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Macron, otimismo vindo da França Palais-Royal, sede do Conselho de Estado. Paris

Macron, otimismo vindo da França

por Jaime Spitzcovsky

A posse de Emmanuel Macron, como novo presidente da França, alimenta uma onda de alívio e de otimismo na comunidade judaica francesa, ainda preocupada com o avanço da extrema direita, com ataques terroristas e  a deterioração dos laços entre Paris e Jerusalém, nos últimos anos.

Edição 96 - Junho de 2017


Com o triunfo nas eleições de 7 de maio, ao amealhar 66% dos votos no segundo turno, Emmanuel Macron consolidou a esperada vitória do chamado “campo republicano”, responsável por unir diversas forças políticas interessadas em barrar Marine Le Pen, líder da extrema direita. A candidata derrotada, no entanto, alcançou 34% dos votos, recorde histórico para seu partido, o Front National, em aumento expressivo quando se compara aos 18% obtidos por seu pai, Jean-Marie Le Pen, no segundo turno das eleições presidenciais de 2002.

Criado na década de 1970, o Front National se notabilizou por posições racistas e antissemitas, vociferadas sobretudo por seu fundador, Jean-Marie Le Pen. A onda antiglobalização, em curso principalmente na Europa e nos EUA, impulsionou grupos populistas e de extrema direita, apoiados em nacionalismo e xenofobia.

Na França, Marine Le Pen buscou catalisar o sentimento de insatisfação de setores da sociedade francesa, pressionados por desafios como o desemprego, na casa dos 10%, terrorismo e crise de refugiados.  A possibilidade de chegada ao poder, inédita na história do Front National, levou Marine a tentar implementar um discurso mais moderado em comparação com a plataforma do pai, Jean-Marie, com quem chegou a romper politicamente.

As promessas de moderação, no entanto, não resistiram a declarações de Marine Le Pen durante a campanha eleitoral. A 9 de abril, ela afirmou que a “França não é responsável por Vel d’Hiv”, referindo-se à tragédia ocorrida em 1942, em Paris. Naquela ocasião, mais de 13 mil judeus foram enviados a campos nazistas de extermínio, depois de ficarem presos em um estádio da capital francesa.

Apenas em 1995, o governo da França, então liderado pelo presidente Jacques Chirac, admitiu claramente a responsabilidade das autoridades locais no episódio. “Sim, é verdade que a insanidade criminosa das forças de ocupação foi apoiada por alguns franceses e pelo Estado francês”, discursou Chirac, no estádio de Vel d´Hiv.

O Front National não preocupa a comunidade judaica francesa apenas por suas ligações históricas com correntes que negam o Holocausto. Pontos da plataforma de Marine Le Pen, embebidos em intolerância, também causam protestos, como a proibição ao abate ritual, judaico ou muçulmano, e ao fornecimento de merendas escolares sem carne suína.

A vitória de Macron representou uma “vitória contra o ódio e contra o extremismo”, afirmou Moshe Kantor, presidente do Congresso Judaico Europeu, ecoando declarações de diversos líderes comunitários franceses. Kantor ainda destacou: “Permanecemos extremamente preocupados pelo ainda significativo apoio a partidos de extrema direita, não apenas na França, mas pela Europa”.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, parabenizou Macron logo após o triunfo  eleitoral e, na nota oficial, observou que uma das maiores ameaças que pairam sobre França e Israel é o terrorismo. “Tenho a convicção”, acrescentou Netanyahu,”de que os dois países intensificarão seus laços bilaterais”.

Aos 39 anos, o presidente mais jovem a assumir o cargo na história da república francesa, Emmanuel Macron carece de experiência em áreas como política externa. Construiu trajetória no mercado financeiro e foi ministro da Economia e da Indústria no governo socialista de François Hollande, entre 2014 e 2016.

Em 2015, o então ministro Macron desembarcou em solo israelense, numa visita que, segundo a embaixadora francesa Hélène Le Gal, impressionou o futuro presidente. Em entrevista a uma emissora de rádio israelense, Le Gal afirmou que Macron não esconde a admiração pelo universo israelense das start-ups e das companhias de tecnologia.

Empenhado em resgatar a economia francesa da estagnação, Emmanuel Macron costuma enfatizar a opção por incentivar a inovação e os investimentos em tecnologia.  A cooperação com Israel poderia se intensificar nessas áreas da atividade econômica.

Maior ênfase numa agenda comercial contribuiria para amenizar o desgaste registrado recentemente, no campo político, entre Israel e França. Enfraquecido no cenário doméstico e terminando sua gestão com níveis recordes de desaprovação popular, François Hollande buscou diversas vezes, no campo da diplomacia, iniciativas que, em seu cálculo, pudessem se traduzir em maior apoio da opinião pública francesa. E, muitas vezes, entrou em rota de colisão com o premiê Netanyahu. No primeiro semestre deste ano, numa tentativa de resgatar prestígio diplomático, Hollande organizou em Paris uma conferência internacional sobre o Oriente Médio. A iniciativa representou um fiasco.

Macron, embora não tenha detalhado sua abordagem para a questão israelo-palestina, declarou ser contrário a um reconhecimento unilateral de um eventual Estado palestino. Também criticou o BDS, movimento que propõe boicote a Israel em diversos planos, como politico, econômico e acadêmico.

O combate ao terror também aproxima França e Israel, como observou Netanyahu. “A França estará na linha de frente da luta contra o terrorismo”, afirmou Macron no discurso da vitória,  em 7 de maio.

A intensificação de ataques terroristas e do antissemitismo, num cenário de estagnação econômica e desemprego crescente, impulsionou a mudança de judeus franceses a Israel, que atingiu nível recorde em 2014 e 2015. Nesse período, desembarcaram 15 mil imigrantes em solo israelense. Importante também ressaltar a forte tradição sionista na comunidade judaica francesa, a maior da Europa, com cerca de 500 mil integrantes.

No início da campanha para as eleições legislativas de junho, fundamentais para Macron obter apoio parlamentar e conseguir a governabilidade necessária para implantar reformas econômicas e sociais, o partido do novo presidente demonstrou estar atento no combate ao antissemitismo. O jornalista Christian Gerin foi obrigado a retirar sua candidatura devido a mensagens racistas, disparadas anos atrás, pelo Twitter.

A chegada de Macron ao poder representa uma opção francesa pela manutenção da globalização e da União Europeia e pelo combate ao terrorismo valorizando trabalho de inteligência e cooperação internacional. Sua vitória eleitoral significou também um golpe contra o avanço do populismo e do nacionalismo no velho continente. Resta saber se o jovem líder conseguirá corresponder às expectativas de seus eleitores.

Jaime Spitzcovsky foi editor internacional e correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou e em Pequim