Morashá
O Grão Rabino Joseph Haim SitruK, ZT'L O presidente Jacques Chirac, à esq., condecora o rabino chefe da frança com a medalha de comandante da legião de honra, no Palácio dos Eliseus, em 16/03/2007

O Grão Rabino Joseph Haim SitruK, ZT'L

No dia 25 de setembro deste ano de 2016, aos 72 anos, Rav Joseph Haim Sitruk zt”l, Rabino Chefe da França durante duas décadas, deixou este mundo. Homem de reflexão e ação, dedicou a vida a servir nosso povo, lutando para a difusão do judaísmo e para que as especificidades do judaísmo fossem respeitadas pela sociedade maior: “Exijo o direito de praticar a religião judaica no seio da República Francesa!”

Edição 94 - Dezembro de 2016


Elegante e extremamente carismático, o Rabino Chefe Sitruk ztl 1 encantava os que o ouviam, conseguindo encontrar as palavras certas para cada situação e para cada pessoa. Exímio orador, seu senso de humor servia de contraponto ao seu imenso conhecimento e à sua ortodoxia religiosa. As anedotas que pontuavam cada um de seus discursos, seus cursos da Torá e as entrevistas eram ferramentas que ele utilizava para capturar a atenção do público e melhor transmitir sua mensagem. Ele queria que tanto judeus como não judeus apreendessem a “herança fabulosa e pouco conhecida dos judeus”. Acreditava que “cada judeu tem uma obrigação: receber e transmitir nossa herança espiritual” .

Em 2001, aos 57 anos, sofreu um devastador Acidente Vascular Cerebral (AVC). Sua fé, sua força espiritual e sua perseverança permitiram que se recuperasse. Autodenominando-se um “sobrevivente da oração”, voltou a lutar para a divulgação do judaísmo, contra a aculturação e a assimilação dos judeus franceses. Seus pensamentos e ensinamentos, suas aulas gravadas em fitas cassetes, circularam durante anos entre judeus que viviam na França e os francoparlantes espalhados pelo mundo. “Sou um caminhante”, costumava dizer, “um homem na estrada, na tensão entre dois mundos tão diferentes. Do universo laico que era o meu, no início do caminho, passei para o da prática religiosa”. E revelou a longa caminhada que o jovem judeu tunisino laico fez para chegar ao cargo de Rabino Chefe da França no livro Chemin Faisant, Entretiens avec Claude Askolovitch et Bertrand Dicale Broché (Ao longo do caminho, conversa com Claude Askolovitch e Bertrand Dicale Broché).

Os primeiros anos

“Jo” Sitruk nasceu em 16 de outubro de 1944 na cidade de Túnis, capital da República da Tunísia, na África do Norte.

Tanto ele como seus 4 irmãos – dois meninos e duas meninas, tiveram uma infância feliz. Sua mãe, uma típica mãe judia tunisina era uma mulher otimista, cheia de vitalidade. Quando o pai a conheceu ela era professora de ginástica, algo inusitado na época. O pai era um advogado de renome, “um judeu temente a D’us, grande admirador da França e um excelente orador”. Homem de vasta cultura, falava um francês perfeito e era apaixonado pela História. Ele ensinara aos filhos que deviam procurar fazer tudo da melhor forma possível.

Seus pais não eram judeus praticantes, em casa falava-se apenas o francês e mandaram os filhos estudar no Lycée Carnot, o liceu francês. Mas, revelou Rav Sitruk em Chemin Faisant, que os pais “nos transmitiram uma forte conexão com o judaísmo. A religião nos foi transmitida como um ponto de referência, uma parte essencial de nossa vida, incontornável e necessária de nossa identidade (...). Éramos judeus franceses da Tunísia, franceses e judeus, sem que isso fosse algum problema ou nos trouxesse qualquer contradição”. Na sexta-feira, faziam o Kidush, respeitavam as festas. E sua avó paterna, mais religiosa, lhe “ensinou que D’us é parte da vida, e podemos falar com Ele”. Esse ensinamento, escreve Rav Sitruk, “marcou meu espírito para sempre”.

