Morashá
O Significado de nossos Atos

O Significado de nossos Atos

“Tu Te recordas do que foi feito no mundo desde a eternidade e Te recordas de todas as criaturas desde os tempos mais remotos. Diante de Ti são desvendados todos os mistérios e os numerosos segredos desde o começo da Criação; pois não há esquecimento ante o trono de Tua glória, nem há segredo diante de Teus olhos. Tudo é revelado e conhecido por Ti, Eterno nosso D’us… Pois Tu decretaste o momento da recordação para que sejam lembrados toda alma e todo espírito, para que sejam recordadas as múltiplas ações e as inúmeras criaturas de maneira infinita... (Oração de Mussaf em Rosh Hashaná)

Edição 108 - Setembro de 2020


Rosh Hashaná – o Ano Novo judaico – é um momento de Julgamento Divino. Durante os dois dias dessa festividade, D’us inicia o processo de julgamento – que perdura até o final da festa de Sucot – que determinará o destino de cada ser humano para o ano que se inicia. Nossos Sábios empregam várias metáforas para transmitir a ideia de que a Corte Celestial julga todos os seres humanos em Rosh Hashaná. Uma dessas metáforas descreve a maneira como o “arquivo” de cada pessoa é levado perante D’us. Falando de forma metafórica, D’us “abre” esses arquivos, lê e analisa seu conteúdo e, então, faz seu julgamento, decidindo o destino de cada pessoa para o novo ano.

Muitos se esquecem do fato de que Rosh Hashaná é o momento em que D’us inicia seu julgamento. Essas pessoas estão felizes, com a falsa impressão de que Rosh Hashaná é o dia 1o de janeiro do Judaísmo: um feriado alegre no qual mergulhamos a maçã no mel e nos reunimos com os familiares e amigos para comer e beber, a nosso bel prazer. Esse conceito é comum, mas errôneo e perigoso, pois muitas pessoas não celebram Rosh Hashaná com a seriedade de corpo e alma que a data exige: estão totalmente desligadas do fato de que todos nós estamos diante da Corte Celestial e talvez não estejamos preparados para essa solene intimação. A realidade é que os dois dias de Rosh Hashaná são a antítese do dia 1o de janeiro. Não são um momento de folia, mas sim, os dois dias mais sérios do ano. Em Rosh Hashaná, o destino do mundo e de cada um dos indivíduos está pendurado na balança. E se estamos infelizes com a situação em que se encontra o mundo, temos de agir em Rosh Hashaná da maneira como o Juiz Supremo espera que nos comportemos.

Rosh Hashaná não é, apenas, um momento em que todos os povos e o mundo inteiro são julgados, coletivamente, para o novo ano. Como deixa claro a oração de Mussaf de Rosh Hashaná, o Julgamento Divino é individual. A Corte Celestial julga os atos, bons ou ruins, que cada um de nós cometeu no ano que se encerra.

Mas a ideia de que D’us julga cada um de nós individualmente, e que Ele escrutiniza todos os nossos pensamentos, palavras e atos, traz à tona uma pergunta teológica: Estará D’us de fato interessado nos atos de cada ser humano? Serão nossas palavras – inclusive nossas orações – e nossas ações diárias dignas de Sua atenção?   

Relacionando-se com um D’us Infinito

Muitas pessoas, inclusive as com alto grau de moralidade, têm uma determinada noção sobre as “coisas pequenas” da vida – os detalhes do cotidiano e os atos menores que todo ser humano realiza, com regularidade. E costumam perguntar: “Você acredita que D’us realmente se preocupa com esses detalhes pequenos? Você acredita que D’us se importa com o que acontece na intimidade de nosso lar, nossa cozinha e nosso trabalho?” 

O conceito de “pequenas coisas” obviamente é muito subjetivo: o que uma pessoa considera “pequeno” ou “grande” depende do ambiente cultural e social da pessoa. Contudo, ainda que as pessoas costumem discordar sobre o que é importante e o que não o é, podemos generalizar que a maioria dos seres humanos acredita que, na vida, as “coisas grandes” importam, ao passo que as “coisas pequenas” não importam tanto – se é que importam. Os pequenos detalhes que as pessoas costumam deixar de lado não são, necessariamente, coisas às quais se opõem, em princípio. Os pequenos detalhes podem também ser coisas que causam indiferença, na pessoa, ou mesmo que elas considerem benéficas; contudo, não são especialmente importantes. Essas “pequenas coisas” são parte de qualquer religião – e certamente do Judaísmo. Podem ser atos positivos, tais como colocar algumas moedas em uma caixa de Tzedacá, ou podem ser negativos, como contar uma mentira branca.

