Morashá
Seis dias que fizeram História - A Guerra de 1967 Blindados israelenses em prontidão no Neguev, 1967

Seis dias que fizeram História - A Guerra de 1967

Há 50 anos, em maio de 1967, os judeus no mundo todo prenderam a respiração. Israel tinha sua existência ameaçada, cercado por exércitos árabes. em 5 de junho, aviões israelenses realizaram um ataque preventivo destruindo o poder aéreo inimigo e abrindo o caminho para uma fulminante vitória. No dia 10, quando o armistício entrou em vigor, Israel conquistara o Sinai, Golã,  a “Margem Ocidental”, Gaza e a Cidade Velha de Jerusalém.

Edição 96 - Junho de 2017


A vitória esmagadora de Israel em apenas seis dias mudou o cenário geopolítico do Oriente Médio. Emergindo como a potência regional, enterrava as esperanças dos que queriam “varrer Israel do mapa”. Para todos os judeus, lá ou na Diáspora, era uma experiência transformadora que, após séculos de insultos e violência, enchia-os de orgulho e confiança.

Nas cinco décadas que se seguiram, historiadores e cientistas políticos têm analisado os eventos que levaram à Guerra de 1967 e suas consequências. Entre eles há os que tentam reescrever a História. Mitos substituíram fatos. “Uma mentira muitas vezes repetida se torna uma verdade“, dizia um dos maiores inimigos do Povo Judeu, gênio da propaganda. Esses mitos estão firmemente arraigados entre acadêmicos e universitários, jornalistas, diplomatas, líderes políticos e, mesmo, entre judeus e israelenses. Nas últimas semanas, alguns jornais conceituados, como o Washington Post, publicaram artigos acusando Israel e demonizando suas ações em relação à Guerra de 1967. É, portanto, imperativo relembrar, ainda que de forma resumida, os motivos e eventos que levaram à Guerra dos Seis Dias, como o conflito se tornou conhecido.

Um ato de legítima defesa

Um dos principais mitos é a afirmação de que a Guerra decorreu de um ato de agressão bélica por parte de Israel, quando, de fato, foi um ato de legítima defesa, tomado após semanas de agonizante indecisão. Nas semanas que antecederam o conflito, Israel estava cercado por exércitos de Egito, Jordânia e Síria, com o apoio do Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, postados ao longo das linhas de armistício. Se eles atacassem simultaneamente, as FDI (Forças de Defesa de Israel) teriam que lutar em três frentes, tendo que dividir suas forças quando mal tinham o número de homens e armas necessários para enfrentar o Egito. Israel não queria a guerra, pois mesmo a vitória custaria a vida de milhares de cidadãos. Mas, para o Estado Judeu, não havia, e não há alternativa à vitória. Como sempre, precisava lutar e vencer, pois uma derrota militar poderia significar o fim da soberania de Medinat Israel.

Sim, afirmam os que querem reescrever a História, é fato que uma coalizão de exércitos árabes armados pela URSS cercava Israel e o propósito de seus líderes era “erradicar a entidade sionista”, pondo um fim à presença judaica na região. Mas, diziam eles, os árabes não pretendiam atacar Israel. Uma afirmação que não se sustenta perante os fatos. A questão central desse e de todo conflito árabe-israelense é a recusa dos países árabes em reconhecer Israel. Desde sua fundação, e até antes, a intenção dos árabes era destruir o Estado Judeu, visto como uma pedra em seu sapato. Essa intenção estava presente nas declarações da Liga Árabe, nos discursos de políticos, intelectuais e líderes religiosos nas mesquitas, assim como em editoriais de jornais e programas de rádio e televisão, e nas ruas.

Nas semanas que antecederam a Guerra, líderes árabes gabavam-se publicamente de que dariam “um fim pela espada” às pretensões sionistas. “Israel será erradicado e  os poucos israelenses que, porventura, sobreviverem, serão expulsos do Oriente Médio”. Multidões ensandecidas pelas promessas de vitória gritavam nas ruas “morte aos judeus”, “morte aos sionistas”.

As ameaças gelaram o sangue judaico. Ninguém podia esquecer a promessa de Hitler de livrar a Europa de todo e qualquer judeu – promessa que custou a vida de mais de seis milhões de nossos irmãos.  A história não se repetiria. Israelenses iriam lutar até o último homem, sabendo que a sobrevivência da Nação, de suas famílias e de seus filhos estava em suas mãos. Na Diáspora, a identificação com Israel era total. Mobilizou-se um maciço suporte financeiro e político e milhares de jovens foram até embaixadas e consulados israelenses querendo alistar-se e perfilando-se para serem enviados a Israel para lutar ou ajudar no que fosse preciso.

O pano de fundo

Em meados da década de 1960,  uma população quase 2,5 milhões de israelenses vivia cercada de  122 milhões de árabes. A área total de Eretz Israel era de 18.700 km2 – 0,1% do total das terras do Oriente Médio.

Entre Israel, Síria, Egito e Jordânia não havia, como muitos costumam afirmar, fronteiras efetivas, limites territoriais reconhecidos; havia apenas linhas de armistício criadas em 1949, traçadas quando cessaram os combates e tendo como único parâmetro a posição das forças de Israel e dos árabes.