Em 1958, dois anos após a Tunísia ter conseguido sua independência da França, a família Sitruk decide deixar o país. Com o fim do domínio francês, iniciado em 1881, e o crescimento do nacionalismo tunisino, alastram-se os distúrbios contra os judeus. Há temores entre a população judaica sobre seu futuro no país, pois, disfarçada sob o manto de uma convivência pacífica, sempre existira uma latente intolerância em relação aos judeus.

Antes de partir, Rav Sitruk celebra apressadamente seu Bar Mitzvá. Não podendo levar seus bens, o pai do futuro Rabino Chefe será forçado a recomeçar do zero na França.

A vida em Nice

Os Sitruk se estabelecem em Nice. Assim como outros tunisinos, possuíam cidadania francesa. É nessa cidade que a vida do jovem Jo Sitruk mudaria, pois, como ele mesmo revela, “lá conheci minha esposa, minha religião e minha comunidade”.

Em fevereiro de 1959, entra na organização dos escoteiros judeus, os Éclaireurs Israélites de France. Na época, ele era um “jovem interessado no futebol e que tinha paixão por carros”. Suas atividades no grupo de escoteiros o ajudaram a consolidar sua identidade judaica, pois, em suas palavras, “descobri uma nova dimensão de meu judaísmo, que não tinha nada de religioso. Era minha identidade como judeu. A reflexão veio apenas mais tarde”.

Em pouco tempo ele se sobressai. Um líder nato, carismático, realizava as tarefas rapidamente e com eficiência, pois acreditava que a pessoa não podia descansar “até que o que está bom esteja melhor, e o que está melhor, esteja melhor ainda”. Essa crença irá guiá-lo durante toda a vida. Foi nomeado “chef de patrouille” (chefe de patrulha dos escoteiros) e para ocupar esse posto decide ser imprescindível aprender a ler e escrever o hebraico.

A vida de Jo Sitruk deu uma reviravolta quando ele conheceu e se apaixonou por uma jovem que também frequentava os Éclaireurs Israélites, Danielle Azoulay. Ela seria sua esposa e mãe de seus 9 filhos, a companheira fiel que o apoiaria e incentivaria suas escolhas e que o ajudou a superar os momentos mais difíceis de sua vida. Com Danielle, que vinha de um lar mais religioso, Jo Sitruk deu os primeiros passos que o levariam a ocupar o posto de Rabino Chefe da França.

“Ela própria me ensinou o alfabeto hebraico, e a ler o hebraico e a descobrir a beleza dos textos das orações”. Em casa, passou a rezar secretamente. “Tinha receio que minha família fosse rir de mim”. “Juntos, frequentamos os cursos dados nos movimentos juvenis pelo Rabino Saül Naouri”. Esses cursos lhe deram suas primeiras noções sobre filosofia e história judaica.

Apaixonou-se pelo estudo da Torá e, aos 17 anos, escreve dirigindo-se a D’us: “Ajuda-me a ser digno de Ti. Gostaria de me elevar... Ajuda-me a agir segundo a Tua Vontade...”. 

O Grão Rabino de Nice, Saül Naouri, que percebera suas habilidades de liderança e seu interesse no judaísmo, sugere-lhe estudar no Séminaire Israélite de France, dirigido então por seu sogro, o rabino Henri Schilli. Mas, Jo Sitruk estava-se preparando para entrar na Universidade e se tornar engenheiro.

Nada acontece por acaso e seu caminho será traçado quando, após passar no extremamente difícil exame de admissão para o Institut National des Sciences Appliquées, não consegue ser aprovado no exame de Baccalauréat, prova realizada ao final do Ensino Médio, da primeira vez, sendo aprovado só na segunda tentativa.

Na época, em suas palavras, “Estava apaixonado pela Torá e o Talmud... A vontade de aprender me consumia e eu sabia que se tratava do investimento de toda uma vida...”. Se ele fosse cursar engenharia só poderia estudar Torá duas horas por dia. E isso não daria para nada...