Em muitos casos, a atitude de não se preocupar com as “pequenas coisas” na vida pode apenas ser uma fachada para a preguiça. Mas a questão se D’us se importa ou não com os pequenos detalhes é uma pergunta religiosa válida. E merece ser feita. De fato, essa pergunta está no cerne do que trata a festividade de Rosh Hashaná – quando, metaforicamente, o Tribunal Celestial examina o “arquivo” de cada ser humano e o julga, segundo seus atos.

A liturgia de Rosh Hashaná nos conta que D’us examina e julga todos os nossos atos. Mas, por que razão o Todo Poderoso deveria se importar com nossas ações cotidianas, os pequenos detalhes, bons ou maus, da vida? Pode-se argumentar que D’us poderia se importar com o que é notícia – guerras e terrorismo, uma pandemia mundial, eleições em Israel – eventos que afetam a vida de milhões ou bilhões de pessoas. Mas por que Ele deveria se importar se um único indivíduo come casher? Por que Ele deveria se preocupar se a pessoa diz uma bênção antes de comer um pedaço de chocolate, cumpre os mandamentos do Shabat, coloca Tefilin, ouve o toque do Shofar em Rosh Hashaná ou come na sucá durante a festa de Sucot? Por que Ele deveria se importar se uma pessoa jejua ou não em Yom Kipur? Afinal, D’us é o Senhor do universo, onde corpos imensos, planetas e estrelas, movimentam-se como meros pontinhos dentro de uma miríade de galáxias. Cada um de nós, na Terra, é apenas um indivíduo entre bilhões de outros, e mesmo o planeta e a galáxia onde habitamos são minúsculos se comparados ao restante do universo. Dentro de nossa estrutura, muito limitada – nossa família, amigos e talvez nossa comunidade –, cada um de nós pode ser importante. Mas quando olhamos para o mundo a partir de uma perspectiva mais ampla de tempo e espaço, nossas atividades diárias e mesmo nossa própria existência parecem insignificantes.

Portanto, não faz sentido crer que o Senhor do Universo pudesse ou devesse se importar com cada um de nós e com os pequenos detalhes de nossa vida – nossos pequenos atos, bons ou ruins. Por que razão D’us, que dirige e supervisiona o universo todo, deveria se preocupar com um detalhe como se um indivíduo vai à sinagoga, faz doações para um necessitado ou anima um amigo deprimido? Essa pergunta é igualmente válida no tocante à oração. Quando uma pessoa invoca a D’us, quais as chances de ser ouvido? Não seria presunçoso crer que o Senhor do Universo pode-se dedicar a ouvir as palavras e pedidos de cada um de nós?

A pergunta se D’us presta atenção a cada pessoa – e especialmente aos detalhes de sua vida – é um problema teológico fundamental e profundo. Muitos optam por ignorar essa pergunta, enquanto outros agem como se não houvesse respostas à mesma. Em quase todos os casos, a origem dessa pergunta teológica – e toda a confusão que gera – é a imagem infantil de D’us que os adultos geralmente “pintam” para as crianças e que, por sua vez, permanece conosco mesmo depois de crescermos. Essa imagem infantil de D’us é alguém com uma longa barba branca, sentado em algum lugar dos Céus, milhares de quilômetros acima de nós, com relâmpagos em uma mão e um saco de balas na outra.

Quando adultos, muitos de nós substituem essa imagem, compreendendo que é infantil e até uma blasfêmia, com a ideia de que D’us é como o diretor de uma grande empresa. Em grandes empresas, um funcionário mediano tem pouco ou nenhum contato com o diretor. Os funcionários são apenas uma pequena peça em uma grande engrenagem. O funcionário teria de fazer algo extraordinariamente bom ou ruim para ter a atenção do diretor. Na falta de qualquer dos dois cenários, é provável que o diretor nunca vá a ter contato com o funcionário, mesmo que este trabalhe para ele.

