Morashá
Rabino Lorde Jonathan Sacks Zt"l COM A RAINHA ELIZABETH II

Rabino Lorde Jonathan Sacks Zt"l

O Rabino Lorde Jonathan Sacks deixou este mundo no Shabat, 7 de novembro deste ano de 2020. O Judaísmo e Israel perderam uma de suas vozes mais poderosas. Um dos grandes pensadores de nosso tempo, foi um embaixador global dos judeus. Era uma voz moral para todos os povos, uma voz que inspirava judeus e não judeus, com igual paixão. Ele representava o que há de melhor nos seres humanos.

Edição 109 - Dezembro de 2020


Rabino-chefe do Reino Unido durante 22 anos, o Rabi Lorde Jonathan Sacks Zt”l foi um defensor feroz de Israel e do Povo Judeu. O Rabino Sacks, como era simplesmente conhecido, descrevia o Judaísmo como uma fortalecedora tradição de esperança e fé radical na liberdade dos homens. Preconizava a tolerância religiosa e social e foi grandemente influenciado pelo Lubavitcher Rebbe, Menachem Mendel Schneerson, que lhe ensinou a importância de partilhar lições da fé judaica não apenas com os judeus, mas com toda a humanidade. E, como o Rebe, também acreditava na compatibilidade da ciência com a religião.

Rabi Sacks era um homem de muitos talentos e de uma mente brilhante, privilegiada. Era um escritor prolífico e perspicaz e um orador eloquente e carismático, que, por décadas, levou a público uma percepção espiritual do Judaísmo. Ele era a combinação ideal de um grande comunicador com um pensador original. Escreveu mais de 30 livros e centenas de artigos, além de ter presença constante tanto na mídia impressa quanto no rádio e na televisão, em seu país e no mundo afora. Transmitia a sabedoria judaica em um programa regular, que produzia para a BBC, antes de Pessach e das Grandes Festas. Foi um dos primeiros líderes religiosos a ter um website. Seu intuito não era apenas oferecer um vasto conteúdo religioso, queria tornar conhecidas as suas posições sobre questões e eventos mundiais.

Um defensor vocal contra o antissemitismo e o antissionismo, era também um apoiador apaixonado da educação acerca do Holocausto. Acreditava ser nossa obrigação sempre recordar esse terrível período de nossa história. Pouquíssimos intelectuais judeus e não judeus de nossa geração poderiam competir com seu conhecimento. E, devido à sua extensa e abrangente instrução judaica e secular, o Rabino Sacks tinha as ferramentas para debater com qualquer oponente do Judaísmo e de Israel. Seus encontros com o famoso biólogo evolutivo ateu, Richard Dawkins, viraram debates públicos transmitidos pelo rádio e televisão.

Após deixar, em 2013, a posição de Rabino-chefe das Comunidades Judaicas Unidas da Grã-Bretanha e da Commonwealth, que ocupava desde 1991, o Rabino teve mais tempo de visitar as diferentes comunidades e dar palestras. A comunidade judaica de São Paulo teve o privilégio de ouvir suas eloquentes palavras em março de 2013, quando a visitou a convite do Instituto Morashá de Cultura, com o apoio da Fundação Safra. Ele falou perante jovens e adultos, na sinagoga Beit Yaacov e em várias outras e na Escola Beit Yaacov. Quem o viu ou ouviu em uma dessas ocasiões não esquecerá sua inteligência, autoconfiança e senso de humor. Na ocasião, concedeu a Morashá uma entrevista exclusiva que pode ser acessada em nosso website.

Enquanto serviu como Rabino-chefe, ele se tornou conselheiro pessoal de primeiros-ministros e membros da família real. Em 2005, no 79º aniversário de Sua Majestade a Rainha da Inglaterra Elizabeth II, ele recebeu, das mãos da Rainha a comenda de KBE, Cavaleiro-Comendador do Império Britânico, com o título de Sir. Em 2009 foi condecorado com um título vitalício de nobreza, tornando-se um Par Vitalício, e tomou assento na Câmara dos Lordes em outubro de 2009.

O Rabino Sacks manteve relacionamento muito próximo com o Príncipe Charles e com o Arcebispo de Canterbury, entre tantas outras figuras importantes. Tony Blair, ex-Premiê britânico, era um amigo íntimo com o qual costumava estudar a Bíblia judaica.

