Morashá
 Ayelet Shaked, uma mulher à frente da Justiça de Israel

Ayelet Shaked, uma mulher à frente da Justiça de Israel

Ela é uma mulher que se sobressaiu num cenário político liderado por homens, a maioria deles egressos das unidades de elite das FDI. Secular, ela ocupa importante papel nas fileiras do partido sionista religioso, HaBait HaYehudi.

É uma engenheira de computação que, após uma meteórica e controvertida ascensão política, foi nomeada, em 2015, Ministra da Justiça.

Edição 96 - Junho de 2017


Essa jovem bonita de olhos claros, oriunda do norte de Tel Aviv, que vem das indústrias de alta tecnologia que transformaram a economia israelense, com ideias feministas, é o novo ícone do HaBait HaYehudi (Lar Judaico) em seus esforços de ir além de sua base sionista religiosa. O intuito do partido presidido porNaftali Bennett é alcançar novos eleitores, vencendo os estereótipos de colonos e seus defensores como religiosos fanáticos.

Hoje, aos 40 anos, Ayelet Shaked é considerada uma das legisladoras mais ativas dos últimos anos. Articulada (em hebraico e inglês), enérgica e implacável, ela é a líder política feminina mais carismática e ambiciosa surgida em Israel em muitos e muitos anos. Suas opiniões duras e francas e seu estilo confiante lhe proporcionaram um assento no Knesset (Parlamento) e um ministério, a fúria da Esquerda israelense e a crítica de muitos na mídia e nas elites acadêmicas israelenses. E, quem sabe no futuro, o posto de primeiro-ministro. No dia Internacional da Mulher deste ano de 2017, ela se sentiu confiante ao ponto de anunciar que se vê, tranquilamente, disputando, algum dia, o cargo de primeiro-ministro – naturalmente após o presidente do partido HaBayit HaYehudi, o atual ministro da Educação Naftali Bennett, tê-lo feito.

Nos dois anos em que está à frente do Ministério da Justiça, Shaked não se afastou de suas ideias e tem proposto uma série de medidas extremamente polêmicas. Entre outras, a revogação da cidadania dos árabes israelenses condenados por terrorismo, o escrutínio das organizações sem fins lucrativos que atuam em Israel e que recebem grandes somas de dinheiro dos governos europeus para promover causas tão negativas ao Estado como o BDS.

Uma de suas propostas era tornar mais conservadora a Suprema Corte de Israel, e inibir seu envolvimento na atuação do Knesset e nas decisões governamentais – o que aparentemente conseguiu, em 22 de fevereiro último, quando três dos quatro novos ministros do Supremo, indicados pelo Comitê de Seleção de Juízes para a Corte, tinham uma abordagem mais conservadora às leis e estavam entre os que a ministra considerava aceitáveis para assumir o cargo.

No tocante à Lei Fundamental do Knesset, que reza ser Israel um estado judaico democrático, o que Shaked mais almeja é “fortalecer a identidade judaica do país para que se tenha um Estado judeu, democrático e forte”. Ela afirma constantemente que “se opõe à ideia de que os dois valores sejam de alguma maneira incompatíveis. Essas identidades claramente não se contradizem; pelo contrário, acredito que se fortalecem mutuamente”.

A verdade é que não importa a concordância ou não com suas ideias políticas, algumas inegavelmente de linha dura. As pessoas podem admirá-la, discordar ou desprezar sua opinião, mas o que ninguém pode ignorar ou sequer minimizar é sua influência sobre o sistema político israelense – fato comprovado pelas últimas decisões do Knesset.

A atuação de Ayelet já lhe rendeu inúmeras honrarias. Em 2012, o jornal Globes a incluiu na lista das 50 mulheres mais influentes de Israel; em 2015, The Jerusalem Post a listou como a 33ª personalidade judia mais importante; a Forbes Israel a escolheu como a quinta mulher mais importante do país e foi, ainda, eleita a “Mulher do Ano” de Israel, pela revista Lady Globe.

