Morashá
Sucot e o Tabernáculo, o Mishkan Família de posses em Amsterdã jantando na sucá. Gravura de B. Picart (Cérémonies et coutumes religieuses de tous les peuples du monde, 1725, Biblioteca Nacional de Madrid

Sucot e o Tabernáculo, o Mishkan

“Habitareis em Sucot, cabanas, durante sete dias, todos os habitantes de Israel habitarão em Sucot; para que as futuras gerações possam saber que Eu fiz o Povo de Israel viver em cabanas, quando os tirei da Terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso D’us”. (Levítico, 23:42-43)

Edição 108 - Setembro de 2020


A festa de Sucot, de sete dias, inicia-se no 15o dia do mês de Tishrei – cinco dias após Yom Kipur. O sincronismo da data é intrigante. De maneira diferente do que ocorre nas demais festividades judaicas, não há uma razão óbvia para Sucot ser celebrada nessa data. Por que razão a festa cai no mês de Tishrei, e por que se inicia no 15o dia do mês? Conta-nos a Torá que D’us nos ordena habitar em uma sucá durante a festividade de Sucot para celebrar a proteção Divina aos Filhos de Israel na vastidão do deserto, após Ele nos ter tirado do Egito (Levítico, 23:42-43).

Como Sucot celebra a proteção Divina ao Povo Judeu após o Êxodo do Egito, faria mais sentido comemorá-la logo após Pessach, que é a data que marca a libertação de nossos antepassados da escravidão egípcia. Por que razão, então, Sucot é festejada no mês de Tishrei – cinco dias após Yom Kipur – e não logo após Pessach – nos últimos dias do mês de Nissan ou no início do mês seguinte, Iyar?

Há outro aspecto curioso na festa de Sucot. Se seu propósito é comemorar a proteção Divina sobre o Povo Judeu, ao longo de sua extensa jornada a caminho da Terra de Israel, por que razão a maneira ideal de o fazer é habitarmos em uma cabana, frágil e temporária? D’us realizou muitos milagres para o Povo de Israel durante os 40 anos de sua permanência no deserto. Não há nada de extraordinário no fato de que nossos ancestrais tivessem morado em cabanas durante os anos em que viveram no deserto escaldante. Mesmo na visão de Rabi Eliezer, no Talmud (Tratado Sucá, 11b), que ensina que a sucá de fato representa um fenômeno sobrenatural – as Nuvens de Glória que protegeram nosso povo no deserto –, por que a Torá institui uma festividade que celebra apenas esse milagre Divino, e não os demais? Por que razão, além de Sucot, ou em seu lugar, não há uma festa que celebre o maná que caiu dos Céus ou o poço que proporcionou uma fonte de água potável ao Povo Judeu em sua longa trajetória pelo deserto? Claramente há algo de profundamente significativo no ato de construir e habitar em uma sucá, que até empresta seu nome à festividade de Sucot (plural do substantivo sucá, cabana).

Para entender, em profundidade, o significado de Sucot – uma festividade cujo propósito é erroneamente compreendido por muitos judeus, particularmente na Diáspora –, devemos ter em mente que todas as festas instituídas pela Torá – exceto Rosh Hashaná – comemoram eventos que ocorreram em um único ano do calendário: o ano fundamental na história do Povo Judeu, iniciado com o Êxodo do Egito. A primeira festa no calendário judaico não é Rosh Hashaná, mas Pessach. Essa festividade, que celebra a libertação judaica do jugo egípcio, é celebrada no mês de Nissan, que, como ensina a Torá, é o primeiro mês do ano. Iniciando-se na segunda noite de Pessach, começamos a contar o OmerSefirat HaOmer – que termina sete semanas depois, quando celebramos Shavuot. Nessa festa celebramos a Revelação Divina no Monte Sinai, ocorrida 50 dias após o Êxodo. A data significativa seguinte no calendário judaico, ainda que triste, é 17 de Tamuz, dia em que recordamos o pecado do bezerro de ouro, ocorrido nessa data. Essa transgressão lastimável foi perdoada no 10o dia do mês de TishreiYom Kipur.