O alcance de sua personalidade transpôs as fronteiras do Reino Unido, tendo contribuído com alguns discursos do ex-Presidente Bill Clinton, dos EUA. Em 2018, o Vice-Presidente americano Mike Pence pediu sua ajuda quando preparava seu discurso para falar no Knesset. E, Gordon Brown, ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido, escreveu o prefácio de um de seus livros. Ademais, ele se reuniu com personalidades do mundo todo. E, em certa ocasião, o Rabino Sacks foi até Amã, para se reunir com o rei Hussein e seu irmão, o príncipe Hassan, em uma tentativa de unir judeus e muçulmanos no Oriente Médio.

A atuação e os pensamento do Rabino Lorde Sacks têm sido tema de milhares de artigos, mas ele sempre manteve sua vida pessoal e familiar longe dos holofotes da mídia. Por vezes revelou, em suas entrevistas e discursos, certos episódios de sua vida, que resumimos a seguir para os leitores.

Sua família

Jonathan Henry Sacks, o mais velho de quatro irmãos, nasceu em 8 de março de 1948, em Lambeth, bairro ao sul de Londres. Sua mãe, Louisa, “Libby” para a família, trabalhava no negócio de vinhos de sua família e, durante o bombardeio alemão de Londres, na 2ª Guerra Mundial, dirigiu ambulâncias. O pai dele, Louis, viera da Polônia, ainda criança e vendia roupas no mercado da Petticoat Lane. Homem inteligente, Louis não teve educação formal judaica nem secular, pois começou a trabalhar aos 14 anos para ajudar em casa.

O Rabino Lord Sacks descrevia sua família como muito feliz: “Eu tinha, em meus pais, personalidades completamente opostas. Meu pai preferia perder um amigo a comprometer um de seus princípios; e minha mãe mantinha todos os amigos que papai perdia”.

Seus pais eram ortodoxos “moderados”, interpretando as palavras do Rabino. Como ele escreveu, em certa ocasião: “A princípio, quando era muito pequeno, achava D’us um mistério. Nos três primeiros anos de minha vida, morávamos com meus avós maternos... em Finsbury Park, ao norte de Londres. Meu avô não exercia a função de rabino, mas tinha sua própria sinagoga, um shtiebel, e os serviços religiosos fazem parte de minhas primeiras lembranças. Já o meu bisavô materno era o Rabino Arye Leib Frumkin, rabino e sionista que emigrou para Israel em 1883 e foi um dos fundadores da cidade de Petach Tikva”.

Formação acadêmica e religiosa

Em criança, o Rabino Sacks não frequentou escolas judaicas, mas ao se tornar Rabino-chefe foi um de seus mais ferrenhos defensores. Sabia por experiência própria o tipo de dificuldades que um aluno judeu passava estudando numa escola não judaica. Aluno brilhante, foi admitido na Universidade de Cambridge para cursar Filosofia. Era o primeiro de sua família a cursar o ensino superior. “Quando se iniciava cada semestre, minha mãe sempre dizia, ‘Jonathan, não abra mão de seu Judaísmo’”.

Como ocorreu com muitos outros judeus pelo mundo, a Guerra dos Seis Dias mudou sua percepção sobre Israel e o Povo Judeu. Ele costumava descrever alunos e professores judeus reunidos na sinagoga, em Cambridge, orando por Israel e colados no rádio para ouvir as notícias como se suas próprias vidas estivessem em jogo. “Aqueles dias plantaram uma semente em minha mente que nunca mais me abandonou e criaram uma responsabilidade pelo povo e nação judaica que também nunca mais me abandonou”. Logo depois, ele se torna presidente da Sociedade Judaica da Universidade de Cambridge (CUJS).

No ano seguinte, ainda estudando em Cambridge, ele avistou Elaine Taylor, sua futura esposa, no pátio do King’s College. “Ela irradiava alegria”, contou em uma entrevista. Ele costumava dizer que ela era “alegre, positiva, sempre buscando o lado bom das pessoas... ela é o fiel da balança, em tudo. Quando eu passava por momentos difíceis, como Rabino-chefe, encontrava nela a estabilidade”. E para Elaine, também, “foi amor à primeira vista”. O Rabino conta: “Acho que me levou três semanas para lhe propor casamento e me arrependo profundamente de ter levado tanto tempo. Comprei um anel na Woolworths e lhe fiz o pedido em pleno Oxford Circus. Nunca tive a menor dúvida”. Eles se casaram dois anos depois.