Ele então decide ir para Paris e estudar no Séminaire Israélite. Comunica ao pai que não seguiria a carreira de engenheiro, mas sim o Rabinato, e, para sua surpresa, não encontrou oposição. O pai lhe diz: “O que fizeres, tens que fazê-lo bem feito. Isto é o essencial”. Foi naquele momento que Rav Sitruk fez a si mesmo uma promessa, que iria nortear o resto de sua vida: fazer o possível e o impossível, com todos os meios que estavam a seu alcance, para propagar a mensagem do Judaísmo.

Paris

Em outubro de 1964 Rav Sitruk chega a Paris e entra para o Séminaire Israélite de France. Único no gênero, o instituto não era uma ieshivá, tampouco uma universidade, mas uma espécie de síntese das duas. “As aulas eram, evidentemente, dedicadas na maioria aos assuntos judaicos, e eram de altíssimo nível tanto no plano do Judaísmo quanto universitário. Estudavamos o Talmud, Torá e Filosofia Judaica, mas tínhamos, também, cursos de francês, filosofia, pedagogia”.

No primeiro ano, estando as instalações do Seminário em reforma, Rav Sitruk ficou alojado na École d’Orsay Gilbert Bloch. Criada após a guerra por intelectuais judeus, era uma escola para alunos de nível universitário, que não dominavam o hebraico. As aulas eram principalmente sobre filosofia e pensamento judaico. Decidido a aprender tudo o que pudesse, o jovem Sitruk ia de manhã para o seminário e à noite assistia as aulas em Orsay. Continuou a atuar nos Escoteiros, pois assim que a liderança nacional soube que ele estava em Paris, foi encarregado de treinar líderes em nível nacional.

Em dezembro de 1965 ele se casa com Danielle. Para se sustentar, ele passa a dar aulas de preparação de meninos para o Bar Mitzvá e Danielle, que abandonara sua carreira de concertista, dava aulas de piano. Dois dos filhos nasceram durante o período que ficou em Paris.

Na época, a comunidade judaica parisiense estava se reestruturando. A 2ª Guerra deixara duras marcas e precisavam integrar um grande número de judeus do Norte da África. Ademais, “Havia certa reserva em relação à prática religiosa; o judaísmo “consistorial” (pregado pelo Consistoire – a Confederação Judaica da França) era, em princípio, ortodoxo, mas era uma ortodoxia aberta, “à la française”.

Formado, em março de 1969, Rav Sitruk aceita o posto de rabino em Estrasburgo. Mas pede à comunidade permissão de estudar por alguns meses em Israel.

Rav Sitruk e sua família vão para Israel. Foi em Bnei Brak que ele descobriu o mundo das ieshivot lituanas. Ele passa a estudar na ieshivá Cheerit Yossef, em Be’er Ya’akov, a uns 30 km de Bnei Brak. A ieshivá é dirigida por Rav Nissim Toledano, que se torna seu mestre. Lá o futuro Rabino Chefe da França vive em uma atmosfera de estudo 24h por dia.

Estrasburgo

O Rabino Sitruk e sua família voltam à França em abril de 1970 e se estabelecem em Estrasburgo, onde ele é encarregado de cuidar da juventude. Logo a seguir se torna assistente do Grão Rabino da cidade, Max Warchawski. Rav Sitruk, um rabino sefaradi, iria trabalhar em meio a uma importante comunidade asquenazi.

Nessa cidade ele vai aprender, na prática, qual o trabalho de um rabino. “Em Paris, aprendi a teoria... Em Estrasburgo, estava, como se diz, ‘em campo’ ”. Rav Sitruk acreditava que “se os homens ocupados não têm a oportunidade de se aproximar da beleza dos Textos Sagrados, de se aproximar sozinhos da Torá, então cabe a mim me tornar um dos mensageiros que permitirão que a Torá chegue até eles. Esta crença será minha bússola”.

Em Estrasburgo o rabino prova ser um formidável catalisador da juventude judaica. Ademais, ele institui o Yom Ha-Limud, um dia de estudos que cai no dia 7 do mês de Adar, dia do aniversário de nascimento e morte de Moshé Rabeinu.