Enquanto as propostas de Ayelet Shaked e sua atuação fizeram dela o centro das atenções, sua aparência se tornou um alvo tentador para aqueles que desaprovam aquilo que ela representa. Inúmeras foram as reações sexistas a uma mulher jovem e atraente em uma posição de destaque nacional. O fato de terem as críticas à sua política sido inegavelmente permeadas de uma grande dose de discriminação sexual tem levado mulheres, inclusive as que são nitidamente suas inimigas ideológicas, a sair claramente em sua defesa. “Discordo profundamente das opiniões de Shaked, dos membros do HaBait HaYehudi e do novo governo, de modo geral”, disse a ex-ministra da Justiça Tzipi Livni. “Mas condeno enfaticamente a atitude sexista em torno dela”. Até a líder do partido Meretz, Zehava Galon, saiu em sua defesa declarando que estava “farta dos comentários sexistas e misóginos sobre Ayelet Shaked. Ela é uma política inteligente e trabalhadora... Não me furtarei a criticá-la severamente sempre que ela tirar proveito de sua posição para prejudicar nosso sistema jurídico, mas não permanecerei em silêncio sempre que alguém poluir a arena pública com declarações infames sobre ela. Esse tipo de declaração manda uma mensagem às mulheres de que não importa o quanto tenham sucesso, nem mesmo quando cheguem a um alto posto no Governo – elas serão julgadas, primeiro e principalmente, por sua aparência física”.

Sua vida

Ayelet Ben-Shaul nasceu em 7 de maio de 1976 em Tel Aviv, em uma família de classe média alta. Cresceu no bairro de Bavli, onde mora até hoje. Suas origens são típicas de uma israelense de terceira geração, meio asquenazi meio sefaradi, liberal e conservadora, mesclando elementos seculares e religiosos.

O pai de Shaked, iraquiano nascido no Irã, sempre votou pelo Likud. Sua avó paterna chegou a Israel em 1950 e a ministra costuma dizer que é meio iraquiana, o que é motivo de muito orgulho para ela. A mãe, professora de Torá, que sempre votou nos partidos de centro-esquerda, é de origem asquenazita. Sua família chegou a Israel com a primeira aliá, que veio da Rússia e Romênia na década de 1880.  Shaked conta que em sua casa não se discutia política, mas se recorda perfeitamente que tinha apenas oito anos quando assistiu a um debate na televisão entre Shimon Peres e Yitzhak Shamir, e que ficou encantada com a fala forte de Shamir.

Estudou balé e se tornou uma das principais chefes-bandeirantes do Movimento de Escoteiros de Israel. Na escola, era excelente aluna, sempre se destacando em matemática. Enquanto cursava o Ensino Médio, não era politicamente ativa, apesar de suas posições serem sempre a favor da direita israelense.

Fortaleceu sua posição nesse partido durante o serviço militar nas FDI. Tornou-se instrutora na Brigada Golani no 12º Batalhão Barak e na famosa Sayeret Golani (unidade de forças especiais da Brigada Golani). Serviu em Hebron, e suas posições políticas foram altamente influenciadas pelos colonos sionistas religiosos, ao lado de quem serviu nas FDI, e que, hoje em dia, formam o núcleo de seu eleitorado. Em suas próprias palavras, “Percebi na época que a solução para o conflito palestino não viria agora”.

Após terminar o serviço militar, estudou Engenharia Elétrica e Ciências da Computação na Universidade de Tel Aviv. Começou sua vida profissional no setor de alta tecnologia, trabalhando na área de engenharia de software na Texas Instruments. Casou-se com um piloto de caça, que ainda trabalha para o Exército de Israel como instrutor de pilotos civis, com quem tem um filho e uma filha.

A hoje ministra da Justiça poderia facilmente ter feito uma bela carreira empresarial entre a elite de viés esquerdista de Tel Aviv. No entanto, já tinha feito do judaísmo, do sionismo e do Estado de Israel o cerne de seu interesse e sua perspectiva gravitava em torno da política de centro-direita.

Vida política

Entrou na vida política em 2006 quando foi convidada por Binyamin (“Bibi”) Netanyahu, para ser  diretora de seu Gabinete, cargo que ocupou até 2008. Aos 30 anos, ela já dirigia o Gabinete do primeiro-ministro e parecia destinada a uma carreira estelar no Likud. Foi ela quem levou Naftali Bennett para o Gabinete de Netanyahu, onde ele serviu como chefe de Gabinete de 2006 a 2008.

Após deixar o Likud, criou,  em 2010, junto com Bennett, o movimento e website Israel Sheli. Liderado por Shaked até 2012, o Israel Sheli é um movimento que trata das relações públicas pela internet e em especial pelas redes sociais, organizando também protestos e passeatas contra atividades antissionistas na sociedade e na mídia. Em 2012, ela recebeu o Prêmio Abramowitz de Israel pela Crítica à Mídia. Esse prêmio é outorgado anualmente a duas pessoas que tenham dado uma “contribuição especialmente valiosa, significativa e qualitativa à crítica à mídia em Israel”.