Nunca lhe passou pela cabeça ser rabino; pensava que seria contabilista. Mas, em 1968, decidiu ir aos Estados Unidos. Ele estava estudando filosofia “em uma época em que ser filósofo e ter fé em uma religião era algo que, na Grã-Bretanha, parecia quase uma contradição”. Então naquelas férias de verão ele foi aos Estados Unidos para ver se podia encontrar-se com os principais rabinos e intelectuais, para saber deles como conseguiam se digladiar com os problemas que ele estava enfrentando. Desde o princípio, muitos daqueles com quem ele se reuniu falavam do Rebe de Lubavitch, que “já assumira uma estatura quase lendária”, repetindo suas palavras.

Não foi fácil conseguir uma hora com o Rebe. Quando Sacks chegou no número 770 da Eastern Parkway, no Brooklyn, para vê-lo, foi alertado de que seria praticamente impossível conseguir uma hora. Ele insistiu e deixou um telefone onde podia ser localizado. Quando recebeu a notícia de que o Rebe o receberia, estava em Los Angeles, visitando uma tia. Imediatamente pegou um ônibus e viajou 72 horas de volta para Nova York. No encontro, após uma “conversa intelectual e filosófica”, o Rebe lhe perguntou quantos estudantes judeus havia em Cambridge, quantos estavam envolvidos com a vida judaica e o que ele pessoalmente estava fazendo para atrair mais judeus. Ele começou a responder: “Na situação em que me encontro…”, mas o Rebe interrompeu-o no meio da frase, dizendo: “Ninguém se encontra em uma situação; você se coloca em uma situação e, assim sendo, pode facilmente se colocar em outra”.

Durante essa estada nos EUA, ele também se reuniu com o Rabino Joseph N. Soloveitchik, conhecido como “o Rav”. E resume, assim, a influência de ambos, os grandes Rebe e Rav, sobre sua pessoa: “Enquanto o Rav me levou a ser um pensador, o Rebbe me desafiou a ser um líder. Esses dois encontros mudaram a minha vida...”.

De volta à Inglaterra, o Rabino Sacks continuou seus estudos e, no ano seguinte, 1969, tirou o título de Bacharel em Filosofia. Logo após, embarcou para Israel para estudar na Ieshivá de Kfar Chabad. Até então, ele não tivera educação judaica formal alguma.

No ano seguinte, 1970, ao voltar à capital inglesa, casa-se com Elaine, com quem viveu feliz até o último dia de sua vida. Continuou seus estudos seculares na Universidade de Oxford, obtendo em 1972 o mestrado em Filosofia. Enquanto trabalhava em sua tese de doutorado, passou a lecionar Filosofia. Em 1973, o casal teve seu primeiro filho, Joshua, tendo mais duas filhas, Dina e Gila, posteriormente.

Rabi Sacks jamais se esqueceu das palavras do Rebe, “seja um líder”, e naquele mesmo ano de 1973 começou a estudar para o rabinato. Em 1976, após cursar o Jews’ College (hoje, Escola de Estudos Judaicos), de Londres, e a Ieshivá Etz Chaim, recebeu sua Smichá, a ordenação rabínica. E decidiu que era tempo de retomar sua vida profissional.

Cinco anos mais tarde, o Rabi Sacks viu-se diante de um dilema profissional: tornar-se professor, economista ou advogado. Novamente consultou o Lubavitcher Rebbe, em NY, que foi categórico em sua resposta: “Nenhuma das três opções.

O Judaísmo inglês está carente de líderes religiosos e cabe a você preparar futuros rabinos e assumir o púlpito de uma congregação”. E ele seguiu o conselho do Rebe. Naquele mesmo ano de 1978, tornou-se rabino da Sinagoga Golders Green, em Londres, onde ficou até 1983, quando assumiu o posto na Sinagoga de Marble Arch, também na capital inglesa, lá permanecendo até 1990.

Suas funções como rabino não o impediram de obter, em 1981, o doutorado no renomado Kings’ College de Londres. Tampouco de ensinar, tornando-se professor no Jews’ College e, em 1984, assumindo a direção da respeitada instituição – onde permaneceu até ser nomeado Rabino-chefe. Ele ocupou cátedras na Universidade de Londres e de Manchester, e o cargo de Professor Visitante em outras prestigiosas universidades do Reino Unido, Estados Unidos e Israel. No decorrer dos anos recebeu 18 títulos de Doutor Honoris Causa, incluindo ainda o de Doutor em Divindade, conferido pelo Arcebispo de Canterbury à época, Lord Carey.

