Morashá
Leonard Cohen, compositor e poeta

Leonard Cohen, compositor e poeta

Ele foi cantor, compositor e, sobretudo, um poeta cujas palavras eram destinadas a atrair a atenção dos Céus. Neto de um rabino, Leonard era um contador de histórias que conseguiu capturar em seus poemas e músicas a essência, a beleza e a dor que nos rodeiam.

Edição 95 - Março de 2017


Leonard Cohen foi um dos mais influentes artistas dos séculos 20 e 21. Autor da canção “Aleluia”, um dos maiores sucessos de todos os tempos, ele era um ícone do universo musical, um artista singular que não pertencia a uma época em particular. Começou sua trajetória artística como poeta, chegando aos 30 anos antes de decidir-se a entrar no mundo da música. Seu sucesso chegou lentamente, primeiro na Europa e em Israel e, posteriormente, nos Estados Unidos – e neste país quando já tinha completado 50 anos.

Era uma pessoa muito discreta, relutante em revelar aspectos de sua vida particular. Quando entrevistado, costumava dizer que as únicas respostas que realmente importavam eram as referentes às suas canções. Morreu aos 82 anos, em 7 de novembro do ano passado, em Los Angeles.

Vida familiar

Em 21 de setembro de 1934, com o nascimento de Leonard, Masha e Nathan Cohen tornaram-se pais pela segunda vez – já tinham uma menina. A família vivia então em Westmount, subúrbio afluente na ilha de Montreal, no sudoeste de Quebec, Canadá. Era uma florescente comunidade judaica. Seu avô materno era o Rabi Solomon Klinitsky-Klein, conceituado erudito e autor de várias obras. Tanto o rabino Solomon como Lazarus Cohen, bisavô paterno de Leonard, nasceram na Lituânia, onde eram considerados promissores estudiosos talmúdicos.

Pobreza e pogroms levaram os dois a deixar sua terra natal, estabelecendo-se inicialmente na Inglaterra e, em seguida, no Canadá. Enquanto Rabi Klinitsky-Klein continuou trilhar o caminho espiritual, Lazarus Cohen decidiu buscar o mundo dos negócios. Trabalhou primeiro em um depósito de madeira e lutou muito até conseguir se tornar um dos mais importantes empresários de Montreal. Seu filho, Lyon, avô de Leonard, fez crescer ainda mais a fortuna da família ao fundar uma empresa extremamente bem sucedida no ramo de vestuário.

Os Cohens eram amigos da família Klinitsky-Klein desde a Lituânia, e Lyon ficou feliz quando Masha, filha de Rabi Salomon, casou-se com seu filho Nathan. Foi assim que Leonard cresceu em um ambiente de fartura e judaísmo. O judaísmo sempre foi muito presente em sua vida. Lazarus Cohen, seu bisavô paterno, era um homem religioso e sionista. Ajudou a construir a mais importante sinagoga de Montreal, Shaar Hashamayim, ou Portão do Paraíso.O jovem Leonard ia à sinagoga todo sábado de manhã.

A família Cohen era sionista e acreditava que os judeus poderiam um dia voltar ao seu Lar. Quatro anos antes do 1º Congresso Sionista, realizado na Basileia em 1897, Lazarus já tinha ido a Eretz Israel onde adquiriu terras. Lyon, o avó de Leonard, herdou de seu pai o amor por nosso povo e nossa Terra. Na porta de sua casa, havia uma grande Estrela de David esculpida e, em 1919, ele se tornou membro fundador e primeiro presidente do Congresso Judaico do Canadá, que congregava as organizações judaicas do país.

Leonard perdeu seu pai ainda muito jovem, em janeiro de 1944. Lutando na 1ª Guerra Mundial como tenente da 4ª Companhia de Campo de Engenheiros Canadenses, Nathan foi ferido gravemente. Após a morte do pai, seus tios o convidaram para trabalhar na empresa da família. Mas, após um verão inteiro na fábrica, pendurando casacos nas araras, teve a certeza de que, embora houvesse um lugar para ele no mundo dos Cohen, aquilo não era para ele. Ele sabia que o intuito de seus tios era “salvar o pobre coitado do filho do irmão”. Além disso, a indústria têxtil tinha poucos atrativos para um jovem que estava descobrindo os poetas e os profetas judeus...