No ano seguinte à sua chegada, o Rabino Sitruk e sua esposa passam por uma tragédia pessoal: seu filho, que nascera com uma malformação no coração, morre depois de alguns meses. “Depois de ter vivido essa dolorosa experiência, eu compreendo melhor as pessoas. A dor nos afasta e eu acredito que a melhor maneira de se aproximar dos que sofrem é tendo empatia, dividindo a dor com eles”.

Foi também em Estrasburgo que o Rabino Sitruk testemunhou o ódio antissemita. Ele tinha ido assistir, com um grupo de jovens da comunidade, a uma partida de futebol. Um dos jogadores, judeu, perdeu um pênalti e, de repente, Rav Sitruk viu “duzentas, trezentas pessoas que berravam de todos os lados, “morte aos judeus”, “judeus nos fornos” e outras barbaridades e ninguém no estádio conseguia fazê-las se calar. “E ali, de repente, eu entendi o que se esconde na sombra, agachado como um animal que, de um instante para outro, pode ressuscitar – é o ódio ao judeu, vítima expiatória que permite às vezes cristalizarem-se sobre ela todas as frustrações ou os erros”...

Grão Rabino de Marselha

Em 1975, os líderes comunitários de Marselha queriam contratar um rabino jovem, ativo, que pudesse dar um novo ânimo à comunidade. Convidaram Rav Sitruk que decide assumir o desafio, contanto que levasse consigo outros dois rabinos jovens.

Era uma Kehilá desestruturada e nenhum rabino queria ir para lá. Entre outros, a comunidade de Marselha precisava acomodar judeus do Norte da África. Lembra o Rabino: “Era preciso começar do zero, reunir todos os judeus da comunidade. A população judaica tinha-se multiplicado por doze. Foi uma verdadeira epopeia”...

Durante os 13 anos que ficou em Marselha, Rav Sitruk e sua equipe do Rabinato restruturam a comunidade e a elevaram aos pontos mais altos da espiritualidade e de atividades comunitárias. Foram abertas novas sinagogas e escolas judaicas. Cursos foram criados, ampliando o estudo da Torá. Criaram-se inúmeras atividades para os jovens. “Na sinagoga, uns 20 fieis vinham em Erev Shabat, apenas o dobro no sábado pela manhã. Quando eu os deixei, eram praticamente 400”...

Na década de 1980, a reputação do Rabino Jo Sitruk já se espalhara por toda a França, e a escolha de seu nome para Rabino Chefe do país não surpreendeu.

Rabino Chefe da França

Em 1987, Rav Sitruk é eleito para o cargo de Rabino Chefe. Foi reeleito por outros dois mandatos de 7 anos cada. Ele afirmava que sua ambição era “rejudaizar os judeus”. Ele lembra em Chemin Faisant que o “programa que expus ao me candidatar, em maio de 1987, não mudou.Tinha – e continuo tendo – a vontade de desenvolver o estudo, a educação e a proximidade com a Torá”.

Sua primeira eleição ocorreu num contexto histórico específico. Os judeus do Norte da África, que haviam revitalizado numericamente e espiritualmente a comunidade judaica na França, sentiam-se afastados dos grandes cargos comunitários de tomada de decisão.

Surgem preocupações, em alguns meios comunitários, com a ortodoxia do Rabino Jo Sitruk. É o presidente do Consistório à época, Jean Paul Elkann, judeu secular, quem responderá a esses temores: “Tendo o contexto religioso da França  evoluído, o Rabino Chefe deve seguir uma ortodoxia absoluta. Ele deve ser ortodoxo mas aberto aos demais, sem ter uma atitude de exclusão dos judeus seculares... Era necessário dar aos judeus da França outras razões, além do Caso Dreyfus, da lembrança da Shoá ou da defesa de Israel, para serem judeus no presente”.

Rav Sitruk era a escolha certa. Ele vinha da vida laica. Apesar de ter se tornado um rabino ortodoxo era ainda ligado às “trivialidades” da vida secular – uma descoberta científica, o futebol, os automóveis. Ele não tinha nada para “assustar” os judeus mais afastados – ele os seduzia, simplesmente.