Rabino-chefe das Congregações Judaicas Unidas

Quando o então Rabino-chefe das Congregações Judaicas Unidas da Commonwealth, Rabino Lord Immanuel Jakobovits, ia deixar o cargo, não havia dúvida entre as lideranças comunitárias que o melhor candidato para o suceder era o Rabino Jonathan Sacks.

O Rabino Sacks era único. Vinha de uma origem muito diferente da de seu antecessor – não de uma longa linhagem de rabinos – e tivera uma robusta formação secular. Era filósofo e acadêmico e um orador envolvente que falava um belo inglês. Ademais, entendia a complexidade de ser um judeu da diáspora. A princípio, o Rabino Sacks relutou em aceitar o cargo, e escreveu ao Rebe pedindo seu conselho. A resposta foi simples: “Aceite”.

Em 1º de setembro de 1991, aos 43 anos de idade, Jonathan Henry Sacks se torna o Rabino-chefe das Congregações Judaicas Unidas, uma das posições mais destacadas do Judaísmo europeu. Era o sexto líder espiritual a desempenhar a função de Rabino-chefe, cargo criado em 1845, e a pessoa mais jovem a exercê-lo. Ele era o grão-rabino das congregações ortodoxas, mas não das liberais e tampouco das ultraortodoxas. Serviu por 22 anos, até 2013, durante o mandato de quatro primeiros-ministros: John Major, Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron.

Década de Renovação Judaica

Após assumir o cargo, em 1991, Rabi Sacks empenhou-se em revitalizar a comunidade judaica do Reino Unido, num programa que intitulou de “Década da Renovação Judaica”. A comunidade judaica encolhia a olhos vistos em virtude da assimilação, emigração e baixa taxa de natalidade, perdendo também sua influência na sociedade maior. Uma das preocupações do Rabino Sacks era que “os judeus britânicos estivessem perdendo, gradualmente, sua identidade judaica, o sentido da família judaica e, sobretudo, seu comprometimento com a Torá...”.

O programa que instituiu baseava-se em cinco valores centrais: “o amor a cada judeu, o amor ao estudo judaico, o amor a D’us, uma profunda contribuição à sociedade britânica e uma inequívoca ligação com Israel”. Na década seguinte, o programa priorizou a juventude, as mulheres e as pequenas comunidades da Grã-Bretanha, e acima de tudo, empenhava-se em despertar o interesse da juventude em relação à sua herança judaica.

“Quando assumi o cargo de Rabino-chefe, falava de uma década de renovação judaica. Hoje, temos uma comunidade mais jovem e mais instruída do que no passado. Abrimos mais escolas judaicas do que em qualquer outro período da história anglo-judaica. Nossos serviços religiosos eram entediantes e agora são vibrantes, engajadores e participativos”, disse o Rabino posteriormente. Em 1993, 25% das crianças da comunidade estudavam em escolas judaicas; em 2005, este índice havia subido para 63%.

Em certa ocasião Rabi Sacks revelou que a nomeação afetara sua vida particular. “Aquilo mudou, instantaneamente, a vida de nossa família.... Viajava muito e estava sempre pensando em meu próximo discurso. Eu sentia que era um pouco ausente… Não é fácil ser filho de uma pessoa pública, mas minha esposa Elaine foi a fonte de força e confiança que nossos três filhos necessitavam. Mas éramos uma família muito unida e as noites de sexta-feira, Erev Shabat, eram momentos familiares sagrados...”.

Durante sua primeira década como Rabino-chefe, seu pai faleceu, em 1996. “Senti-me muito deprimido ao perder meu pai. Ele foi um homem que não teve muita sorte na vida. Na minha posse como Rabino-chefe eu o fiz abrir a Arca Sagrada, o Aron haKodesh, e pensei: ‘Eu o fiz por você, pai, para que você pudesse levantar bem alto a sua cabeça’. Uma forte depressão tomou conta de mim durou dois anos, até que escrevi um livro intitulado Celebrando a Vida. As coisas que acontecem em nossa própria vida são o que mais fundo nos tocam”.

No ano 2000, Rabi Sacks foi nomeado presidente-associado da Conferência de Rabinos Europeus. E, no ano seguinte, ele inicia sua segunda década no cargo de Rabino-chefe com um apelo à “Responsabilidade Judaica” e um renovado comprometimento com a dimensão ética do Judaísmo. Escreveu sobre isso em seu livro de 2005, To Heal a Fractured World: The Ethics of Responsibility (Como Curar um Mundo Fraturado: A Ética da Responsabilidade, em tradução livre).

