Morashá
Dia Internacional do Holocausto

Dia Internacional do Holocausto

O tema do evento da Fundação Mundial Fórum do Holocausto, no Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, foi “Relembrando o Holocausto, combatendo o Antissemitismo”. Participaram delegações de 49 países, incluindo 45 chefes de Estado e membros da realeza europeia, recordando o que não se pode esquecer, jamais!

Edição 107 - Abril de 2020


Este ano, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, criado pela Organização das Nações Unidas para homenagear os seis milhões de judeus vítimas do Holocausto, foi particularmente significativo. Há 75 anos era libertado o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau e seus horrores, revelados. Hoje, no entanto, o mundo parece tê-los esquecido, quando atos antissemitas se tornam cada vez mais frequentes em vários países da Europa e nos Estados Unidos.

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, ou International Holocaust Remembrance Day, entrou no calendário mundial em novembro de 2005, quando a Assembleia-Geral da ONU aprovou uma resolução designando o dia 27 de janeiro, data em que, em 1945, as tropas soviéticas entraram no famigerado campo de extermínio, localizado na Polônia, como uma data a ser celebrada anualmente.

Este ano, entre as inúmeras cerimônias que foram realizadas em torno da data ao redor do mundo duas foram centrais, e muito impactantes. Uma, em 23 de janeiro, em Jerusalém, organizada pela Fundação Mundial Fórum do Holocausto, criada pelo filantropo e ativista judeu Moshe Kantor, e em parceria com a Presidência de Israel, do Yad Vashem e do Ministério das Relações Exteriores de Israel – o 5º Fórum Mundial sobre o Holocausto. E a outra, no dia 27 do mesmo mês, dia exato da libertação, em Auschwitz-Birkenau, organizada pelo Congresso Judaico Mundial (WJC).

O evento em Jerusalém

O tema do evento da Fundação Mundial Fórum do Holocausto, no Yad Vashem, o Memorial do Holocausto, em Jerusalém, foi “Relembrando o Holocausto, combatendo o Antissemitismo”.

Participaram delegações de 49 países, incluindo 45 chefes de Estado e membros da realeza europeia Entre os presentes, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin; da França, Emmanuel Macron; da Alemanha, Frank-Walter Steinmeir; da Geórgia, Salome Zourabichvili; do Conselho Europeu e ex-primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel; os reis da Holanda, Willem-Alexander; e Philippe, da Bélgica; Filipe VI, da Espanha; o príncipe Charles, da Inglaterra, além de representantes da Austrália, Canadá, Itália, Ucrânia e Argentina. “Esta é uma reunião histórica não apenas para Israel e o Povo Judeu, mas para toda a humanidade”, afirmou o presidente de Israel, Reuven Rivlin. Autoridades israelenses afirmaram que o evento foi o maior encontro diplomático e político desde a criação do Estado de Israel, em 1948.

O objetivo do encontro era não apenas marcar o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto e os 75 anos de libertação do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, mas também debater o aumento do antissemitismo na Europa e nos Estados Unidos. A organização americana Liga Anti-Difamação (ADL) concluiu, em novembro passado, que as atitudes antissemitas aumentaram em todo o mundo – especialmente na Europa Central e Oriental. A pesquisa apontou que um em cada quatro europeus tem atitudes fortemente negativas em relação aos judeus. Outras entidades de pesquisa revelavam que o número de jovens com conhecimento do que ocorreu durante o Holocausto é pequeno – um fato muito alarmante após meros 75 anos.

A presença de tantas autoridades foi um sinal inegável da determinação dos líderes presentes de lutar contra o aumento do preconceito contra os judeus não apenas na Europa, mas, também, nos outros continentes, meras sete décadas após o término da 2ª Guerra Mundial.

Ao dar as boas-vindas às autoridades, no Yad Vashem, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu enfatizou o fato de líderes mundiais virem a Jerusalém para marcar, com os israelenses, os 75 anos da libertação de Auschwitz. “É importante que eles se lembrem de onde nós viemos e é importante que vejam aonde chegamos”, ressaltou.

Falou, também, da gratidão de Israel aos Aliados que derrotaram Hitler, mas enfatizou que quando o Povo Judeu enfrentava a aniquilação, a maior parte do mundo virou-lhe as costas. “Auschwitz é o último símbolo da fraqueza judaica. Hoje, temos uma voz, temos uma terra e temos um escudo – as Forças de Defesa de Israel”, afirmou, num discurso carregado de emoção.

