, moça judia que se tornou rainha persa. Mas não houve nada de romântico no ocorrido. O Talmud traz diferentes opiniões sobre a idade de Esther, mas de acordo com a leitura literal de Meguilat Esther, ela era uma jovem religiosa que foi levada contra sua vontade para ser concubina no harém do Rei Achashverosh. É verdade que o rei se apaixonou por ela e a fez sua rainha. Mas ela desconhecia o fato de que, entre todas as jovens levadas ao palácio real, ela seria aquela a quem o rei escolheria para rainha. E, mesmo que Esther soubesse disso, é provável que ela tivesse escolhido outro destino para si, se lhe tivessem dado o direito de escolha. Uma moça judia religiosa como Esther teria preferido se casar com um judeu religioso e, com ele, construir um lar judaico – a ser escolhida, à força, por um rei estrangeiro, instável e perigoso. O Talmud nos ensina que Esther foi uma das quatro mulheres mais lindas que já existiram. Podemos imaginar que, ao ser escolhida para ser levada para o palácio real, contra sua vontade, ela deve ter pensado que sua beleza se houvesse convertido em um castigo, uma praga.

Foi somente quando Haman subiu ao poder e convenceu o rei de que devia lhe permitir aniquilar todos os judeus que Esther começou a perceber a razão pela qual o destino a levara até o Rei Achashverosh. Como ensina o Talmud, D’us envia a cura antes da doença. Quando Mordechai pede que a Rainha Esther interceda perante o rei em favor dos judeus, ele lhe diz: “Quem sabe você tenha chegado à realeza justamente para um momento como este?” (Meguilat Esther 4:14). Em outras palavras, Mordechai diz a Esther: você chegou a uma posição de poder sem ter planejado isso; e agora se encontra em uma situação em que pode agir de modo a alterar o curso dos eventos e, assim, salvar seu povo. Você não julga significativa essa aparente coincidência?

À medida que se desenrola a história de Purim, as coisas começam a se encaixar, as pontas soltas na história de vida da Rainha Esther começam a se conectar. Ela percebe que o fato de ter sido levada para o palácio real contra a sua vontade não havia sido uma ocorrência aleatória nem infeliz. Pelo contrário, ela, a Rainha Esther, foi a cura que antecedeu a doença chamada Haman. E, de fato, ela era a pessoa ideal para frustrar a trama de Haman – não só por ser judia, mas porque era sobrinha de Mordechai, que, como seu tio, pôde compeli-la a arriscar sua vida ao interceder junto ao rei. Mesmo que outra mulher judia tivesse sido alçada à posição de rainha, essa mulher poderia recusar o pedido de Mordechai ou até mesmo ocultar sua identidade judaica de modo a se proteger do decreto genocida de Haman.

O autossacrifício de Esther – as provações e tribulações sofridas por ela – foram essenciais para salvar o Povo Judeu do genocídio. Nós judeus, existimos hoje graças a Esther e a Mordechai, mas especialmente graças a Esther. Por isso, não surpreende o fato de que o livro que narra a história de Purim leve seu nome – Meguilat Esther. Mas há uma continuação a esse livroque muitos desconhecem: a Rainha Esther e o Rei Achashverosh tiveram um filho. Essa criança veio a ser o rei persa que iria permitir que o Povo Judeu retornasse à Terra de Israel e reconstruísse o Templo de Jerusalém. E ainda que o Segundo Templo viesse a ser destruído e o Povo Judeu fosse novamente mandado para o exílio, o retorno à Terra de Israel, ocorrido após a história de Purim, foi imprescindível para a perpetuação do Judaísmo. Isso porque os Profetas e Sábios que viviam na Terra de Israel durante a existência do Segundo Templo Sagrado de Jerusalém foram aqueles que organizaram o Judaísmo de modo a sobreviver nos subsequentes dois mil anos de exílio. Em outras palavras, nós, Povo Judeu, existimos hoje graças à Rainha Esther e às provações às quais se submeteu.

Conectando os pontos da vida

Uma das lições de Purim é que devemos abandonar a ideia de que temos pleno controle de nossa vida por meio de planos racionais e bem calculados. Essa festividade nos ensina que quando D’us Se oculta e não há profetas para nos ajudar a prever o futuro, apenas conseguimos compreender nossa vida se olharmos para trás para entender a maneira pela qual a Divina Providência a guiou, de forma quase que imperceptível. Essa lição se aplica a todos os seres humanos bons e meritórios, independentemente de sua religião ou nacionalidade. Ainda que Purim seja uma festa judaica, que celebra a salvação do Povo Judeu, muitos de seus temas são atemporais e universais.

Muita gente boa não entende muito do que lhes acontece, especialmente quando as coisas não saem da maneira que planejaram. Muita coisa na vida pode parecer aleatória, sem significado, injusta e mesmo cruel. Uma das mensagens centrais da história de Purim é que só podemos começar a entender certos eventos em nossa vida se olharmos para o nosso passado, vendo que as coisas aconteceram por uma determinada razão, e ver de que maneira se juntaram todas as peças do enorme quebra-cabeça que é a nossa vida. Em alguns casos, no entanto, as pessoas apenas compreendem a sua vida ao deixarem este mundo, pois seus feitos apenas dão frutos quando ascendem às Alturas, ou mesmo gerações depois disso. Essa ideia é um tema comum no Tanach e no Talmud. E, visando a esclarecer que isso se aplicava não apenas em tempos antigos e não apenas a Profetas e Sábios, mas também em nossos dias, oferecemos abaixo um exemplo contemporâneo.