Cavaleiro do Império Britânico e Membro da House of the Lords

Como vimos acima, em 2005, a Rainha Elizabeth II da Grã-Bretanha condecorou-o como Cavaleiro por seus serviços à comunidade judaica e às relações inter-religiosas, dando-lhe o título de Sir até que, em 2009, ele foi alçado a Câmara dos Lordes, com o título vitalício de Lorde.

Por ocasião de sua condecoração, sua mulher, sua mãe e sua sogra, o acompanharam ao Palácio de Buckingham: “Para nós, judeus, o mais importante é se esforçar dar orgulho à sua família. Para mim isso é algo de suma importância”, explicou.

Elevado a Par Vitalício do Reino, tomou assento na Casa dos Lordes em outubro de 2009, como membro apartidário, sob o título de Barão Sacks de Aldgate, na Cidade de Londres. Ele escolheu “Aldgate” para seu título de nobreza como tributo à sua origem. Explicando por que escolhera o nome do distrito de East End, em Londres, o Rabino Sacks declarou: “Meu falecido pai vendia roupas na Commercial Road e minha avó dirigia a loja Frumkins de vinhos, nessa região. Quis me lembrar de minhas raízes. Era lá que eu os ajudava, bem pequeno, e de onde provêm minhas lembranças mais antigas”.

O distrito de Aldgate também é relacionado com o gabinete do Rabinato-chefe, pois a Grande Sinagoga, na Duke’s Place, era a sede do Rabinato até ser destruída na 2ª Guerra Mundial.

A saída do Rabinato-chefe

O Rabino Sacks era vegetariano, corria diariamente, e gostava de música clássica. “Sinto-me, às vezes, muito deprimido pela dificuldade das tarefas que me impus, e quando entro em uma depressão temporária, a música me reanima e me permite voltar à luta deste mundo”.

Após 22 anos no cargo, o Rabino Lorde Sacks decidiu que era hora de deixar o posto de Rabino-chefe. Queria mais tempo para ensinar, levar suas mensagens pelo mundo afora, escrever. Enquanto estava à frente do Rabinato-chefe ele escreveu um livro a cada ano: “Anos atrás, fiz uma lista dos livros que julgava ter que escrever – não porque quisesse escrevê-los, mas porque eles ainda não haviam sido escritos e precisavam sê-lo ...”.

Seus livros tratam de prementes questões políticas e sociais, do papel da fé na idade moderna e de como curar um mundo fraturado. Escreveu sobre tolerância e extremismo, alertando sempre sobre a violência praticada em nome de D’us. Em um de seus livros mais recentes, Not in God’s Name: Confronting Religious Violence (Não em Nome de D’us: Confrontando a Violência Religiosa), o Rabino Sacks escreve: “Muito frequentemente na história da religião, as pessoas mataram em nome do D’us da Vida, guerrearam em nome do D’us da Paz, odiaram em nome do D’us da Compaixão. Quando isso acontece, D’us fala, às vezes em uma voz calma, suave e quase inaudível sob o clamor daqueles que dizem falar em Seu Nome. E o que Ele diz nesses momentos é: ‘Não em Meu Nome’ ”.

Amigo da família real, Rabi Sacks era convidado para as suas datas importantes, como o casamento do Príncipe William com Kate Middleton, em 2011.

Em um jantar em maio de 2013 em homenagem à sua saída do cargo, Charles, o Príncipe de Gales afirmou que Lorde Sacks era um “amigo constante” e um “valioso conselheiro”, elogiando sua “conscientização espiritual e sua abrangente e esclarecida percepção filosófica e histórica”.

Após deixar o Rabinato-chefe, o Rabino Sacks passava a maior parte de seu tempo em Nova York, onde foi professor na New York University e na Yeshiva University. Também deu palestras no King’s College, de Londres, e várias outras importantes instituições de ensino superior.

Antissemitismo e antissionismo

O Rabino Sacks era normalmente avesso a mesclar religião e política, mas assumiu fortes posições públicas em dois assuntos que frequentemente se imiscuíam na política europeia: Israel e antissemitismo.

Repetidamente apontava a importância e centralidade de Israel para o Povo Judeu, quer vivesse no Estado Judeu ou na Diáspora. “Creio que Israel é um extraordinário milagre humano. Israel recuperou a língua hebraica, a língua da Bíblia, e a fez ser novamente falada. Recuperou uma terra que, durante tantos séculos, esteve abandonada e desértica, e a fez novamente florescer. Reuniu esse povo destroçado e espalhado e o fez renascer. Julgo que Israel é a coisa mais extraordinária que se conhece em termos de democracia. Chamo Israel de ‘hiperdemocracia’. Como vocês sabem, cada um de seus motoristas de taxi é um gênio na política, que entende tudo mais do que os editorialistas dos melhores jornais. Considero Israel um lugar extraordinário de criatividade e diversidade. Nesse país minúsculo há mais diversidade do que em qualquer continente. Israel é um extraordinário milagre humano”.