Vários anos após a morte do pai, seu avô, Rabi Solomon, viveu um ano em sua casa, revelando-lhe uma visão mais espiritual do judaísmo. O avô costumava ler e reler para Leonard passagens do Profeta Isaías e de outros profetas do Tanach. Lia para ele versos como: “O Senhor castigará a Terra: com o castigo de Sua boca e a respiração de Seus lábios Ele destruirá os malvados”. Com sua linguagem de punição e justiça, de condenação e salvação, as palavras dos Profetas do Tanach apontavam para um judaísmo totalmente diferente da que Leonard ouvia na sinagoga. Era uma visão espiritual que fascinou o jovem.

Crescendo sem uma figura paterna para guiá-lo, Leonard foi obrigado a traçar sozinho os seus caminhos. Enquanto frequentava o Ensino Médio, interessou-se por garotas, estudou oratória e concorreu à liderança estudantil; fez esportes e foi monitor em colônias de férias; aprendeu a tocar razoavelmente vários instrumentos, inclusive a guitarra, e formou um banda chamada Buckskin Boys.

Não era muito próximo de sua irmã, e sua mãe se casara novamente, porém logo se divorciou. Leonard considerava a mãe uma mulher amorosa, mas impulsiva e emotiva.  E, quando estava em casa, ele passava a maior parte do tempo no seu quarto, lendo, escondendo-se de todos. Desenvolveu o hábito de fazer longas caminhadas que o levavam às mais diferentes partes da cidade. Como suas notas eram boas, mantendo as aparências podia fazer o que quisesse.
Amor à poesia

Leonard Cohen começou sua vida artística como poeta. Herdara do avô materno a percepção de que as mais elevadas formas de literatura falam de justiça e almejam à transcendência.

Em 1951, com apenas 17 anos, foi aceito na Universidade McGill, de Montreal, tornando-se o talento literário da instituição. Enquanto cursava, escreveu uma coletânea de poemas, “Let Us Compare Mythologies”, publicados em 1956.

Após se formar, fez um semestre de Direito, além de trabalhar nas empresas da família durante alguns meses. Insatisfeito, mudou-se para Nova York, alugando um apartamento em Riverside Drive e matriculando-se na Universidade de Columbia, onde estudou inglês. Enquanto isso, escrevia. Mas nada disso o satisfazia. Nem a rotina do trabalho nem tampouco o curso de graduação conseguiram diminuir seu desejo, sua percepção de que havia uma maneira melhor de viver e de ser que ele ainda não descobrira.

Já tinha publicado duas coletâneas e a crítica o chamara de “O melhor poeta de sua geração”. Podia ser visto fazendo leituras de seus poemas, à noite, sentado em uma banqueta, com pouca iluminação, apenas um foco sobre si. Tímido, ele tinha receio de palco. Quando tinha que se apresentar publicamente, seu sorriso era nervoso, apertava seu livro de poemas contra o estômago, evitando fixar seu olhar. Mas assim que começava a falar, seu ritmo era perfeito, e o público era embalado por suas palavras.

Em 1964, aos 30 anos, deixou os Estados Unidos e passou a viver na ilha grega de Hydra, em uma casa branca no alto de um penhasco. Dali via o mar Egeu. Passava horas, diariamente, escrevendo. Inicialmente escrevia sobre redenção, um tema judaico amplo o suficiente para o trabalho de uma vida.

Depois vieram trabalhos mais ousados, trabalhos que deixaram os críticos boquiabertos e afastaram muitos fãs. Em 1964, quando sua coletânea de poemas sobre Hitler e sobre crueldade foi finalmente publicada, sob o provocativo título de “Flowers for Hitler”, ele prefaciou a obra com a seguinte citação: “Se de dentro do campo de concentração Primo Levi, um sobrevivente, escrevesse uma mensagem que pudesse ser levada aos homens livres, teria sido esta: ‘Tomem cuidado para não sofrer em suas próprias casas o que nos é infligido aqui’”.

