Utilizando a estrutura das suas empresas de mineração instaladas no continente sul-americano, Moritz Hochschild ajudou a salvar judeus alemães das garras do nazismo antes mesmo da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

A mineração sempre foi um dos principais segmentos responsáveis pelo desenvolvimento econômico da América do Sul nos últimos 500 anos. A presença de empreendedores e seu papel no desenvolvimento da atividade mineral, na primeira metade do século XX, representam ainda um aspecto muito pouco explorado pelos historiadores e especialistas da história econômica da mineração. Aproveitando a experiência no comércio de metais e as tecnologias de tratamento e beneficiamento desenvolvidas na Europa, diversos empreendedores aportaram no início do século passado, nas Américas, em busca de novas jazidas para atender as demandas de matérias-primas minerais dos mercados internacionais. A figura de Moritz Hochschild, engenheiro e judeu alemão formado na Escola de Minas de Freiberg, na Saxônia, encaixa-se dentro deste perfil. Ele criou o Grupo Hochschild, que reunia empresas de mineração e de comércio de minerais e metais na Bolívia, Argentina, Chile, Peru e no Brasil.

Buscando reconstituir os principais passos da trajetória de Hochschild, considerado um dos grandes “barões” do estanho da Bolívia, o pesquisador Helmut Waszkis realizou um extenso levantamento de documentos e entrevistas. Coletou, também, depoimentos com os colaboradores e familiares de Hochschild, na Europa e em diversos países sul-americanos, sobre este importante personagem da mineração na América do Sul1 . Neste trabalho, que resultou na sua tese de doutorado, defendida na Universidade Livre de Berlim, em 2000, Waszkis busca desvendar os enigmas de como um empreendedor alemão de origem judaica pôde desempenhar um papel importante na mineração da América do Sul e, ao mesmo tempo, permanecer desconhecido pelos historiadores.

As primeiras pesquisas mostraram que não existiam registros significativos da passagem de Hochschild por sua cidade natal, Biblis. Nas pesquisas realizadas na renomada Escola de Minas de Freiberg, não foram encontrados registros sobre Hochschild. Segundo o pesquisador, isto provavelmente deveu-se à sua condição judaica. Após a Segunda Guerra Mundial, o seu nome continuou a não ser lembrado pelo então regime da Alemanha Oriental devido a seu caráter demasiadamente “empreendedor e capitalista”.

Um aspecto interessante e pouco conhecido da biografia de Hochschild, analisado em detalhe por Waszkis, é o que trata de seu empenho pessoal em criar alternativas para a saída dos judeus da Alemanha e de outros países e que enfrentavam dificuldades para emigrar para o novo continente. Naquele período, a obtenção de um visto era uma pré-condição indispensável. Deve-se relembrar que nos anos que antecederam o conflito mundial, os países candidatos a receber imigrantes sofriam ainda os efeitos da recessão econômica e nenhum destes desejava aumentar seus índices de desemprego, muito menos com mão-de-obra estrangeira, o que poderia comprometer os poucos empregos disponíveis.

Apesar de nunca ter negado sua identidade judaica, Hochschild aceitava o seu judaísmo como fato inerente e circunstancial em sua vida. Não era religioso, não tinha empatia com as causas sionistas e nem tampouco era engajado em atividades comunitárias. Em 1934, enviou um representante à Alemanha, em uma tentativa de trazer alguns judeus para trabalhar em seus empreendimentos. Registros coletados por Waszkis indicam que na Bolívia, centro de suas atividades na América do Sul, Hochschild fundou empresas especializadas em projetos agrícolas e de mineração para poder emitir os vistos e trazer os judeus confinados na Alemanha.

As estatísticas do universo de judeus salvos pela ação organizada das empresas de Hochschild não são muito precisas. Mas, pelo levantamento de Waszkis, pode-se estimar que aproximadamente 2.000 judeus conseguiram vistos de entrada em países da América do Sul neste período sombrio da história até o início do conflito. Por outro lado, nos arquivos do American Jewish Joint Distribution Committee, foram encontrados documentos informando que este número provavelmente chegou a 10.000 judeus.

Deve-se destacar que, ao longo do processo, Hochschild enfrentou um período difícil e de grandes hostilidades locais, principalmente devido às ligações existentes entre figuras proeminentes dos governos sul-americanos com o regime vigente na Alemanha. Além disso, uma imigração em massa de judeus poderia desencadear uma grande onda de anti-semitismo e pôr em risco os esquemas de vistos montados por Hochschild.

Por sempre ter trabalhado eficientemente neste processo de contratação e emissão de vistos, Hochschild passou despercebido por muitos historiadores do Holocausto. Caso as estatísticas do American Jewish Joint Distribution Committee estejam corretas, estima-se que Hochschild tenha salvado mais judeus do que Oskar Schindler. Merece, portanto, ser mais estudado e conhecido pela comunidade judaica.

Perfil empreendedor

Hochschild, aproveitando a experiência adquirida no início de sua carreira profissional, quando trabalhou, por pouco tempo, na Metallgesellchaft, viajou para o Chile e posteriormente para a Bolívia, onde iniciou o comércio de metais. É importante salientar que na indústria mineral, onde intuição e pragmatismo já eram considerados um risco, o empresário acumulou grandes lucros, pois naquele período (1910) não exis-tiam os atuais mecanismos financeiros de hedge e outros instrumentos que protegem os investidores contra a volatilidade nos preços dos metais. Na biografia levantada, o Grupo Hochschild foi responsável pela criação de diversas empresas, destacando-se a Empresa Minera de Mantos Blancos S.A., Cia. de Minas del Peru S.A, com diversas subsidiárias e atividades inclusive no Brasil.

Hochschild faleceu em Paris, em 1965, aos 84 anos. Segundo os levantamentos de Waszkis, não deixou grande fortuna para seus familiares mais diretos. Mas, em função do seu caráter, deixou um grande legado de ativos importantes, como empreendimentos mineiros e empresas de comércio de metais no Chile, Peru e Brasil. Pode-se afirmar que Hochschild foi um empreendedor de sucesso. Organizou um grupo de empresas com presença internacional, mas, por outro lado, não obteve sucesso na construção de um grupo coeso e permanente. Suas empresas permaneceram com uma estrutura muito familiar, vinculada a seus colaboradores mais diretos, de sua total confiança. Diferentemente dos demais grupos que operavam principalmente com estanho, o grupo Hochschild conseguiu uma sobrevida de dez anos após a morte de Hochschild.

Este mesmo comportamento discreto, Hochschild manteve em relação à filantropia. Apesar de seus colaboradores mais diretos afirmarem que ele contribuía diretamente para diversas instituições sociais, existem poucas provas documentadas. A maioria das atividades filantrópicas de Hochschild foram realizadas após a sua morte. Em 1981, já falecido, foi criada na Europa a Lampadia Foundation, com subsidiárias na Argentina, Chile e Brasil, que chegou a atingir, em 1995, um patrimônio de US$ 244 milhões. Nesses países a fundação operou em suas unidades nacionais com diferentes nomes: Fundação Vitae, Fundacion Andes e Fundacion Antorchas.


Saul Suslick
Professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas.

1 A pesquisa de Helmut Waszkis resultou na obra “Dr. Moritz (Don Mauricio) Hochschild:1881-1965; The man and his companies; A German Jewish Mining Entrepeneur in South America. Frankfurt”: Veurvuert,2001, 246p.