Morashá
Shavuot: 10 Reflexões sobre o Estudo da Torá SEFARIM DA SINAGOGA BEIT YAACOV, SÃO PAULO

Shavuot: 10 Reflexões sobre o Estudo da Torá

A festa de Shavuot, celebrada na Diáspora no 6o e 7o dias do mês judaico de Sivan, é o aniversário da Revelação Divina no Monte Sinai, que ocorreu 50 dias após o Êxodo do Egito. Pela primeira e única vez na História, D’us Se revelou publicamente – a todo o Povo Judeu, 600.000 homens e seus familiares – e proclamou os Asseret HaDibrot (Dez Pronunciamentos), comumente chamados de Dez Mandamentos.

Edição 103 - Abril de 2019


Em homenagem a essa festividade e aos Dez Mandamentos, preparamos 10 reflexões sobre a Torá e seu estudo. Nosso propósito ao compartilhá-las é transmitir ao menos um ínfimo do que a Torá realmente é e, assim, estimular um número máximo de judeus a mergulharem em seu estudo.

1. Por que devemos estudar a Torá.

O estudo da Torá é um mandamento central do Judaísmo. O mandamento de estudar e ensinar Torá é mencionado no Shemá Israel – a proclamação fundamental da fé judaica –, que devemos recitar todas as noites e todas as manhãs. Como diz o Talmud – e isto é parte das preces matinais diárias – o estudo da Torá equivale em importância a todos os demais mandamentos, em conjunto.

Aparentemente, o estudo da Torá é uma atividade religiosa incomum. A maioria das religiões têm expectativas sobre a crença e sobre agir corretamente, mas os seguidores não são obrigados, necessariamente, a estudar seus textos religiosos. Algumas religiões até preferem que seus fiéis não se aprofundem em seus ensinamentos e textos religiosos.

Para o Povo Judeu, no entanto, o estudo da Torá é um mandamento não conectado diretamente com a crença ou a ação. Os textos religiosos mais estudados, como o Talmud, têm pouco uso prático. Por exemplo, vários dos tratados do Talmud são basicamente dedicados ao estudo dos sacrifícios e oferendas executados no Templo Sagrado de Jerusalém. Atualmente, na ausência do Templo Sagrado, tais leis não são relevantes na vida diária de nosso povo.

Por que, então, dedicamos tempo precioso estudando o que aconteceu em tempos remotos e que já não se aplica, hoje? Por que estudamos certas leis e situações que o próprio Talmud afirma nunca terem ocorrido e que nunca hão de ocorrer? Dedicamos tempo e empenho a isso porque o que estamos fazendo é buscar conhecimento por amor ao conhecimento – e não como algo a ser usado. A ideia de estudar pelo amor ao estudo pode parecer peculiar a muitas pessoas. Mas quando se estuda um tema qualquer da Torá, até mesmo o que nos pareça mais irrelevante, está-se na verdade entrando em comunhão com D’us. Sendo assim, não faz muita diferença o assunto que se está estudando, desde que se estude Torá – pelas razões e com o estado de espírito certos.

A ideia de estudar por amor ao estudo sempre foi reverenciada pelo Povo Judeu. Talvez isso explique a longa lista de judeus que já conquistaram o Prêmio Nobel, particularmente nos campos científicos. Quando perguntaram a Isidor Isaac Rabi, vencedor do Nobel de Física em 1944, a que ele atribuía suas conquistas e a láurea recebida, ele respondeu que as atribuía a seus pais. Contou que quando voltava da escola, eles nunca lhe perguntaram o que havia aprendido. Queriam saber: “Você fez uma boa pergunta, hoje?”.

Essa abordagem judaica ao estudo – a preocupação com a pergunta e não com a resposta, e estudar pelo amor ao estudo – parece ser tão antiga quanto nosso próprio povo. Hectaeus, geógrafo grego durante o reinado de Alexandre, o Grande, escreveu sobre países remotos que começavam a ser conhecidos, à época. Observou que ouvira falar de um povo interessante que vivia ao sul da Síria, em que todos eram filósofos. Isto é, faziam perguntas filosóficas e estavam interessados no saber por simples amor ao saber. Esse foi um dos maiores elogios feitos ao Povo Judeu.