Cohen acreditava que a capacidade de fazer o mal estava dormente em todos nós, e se quiséssemos expurgá-la, antes de mais nada era preciso aprender a falar sobre ela.

De poeta a cantor

Aos 32 anos, Leonard decidiu tornar-se cantor. Era o ano de 1966 quando deixou a ilha de Hydra e se mudou para Nova York. Tinha planos audaciosos em relação à sua carreira e queria reinventar-se como autor de canções. Sentia que, finalmente, havia encontrado a expressão artística que lhe permitiria transmitir e disseminar suas ideias. 

Há quem diga que essa sua decisão pode ter sido influenciada, em parte, por motivos financeiros, mas certamente nunca foi a única razão, sequer a principal. O lado espiritual da música atraía Leonard, ele sabia da importância da música para o espírito humano. O Livro dos Salmos, que o fascinava – instruía os que o estudavam: “Cante ao Senhor com graças; cante cânticos de louvor com a harpa para o Senhor, nosso D’us”. Cohen, que estudara os  Cinco Livros de Moshé, sabia ainda da importância da música na época do Grande Templo de Jerusalém. Quando ofereciam os sacrifícios, os Cohanim eram acompanhados por música e cânticos dos Leviim.

Quando passou a compor música o resultado foi sublime. Eram músicas produzidas lentamente e com grande esforço, Cohen levava  meses escrevendo cada uma delas. Escrevia dezenas de versos para cada uma e, então, lentamente, ia ajustando-os até alcançar sua essência. Isso levava às vezes anos. Ao cunhar seus versos, ele os transformava de confissões pessoais em invocações universais. Numa entrevista que deu anos mais tarde, revelou que tudo o que já tinha escrito, fossem seus poemas, canções, todos era, na verdade, “um grande diário, regulado pela música de violão”.

Ao se mudar para Nova York, em 1966, conheceu um jovem músico, 10 anos mais novo do que ele, Bob Dylan, sentindo-se logo imensamente atraído por suas músicas.

Em 1966, o rock n’ roll mudara. Compositores como Dylan se preocupavam com a poesia das letras e a mensagem a ser transmitida. Ainda que isso combinasse bem com a música de um poeta interessado na redenção e na espiritualidade, o universo do rock n’ roll não recebeu Leonard de braços abertos. O início de sua carreira foi difícil. Ia de agente em agente, sendo repetidamente rejeitado. Diziam-lhe que era muito velho e suas canções melancólicas. Tampouco agia como alguém que tinha como prioridade impressionar Nova York. No fundo, ele ainda era o jovem que lia os Salmos, o Profeta Isaías e que escrevera, em uma de suas músicas, que “... esqueceram-se de rezar aos anjos e os anjos se esqueceram de rezar por nós...”.

Finalmente, através de um amigo, foi apresentado à canadense Mary Martin, que o apresentou a John Hammond, o homem que descobrira, além de Dylan, vozes como Billie Holiday e Aretha Franklin. Martin telefonou a Hammond e lhe disse: “Há um poeta canadense que acho que vai-lhe interessar. Ele toca bem a guitarra e é um compositor maravilhoso, mas não lê música e é estranho...”.

O empresário recorda que percebeu imediatamente o potencial de Leonard. “Ele era encantador.... não se parecia a nada que eu já tivesse ouvido. Eu sempre quis ser o agente de alguém verdadeiramente original, se eu pudesse encontrar um, pois não há muitos no mundo. E o jovem sentado à minha frente ditava suas próprias regras, e era realmente um poeta extraordinário”.

Hammond lembra ainda que quando Cohen terminou de tocar ele lhe disse: “Você tem o que é preciso”. Cohen ficou sem saber se ele se referia ao talento Divino ou a uma recompensa mais terrena de um contrato de gravação com a poderosa Columbia. Hammond provavelmente quis dizer ambos, e, em agosto de 1967, Cohen entrava no estúdio para gravar seu primeiro álbum.