Até então, fazem sentido o timing e a sequência das festas e datas importantes no calendário judaico. Seguem uma cronologia lógica. Começamos celebrando Pessach no 15o dia de Nissan por ter sido nessa data que ocorreu o Êxodo do Egito. A festa de Shavuot é comemorada no dia 6 de Sivan (na Diáspora, também no dia 7) por ter sido nesse dia que D’us Se revelou ao Povo Judeu, no Monte Sinai. Jejuamos no dia 17 de Tamuz por ter sido nesse dia que Moshé, ao descer do Monte Sinai, vendo com seus próprios olhos que os judeus estavam adorando um bezerro de ouro, quebrou as Tábuas da Lei que continham os Dez Pronunciamentos Divinos (comumente chamados de Dez Mandamentos). Finalmente, celebra-se Yom Kipur no 10o dia de Tishrei, por ter sido o dia em que Moshé retornou, novamente, do Monte Sinai, portando um novo conjunto de Tábuas, indicando que D’us perdoara o povo pelo pecado do bezerro de ouro.

A única festividade no calendário judaico que parece estar fora de lugar – cuja data é, aparentemente, inexplicável – é Sucot. Por que razão essa festa se inicia cinco dias depois de Yom Kipur, em 15 de Tishrei? Qual a razão para não ser comemorada entre Pessach e Shavuot? Afinal, a proteção Divina ao Povo Judeu ao longo de sua jornada pelo deserto – tema principal da festa de Sucot – teve início imediatamente após o Êxodo do Egito. Faria mais sentido celebrar Sucot logo após Pessach – e não após Yom Kipur. Então, afinal, qual é a razão para isso?

A Construção do Mishkan

Uma das razões para o primeiro dia de Sucot cair no dia 15 de Tishrei é porque essa festa não celebra apenas um fenômeno que se estendeu por 40 anos – fossem as Nuvens de Glória que protegeram o Povo de Israel ou as cabanas em que viveram durante seus anos no deserto. Sucot celebra também um evento específico na História Judaica, que ocorreu cinco dias após o primeiro Yom Kipur, que foi quando nossos antepassados foram perdoados pelo pecado do bezerro de ouro. Esse evento, de profundo significado, foi a construção do Mishkan – o Tabernáculo – que foi o antecessor do Templo Sagrado de Jerusalém.

De acordo com o Gaon de Vilna, os judeus começaram a construir o Mishkan cinco dias após Yom Kipur, em 15 de Tishrei, primeiro dia de Sucot. Essa festividade, portanto, também comemora a construção do Tabernáculo, que era a Morada Divina na Terra. Essa é uma das razões para que o principal mandamento da festa de Sucot, como seu próprio nome indica, é a obrigação de habitar na sucá – símbolo do Mishkan.

Há vários paralelos irrefutáveis entre a sucá e o Mishkan. Uma das características que definem o Tabernáculo é o fato de ser uma estrutura temporária. A Torá descreve como foi desmontado e depois novamente montado para acompanhar os Filhos de Israel em sua jornada pela vastidão do deserto. A Torá se refere ao Mishkan como Ohel Moed – uma Tenda de Reunião, diferentemente de sua contraparte equivalente, o Beit HaMikdash (literalmente, a Casa de Santidade) – o Templo Sagrado. Apesar de sua magnificência, o Tabernáculo, diferentemente do Templo Sagrado de Jerusalém, era uma estrutura temporária: é mesmo chamado de Ohel (tenda), e não de Bait (casa).

A sucá, por sua vez, também é uma estrutura temporária. Como nos ensina o Talmud, se uma sucá é muito permanente, ela é inválida, não se presta a seu propósito. E mais, a sucá é uma estrutura temporária pelo fato de que o mandamento de morar nessa cabanasomente se aplica durante os dias da festa de Sucot. Outro paralelo interessante entre Sucot e a construção do Mishkan é o fato dessa festa de sete dias ser seguida por outra, Shemini Atzeret – o “Oitavo Dia de Assembleia”. Shemini Atzeret é uma festividade independente, mas, de certa forma, também é uma continuação de Sucot. (Nesse dia também fazemos as refeições na sucá). A sequência dessas duas festas – Sucot, com seus sete dias, seguida de Shemini Atzeret, de um dia – é uma reminiscência da cerimônia de inauguração do Mishkan, que durou sete dias e foi seguida pelo oitavo, chamado de Yom HaShemini, o “Oitavo Dia” (Levítico, capítulo 9).

