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Sydney Brenner, Prêmio  Nobel de Medicina em 2002 o Dr. Brenner, à esq., recebendo o prêmio nobel das mãos do rei Carl Gustaf em Estocolmo, Dezembro de 2002

Sydney Brenner, Prêmio Nobel de Medicina em 2002

por Dr. Morton A. Scheinberg

Judeu sul-africano, filho de imigrantes do Leste Europeu, Brenner faleceu em abril de 2019 em Singapura, aos 92 anos de idade. Pioneiro na área da Biologia Molecular, é considerado um dos principais biólogos moleculares do século 20 e suas pesquisas levaram a conhecimentos cruciais sobre as doenças humanas.

Edição 104 - Junho de 2019


Brenner foi um agente importante na década de exponencial crescimento da Biologia Molecular (1953-1965). Nesse período, a descoberta da estrutura do DNA gerou os fundamentos para que fosse decifrado o genoma humano. Em sua autobiografia, Minha Vida na Ciência, publicada em 2001, o cientista escreveu: “Acredito que minha verdadeira aptidão seja iniciar projetos. O que eu gosto, mesmo, é de começar o jogo. E, depois que se inicia, começo a sentir que está ficando monótono.... Aí quero ir para outros projetos... Muitos pesquisadores foram além e fizeram importante trabalho científico, mas todos se recordam daqueles momentos maravilhosos em que nós e nossa ciência éramos jovens e nossa empolgação em perseguir novos desafios não tinha fim…”.

Em 2002, ele foi laureado com o Prêmio Nobel de Medicina, em reconhecimento por suas descobertas no campo da “regulação genética do desenvolvimento de órgãos e da morte programada de células” – a morte celular programada, ou o mecanismo conhecido como apoptose. Dividiu o Prêmio com Robert Horvitz, do Massachusetts Institute of Technology, e John Sulston, do Instituto Sanger do Wellcome Trust, da Inglaterra.

Sua vida

Sydney nasceu na África do Sul, em 13 de janeiro de 1927, na pequena cidade de Germiston, próximo a Johanesburgo. Seus pais eram judeus vindos do Leste Europeu que se estabeleceram na África do Sul. O pai, Morris, era um judeu lituano que fugira em 1910 da Europa para não servir o exército do Czar; e sua mãe, Leah Blecher, era da Letônia, e chegou à África do Sul em 1922. Morris era sapateiro e a primeira casa da família era composta por alguns quartos nos fundos de sua oficina. Ele nunca aprendeu a ler ou escrever, mas além do inglês, iídiche e russo, aprendeu a falar afrikaans e zulu, idiomas locais.

Desde seus primeiros anos, Sydney Brenner demostrou ter uma mente extraordinária, tendo aprendido a ler ainda muito pequeno. Quando uma cliente da sapataria, Miss Walkinshaw, soube que o menino Sydney conseguira aprender a ler com 4 anos, ajudado por um vizinho, ela persuadiu seu pai a deixá-lo frequentar o seu jardim de infância. O menino prodígio fez três anos de primário em apenas um ano e foi aceito na escola local, aos 6 anos, diretamente na 4a série, com uns dois anos menos que seus colegas. Após quatro anos na escola primária, foi encaminhado à Germiston High School onde foi matriculado em dezembro de 1941. Foi então que ele descobre a Biblioteca Pública da cidade, onde, em suas palavras, encontrou uma fonte de conhecimentos que ele poderia adquirir mediante a leitura. E assim criou o hábito de ler vorazmente. Passou a se interessar em Química e, pouco a pouco, juntou o número suficiente de tubos de ensaio para realizar experiências químicas usando pequenas quantidades de produtos comprados em uma empresa de suprimento de produtos farmacêuticos. Logo depois, formou-se em Bioquímica. Foi graças ao presente que recebeu de seu tio Harry – um microscópio – que ele conseguiu continuar com suas explorações pessoais.

Em 1942, o jovem Brenner ganha da Prefeitura de Germiston uma bolsa para estudar Medicina, e, aos 15 anos, é aceito na Universidade de Witwatersrand, em Johanesburgo. Ele morava na casa dos pais e diariamente ia de bicicleta até a estação ferroviária, onde deixava a bicicleta e, ao entardecer, retornava pelo mesmo meio. Sua família não tinha recursos financeiros e ele se sustentava com o que ganhava na sinagoga, onde era pago para completar diariamente o minyan – o quórum de 10 homens necessário para as orações judaicas diárias.

Ao concluir o 6º ano do curso de Medicina, não tinha idade suficiente para se qualificar para a prática médica, e a Universidade lhe permitiu cursar um ano de Anatomia e Fisiologia. Para Brenner, aquilo era “a glória”! A prática da Medicina Clínica não o interessava, para ele a pesquisa era tudo. Em sua autobiografia, diz: “Tive uma carreira universitária brilhante, apesar de ter sido um aluno deplorável em algumas matérias”.