Em uma entrevista em Israel, ao jornal The Jerusalem Post, em 2015, ele disse ainda: “Sempre que viemos para Israel…vemos a paixão, energia e criatividade na mais notável nação pequena na face da Terra. Israel deve fazer cada um dos judeus do mundo se sentir orgulhoso, e não estou fazendo uma afirmação política nem religiosa. Trata-se de uma afirmação do que ocorre quando você reúne uma grande quantidade de judeus em um país que é o palco da História Judaica, e diz: ‘Agora escrevam o próximo capítulo do Povo Judeu’ ”.

Rabi Sacks jamais titubeou em defender Israel. Quando, em suas primeiras semanas como Primeiro -Ministro, David Cameron atacou Israel em um pronunciamento, o Rabino imediatamente foi a público protestar veementemente. Não permitia que “alguém de fora” criticasse Eretz Israel.

Assim como defendia Israel, repetidamente alertou o mundo contra o crescente antissemitismo. Mencionava, sempre, um episódio que ocorrera em 2001, quando sua filha, então com 19 anos, estudava na London School of Economics: “Ela voltava de uma participação numa manifestação antiglobalização, que acabara virando um protesto contra Israel e os judeus. Ela, aos prantos, me disse: ‘Pai, eles nos odeiam’. Aquilo foi para mim um grande despertar”.

Falou publicamente, também, contra Jeremy Corbyn, o ex-líder do Partido Trabalhista britânico, chamando-o de antissemita: “Temos um antissemita na liderança do Labour Party, e na oposição à Coroa. É por isso que os judeus se sentem tão ameaçados pelo Sr. Corbyn e seus apoiadores”, disse Rabi Sacks em 2018, em entrevista. “Corbyn apoia racistas, terroristas e os que negociam o ódio e querem matar judeus e tirar Israel do mapa”.

Após essa declaração do Rabino Lorde Sacks, o atual Rabino-chefe britânico Ephraim Mirvis fez dura condenação ao Partido Trabalhista, um evento sem precedentes na vida judaica britânica. O novo líder trabalhista, Keir Starmer, pediu desculpas oficiais pela forma como, no mandato de Corbyn, tinha sido permitido que o antissemitismo permeasse as fileiras de seu partido.

Para o Rabino Sacks o antissemitismo é um mal que precisa ser extirpado: “Quando vejo o antissemitismo de volta à Europa e o fracasso de alguns partidos e políticos em enfrentá-lo, considero muito difícil ter fé no ser humano. Acredito que parte desse antissemitismo estivesse oculto e simplesmente conseguiu se soltar das amarras de vários tabus. Como foi que Jeremy Corbyn agiu em relação ao antissemitismo no Partido Trabalhista? Reafirmo tudo o que disse sobre ele. Sinto que isso seja uma mancha genuína no tecido da vida política britânica. Deparar-se com algo tão manifestamente perverso como o antissemitismo e nada fazer? Os judeus não podem ser deixados sozinhos no combate ao antissemitismo. Não queremos ser retratados como as vítimas”.

A Casa dos Lordes debateu o assunto do antissemitismo na política da Grã-Bretanha, em uma histórica sessão em que o Rabino Sacks descreveu o atual ressurgimento do antissemitismo na Europa como semelhante à era que antecedeu o Holocausto na Europa. Mencionou os vários políticos que, durante o Holocausto, permitiram que o antissemitismo prevalecesse. “Estamos diante desta mesma situação, hoje”, enfatizou. “Com a lembrança do Holocausto ainda viva em nossa memória, o antissemitismo retornou exatamente como no século 19, justo quando as pessoas tinham começado a pensar que finalmente haviam superado os ódios do passado.”

“Atualmente, não há um país sequer no mundo, muito menos na Europa, onde os judeus se sintam seguros”, declarou o Rabino Sacks. “Tudo o que eu disser é pouco para enfatizar quão séria é esta situação, não apenas para nós, judeus, mas para toda a nossa humanidade comum”. Disse também que qualquer sociedade ou partido político que tolerasse o antissemitismo havia “abdicado de toda e qualquer credibilidade moral”. “Não se pode construir um futuro calcado em mitos perversos do passado. Não se pode manter a liberdade calcada em hostilidade e ódio”.