Há uma bela tradição de ficar acordado a noite toda, em Shavuot, estudando Torá. Muitas sinagogas promovem aulas ou palestras, mas muitos optam por estudar sozinhos ou com um grupo de amigos. Não importa o texto ou tópico da Torá escolhido. O importante é aprender algo que seja genuinamente Torá e estudá-lo pelos motivos adequados. Pois quando um judeu se senta para estudar Torá, mesmo sozinho, ele entra em comunhão com D’us.

2. A Torá é como um conto dentro de um conto dentro de outro conto.

A palavra Torá tem muitos significados. Uma ampla definição da Torá é a totalidade dos ensinamentos judaicos sagrados. Contudo, a definição precisa e literal da Torá é aquilo que D’us transmitiu a Moshé durante a jornada de 40 anos do Povo Judeu pelo deserto: os Chamishah Chumshei Torá, o Chumash: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

Há uma diferença significativa entre o Chumash e os demais livros da Torá. Todos são sagrados, obviamente. Mas os Cinco Livros são de pura autoria Divina: D’us ditou cada uma de suas letras a Moshé, que apenas as transcreveu – a Torá original que D’us lhe transmitiu, um “fogo negro gravado sobre fogo branco”.

Ao estudar os Cinco Livros da Torá, é da maior importância ter em mente que as letras hebraicas que os compõem, e não apenas seu conteúdo, revelam a Vontade Divina. Essa é uma das características específicas do Chumash, que os diferenciam de todos os demais textos sagrados, como a Mishná e a Guemará (Talmud). Encontra-se a santidade dos Cinco Livros nas próprias letras de seu texto.

Cada letra e símbolo no Chumash pairam como um mistério Divino que aguarda para ser revelado. A combinação das letras nas palavras e frases são a maneira como D’us nos comunica seu significado. Pode-se fazer todo tipo de combinações, em vários níveis, e obter 600.000 revelações diferentes.

Como ensinou Nachmânides, todas as letras dos Cinco Livros da Torá constituem Nomes de D’us. Em outras palavras, o Chumash é um código secreto sagrado: uma lista de Nomes Divinos, que praticamente não têm significado para nós. É como um código secreto dentro de um número infinito de interpretações possíveis; um conto dentro de um conto dentro de um outro conto – e cada um deles igualmente válido e sagrado.

Já foram escritos milhares de comentários e interpretações sobre a primeira porção da Torá, Gênesis, na tentativa de explicar, revelar e decifrar segredos contidos nela. No entanto, o segredo continua inviolável, pois o segredo da Torá é real – e nenhum ser humano pode, de fato, entender completamente os segredos de D’us Infinito.

3. A Torá está em constante expansão.

Diariamente, nas preces matinais, dizemos uma bênção sobre o estudo da Torá, que é a mesma berachá que recitamos quando somos chamados à Torá – e que termina com as seguintes palavras: “Bendito és Tu, Eterno, que nos dás a Torá”. É importante notar que a bênção é dita no presente: “…que nos dás a Torá”, e não ... “que nos deste a Torá”.

Isso nos ensina que a transmissão Divina da Torá não se encerrou com o falecimento de Moshé, ou seja, não é um fato do passado. D’us continua diariamente a nos dar a Sua Torá, que, por sua vez, continua a se constituir e se expandir. A Revelação Divina ocorrida no Monte Sinai, que celebramos em Shavuot, constitui uma revelação contínua que se repete sempre que um judeu estuda a Torá. Como ensina o Pirkei Avot, um tratado da Mishná, D’us nunca parou de proclamar os Dez Mandamentos.

Poucos, ou quiçá nenhum de nós, consegue ouvir a contínua Voz de D’us. O melhor que podemos fazer é estabelecer o relacionamento adequado com a Torá, que se inicia com a percepção de ser o canal por meio do qual D’us se comunica com os seres humanos. Sempre que estudamos a Torá, de certa forma nos tornamos profetas, pois nos abrimos à Voz Divina. Sempre que estudamos a Torá, D’us está falando conosco.

4. O nível de aprofundamento individual no estudo da Torá não é essencial.

Muitas pessoas julgam que o propósito da Torá é o avanço intelectual. Pois não é. O que realmente importa não é o nível em que se estuda – seja o domínio do Talmud inteiro ou um estudo superficial da porção semanal da Torá. O que, sim, conta é o grau de pureza do relacionamento da pessoa com o texto. Ou seja, o importante é a capacidade da pessoa de anular seu ego perante a Torá e, assim, tornar-se um receptáculo para a mesma.