A pesquisa o entusiasmava e ele logo percebeu que seu interesse maior era a Biologia Molecular – disciplina que na realidade não existia à época. Ao receber uma bolsa de estudos da Comissão para a Exposição Real, o diretor da Universidade de Witwatersrand, H. Raikes, que era químico formado em Oxford, aconselha-o a escrever para C.N. Hinshelwood, Professor de Química Física na Universidade de Oxford, que se interessava pelas aplicações dessa área na Biologia. Aquilo chegava muito perto do que ele desejava fazer. Em 1951, ganhou uma bolsa de estudos em Biologia dessa universidade para pesquisar a maneira pela qual os vírus atacavam as bactérias.

Em dezembro de 1952 Sydney casa-se, em Londres, com May Colvitz Balkind, psicóloga educacional que também estudava para um doutorado em Psicologia, em Londres. Ela conseguiu transferência para Oxford e, até junho de 1954, o casal viveu num apartamento em Woodstock Road trabalhando em suas respectivas teses. Eles tiveram três filhos, Belina, Carla e Stefan.

Era abril de 1953. Com 22 anos, ele ainda aluno da Universidade, quando vê, em Cambridge, pela primeira vez, o modelo de dupla hélice do DNA, construído por James Watson e Francis Crick. Até então, não se conhecia a estruturação tridimensional do DNA - e nem como poderia ser sua configuração molecular. Quando soube que Crick e Watson haviam elaborado o modelo da dupla hélice para a molécula de DNA e o estavam apresentando, Brenner segue imediatamente para Cambridge para analisá-lo.

Aquilo foi o divisor de águas para ele que descreve o fato como tendo sido um dos dias mais felizes de sua vida. Ao ver o modelo percebeu tratar-se do segredo para a compreensão de todos os problemas na Biologia que ele julgara de difícil solução. Era o nascimento da Biologia Molecular.

Francis Crick, impressionado com a aptidão científica do jovem Brenner, recruta-o para trabalhar em seu grupo, na Universidade de Cambridge. A partir de então – e pelos próximos 20 anos – divide com ele seu conceituado laboratório no Conselho de Pesquisa Médica em Biologia Celular.

Entre suas descobertas, Brenner demonstrou que era possível alterar o mecanismo pelo qual um vírus ataca uma bactéria. Através de uma série de modificações conhecidas como mutações, demonstrou que era possível fazer com que o vírus perdesse e recuperasse a capacidade de produzir uma proteína, chamada de códon. Posteriormente, outros cientistas mostraram que a sequência de códons era responsável pela produção dos 20 aminoácidos. Coube à sequência de experimentos de Sydney Brenner indicar os códons que sinalizavam a inibição da produção de proteínas pelas células. Ele acreditava que a partir do DNA seria possível fazer com que esta informação chegasse a outros elementos da célula humana, permitindo, assim, que ocorresse a síntese de proteínas através de um elemento intermediário intracelular. Descrito em 1960, é hoje conhecido como RNA mensageiro (RNAm).

Vida científica e seu vínculo com o Hospital Israelita Albert Einstein

A partir de 1990, Brenner teve várias passagens por diversas instituições. Na Scripps Clinic, em San Diego, EUA, como professor visitante, monta o Instituto de Ciência Molecular, através de um projeto de pesquisa milionário dedicado ao projeto do genoma humano. De 1994 a 2000 escreveu uma coluna no Current Biology, com o título Loose Ends (Pontas soltas) e que depois teve o título mudado para False Starts (Tentativas frustradas). Recebeu múltiplas honrarias ao longo da vida, entre as quais o prestigioso Lasker Award em Medicina, no ano de 1971. Durante um período dividiu seu tempo entre Cambridge, na Inglaterra, e a Califórnia.

Com a saúde debilitada, passou a residir em Singapura, onde criou e dirigiu o laboratório de Biologia Molecular Nacional. Não gostava dessa responsabilidade administrativa, sempre dizendo que “Você se torna mediador entre dois grupos impossíveis, os monstros, acima, e os idiotas, abaixo”...

De 2009 até 2019, Brenner presidiu o Scientific Advisory Board (Comitê Consultivo Científico) do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, do qual também sou membro. Esteve conosco presencialmente em 2010 e 2014, quando fez apresentações para nossos colaboradores e corpo clínico, tendo tido, em ambas as oportunidades, sala cheia no auditório do Hospital. Desde então esteve envolvido com a estratégia de desenvolvimento de pesquisa da instituição, sendo um dos responsáveis por seu sucesso. Presidia o Comitê Consultivo, que contava também com a presença de outro grande cientista, Robert Nussenblatt, recentemente falecido. Ainda hoje, esse importante Comitê conta com nomes como Allen Spiegel, Naphtali Savion, Patrice Debre, Antonio Coutinho e Erney Plesmann Camargo.

Brenner foi reverenciado por sua criatividade nos experimentos e cativantes discussões científicas. Foi mestre reconhecido do minimalismo experimental e palestrante de altíssimo nível. Em 2018, algumas de suas palestras foram adaptadas em um popular livro científico, Sydney Brenner’s 10-on-10: The Chronicles of Evolution (Sydney Brenner desvenda tudo: Crônicas da Evolução, em tradução livre), publicado pela Wildtype Books.

Brenner deixa três filhos e um enteado.

Morton a. Scheinberg é Clinico e Pesquisador na área de Reumatologia e Imunologia.