Em novembro daquele ano de 1967, duas de suas primeiras composições foram gravadas por Judy Collins em seu álbum “In My Life” – “Dress Rehearsal Rag”, e “Suzanne,” um de seus primeiros poemas, então musicado. No mesmo disco, a cantora interpretou músicas de Dylan e dos Beatles. O álbum ganhou o Disco de Ouro e Cohen pôde, a partir de então, considerar-se “um compositor”.

Com todo o seu talento, no entanto, Leonard ainda ficava aterrorizado diante de um palco. Apresentar-se ao vivo, diante de uma multidão, era extremamente difícil para ele. Caminhava hesitante em direção ao palco, com a guitarra escondida e suas pernas tremendo. Mas, assim que começava a cantar encantava o público.

Sua relação com Israel

Em 19 de abril de 1972, ele aterrissou no Aeroporto Ben-Gurion, em Israel, para realizar um concerto em Tel Aviv e dois em Jerusalém. Ficou extasiado ao ver Jerusalém, a Cidade de David. Em uma entrevista, um dos repórteres lhe perguntou se ele era “um judeu praticante”, ao que respondeu: “Estou sempre ‘praticando’. Às vezes sinto temor a D’us. Sinto, mesmo, esse temor, às vezes”.

Leonard sabia que era famoso, em Israel. Durante os shows que deu nesse país percebeu o quanto a multidão o amava – e o quanto ele amava aquele público. Durante um de seus shows, já no camarim, Leonard ouviu a agitação no auditório com o público pedindo sua presença no palco. Milhares de pessoas passaram a aplaudir e cantar “Hevenu Shalom Aleichem,” popular música de uma única estrofe, que significa “Trouxemos a paz para você”. E ao ouvir essa música, decidiu entrar palco. O público passou a cantar mais alto ainda e aplaudir mais forte, com mais entusiasmo do que Leonard ou seus músicos jamais tinham ouvido em qualquer apresentação. Com lágrimas nos olhos, Leonard pegou o microfone e disse: “Ei, pessoal, minha banda e eu estamos todos chorando. Estamos muito emocionados e não podemos continuar. Quero apenas dizer-lhes muito obrigado e boa noite!”. “Que público!”, disse, para ninguém em especial ao deixar o palco”.

A Guerra de Yom Kipur

A Guerra de Yom Kipur eclodiu em 6 de outubro de 1973. Leonard estava em Hydra e assim que soube do ataque a Israel partiu para Atenas e, de lá, pegou um avião para Tel Aviv.  Acidentalmente encontrou em um café um homem chamado Levi que o reconheceu. Para Levi, foi um sonho, pouco provável ver  Leonard sentado sozinho naquele café. O artista lhe disse que não podia ficar longe de lá e tinha vindo assim que soubera do ataque contra Israel. Não sabia por que, nem o que faria ao chegar. Mas tinha que vir.

Levi lhe respondeu que sua mera presença, em meio à guerra, faria milagres para o moral dos soldados, e que ele o levaria até eles nas bases militares e até nas várias frentes de batalha. A primeira parada foi numa base, onde foi improvisado um palco. Quando Levi apresentou-se e então anunciou o convidado especial, Leonard Cohen, inicialmente ninguém aplaudiu, pois ninguém acreditou que fosse verdade. O silêncio se manteve quando Leonard entrou, mas foi subitamente rompido pelos aplausos de soldados exaustos. Aquele momento o transformou. Assim que o show acabou, pegou sua guitarra e escreveu uma nova canção: “Lover, Lover, Lover.” No segundo show daquele dia, ele apresentou ao público a sua nova música. E os versos diziam: “E que o espírito desta canção, que possa alçar-se puro e livre, que possa ser um escudo para vocês. Um escudo contra o inimigo”...

Leonard estava incansável e manteve um ritmo intenso de apresentações, até umas oito por dia, durante quase três meses. Em alguns locais, cantou de pé, com um soldado segurando uma lanterna para permitir que vissem seu rosto. Frequentemente ele e Levi simplesmente dirigiam ao longo das frentes de batalha, parando onde avistassem um grupo de soldados e surpreendendo-os com algumas canções. Em uma apresentação para uma unidade de paraquedistas, no Deserto do Sinai, poucas horas antes deles partirem para a batalha, Leonard pediu aos homens que se aproximassem e começou a cantar os primeiros versos de “Até logo, Marianne”. A canção, disse Cohen, fora feita para ser ouvida em casa, com uma bebida em uma das mãos e com a outra abraçando a mulher amada.

