Assim, no primeiro dia da festividade de Sucot, cada pessoa deve adquirir para si as “Quatro espécies” (em hebraico, Arbaá Minim) – um etrog (fruta citríca), o lulav (ramo de palmeira), o hadás (ramo de mirta) e os aravot (ramos de salgueiro). As qua

Assim, no primeiro dia da festividade de Sucot, cada pessoa deve adquirir para si as “Quatro espécies” (em hebraico, Arbaá Minim) – um etrog (fruta citríca), o lulav (ramo de palmeira), o hadás (ramo de mirta) e os aravot (ramos de salgueiro). As quatro espécies usadas para cumprir este mandamento prescrito pelo Todo-Poderoso são, em essência, a representação simbólica de tudo o que D’us criou para o homem.

De acordo com nossos sábios, o fruto da árvore descrita no texto em hebraico como sendo a do hadar, a árvore formosa, é o etrog, uma espécie de fruta cítrica doce e aromática. É uma fruta especial, pois a árvore na qual brota tem o mesmo sabor que seu fruto. Por ser uma fruta que se reproduz o ano inteiro, simboliza também a fertilidade. Cheiroso e fértil, o etrog representa o judeu completo, que conhece a Torá e cumpre as mitzvot. O Midrash diz que assim como este fruto tem gosto e fragrância, assim existem no seio de Israel homens que são ao mesmo tempo instruídos e devotos.

A Torá se refere a Sucot como “a época de nossa alegria“, quando celebramos a generosidade e a proteção que D’us dispensa a seu povo. Entre os mandamentos desta festa estão a obrigação de fazer as bênçãos sobre as Quatro Espécies todos os dias, com exceção do Shabat e a construção de uma sucá, na qual todo judeu deve dormir e fazer as refeições, todos os dias. Nossos sábios afirmam que são reservadas bênçãos especiais para todos aqueles que escolhem, unem os quatro tipos de espécies e fazem as orações sobre as mesmas. Com exceção do etrog, as três outras espé-cies – todos ramos de plantas– são amarradas juntos por anéis feitos de fibra de palma trançada. Segurando os ramos na mão direita e o etrog na mão esquerda, as Quatro Espécies são agitadas para as seis direções do espaço: nas quatro direções do quadrante, para cima e para baixo. Com isto está-se reconhecendo que D’us se encontra em toda parte e que Seu reinado é eterno. 

Através dos séculos, a cada Sucot os judeus enfrentam muitas dificuldades para obter o etrog, o “fruto da árvore formosa”. Conta-se que uma renomada família – os Spaniers, de Frankfurt – estiveram durante várias gerações no ramo de importação de etrog da Espanha (origem do nome Spanier). Reinando por 150 anos nesta área, a empresa ganhou o título “The Golden Apple” (A maçã dourada) em homenagem ao negócio. 

Esse comércio de etrog tornou-se tão importante que, na Idade Média, um dos acordos do tratado de paz imposto sobre a República de Pisa-derrotada em 1329 pela Liga Guelph da Toscana (comandada por Florença) – proibiu a família Spanier de continuar seu comércio. Provavelmente Florença e seus aliados pretendiam assumir o próspero mercado com os comerciantes judeus da Alemanha, Áustria e Polônia.

Devido às mudanças econômicas e políticas nos últimos 400 anos, tornou-se cada vez mais difícil obter os etroguim necessários para o cumprimento da mitzvá determinada pela lei judaica. A escassez de etroguim gerou uma ampla discussão sobre o uso do limão enxertado (proibido de acordo com a lei judaica), sobre a origem geográfica do fruto e sobre a definição do que seria uma “árvore formosa”.

No início do século XX, a associacão Fruit of the Goodly Tree foi criada por plantadores judeus de cítricos e avalizada pelo então rabino–chefe de Yaffo, o Ravi Abraham Isaac Kook, para estimular a compra de etroguim na Terra de Israel. No entanto, as guerras, as limitações naturais da oferta e as preferências de alguns grupos não permitiram que Israel se tornasse a única fonte dos etroguim. Atualmente, são cultivados nas ilhas gregas de Creta, Naxos e Corfu; no sul da Itália, nas regiões de Cosenza, Salerno e Potenza; e na Califórnia (EUA), Marrocos, Tunísia, Iêmen e Israel. Nos Estados Unidos, os principais importadores são judeus chassídim. Alguns dos produtos do Norte da África estão longe do ideal dos antigos rabinos de que ambos – fruto e árvore – tinham que ser bons e formosos: esses etroguim são pretos e enrugados. Porém, os chassidim argumentam que a própria falta de beleza da fruta é a prova de sua pureza, pois nenhum fruto enxertado poderia ser tão feio.

Embora a tradicional devoção judaica ao fruto não tenha diminuído ao longo dos séculos, o etrog em si talvez tenha sutilmente mudado de significado. Originalmente visto como um fruto concreto no Levítico e no Talmud, tornou-se para muitos também um ideal. Uma coleção de atributos: o fruto é perfeito; o caule é intacto e o aroma é singular.

Para o judeu, o etrog significa uma árvore enraizada na eternidade, sua criação antecedendo o homem; uma árvore cujos galhos geraram o fruto que, pondo fim à estada do homem no Eden, resultou na vida humana e na história como a conhecemos. 

Segundo o Midrash, o etrog é “o coração do homem”. De acordo com um sábio chassídico, ele seria “a esfera do mundo”. O etrog é um símbolo tanto nacional como universal para o judeu. Sua fragrância estava nas roupas de Jacó quando Itzhak o abençoou, outorgando sobre o povo de Israel, através de Jacó, sua identidade, e o favor de D’us. O etrog lembra a glória do Segundo Templo, quando o instrumento da reza tornou-se a corajosa expressão de um povo que lutava por sua liberdade. Finalmente, o etrog simboliza a continuidade da história judaica e suas aspirações, eliminando as diferenças geográficas das comunidades da diáspora.

Quando toma um ramo de palmeira em uma mão e na outra a verdadeira fruta do etrog, o judeu une-se a uma corrente de íntima associação com seu povo, através de Jacó; através de Adão com a raça humana e, finalmente, através do cumprimento de um lindo mandamento, com seu D’us.

 “E tomareis para vós no primeiro dia,
o fruto de árvore formosa (etrog),
ramos de palmeira e galhos 
de mirta e de salgueiro de ribeiras, 
e vos alegrareis diante do Eterno, 
vosso D’us, por sete dias” 
(Levítico 23:40).