Criticou, também, o regime iraniano por ser “o mais antissemita do planeta”, em suas palavras. “Estou preocupado que ainda não tenhamos encontrado uma posição unificada e resoluta contra o regime mais antissemita do planeta; um regime que busca abertamente desenvolver armas nucleares e aniquilar o Estado judeu”, disse Netanyahu.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, endossou as observações do primeiro-ministro israelense, sugerindo que o mundo “deve permanecer firme contra o Irã”. “Devemos estar preparados para enfrentar e expor a onda vil de antissemitismo que está alimentando o ódio e a violência em todo o mundo.... Dentro desse mesmo espírito, também devemos permanecer firmes contra o principal promotor do antissemitismo, o único governo do mundo que nega o Holocausto por uma questão de política estatal e ameaça varrer Israel do mapa.... O mundo deve permanecer firme contra a República Islâmica do Irã”, destacou.

Um dos discursos mais emocionantes foi proferido pelo presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, um verdadeiro “mea-culpa”. Steinmeier falou em inglês, como um gesto de respeito às vítimas, para “não falar a língua dos criminosos neste local”.

Começando com a bênção de Shehecheianu, em hebraico, agradecendo a D’us que nos permitiu chegar com vida para testemunhar aquele momento, o presidente afirmou que a memória dos crimes alemães no Holocausto jamais terá fim e que o antissemitismo e o veneno do nacionalismo devem ser combatidos hoje e sempre. Ele ressaltou a responsabilidade alemã pela morte de milhões de judeus pelos nazistas, dizendo que “os assassinos, os vigilantes, os ajudantes dos ajudantes, os simpatizantes: eles eram alemães.... Por isso a lembrança jamais deverá ter fim (…) Eu gostaria de poder dizer que os alemães aprenderam para sempre com a História, mas isso não é possível diante dos casos recentes de ódio contra judeus e dos ataques a escolas judaicas e sinagogas...”. Ele se referia a uma tentativa frustrada de invasão, por um homem armado, em uma pequena sinagoga na cidade de Halle, ocorrida em outubro de 2019.

Continuou dizendo “Não são as mesmas palavras, não são os mesmos criminosos. Mas é o mesmo mal.... E a resposta permanece a mesma: Nunca Mais! A terrível guerra que custou mais de 50 milhões de vidas começou em meu país. Setenta e cinco anos após a liberação de Auschwitz, eu estou aqui como presidente da Alemanha, cheio de culpa (...) Os espíritos do mal estão emergindo em nova forma, apresentando-se em pensamentos antissemitas, racistas e autoritários, como uma resposta para o futuro. Eu gostaria de afirmar que, nós, alemães, aprendemos com a História de uma vez por todas, mas não posso dizer isso quando o ódio se está espalhando (...). Esta Alemanha viverá em paz consigo mesma apenas se assumir sua responsabilidade histórica. Nós combatemos o antissemitismo. Nós resistimos ao veneno que é o nacionalismo. Nós protegemos a vida judaica. Nós estamos com Israel. Aqui, no Yad Vashem, eu renovo esta promessa diante do mundo”.

Em sua mensagem, o presidente Putin também reafirmou o compromisso da Rússia no combate ao antissemitismo ao dizer: “Sabemos como o antissemitismo acaba: ele acaba em Auschwitz. Mais de um milhão de pessoas, em sua maioria judeus, foram assassinados no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Seis milhões de judeus foram mortos no Holocausto. Este foi um capítulo terrível na história da humanidade.... Nós não devemos esquecer que estes crimes (nazistas) tiveram cúmplices que eram, com frequência, mais cruéis que seus mestres. As fábricas da morte e os campos de extermínio não eram usados unicamente pelos nazistas, mas também por seus cúmplices na Europa.”

Disse ainda “Todos nós devemos assumir a responsabilidade de garantir que as terríveis tragédias do passado nunca mais se repitam. Nós devemos garantir que as futuras gerações lembrem dos horrores do Holocausto. Devemos estar vigilantes para perceber quando os primeiros brotos do ódio, do chauvinismo, da xenofobia e do antissemitismo começarem a mostrar sua feia face”.

O presidente francês, Emmanuel Macron, fez um apelo para a união entre as nações, pedindo que deixem de lado controvérsias históricas. Clamando por amizade e não ódio, disse: “Que símbolo poderia ser maior ou melhor do que estarmos todos reunidos aqui, hoje, unidos. É fundamental que a Europa permaneça unida”.