À medida que subimos a cadeia hierárquica, esse padrão é amplificado. Por exemplo, o Primeiro Ministro de Israel é responsável pela segurança e bem-estar de todos os cidadãos do país, ainda que não os conheça pessoalmente nem se importe com a vida pessoal deles. Quando um cidadão escreve uma carta ao Primeiro Ministro, é algum secretário quem responde. Talvez apenas pessoas muito famosas, excepcionais, recebam às vezes uma resposta pessoal. E pode-se entender a razão para ser assim. Se o Primeiro Ministro fosse responder a cada uma das cartas que lhe são enviadas, não teria tempo nem forças para executar seu trabalho.

Os Chefes de Estado desempenham um papel vital e têm o poder de impactar a vida de milhões de pessoas. No entanto, até eles funcionam dentro de uma esfera limitada de poder e influência, comparada ao universo inteiro. Evidentemente, nenhum deles pode ser comparado a D’us – Criador e Mestre de tudo o que existe. Mas pode-se conjeturar que se um Chefe de Estado não pode relacionar-se com os cidadãos de seu país individualmente – e muito menos preocupar-se com os detalhes da vida de cada um – imaginem o quanto mais essa ideia se aplica a D’us, o responsável não apenas por nosso planeta, mas por todo o universo. Se um Chefe de Estado é inacessível aos cidadãos, como pode o Senhor de todo o universo estar acessível a cada um de nós?

Aqueles que imaginam D’us como um líder muito poderoso julgam que assim fazendo estão expressando profundo respeito pelo Altíssimo. Desdenham a ideia de que D’us não tenha nada melhor a fazer do que intrometer-se nos mínimos detalhes da vida de cada ser humano. Pois mesmo um pai, o quanto ele sabe da vida de seus filhos, o quanto isso o preocupa? São tantos os mínimos detalhes sobre coisas que desconhecemos totalmente. De modo geral, os seres humanos se preocupam com o que é grande e ao pensar na vastidão do universo, imaginam que D’us, que é incomparavelmente mais importante do que o ser humano mais poderoso, certamente não tem como preocupar-se com detalhes.

Mas quando dizemos que D’us não está interessado ou envolvido com detalhes – com as “coisas pequenas” que fazemos ou deixamos de fazer, na realidade, estamos imaginando o Altíssimo de acordo com as nossas medidas. Independentemente do quão aumentemos a concepção Divina, continua sendo a nossa concepção, a nossa medida. Podemos ver D’us como sendo particularmente importante. No entanto, por maior que seja a nossa concepção de D’us, continua sendo uma projeção muitíssimas vezes aumentada de nossa figura humana finita.

Em nossas orações e bênçãos, referimo-nos a D’us como Melech haOlam, Rei do Mundo. E, de fato, o reinado Divino é um dos principais temas de Rosh Hashaná. Contudo, precisamos ter cuidado para não interpretar erroneamente essa metáfora. Há uma diferença fundamental entre D’us e qualquer ser humano, por mais importante e poderoso que seja – um Chefe de Estado, ou até mesmo um rei. A razão para um Chefe de Estado não estar a par das preocupações diárias dos cidadãos de seu país é por ele ter uma mente limitada, além de tempo e energia limitados. Independentemente de quão talentoso e cheio de energia seja, há um limite no que ele consegue fazer em um dia limitado a 24 horas. Por essa razão, ele precisa saber fazer suas escolhas. O líder de um país, ou qualquer pessoa que esteja no alto de uma cadeia hierárquica, só consegue concentrar-se em questões macro – no que é mais importante; ele não se pode dar ao luxo de dedicar seu tempo e sua mente a detalhes pequenos, senão seu funcionamento será prejudicado. Qualquer líder, até o mais capaz e batalhador, deve delegar os assuntos importantes a seus ministros ou pessoas de confiança – sozinho não consegue fazer tudo.

No entanto, diferentemente de Chefes de Estado, D’us é Infinito. A infinitude é um conceito difícil de ser entendido, mesmo na Matemática. O infinito não tem limites:  é ilimitado o número de detalhes que pode conter. Além disso, uma constatação matemática básica prova que em relação ao infinito, qualquer outro número é zero e qualquer outro tamanho é igual. Um ou um trilhão, se comparados com o infinito, são exatamente iguais a zero.