A ideia de que Sucot comemora a construção do Mishkan dá origem a uma pergunta: por que razão essa estrutura física foi tão significativa ao ponto de merecer uma festividade judaica só para si, tornando-se parte de nossa recordação dos eventos ocorridos durante o primeiro ano dos Filhos de Israel no deserto? Uma das respostas é que o Mishkan foi a expressão mais potente do arrependimento judaico e, consequentemente, do perdão Divino pelo pecado do bezerro de ouro. O Mishkan foi a antítese e o antídoto do bezerro de ouro.

De que forma a construção do Tabernáculo serviu de expiação para essa grave transgressão? Para erigir a estátua do bezerro de ouro, os homens do Povo Judeu – à exceção da tribo de Levi – e não as mulheres, doaram ouro, prata e joias. A construção do Mishkan foi o supremo Tikun – um reparo espiritual – para o bezerro de ouro porque deu aos Filhos de Israel outra oportunidade de contribuir com sua riqueza – dessa vez não para erguer a estátua de um ídolo, mas uma Morada para a Divindade Única e Suprema, antítese da idolatria. O Mishkan foi o veículo ideal para que o Altíssimo indicasse ter perdoado o povo pela idolatria praticada – sinal de rejeição a D’us –, pois o propósito principal do Tabernáculo era que a Divina Presença morasse em meio ao Povo Judeu, como está expresso na Torá: “E Me farão um Santuário e morarei entre eles” (Êxodo, 25:8).

O pecado do bezerro de ouro havia criado um abismo entre D’us e Seu Povo. No Yom Kipur daquele ano, quando Moshéretornou do Monte Sinai trazendo consigo um segundo jogo de Tábuas, foi o sinal de que D’us havia perdoado o Povo Judeu. No entanto, o perdão Divino, em sua profundeza e plenitude, foi transmitido com a ordem Divina de construir o Mishkan, pois aquela foi a maneira com que D’us disse aos Filhos de Israel: Não apenas os perdoo, mas estou restaurando nosso relacionamento de volta à intimidade intensa e pura que desfrutava antes de seu grave pecado.

Podemos agora entender por que razão a festa de Sucot é celebrada poucos dias após Yom Kipur. Esse que é o dia mais sagrado do ano marca o dia em que D’us perdoou o Povo Judeu por seu pecado e renovou Seu pacto com eles, como simbolizam as novas Tábuas. O fato de a Providência Divina escolher essa data específica para o perdão ao nosso povo por um pecado de gritante idolatria indica que o dia 10 de Tishrei é uma data auspiciosa para se pedir e obter o perdão Divino. Em cada Yom Kipur, oramos para que, assim como D’us perdoou nossos antepassados pelo pecado do bezerro de ouro, Ele também nos perdoe pelos pecados e transgressões que cometemos contra Ele. Nada mais adequado do que celebrar Sucot poucos dias após o Dia do Perdão. Colocar Sucot logo a seguir de Yom Kipur é a forma em que D’us nos indica que Seu perdão é profundo e genuíno. Essa mensagem é plenamente expressa pelo fato de que, como ensina o Talmud, a Shechiná, a Presença Divina, habita em cada uma das sucás, assim como habitou no Mishkan. Durante os dias de Sucot, cada sucá serve a um propósito semelhante ao do Mishkan: é uma morada física que abriga a Presença Divina.

Portanto, não surpreende o fato de haver uma tradição que recomenda que se comece a construir a sucá na noite em que termina Yom Kipur. Fazendo-o demonstramos a sinceridade de nosso arrependimento e a confiança em que D’us habitará entre nós, após ter perdoado nossos pecados em Yom Kipur.