Em janeiro de 2012 foi eleita membro do Comitê Central do Likud, mas renunciou em junho. Demonstrou a ousadia que se tornaria sua marca registrada – sabendo ser impossível não manifestar abertamente suas críticas ao Likud, preferiu abandoná-lo e se juntar ao HaBait HaYehudi, o partido sionista religioso liderado por Naftali Bennett. Ela recorda: “Quando Bennett e eu decidimos juntar-nos ao HaBait HaYehudi, eu era membro do Likud, e as pessoas me perguntavam: ‘Você enlouqueceu? Você é mulher e sequer é religiosa... Que chances tem de ser eleita? Ninguém votará em você. Isso é suicídio político’”.

Nas primárias do HaBait HaYehudi ficou em terceiro lugar, algo extraordinário se lembrarmos que ela é mulher e não é religiosa. Ela venceu candidatos homens muito mais conhecidos e admirados no meio religioso nacionalista, e membros veteranos do partido. Ficou em quinto lugar na lista dos membros desse partidoque ocupariam um assento no Knesset caso o partido ganhasse cadeiras. Nas eleições de 2013, obtiveram  12 assentos, vitória que definitivamente a colocou na Casa.

Pouco depois, ela se integrou a inúmeros comitês: Assuntos Econômicos, Trabalhadores Estrangeiros e Finanças. Presidiu, ainda, o Comitê de Aplicação da Lei dos Serviços de Segurança e da Lei do Serviço Nacional de Civis.

Ela é feminista, e apesar de ser membro de um partido religioso defende políticas seculares. Teve, por exemplo, um papel decisivo na aprovação da lei que pôs fim às isenções do serviço militar para os judeus haredim, ultra-religiosos, atitude que provocou a ira de alguns segmentos da comunidade haredi. Shaked possui uma visão clara sobre a economia israelense, que, a seu ver, não é capitalista o suficiente para a realidade e necessidades do país.  Ela foi também uma das principais vozes contra a imigração da África.

Uma mulher extremamente ativa, ela ficou em primeiro lugar juntamente com Shelly Yachimovich como membro de destaque do Knesset durante a legislatura de verão, numa indicação do Canal da Knesset; em 2014, ficou em segundo lugar na legislatura de inverno.

Atuação como Ministra

Ayelet Shaked completou  39 anos em 7 de maio de 2015, dia em que seu partido assinou um acordo garantindo o quarto mandato do primeiro-ministro Bibi Netanyahu, e, no dia 14 de maio assumiu o Ministério da Justiça. Nesses dois anos, tem procurado dar continuidade a pautas que já defendia enquanto membro do Knesset.

De modo geral, os israelenses não se interessam muito pela escolha do ministro da Justiça, mas desde que o nome de Shaked foi anunciado, o debate se polarizou em todo o país.

A maior preocupação de seus críticos é sua visão sobre o sistema judiciário israelense e o poder que passou a acumular à frente da pasta da Justiça, cargo que a tornou chefe do poderoso Comitê Ministerial para Legislação, responsável pela decisão sobre quais projetos deverão ou não ser enviados ao Knesset. Como presidente desse Comitê, mesmo não decidindo sozinha o destino das propostas, tem grande influência sobre o conteúdo das leis e, em última instância, sobre o funcionamento da democracia israelense.

Em relação ao sistema judiciário, entre os pontos mais delicados está a autonomia da Suprema Corte em determinadas questões. Respondendo aos que dizem que quer limitar o poder do Judiciário, Ayelet Shaked afirma que “os novos rumos que deseja seguir visam definir de forma mais precisa os caminhos de cada um dos poderes – legislativo, executivo e judiciário”.

Outra preocupação é a nomeação de novos juízes para a Suprema Corte. A batalha sobre o futuro dessa Casa que levou à nomeação de três, dentre quatro juízes conservadores, iniciou-se em novembro do ano passado quando a presidente do Supremo, a ministra Miriam Naor, cortou relações com Ayelet Shaked em virtude das negociações sobre a indicação dos novos ministros do Supremo.