Sob o ponto de vista teológico, o fato de que D’us é Infinito significa que para Ele, todos os detalhes são iguais em importância ou falta de importância, independentemente de seu tamanho. Comparada ao Infinito, uma galáxia, com todas as suas estrelas, é exatamente igual às menores partículas de um átomo. Assim sendo, não faz sentido algum que D’us se preocupe com o que ocorre em uma galáxia e não com o que ocorre a um tufo de grama. Comparado a D’us Infinito, sua magnitude é exatamente igual. Se D’us se preocupa com todo o universo, – que, por maior que seja, é finito e limitado –, pode-se dizer que todas as suas partes mais ínfimas têm igual importância para Ele.

O conceito de que, para um D’us Infinito, não há o grande e o pequeno, é um dos temas das orações de Rosh Hashaná: quando o Chazan repete aoração de Mussaf, ele recita um trecho que afirma que D’us “trata na igual medida o grande e o pequeno”. Essa é uma das maneiras de expressar a ideia de que as diferenças entre grande e pequeno, importante e sem importância, são insignificantes para Aquele que é Infinito, que está além de todas as limitações, Aquele para Quem as limitações nada representam.

De forma semelhante, diz o Salmo 139: “Tu perscrutas meu íntimo e me conheces totalmente. Sabes quando me sento ou levanto e antecipas meu pensamento onde quer que eu esteja. Estás comigo quando repouso ou caminho, e Te são conhecidos todos os meus passos.... Se aos céus eu ascendesse, lá Te encontraria, e se às profundezas me lançasse, também lá estarias”. Esse Salmo indica que D’us está ciente de onde estamos e de tudo o que fazemos, e que para Ele, os Céus e as profundezas, o distante e o próximo, a escuridão e a luz, é tudo igual. O Rabi Avraham Ibn Ezra (1089-1164) – um dos maiores poetas e filósofos da Idade Média – escreveu que esse salmo é o mais importante que há no Livro dos Salmos.

O Salmo 113, o primeiro da oração de Hallel, expressa uma ideia similar. Por um lado, declara: “Muito acima de todas as nações está o Eterno, e acima dos céus Sua glória”. A noção de que D’us está acima e além de tudo é indiscutível: não pode haver semelhança ou comparação entre D’us e Suas criações. Mas, o Salmo continua: “Quem é como o Eterno, nosso D’us, que habita nas Alturas e vê o que se passa nos Céus e na Terra?”. O que esse Salmo nos diz é que, por mais elevado que seja D’us, Ele está ciente de tudo o que transpira nos Céus e na Terra. Algumas pessoas querem louvar D’us dizendo que Ele é tão vasto e tão santificado que Sua glória está nos Céus. Contudo, ao afirmar isso, eles também deixam implícito que D’us se encontra apenas nos Céus, e, portanto, aqui na Terra e especialmente na privacidade de nosso lar e nosso trabalho, podemos fazer o que bem quisermos. Se fosse verdade que D’us se encontra apenas nos Céus e se preocupa apenas com as questões macro do universo, nós poderíamos facilmente fazer pequenas coisas erradas, “por trás de suas costas”, de forma escondida, pois esse grande D’us, que é tão ocupado com as coisas importantes, pode não me ouvir, mas tampouco Ele irá me repreender.

Mas esse Salmo desfaz, em pedacinhos, a ilusão de que D’us é grande demais para estar ciente e envolvido nos detalhes mínimos do universo. O Salmo nos diz que D’us cuida dos Céus e da Terra. O Infinito está em toda parte. Portanto, Céu e Terra são iguais para Ele. Comparado a D’us Infinito, um camundongo não é menos importante que um arcanjo. Mas para nós, criaturas pequenas e limitadas que somos, há uma diferença tremenda entre uma galáxia e um átomo. Para D’us, essa diferença e todas as demais são insignificantes.

Em outras palavras, a capacidade de ver todos os detalhes é parte da Infinitude: constitui uma das definições de ser Infinito. Assim como nada é grande demais para D’us, nada é pequeno demais para Ele. Nada é insignificante ou pequeno demais para passar despercebido, pois D’us tem uma visão plenamente abrangente, que contém tudo que se possa imaginar. Assim sendo, a crença de que algo é tão insignificante que pode escapar da atenção Divina é pior do que uma blasfêmia – é um absurdo total.