Quem estuda o Talmud inteiro por considerá-lo intelectualmente estimulante – e não como meio de comungar com o Divino -, não fez de seu estudo um ato sagrado, mas sim, uma forma de autogratificação, ainda que refinada. No estudo da Torá, as intenções da pessoa – a que chamamos em hebraico de Kavaná – são o mais importante. O grau de pureza no relacionamento com um texto qualquer da Torá depende da consciência de que se está tratando de algo Divino, que tem a capacidade de forjar uma conexão entre o homem e D’us. Mais vale recitar um único Salmo com essa pureza d’alma do que estudar o Talmud inteiro sem a conscientização de que se está comunicando com D’us.

5. Quem estuda a Torá, cria anjos.

Quando a pessoa estuda Torá, está criando anjos e se torna uma criatura conectada a uma ordem superior de existência.

O pronunciamento das palavras sagradas da Torá muda a realidade. Aliás, o Judaísmo sempre enfatizou o poder extraordinário das palavras. Essa é uma das razões pelas quais a Torá usa a metáfora da fala para descrever a Criação Divina do universo – para nos ensinar que podemos criar ou destruir mundos com nossas palavras. Algumas das maiores mitzvot da Torá são realizadas por meio das palavras, como a oração e o estudo da Torá. Alguns dos maiores pecados também são realizados com palavras, como o maior deles, Lashon Hará, a maledicência.

Como o estudo da Torá cria anjos, é importante não apenas pensar na Torá, mas também enunciar suas palavras ao estudá-la. Devemos falar sobre assuntos de Torá sempre que possível e ensiná-la ao maior número de pessoas. Como ensina o Zohar, obra fundamental da Cabalá: o silêncio é bom em todas as situações, exceto quando se trata da Torá.

6. Quando estudamos Torá, D’us estuda ao nosso lado.

No Pirkei Avot, um dos tratados da Mishná, há uma afirmação de que uma hora de felicidade no Mundo Vindouro é melhor do que toda a vida e os prazeres deste nosso mundo. Tal crença pode ser profundamente satisfatória para o ardor místico de muitos. No entanto, o Pirkei Avot traz um outro ensinamento imediatamente a seguir, que parece afirmar exatamente o contrário: este diz que uma hora de teshuvá e boas ações neste nosso mundo valem mais do que uma vida inteira no Mundo Vindouro.

Nossos Sábios explicam o significado dessa aparente contradição. O Mundo Vindouro é um lugar de prazeres e tranquilidade incomparáveis a qualquer coisa existente em nosso mundo. Nem se trata de uma questão de intensidade; simplesmente não há comparação. Contudo, neste mundo, temos algo que nenhum outro mundo, nem o Vindouro, contém. Podemos entrar em comunhão direta com D’us por meio de Sua Torá. O Talmud nos ensina que quando estudamos Torá, D’us estuda ao nosso lado. Quando um judeu recita as palavras da Torá, D’us as repete, duplicando-as. Mesmo que seja uma criança a estudar a Torá, ela tem D’us ao seu lado, repetindo cada uma de suas palavras.

7. A Torá desce até nós, para que nós, mortais, possamos compreendê-la.

Uma pessoa pode usar a Torá como “ponte” para chegar a D’us. Mas a Torá é muito mais do que isso. Ela é a Sabedoria Divina, o veículo perfeito de comunicação entre o homem e D’us.

No entanto, há um problema no fato de a Torá ser Sabedoria Divina. Em sua origem, ela é inacessível aos seres humanos. Assim como D’us Infinito não pode ser entendido pela mente humana finita, a Torá, em sua origem, está além da compreensão dos mortais. Portanto, é preciso que desça, nível a nível, para ser absorvida pela mente de cada um de nós, até pelas crianças. Ao estudar Torá, devemos lembrar que até os textos mais avançados e complexos – seja uma passagem mística do Zohar ou uma discussão muito técnica do Talmud – representam uma descida. Se a Torá chegasse à Terra da forma como se encontra nos Céus, seria totalmente incompreensível a nós, simples mortais.

Como ilustração, consideremos o computador. Em seus níveis mais altos, sua teoria e detalhamentos são tão complexos que apenas as mentes mais especializadas conseguem entendê-lo. Em níveis mais baixos, quase todos podem aprender a usá-lo. Até as crianças que ainda não sabem ler sabem usar algumas de suas funções.