Em 1o de abril de 1976, Steve Jobs e Steve Wozniak fundavam a Apple Computers Inc., na garagem da casa dos pais de Steve Jobs. Ele tinha, na época, 20 anos. Em 10 anos, a Apple cresceu e já era uma empresa que valia US$ 2 bilhões e contava com quatro mil funcionários. Ao fazer 30 anos, Steve Jobs foi demitido da Apple, empresa que fundara e construíra. Sentindo-se arrasado – especialmente pelo fato de que sua demissão ter sido noticiada mundo afora –, ele pensou em abandonar a carreira. Mas, após alguns meses de incerteza, decidiu que não ia abandonar sua paixão – o trabalho na área da computação e tecnologia. Decidiu recomeçar. “Na época da minha demissão da Apple eu não percebi isso, mas acabou sendo a melhor coisa que poderia ter-me acontecido”, diria vários anos depois. E explicou por que dizia isso: os cinco anos após ter sido despedido da Apple foram os mais criativos em sua vida. Ele conheceu e se casou com aquela que seria o amor de sua vida e fundou duas empresas: a NeXT, de software e computação, e a Pixar, um estúdio de animação computadorizada. A Pixar foi um sucesso tão grande que, em 2006, foi adquirida pela Disney, por US$ 7.4 bilhões. Mas, numa série de eventos ainda mais notável, a Apple comprou a NeXT e, em 1996, Steve Jobs voltou à Apple. A tecnologia que ele desenvolvera na NeXT estava no âmago do renascimento da Apple.

A volta de Steve Jobs a essa empresa – que, na época, estava à beira da falência – é lendária. Os produtos que passaria a fabricar, como o iPhone, iriam revolucionar a tecnologia, mudando o mundo para sempre. E a Apple se tornou a primeira empresa americana a atingir o valor de mercado de US$ 1 trilhão, em 12 de agosto de 2018. Em 31 de julho de 2020, superou a Aramco, a petrolífera estatal saudita, tornando-se a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo. Em 2020, bateu a marca de US$ 2 trilhões, superior ao PIB de vários países, como Brasil, Itália, Canadá, Rússia e Coreia do Sul.

Analisando sua vida extraordinária, lamentavelmente curta, seus altos e baixos, suas reviravoltas, Steve Jobs declarou: “Olhando para a frente, você não consegue ligar os pontos de sua vida; você só os consegue conectar olhando para trás. Portanto deve confiar que esses pontos irão se conectar no futuro”.

Evidentemente, não se pode comparar a demissão de Steve Jobs da Apple com as provações que a Rainha Esther enfrentou ou as enormes tragédias que algumas pessoas sofreram na vida. Mas a percepção de Steve Jobs de que “você só consegue conectar os pontos olhando para trás” é essencialmente o que se depreende da história de Purim.

A vida da Rainha Esther sintetiza essa ideia. Seu legado sem paralelo para o Povo Judeu somente pode ser entendido em se olhando para trás. Da mesma forma, todos os fenômenos fortuitos narrados na Meguilat Esther – a cadeia de eventos que culminaram na salvação do Povo Judeu – apenas podem ser apreciados no final da história. Da mesma maneira, a maioria de nós somente compreenderá a Meguilá de nossa vida – o Livro de nossa vida – bem ao final ou mesmo após ter sido escrita.

Isso é válido não apenas para nós como indivíduos, mas para o Povo Judeu em sua totalidade, assim como para toda a humanidade. “No fim, tudo dá certo”, escreveu Fernando Sabino, “e, se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.

É disso que trata a história de Purim, e é por essa razão que essa festa é um dos dias mais felizes no calendário judaico.

BIBLIOGRAFIA

Steinsaltz, Rabbi Adin Even-Israel, Purim – The Festival of Masks

https://steinsaltz.org/essay/Purim5776/

Steinsaltz, Rabbi Adin Even-Israel, Purim: Life is a Masquerade

https://steinsaltz.org/essay/Purimmasquerade/

Steinsaltz, Rabbi Adin Even-Israel, The Steinsaltz Ketuvim, Koren Publishers, Jerusalem

1  O Livro de Esther (literalmente, Pergaminho de Esther), que é um dos livros que fazem parte do Tanach (Torá, Profetas e Escrito).

2  Yimach shemó v’zichro – que seu nome e memória sejam apagados.

3   Urim V’tumim refere-se a um pedaço de pergaminho que continha a inscrição do Nome Inefável de D’us. Era colocado dentro do peitoral (Choshen) do Cohen Gadol, o Sumo Sacerdote. Nossos Sábios ensinam que, por meio do Urim V’tumim, era possível consultar e se comunicar com D’us.