Ao examinar seu papel de Rabino Chefe, Sitruk escreveu: “Tornar-me uma personagem pública com tudo o que isso implica de impessoal. Reconheço que esse é o lado mais ingrato do papel de Grão Rabino da França, e é contrário a meu temperamento de homem de consenso”. Durante seu mandato, ele manteve um contato ainda mais direto com os judeus da França. “Esforço-me de visitar o maior número possível de comunidades, de participar de eventos familiares, de ensinar o Talmud e o pensamento judaico. Em uma palavra, de continuar sendo simplesmente um rabino”.

Representante oficial dos judeus da França, ele manteve boas relações com autoridades francesas e com os governantes do país, de modo a solucionar as necessidades da comunidade judaico-francesa. Eram principalmente estreitas com os presidentes François Mitterrand e Jacques Chirac, sendo amigo pessoal de Valéry Giscard d’Estaing. Recebeu das mãos de Mitterand a comenda da Legião de Honra, em dezembro de 1992. Em 2007, foi elevado ao grau de Comendador da Legião da Honra.

Suas relações com a Igreja Católica na França também foram boas. Autoridades francesas seculares e religiosas lhe agradeceram por sua atuação no ato de arrependimento realizado em Darcy, em 1997, quando os bispos franceses leram uma declaração de arrependimento e pedido de desculpas por terem permanecido em silêncio durante o Holocausto.

Durante seu mandato, procurou aproximar e unir os judeus da França. Seu principal objetivo sempre foi levar o judaísmo aos judeus.“Somos os fiadores da mensagem da Torá”.

Quando assumiu o primeiro mandato como Rabino Chefe, a grande Sinagoga de la Victoire era praticamente deserta. Ele lhe dará um novo élan quando decide dar uma palestra, todas as segundas-feiras, à noite. Mais de 1.500 pessoas compareciam. Essas palestras e outros cursos eram gravados em fitas cassetes. Há mais de 150 temas gravados e 300 mil cópias foram distribuídas em todas as comunidades judaicas de língua francesa. E nos últimos anos, eram gravadas em vídeo e transmitidas pela televisão de Quebec e podiam ser assistidas no YouTube.

O Rabino Chefe era incansável. Deslocava-se a todos os lugares na França e até mesmo no exterior para transmitir sua mensagem. Veio ao Brasil nos dias 7, 8 e 9 de março de 1995. E também 18 e 19 de novembro de 1996.

Dois anos após sua posse organizou um dia dedicado à Torá, o Yom Hatorá, em Le Bourget no Parque Floral de Paris, ao qual convidou toda a comunidade para um tipo de “quermesse de fé”. Era uma das primeiras vezes que a comunidade judaica francesa saía da discrição auto-imposta que a caracterizava, após a 2ª Guerra, para assumir abertamente seu judaísmo. Contrariamente às expectativas pessimistas dos líderes comunitários, 35 mil pessoas compareceram ao evento. Foi o primeiro de vários Yom HaTorá que se seguiriam nos anos seguintes, com igual sucesso.

A juventude logo se sentiu cativada por esse rabino ortodoxo, um líder carismático que fala sua língua, entende seus problemas e não hesita em pontuar seu ensinamento com humor. São eles que vão alavancar o judaísmo francês.

Em poucos anos Sitruk havia realmente revolucionado o judaísmo da França. Ele não era contra os judeus seculares, mas pedia que fossem respeitados os judeus praticantes. Para ele, “o secularismo não é outra coisa senão o reconhecimento da liberdade cultural e religiosa das diferentes comunidades”. Ele queria que a sociedade francesa reconhecesse e respeitasse as especificidades do judaísmo, que fosse permitido aos judeus respeitar seus feriados religiosos. Conseguiu que nas escolas não fossem marcados exames no Shabat e nas festas religiosas. Com isto, permitiu que um número muito grande de estudantes judeus respeitassem a Lei Judaica e suas tradições.

O Grão Rabino Sitruk amava Eretz Israel e nunca se dissociava do Estado de Israel. Sobre as acusações de dupla lealdade, ele considerava que os judeus franceses “não tinham nenhum problema na questão França e Israel. Eles os amam como a um pai e uma mãe, como dois amores muito diferentes e não contraditórios, desejando ainda que esses dois países se amem muito...”. Ele não cansava de repetir que na França “a comunidade judia é perfeitamente integrada; vive na França há mais de 2 mil anos, antes da época galo-romana. Os judeus inspiraram os ideais dos direitos humanos da Revolução Francesa. A religião judaica respeita o secularismo, que representa um grande progresso para a sociedade”.