Essa analogia ajuda a explicar o fenômeno da Torá descer nível por nível de modo a permitir que todos nós possamos entrar em contato com ela. Em seus níveis mais elevados, nenhum ser humano seria capaz de entendê-la. Mas a Torá veio até nós, na Terra, de uma forma que nos permite estudá-la. D’us escreveu o Chumash em linguagem simples, trazendo histórias e leis que mesmo uma criança pequena possa compreender.

8. Estudar Torá pelo mérito do estudo da Torá.

Há pessoas que estudam Torá para absorver sua sabedoria ou para usá-la para algum propósito prático ou idealista. Outros estudam-na para tirar boa nota na escola ou por razões profissionais – querem ser professores ou rabinos. Outros, ainda, a estudam para conquistar o respeito de seus colegas ou para melhorar suas perspectivas de casamento, já que um grande conhecimento de Torá é extremamente admirado em círculos religiosos. E, naturalmente, há muitas outras razões para o grande número de pessoas que estudam a Torá.

Quem estuda Torá pensando em benefício próprio não está estudando Torá Lishmá – estudar Torá pelo amor a D’us e à própria Torá. A Torá não serve como comunhão entre o homem e D’us se é estudada por motivos egoístas.

Quem se envolve adequadamente com a Torá permite que o estudo dissemine o esplendor e júbilo Divinos de modo a servir de canal em direção à Luz Divina. Isso se consegue estudando a Torá por seu próprio mérito, ou seja, sem qualquer outro propósito.

9. O tremendo poder do estudo da Torá.

Se estivéssemos conscientes do tremendo poder da Torá, seria praticamente impossível concentrar nossa atenção em seu estudo. Ficaríamos, de fato, totalmente subjugados pela experiência.

Ironicamente, nossa simplicidade de espírito e pouca sensibilidade espiritual – não atentando para o que ocorre ao estudar Torá – é o que nos protege. É o que nos permite estudar textos da Torá sem ser consumidos pelos mesmos.

Há um conto que ilustra esse conceito. Um rei ordenou a confecção de uma coroa especial, fornecendo joias extremamente valiosas para tal. O mestre-joalheiro fez a estrutura, mas quando tentou cravar as valiosas pedras, sentiu suas mãos tremerem de ansiedade, temendo que algo pudesse dar errado. Chamou, então, uma pessoa simples que não fazia ideia do valor daquelas gemas. E esse ajudante conseguiu cravar as pedras e terminar o trabalho sem problema algum – sem ansiedade alguma, pois não fazia ideia de que tinha em mãos gemas da Coroa pertencentes ao rei.

Da mesma maneira, alguém que não conhece o tremendo poder e santidade da Torá consegue estudá-la sem se sentir dominado ou obcecado por ela.

10. Estudamos Torá para nos aproximarmos ao máximo do Todo Poderoso.

É um grave erro considerar a Torá uma simples fonte de conhecimento. Estudá-la como se estudaria um livro de literatura ou história, ou estudar o Talmud para aguçar a mente, constitui um ato de blasfêmia. Quem não honra a santidade e Divindade da Torá a está desrespeitando – e há poucos pecados mais graves do que desonrar a Torá.

Quando estudamos qualquer livro, qualquer assunto que não seja Torá, estamos buscando conhecimento, inspiração, entretenimento ou mesmo sabedoria. Mas quando estudamos a Torá, estamos em comunhão direta com o Todo Poderoso. Tudo o que adquirimos com esse estudo – se nos tornamos mais sábios, mais cultos ou mais justos – tudo isso é secundário. O que tem importância máxima é que quando um judeu estuda a Torá, ele e D’us estão conversando.

Diz o Zohar que os judeus estão conectados com a Torá e a Torá está conectada a D’us. Sendo assim, a Torá é a conexão do Povo Judeu com D’us. Quando mergulhamos na Torá, não é apenas para pesquisarmos o passado ancestral de nosso povo ou para estudar como cumprir os Mandamentos Divinos. Ademais, não se deve estudar Torá apenas para cumprir o mandamento de estudá-la. Envolver-se com a Torá é um fim em si; o estudo da Torá é a maior proximidade ao Todo Poderoso que o ser humano pode conquistar.

BIBLIOGRAFIA

Pebbles of Wisdom from Rabbi Adin Steinsaltz – Collected and with Notes by Arthur Kurzweil – Jossey-Bass

Rabbi Adin Even Israel Steinsaltz – Curious Jews – The Times of Israel - https://blogs.timesofisrael.com/curious-jews/