O príncipe Charles, herdeiro do trono da Grã-Bretanha, afirmou que as lições do Holocausto são importantes nos dias de hoje.

“Ódio e a intolerância ainda vivem no coração humano, ainda contam novas mentiras, ainda adotam novos disfarces e procuram novas vítimas (...). Violência e atos indescritíveis de crueldade ainda são perpetrados ao redor do mundo por razões religiosas, de raça ou crenças”.

Falou ainda de sua avó, a princesa Alice de Battenberg, que escondeu e salvou uma família judia, na Atenas ocupada pelos nazistas, na década de 1930, e que, por sua vontade expressa, está enterrada no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Uma árvore foi plantada em seu nome na ala dos Justos Entre as Nações, no Yad Vashem. “Este é um fato que muito orgulha a mim e à minha família”.

O Rabino Israel Meir Lau, de 82 anos, discursou como representante dos sobreviventes do Holocausto. Nascido na Polônia é descendente de uma antiga dinastia rabínica, atualmente Rabino Chefe de Tel Aviv e presidente do Conselho do Yad Vashem, serviu anteriormente como Rabino-Chefe de Israel. Rabino Lau foi enviado juntamente com seu irmão para o campo de concentração de Buchenwald ainda criança – aos sete anos não tinha nome, apenas um número. Foi libertado aos oito anos pelas forças norte-americanas. Respeitado em Israel e na Diáspora, é considerado a voz moral de sua geração.

“Vim aqui hoje especialmente para lhes dizer que eu não posso perdoar, porque não tenho autorização”. Pois, somente os 6 milhões de mortos podem perdoar. O Rabino Lau continuou dizendo que uma das últimas lembranças que tem de seus pais, antes de serem separados, foi o pedido que lhe fizeram: continuar a corrente judaica, assim a corrente judaica será inquebrantável, para sempre. “Eu não posso nunca esquecer”, afirmou emocionado.

Cerimônia em Auschwitz

No dia 27 de janeiro foi realizada no local do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau a cerimônia organizada pelo World Jewish Congress – Congresso Judaico Mundial, para marcar os 75 anos da libertação do campo. A cerimônia foi realizada numa tenda aquecida, especialmente construída, que se estendia acima dos trilhos dos trens que, naquela época infame, transportaram nossos irmãos para sua morte.

Quando o campo foi libertado pelos soldados soviéticos, em 27 de janeiro de 1945, eles encontraram 7 mil prisioneiros, sombras humanas, no campo onde as SS alemãs mataram sistematicamente no mínimo 960 mil judeus. Entre as outras vítimas encontravam-se cerca de 74 mil poloneses, 21 mil romanos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticas e uns 10 mil, por baixo, de outras nacionalidades.

Num discurso de grande carga emocional, o Presidente do WJC, Ronald Lauder, afirmou: “Há exatos 75 anos, hoje, quando as tropas soviéticas adentraram por estes portões, seus soldados não tinham ideia do que os esperava. E desde aquele dia, o mundo inteiro se esforça para entender aquilo com que eles se depararam”...

Presentes no histórico evento havia 200 judeus que sobreviveram a Auschwitz-Birkenau e a outros campos, bem como familiares enlutados das vítimas daquele genocídio.

A cerimônia contou com a presença de dezenas de líderes e representantes de comunidades judaicas de todo o mundo e dignitários de cerca de 50 países. Entre eles estavam os presidentes de Israel, Áustria, Alemanha, Irlanda e os primeiros-ministros da Bulgária, Croácia, França, Grécia, Hungria e República Checa, e os reis da Bélgica, Espanha e Países Baixos.

O Holocausto não começou com atos brutais de violência, mas com palavras cáusticas, propaganda perniciosa, mitos, mentiras e muito ódio. Em seu discurso, Lauder enfatizou que o que levou ao Holocausto foi um antissemitismo desenfreado, aliado à indiferença do mundo. Sendo assim, e na sombra do ressurgimento das atividades anti-judaicas e anti-Israel, no mundo todo, ele conclamava os cidadãos do mundo e os líderes dos governos, em todas as partes, a protestar contra o ódio e a intolerância, exortando todos os presentes: “Não silenciem. Não sejam indiferentes. E não apenas pelo Povo Judeu, em todo o mundo. Façam-no por seus filhos. Façam-no por seus netos”.