Shaked alertou a ministra Naor  que caso não voltasse às negociações, ela iria conseguir a aprovação no Knesset para um projeto de lei apresentado pelo Israel Beitenu, que permitiria que ela e o escalão político superior indicassem juízes do Supremo, mesmo contra a vontade da Suprema Corte.  (O projeto do Israel Beitenu, apresentado no ano passado, previa uma mudança no sistema de nomeação dos juízes da Suprema Corte: para ser aprovado o candidato precisaria apenas de maioria simples no Comitê de Seleção Judicial,  que conta com nove membros.)  A ministra Naor decidiu fazer o acordo que levou à nomeação dos três juízes conservadores, evitando  que o projeto fosse reapresentado. Na realidade, a nomeação não mudaria a Suprema Corte da noite para o dia. Hoje, dois ou três dos atuais ministros, dentre um total de 14, são vistos como conservadores, então o número passaria para cinco ou seis, o que continuaria sendo minoria. O principal significado disso só seria percebido no longo prazo, se um número maior de ministros conservadores fossem substituir os atuais juízes. A verdade é que é muito mais difícil mudar o sistema judiciário israelense do que pode parecer; e Shaked não possui a força política necessária para impor medidas radicais.

Os assentamentos

Um tema importante na agenda da atual ministra da Justiça são os assentamentos, um dos principais pontos de atrito tanto internamente quanto entre Israel e a comunidade internacional.

A ministra afirmou em uma entrevista: “Creio que à nossa volta, em todo o Oriente Médio, estamos testemunhando eventos muito significativos e turbulentos. Eu até diria que o Oriente Médio passou por mudanças profundas  nos últimos anos... Toda a região  está mudando, e todos os estados-nação desmoronaram. Temos, hoje, uma paisagem tribal, e todo pedacinho de terra que não está sob influência do Ocidente é sequestrado pelo Islã radical. Portanto, não resta a Israel outra opção a não ser seguir em frente e gerenciar o conflito.  O problema são os norte-americanos e europeus que continuam insistindo neste paradigma de um estado palestino aqui e agora, e que continuam insistindo que os assentamentos são a raiz do conflito... o que é uma completa falta de entendimento histórico sobre o que, de fato, significa este conflito”.

A ministra defende a aplicação da  lei israelense ao invés da lei militar em algumas regiões da Judeia e Samaria (denominação adotada pelo governo de Israel para a Cisjordânia), como vem acontecendo há décadas, tema que poderá aumentar os problemas de Israel na arena internacional. Esta seria uma das principais razões pelas quais ex-primeiros ministros, como Menachem Begin e Yitzhak Shamir, que se opunham à retirada israelense da região, jamais adotaram as medidas atualmente sugeridas por Shaked.

Ela afirma que “há muitas áreas na Judeia e na Samaria cujo  status legal é indefinido.  É chegada a hora de acabar com a ambiguidade legal e permitir que os residentes da região, muitos dos quais em assentamentos construídos pelo governo israelense, vivam sem o temor constante em relação aos seus direitos de propriedade”.

ONGs e redes sociais

Ela está na linha de frente na luta contra o BDS. Como vimos acima, a sua agenda de trabalho da ministra inclui uma análise sobre a origem dos recursos das Organizações não governamentais (ONGs) e, em janeiro de 2016,  ela apoiou um projeto apresentado no Knesset que exige a identificação dessas ONGs que recebem a maior parte de seus recursos de “governos e entidades estrangeiras”.

Em uma entrevista concedida ao The Washington Post, ela afirmou que o público tem o direito de “saber quais ONGs recebem a maior parte de suas verbas de governos estrangeiros e, na verdade, representam os interesses destes governos”. Shaked deseja forçar essas organizações a se identificarem como tal. Apesar de insistir que se trata de total transparência, seus críticos alegam que ela planeja encerrar as atividades de tais entidades, que são essencialmente antissionistas e pró-Palestina.

Em 9 de fevereiro último, a ministra declarou que iria encaminhar uma lei que imporia pesadas multas às redes sociais  que se recusassem a remover conteúdo que incitava à execução de ataques terroristas. Falando à Rádio do Exército, ela afirmou  que durante a recente onda de ataques a veículos e esfaqueamentos por lobos solitários, ao longo do último ano e meio, Israel conseguiu frustrar fisicamente os ataques, mas não conseguiu evitar uma onda  de incitação nas mídias sociais – que ela chama de “motor” da onda de terror. “Sentimos que a soberania de Israel tinha realmente sido prejudicada”, foram suas palavras.