A guerra deu um novo insight ao artista. Afastado da fama e de expectativas, ele vivenciou no deserto novas ideias sobre a vida em um mundo estilhaçado. No deserto, ele começou a trabalhar em seu próximo álbum, que não lembraria em nada suas criações anteriores.

O disco, lançado em 1974, foi bem recebido pela crítica, que ressaltou em suas resenhas as mudanças nas criações de Cohen. Mas, novamente, era um homem que não estava em sincronia com o seu tempo. No universo artístico que então se desenvolvia, não havia muito espaço para com cantor e compositor com obsessões transcendentais.

Vida pessoal

Em 1969 Leonard conheceu Suzanne Elrod. O casal teve dois filhos, Adam e Lorca. Quando sua filha nasceu, em 1974, sua relação com Suzanne já estava bem estremecida. Em 1978, pouco tempo após a morte de Masha, mãe do artista, o casal se separou. Suzanne se mudou com os filhos, então com sete e quatro anos, para a cidade francesa de Avignon.

Arrasado longe dos filhos, o artista ficava viajando entre a França, Nova York e Los Angeles. O jovem que, décadas antes, tinha declarado que a solidão era o único caminho para o Divino, era agora um homem que tinha vivido o suficiente para saber que estava certo.

Cohen tinha então 44 aos,  com alguns álbuns recebidos  pelo público com certo entusiasmo e, como confessara, “quase nenhuma vida pessoal”. A única coisa que  ele podia fazer era escrever letras, fazer arranjos e gravar. O fruto de seus esforços apareceu no  ano seguinte, na segunda metade  de 1979, e chamava-se “Recent Songs”.

Leonard envolveu-se com a seita japonesa Rinzai Buddhism. O compositor sempre afirmou que nunca abandonou o judaísmo, o que era frequentemente dito. Quando sua relação com o monge budista Roshi tornou-se pública,  ficou muito aborrecido. Leonard manifestou sua revolta em uma carta ao jornal Hollywood Reporter, em 1993. “Meu pai e minha mãe, de abençoada memória, teriam ficado muito perturbados com o fato de eu ser identificado como budista pelos jornalistas. Eu sou judeu. Mas é verdade que tenho estado bem curioso, já há algum tempo, com os murmúrios indecifráveis de um velho monge zen. Há pouco tempo, ele me disse: ‘Cohen, eu o conheço há 25 anos e nunca tentei dar-lhe minha religião”.

“Hallelujah”

Em 1984, Cohen estava afastado dos refletores. Ele era uma espécie de anomalia para o público dos Estados Unidos. Naquele mesmo ano, Walter Yetnikoff, da Columbia Records, convocou-o para uma reunião e, olhando para ele, disse: “Olhe, Leonard, sabemos que você é um dos grandes, mas não sabemos se você ainda é bom”.

Ele então apresentou seu novo álbum com a canção “Hallelujah”. Os diretores da Columbia Recordsnão acharam a canção “grande coisa”, sequer queriam lançar o álbum, que acabou saindo naquele ano na Europa e, somente no ano seguinte, nos Estados Unidos. Mas, foram poucos anos para que “Hallelujah” se tornasse um clássico.

A música é a mais famosa das composições de Leonard Cohen, apesar de que muitas pessoas sequer imaginem que tenha sido ele quem a escreveu. Um dos primeiros a perceber a beleza da música foi Bob Dylan, que a tocou em vários shows, em 1988. A música foi regravada mais de 300 vezes e tem sido interpretada por inúmeros artistas, de Bon Jovi a Bono. Há, inclusive, uma versão gravada em hebraico por soldados da IDF.

A palavra hebraica halleluyah  é um termo composto por hallelu, que significa “louvar com júbilo” e “yah”, forma abreviada do indizível Nome de D’us. Portanto, “halleluyah” é uma instrução de cantar um louvor ao Eterno. Cada verso da música termina com a palavra que deu seu título à canção, então repetida quatro vezes, dando-lhe sua inconfundível marca encantatória.