Em 2017, num vídeo do YouTube definido por alguns como a melhor explicação possível sobre o antissionismo e o antissemitismo, o Rabino chamou o antissionismo de “uma nova forma de antissemitismo”, argumentando que o mesmo nega aos judeus “o direito de existir coletivamente com os mesmos direitos que todos os demais”.  Nega o direito de um Estado Judeu existir.

O vídeo se baseava em um discurso que ele havia feito, um ano antes, em Bruxelas, e é tido como tendo aberto o caminho para que a Grã-Bretanha adotasse, naquele mesmo ano, a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Recordação do Holocausto.

O legado do Rabino Sacks

Sem sombra de dúvida, o Rabino Lorde Jonathan H. Sacks foi o Rabino-chefe britânico mais conhecido nos 250 anos da história oficial de instalação desse cargo. E, com certeza, nenhum outro líder religioso judaico causou mundialmente a mesma impressão que ele, que era visto por todos como uma voz de moralidade e integridade ética. Ele sabia explicar como poucos a filosofia judaica ao público maior. Judeus e não-judeus ficavam encantados por sua habilidade de comunicador e suas posições e opiniões eram frequentemente procuradas pela mídia.

O Rabino Lorde Jonathan H. Sacks faleceu no Shabat, 7 de novembro de 2020. Um mês antes seu gabinete informou que ele enfrentava uma terceira recidiva do câncer e se retirava da vida pública para seguir o tratamento. Ele fizera dois tratamentos para curar essa doença, aos 30 e aos 50 anos.

Rabi Sacks deixa a esposa Elaine e seus filhos Joshua, Dina e Gila e nove netos.

O ex-Rabino-chefe da Grã-Bretanha e da Commonwealth foi enterrado em uma cerimônia modesta. Em virtude das restrições sanitárias da Covid-19 na Inglaterra, seu enterro, que teria atraído milhares de pessoas, teve que se limitar a 30 presentes.

Após sua morte foram enviadas homenagens de toda a Diáspora e dos líderes não-judeus do mundo inteiro. Todos choravam sua morte e dezenas de páginas seriam necessárias para reproduzi-las.

O legado do Rabino Lorde Jonathan Sacks seguirá vivo por muitas gerações por vir. Zecher Tzadik Levrachá, Que sua lembrança seja uma bênção.

BOX 1

O Rabino Sacks contava que quando Itzhak Rabin faleceu, viajou com a delegação oficial britânica ao funeral do Primeiro Ministro israelense. Após o funeral, o príncipe Charles convidou para voltarem com ele à Inglaterra, em seu avião real, o Rabino Sacks, a delegação britânica e Tony Blair. No vôo, o Rabino estava estudando a porção semanal da Torá quando Tony Blair lhe pediu que o incluísse em seu estudo. Alguns minutos mais tarde, o Rabino Sacks percebeu que o príncipe Charles estava de pé, ouvindo-o falar. O Príncipe se juntou a eles e os três passaram uma hora estudando Torá. Naquele dia, o Rabino ensinou Torá a um futuro rei e a um futuro primeiro-ministro da Grã-Bretanha. Na ocasião, veio-lhe à mente o Salmo 119:46 : “E falarei dos Teus testemunhos perante os reis, e não me envergonharei". 

BOX 2

“JONATHAN WAS MY HERO”

           por Tony Blair

“Jonathan era meu herói. Em seu trabalho, o que brilha através do tempo, repetidamente, é sua humanidade combinada com uma vontade infinita de se engajar, por mais difícil que fosse o assunto ou o público – marca da verdadeira autoconfiança intelectual. Ele sabia interpretar e dar vida à Torá como ninguém. Eu adorava ouvi-lo falar sobre Judaísmo, fazer-me percorrer os relatos bíblicos que me são tão conhecidos, mas que, em suas palavras, adquiriam um novo significado e, o que era melhor, adquiriam relevância contemporânea. Ele entendia os perigos que se apresentam à religião, as tentativas de demonizá-la usando os momentos escuros na História para obscurecer nossa capacidade de descortinar um novo caminho para o futuro; e o lugar essencial da crença religiosa na sociedade: o direito dos que têm uma crença religiosa de não deter o poder, mas de se manifestar e, por vezes, contra os poderosos.... Em uma de suas últimas transmissões, Sacks falou com uma clareza brilhante sobre a diferença entre a sociedade baseada no ‘eu’ e a que se baseia em ‘nós’; sobre a necessidade da responsabilidade coletiva, não apenas da responsabilidade individual; uma sociedade governada não pelo interesse próprio, mas no bem comum.”