Mas o fato de que para um D’us Infinito tudo é igualmente significativo ou sem significado, levanta uma questão fundamental: será possível que tudo seja igualmente sem significado para D’us? Em outras palavras, será que D’us chega a se importar? E por que Ele o faria? A resposta é que se D’us se preocupou em criar o mundo, com regras tão elaboradas – às quais chamamos de “leis da natureza” – para que esse mundo pudesse funcionar, então isso significa que sim, D’us deve se importar. Mesmo se desconsiderássemos a Revelação Divina no Sinai e a entrega da Torá – que nos permitiu ter um vislumbre da Sabedoria e Vontade Divinas, o simples fato de que D’us criou e mantém o universo é uma forte indicação de que Ele se preocupa com toda a existência. Portanto, se o universo tem significado e importância para D’us, todos os seus detalhes têm igual significado. Assim sendo, D’us está igualmente ciente até do ato mais ínfimo de cada um dos seres humanos, seja ele positivo ou negativo. D’us está atento a cada ato negativo, por menor que seja, mas também a cada uma das boas ações, independentemente de seu tamanho. O choro de uma criancinha é ouvido por D’us e Lhe é tão importante quanto o que um Chefe de Estado possa dizer em público, sendo ouvido por milhões de pessoas. É somente a idolatria de reduzir D’us a um tamanho finito, com conhecimento finito – vendo-o como um tipo de Chefe de Estado celestial – o que dá origem à pergunta “será que D’us se importa?”. São conceitos errôneos sobre D’us como este ou similares a este o que gera tanta confusão na mente e no coração dos seres humanos.

O fato de se ter uma noção mais madura e mais abstrata sobre D’us não O distancia de nós. Pelo contrário, aproxima-nos d’Ele. Ao aceitarmos a premissa de que D’us tudo sabe e tudo ouve, torna-se evidente que Ele está ciente de todos os nossos pensamentos, palavras e atos. E isso, obviamente, inclui todas as orações que recitamos e os mandamentos da Torá que cumprimos.

Muitas pessoas que vão às sinagogas em Rosh Hashaná e participam das longas orações desses dias, podem pensar: “Será que D’us realmente ouve minhas preces e meus pedidos? Será que Ele se preocupa com o que sente o meu coração?”. Tais perguntas estão na base da religião. Todas as preces se resumem a um ponto básico que é o fato de nos estarmos dirigindo a D’us com a convicção de que Ele está presente e nos ouve. Se temos Alguém com quem falar, podemos rezar. Se não tivermos com quem falar – se D’us está distante de nossa vida ou se Ele não se importar, então de que valem todas as orações e todos os mandamentos? A base do Judaísmo, portanto, é a consciência da presença Divina e o entendimento de que Ele vê tudo o que fazemos, ouve tudo o que dizemos e sabe tudo o que pensamos.

A dificuldade que muitas pessoas encontram em se relacionar com D’us advém de um entendimento errôneo sobre Sua grandeza. A pessoa que pensa que D’us é muito ocupado com assuntos grandiosos e não se preocupa com uma criança que clama por Ele ao recitar os Salmos, não vê, de fato, a grandeza Divina. Para a Onisciência Divina não há grande nem pequeno, significativo ou insignificante na infinitude do universo. Para o Altíssimo, não há diferença entre os mundos. Assim sendo, para D’us não há orações que passem sem ser ouvidas, nem atos, bons ou ruins, que passem despercebidos.

Devemos ter isso em mente não apenas em Rosh Hashaná, mas em todos os dias de nossa vida. O entendimento de que D’us está diante de cada um de nós deve-nos forçar, sempre, a sermos mais atentos a nossos pensamentos, palavras e ações. Essa percepção da constante Presença Divina é primordial para o progresso espiritual e moral. Portanto, a abordagem correta à vida é viver como se todo dia fosse Rosh Hashaná. Diariamente, em qualquer dia do ano, antes de realizar uma ação – mesmo que seja uma ação comum, rotineira -, a Torá nos alerta para que lembremos que estamos diante do Altíssimo. D’us não está, como muitos acreditam, em um outro mundo ou nos Céus, tampouco em um reino espiritual invisível aos seres humanos. Ele está aqui e em toda parte, preenchendo toda a existência com Sua Essência Divina.

BIBLIOGRAFIA

Rabi Adin (Even Israel) Steinsaltz,.Simple Words – Thinking About What Really Matters in Life. Simon & Schuster

Pebbles of Wisdom from Rabbi Adin Steisaltz – Collected and with Notes by Arthur Kurzweil – Jossey-Bass.