Um sobrevivente da oração

O Grão Rabino não se poupou, indo de um canto a outro para dar palestras, cursos, procurando resolver os problemas comunitários; era incansável. E essa atividade intensa teria um preço doloroso.

Em dezembro de 2001, com 57 anos, enquanto estava celebrando em Sarcelles o casamento da filha de sua secretária, sofreu um Acidente Vascular Cerebal (AVC) muito grave. A hemorragia cerebral foi muito séria e o estado de saúde de Sitruk era gravíssimo. Os médicos alertaram a família de que ele tinha apenas 1% de chance de sobreviver à primeira noite após o ataque.

O Grão Rabino conta em sua obra Rien ne vaut la vie (Nada vale mais do que a vida) que “não é o homem quem cura, mas D’us. O homem é apenas Seu emissário. E, sem prestar mais atenção às recomendações dos médicos, minha esposa deu a palavra de ordem: orar”. Ela toma a iniciativa e pede a toda a comunidade para rezar pela vida e saúde de Yossef ‘Haïm’ ben Emma Sim’ha. Segundo a tradição judaica, é permitido modificar o nome de uma pessoa para afastar uma doença grave. Foi, portanto, adicionado o nome Haim, que significa “vida” ao seu. Relata ainda o Grão Rabino que o grande cabalista Rav Kadouri pediu, contrariamente ao procedimento comum, que o novo prenome antecedesse o antigo, para que o novo nome – Yossef Haim – significasse “que acrescenta vida”.

Depois de 26 dias Rav Sitruk acorda. Pouco a pouco, volta a si. Claro que estava fisicamente muito fraco, mas recupera a fala, todas suas faculdades mentais, e credita esse milagre às milhares de orações recitadas em prol de sua cura. Definindo-se como um “sobrevivente da oração”, ele inicia uma segunda vida. O Grão Rabino da França volta às suas funções, mas não é mais o mesmo homem. “Sem dúvida adquiri um sentido mais agudo deste dom Divino que é a vida...”.

Em 2008, Joseph Haim Sitruk deixou o cargo de Rabino Chefe, após perder uma eleição muito disputada para Gilles Bernheim.

Ele volta a se dedicar ainda mais ao estudo, ao ensino e às orações. Aproxima-se, agora, consideravelmente, da comunidade francoparlante de Israel e passa mais tempo nesse país. Manteve-se sempre fiel ao que afirmou em 1998 no programa de entrevistas “Face aos Cristãos”: “Para nós, ser judeu, é crer em D’us, amar o homem e respeitar a Terra de Israel. Esconder qualquer um destes aspectos é diminuir a mensagem judaica”. Face ao ressurgimento do antissemitismo na França, o Rabino Sitruk multiplica seus apelos à Aliá.

Nos últimos anos, ele lutou bravamente contra a doença que afetou seu rosto. Desde o anúncio de seu falecimento, as reações se multiplicaram. Com seu prematuro desaparecimento, a comunidade judaica da França perdeu sua figura de proa. Raramente um desaparecimento teria suscitado tanta emoção. “É como se tivéssemos perdido um pai, um amigo, um confidente”.

O ex-chefe de Estado francês, Nicolas Sarkozy, escreveu: “Com a morte do Grão Rabino da França, Joseph Haim Sitruk, a República perde uma grande figura, que marcou duradouramente o judaísmo francês”. Milhares de pessoas se reuniram em redor da sinagoga Bet Halevi em Jerusalém para prestar sua última homenagem e despedidas àquele que foi seu verdadeiro pastor espiritual, encaminhando ao seio da Torá milhares e milhares de judeus.

Que D’us possa consolar sua esposa, Rabanit Danielle Sitruk, seus filhos, e toda a sua grande família, os judeus da França. E, que sua alma descanse em paz. Amén.