BOX 3

O Príncipe de Gales se despede de seu amigo e conselheiro

“A morte do Rabino Lorde Sacks constitui a perda mais profunda para a comunidade judaica, para a nação e para o mundo.

Quem o conhecia através de seus textos, sermões e transmissões certamente perdeu uma fonte inesgotável de sabedoria, sanidade e convicção moral em tempos muitas vezes desconcertantes e confusos. Aqueles que, como eu, tiveram o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, perderam um guia confiável e um mestre inspirador. No meu caso, perdi um amigo verdadeiro e fiel. Sua família, mais do que todos, perdeu um grande homem cuja devoção a eles não tinha limites – e meu coração chora com eles por sua perda.

Com o tempo, passei a valorizar imensamente os conselhos do Rabino Sacks. Com sua bagagem de conhecimentos aparentemente inesgotável, sua sabedoria infalível e seu instinto em busca do poder da história em nossa vida, ele era alguém em quem se podia confiar para identificar claramente os problemas morais envolvidos, e desafiar destemidamente as opções envolvidas.

A aparente facilidade com que ele sabia permear a confusão e o clamor de nossas atuais preocupações se calcava em sua profunda instrução em disciplinas seculares e religiosas, tornando-o especialmente capaz de falar com convicção sobre todos as fronteiras da religião, da cultura e das diferentes gerações.

Sua vida se distinguiu por três compromissos: o compromisso de ouvir e de aprender com os demais, sem temer o comprometimento de suas convicções profundas nem as dos demais; o compromisso com as instituições da Nação, que ele cultivava com sua própria defesa e participação; e o compromisso com a integridade e harmonia da Criação Divina – com Shalom.

Um trabalho que ele escreveu para mim causou-me uma profunda impressão, pois ele indicava que, no Judaísmo, a harmonia do Universo flui da união com seu Criador, uma união na qual podemos participar mediante o silenciamento das demandas do ‘eu’ e o respeito à dignidade dos outros e a integridade da Natureza, por reconhecer em ambos um fragmento do Divino.

Como mencionei em 2013, ao falar em um evento que marcava a aposentadoria do Rabino Sacks do Rabinato-chefe após 22 anos notáveis, ele e eu éramos exatos contemporâneos, nascidos no ano do nascimento do Estado de Israel. Também disse, citando Isaías de forma deliberadamente errônea, que ele era ‘uma luz em meio a esta nação’, e que eu esperava que ele mantivesse aquela luz acesa por muitos e muitos anos à frente. Isso foi há apenas sete anos. Mas, nos anos em que tivemos a graça de tê-lo conosco, quão intenso foi o brilho de sua luz, quantas vidas ele iluminou, quantos lugares escurou ele pôde clarear...

Ao contemplar uma vida tão trágica e inesperadamente encurtada, somente podemos dirigir nosso olhar à Divina Providência na qual o Rabino Sacks colocava sua confiança, e ter fé de que, como diz o Salmista, o tempo de nossas vidas está em suas mãos.

Ao longo de seus 72 anos, ao que me parece, o Rabino Sacks estudou, escreveu e partilhou sua sabedoria com uma intensidade que representava várias vidas. Ouvindo seus sermões, lendo seus livros, qualquer um obrigatoriamente sente-se impactado pela urgência de suas palavras: ricas em sabedoria, arraigadas na humildade, carregadas de paixão – sem dúvida, uma voz que seguia a tradição dos maiores mestres do Povo Judeu.

Mesmo em meio a nosso luto, devemos agradecer a D’us por nos tê-lo dado por tanto tempo, e temos que honrar os valores que o guiavam: uma sociedade onde todos são valorizados, onde todos partilhamos um vínculo moral e um propósito Divino.

Ao falar, este ano, sobre a morte de seu próprio mestre, o muito reverenciado Rav Nachum Rabinovitch, o Rabino Sacks disse: ‘Os mestres nos dão mais do que o saber. Eles nos dão vida. Ter um grande professor é o mais perto que podemos estar dos Céus’. Essas suas palavras cabem perfeitamente nele, o Rabi Jonathan Sacks.

Que sua luz continue a brilhar e sua lembrança nos seja uma bênção.

Louvai ao Eterno, porque Ele é bom; eterna é Sua misericórdia”.

Publicado no Jewish News Souvenir Supplement,

12 novembro 2020