Ao ouvir a letra da música, tem-se a impressão de que se trata de uma canção de influência bíblica. O primeiro verso se refere ao Rei David, à sua música espiritual e seu relacionamento com D’us, e ao amor do Rei por Bathsheba. Diz o verso: “Ouvi dizer que havia um acorde musical secreto que David tocava e que agradava ao Senhor...  / Sua fé era forte, mas você precisava de provas / Você a viu banhar-se no terraço. Sua beleza  e o luar o derrubaram”... Hallelujah. Em seguida a canção faz referência, à queda de Sansão por causa de Dalilah: “Ela cortou seus cabelos e de seus lábios ela tirou Hallelujah...”.

Mas, a música se torna uma confissão pessoal e Cohen termina a canção falando com D’us, admitindo a derrota e sua devoção: “Fiz o melhor que pude e era pouco… E, mesmo assim, tudo deu errado. Postar-me-ei diante do Rei da música / Com nada em minha língua, a não ser Hallelujah...”

No decorrer dos anos, em inúmeras entrevistas, perguntaram a Leonard Cohen por que tinha escrito essa música e qual a sua mensagem. Numa entrevista em 1985, ele revelou: “É um desejo de afirmar minha fé na vida... Eu acredito que ao dizer: ‘Hallelujah’ – quando você a declara diante de todo tipo de acontecimento e mesmo de catástrofe que estamos vendo em toda parte – invocamos algum tipo de energia benéfica”. Como escreveu a revista Rolling Stones, em dezembro de 2012, “a música é a mensagem de Cohen de esperança e perseverança diante das adversidades da vida. Leonard Cohen nos diz para não nos rendermos ao desespero ou ao niilismo.”

O reconhecimento

Demorou para que a música de Leonard Cohen obtivesse a admiração universal. Para muitos artistas, ele foi o maior letrista de canções de todos os tempos, e seus fãs acreditavam que ele deveria ter recebido o Prêmio Nobel de Literatura.

No início da década de 1990, ele parecia realizado. Em 1991 foi indicado ao Canadiam Musical Hall da Fama, uma honraria que havia recusado quando mais jovem por não achar que merecia. Não parecia mais estar em conflito, como décadas antes, por receber a mais importante láurea do país, e aceitou a premiação com um sorriso. Em 2008 entrou para o Rock and Roll Hall of Fame dos Estados Unidos e dois anos depois, recebeu um Grammy por sua trajetória musical. Entre outros era membro da Ordem do Canadá e da Ordem Nacional de Quebec e, em 2011, recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras.

“Old Ideas,” seu 12º álbum, foi lançado em 2012, aos 77 anos. Foi o primeiro a entrar na lista dos dez mais da Billboard. Em 2014, na semana de seu 80º aniversário, Cohen lançou seu 13º álbum gravado em estúdio, denominado “Popular Problems.

Em outubro de 2016, lançou “You Want it Darker”, produzido por seu filho Adam, também cantor e compositor. Um trabalho introspectivo, focado em temas como a mortalidade. Em entrevista recente para a revista The New Yorker, Leonard revelou que estava pronto para a morte.

Leonard Cohen morreu dormindo, em Los Angeles, em 7 de novembro de 2016. Seu filho contou que ele continuou escrevendo até seus últimos momentos.

Antes de sua morte, o compositor exigiu que fosse enterrado de acordo com o ritual judaico ortodoxo, ao lado de seus pais, avós e bisavós. Leonard Cohen foi enterrado em Montreal, horas antes de sua  morte se tornar pública, no cemitério Shaar Hashomayim.

BIBLIOGRAFIA
Leibovitz, Liel, A Broken Hallelujah:  Rock and Roll, Redemption, and the  Life of Leonard Cohen, e- eBook Kindle
Cohen, Leonard, Burger, Jeff, Leonard Cohen on Leonard,eBook Kindle
Simmons,Sylvie,I’m Your Man:  The Life of Leonard Cohen, eBook Kindle