Uma das expressões mais fortes do fato de que a sucá simboliza o perdão Divino e Sua proximidade a nós é a altura mínima que tem de ter para que seja válida. A Mishná (Tratado Sucá, 4b-5a) ensina que, para ser válida, a sucá deve ter, no mínimo, 10 tefachim de altura (um tefach equivale a 8-10 cm). O Talmud explica a razão: a sucá deve ter no mínimo esses 10 tefachim porque a Arca Sagrada, que continha as Tábuas dos Dez Pronunciamentos Divinos (os Dez Mandamentos), e que foi colocada na câmara mais sagrada do Mishkan, tinha 10 tefachim de altura. E qual a razão para essa altura? Explica o Talmud: essa é a altura mínima para que a Presença Divina possa Se revelar. Isso porque, apesar de D’us ser, obviamente Onipresente, a Shechiná, Sua Presença Revelada em nosso mundo, não desce abaixo de 10 tefachim a partir do solo. (Esse ensinamento baseia-se em um versículo do Livro dos Salmos: “...mas aos homens Ele entregou a terra” (Salmos, 115:16). A poderosa mensagem que nos é transmitida ao aplicar a altura de, no mínimo, 10 tefachim a uma sucá é que, para ser válida, nossa cabana precisa de uma estrutura sobre a qual a Presença Divina possa descer. Portanto, ao comer e passar o máximo de tempo possível nas cabanasdurante a festa de Sucot, devemos estar conscientes do fato de que estamos recebendo a Shechiná sobre nós.

Caso Sucot comemorasse apenas a proteção Divina sobre os Filhos de Israel ao longo de sua caminhada pelo deserto, faria sentido que a festa caísse logo após Pessach. Mas, ao entendermos que Sucot também celebra a construção do Mishkan, podemos compreender por que razão a festa se inicia em 15 de Tishrei – a data em que nossos antepassados começaram a construir o Tabernáculo. Contudo, há espaço para a pergunta: se Sucot é a celebração do Mishkan, por que a festa se inicia no dia em que o Povo Judeu iniciou sua construção – e não quando foi inaugurado, no 1o dia do mês de Nissan? A resposta é que a sucá, assim como o Mishkan, é o símbolo que captura mais plenamente a mensagem do perdão Divino, tema principal do Yom Kipur. Assim sendo, e de certa forma, a festa de Sucot é uma extensão do Yom Kipur. Pois como ensinam nossos Sábios, o julgamento Celestial iniciado em Rosh Hashaná não termina em Yom Kipur, mas em Hoshaná Rabá – sétimo e último dia de Sucot. Essa festa se inicia poucos dias após Yom Kipur porque o processo de se alcançar o perdão Divino se conclui não ao final de Yom Kipur, mas ao final de Sucot.

A festa de Sucot, cuja essência e propósito ainda não são plenamente compreendidos por tantos judeus, não tem significado menor do que os demais dias sagrados do calendário judaico. Na verdade, Sucot é o ponto culminante de nossa representação anual do primeiro ano do Povo Judeu em sua caminhada pelo deserto – o ano-base, fundamental, de nossos antepassados, que se iniciou com o Êxodo do Egito. O clímax do ano judaico não é a impressionante experiência do Êxodo, celebrada em Pessach. Não é a Revelação Divina comemorada em Shavuot. E tampouco é o perdão Divino que alcançamos em Yom Kipur, dia mais sagrado do ano. O objetivo espiritual do ano ocorre em Sucot, quando construímos e habitamos na sucá – o Mishkan de nosso tempo – uma estrutura que abriga a Shechiná, a Presença Divina, em nosso mundo.

BIBLIOGRAFIA

Why a sukkah? - Dena Freundlich – Times of Israel

https://blogs.timesofisrael.com/why-a-sukkah/

A House in Three Versions – Yanki Tauber – Chabad.org

https://www.chabad.org/parshah/article_cdo/aid/638675/jewish/A-House-In-Three-Versions.html