Após 1949, estavam em mãos egípcias o Estreito de Tirã, no Golfo de Ácaba, e a Faixa de Gaza. A Síria dominava o Lago Kineret (Mar da Galileia), principal fonte de água do país, e as Colinas de Golã, ao norte de Israel, de onde bombardeava os kibutzim do vale. Pertenciam à Jordânia as Colinas da Cisjordânia (Samaria e Judeia), consequentemente, a planície costeira e a Cidade Velha de Jerusalém, que a Jordânia tomara militarmente em 1948. De acordo com a determinação das Nações Unidas para a Partilha, de 1947, a cidade seria internacional.  

O país possuía meros 15 km de largura e seus centros populacionais estavam ao alcance da artilharia inimiga. Qualquer combate, portanto, devia ser levado para território inimigo. E, em Jerusalém, poucos metros dividiam as forças inimigas da população israelense. Se Israel fosse cercado por nações amigas, fronteiras desse tipo já seriam inconvenientes; mas cercado de inimigos, eram um pesadelo. Um ataque repentino poderia dividir o país ao meio.

Após a Campanha do Sinai de 1956, uma área desmilitarizada havia sido instituída entre Israel e o Egito. URSS e os Estados Unidos haviam obrigado Israel a devolver o Sinai ao Egito, garantindo em troca que a península ficaria desmilitarizada e as Forças de Emergência das Nações Unidas (UNEF) garantiriam uma zona-tampão de 200 km entre os dois países. Garantiram ainda que o Estreito de Tirã estaria aberto a navios israelenses. O Estreito é a única ligação de Israel com o Mar Vermelho, através do Golfo de Ácaba.

Não há dúvidas de que um dos principais responsáveis pela Guerra foi Gamal Abdel Nasser, ditador do Egito que tomara o poder em 1952. Líder carismático, Nasser queria a união de todos os países árabes sob sua liderança. Mas, em 1967, seu prestígio estava abalado. Um de seus erros fora enviar soldados egípcios para lutar na guerra civil no Iêmen ao lado dos rebeldes republicanos. Além de não conseguir uma vitória, os egípcios tiveram que enfrentar forças jordanianas e sauditas que apoiavam os monarquistas. As relações com a Jordânia e a Arábia Saudita estavam, pois, em vias de ruptura e, com a Síria, estavam estremecidas após os sírios abandonarem a união com o Egito, a República Árabe Unida, fundada em 1958.

Os ataques de terroristas palestinos contra alvos israelenses, instigados ou tolerados pela Síria, Jordânia e pelo Egito, haviam-se intensificado entre abril de 1966 e abril de 1967, assim como os ataques sírios contra os kibutzim que estavam na linha de fogo de sua artilharia. Os ataques inimigos não cessavam, apesar de conscientes de que seriam duramente retaliados por Israel, que buscava impingir-lhes as consequências de seus atos. Em 1965, em apoio aos ataques, Nasser declarou, “Não entraremos na Palestina com seu solo coberto de areia; lá entraremos com seu solo saturado em sangue”.

Para se entender o pano de fundo da Guerra, é preciso lembrar que os refugiados palestinos viveram praticamente 20 anos, de 1948 a 1967, sob domínio da Jordânia e Egito. São chamados de refugiados palestinos os árabes que deixaram o território, que após uma decisão da ONU sobre a Partilha, em 1947, tornara-se o Estado de Israel. Aqueles que viviam na Cisjordânia (“Margem Ocidental”) estavam sob domínio jordaniano e os que viviam em Gaza, sob os egípcios. Os dois territórios abocanhados pelas duas nações em 1948 faziam parte da área onde, ainda de acordo com a Partilha de 1947, deveria ter sido criado um estado árabe. É importante ressaltar que, em nenhum momento, Jordânia ou Egito cogitaram a criação de um estado palestino nessas áreas.

Os interesses da União Soviética no Oriente Médio foram outro importante vetor. Egito e Síria eram países satélites da URSS e seus exércitos foram armados e treinados pelos soviéticos que procuravam solidificar sua presença no Oriente Médio. Para fomentar os ânimos egípcios, alguns dias antes do início da guerra, enquanto Anuar el-Sadat, então vice-presidente do Egito, estava em Moscou, os soviéticos lhe passaram uma informação falsa, desmentida pela própria Inteligência egípcia, de que os israelenses se preparavam para invadir a Síria. E asseguraram que a URSS entraria em uma guerra do lado árabe se os EUA se envolvessem no conflito.

O fortalecimento militar árabe

Na segunda metade de maio de 1967, fortalecido pelo apoio soviético e esperançoso de recuperar seu prestígio, Nasser passou abertamente a provocar Israel. No dia 16, exigiu a retirada das Forças da ONU do Sinai. O então secretário-geral das Nações Unidas, U Thant, acatou a exigência, e três dias mais tarde a UNEF deixava suas posições. Imediatamente tropas egípcias avançaram tomando posições ao longo da fronteira de Israel. No dia 20, 100 mil soldados egípcios e mais de mil tanques já estavam no Sinai.

No dia 22, mais uma provocação. Nasser fechou o Estreito de Tirã à navegação israelense, isolando a cidade de Eilat. “A bandeira israelense não mais passará pelo Golfo de Ácaba”, declarou. Para Israel, o fechamento do Estreito era um casus belli, uma declaração de guerra. A Inteligência israelense alertou o governo de Israel de que a falta de uma resposta militar era vista por Nasser como um sinal de fraqueza.

As provocações do ditador egípcio continuaram. No dia 26 de maio, por exemplo, em um discurso, afirmou que pretendia “destruir Israel”. Sua ousadia e as possiblidades de um ataque militar contra Israel fizeram vibrar de alegria o mundo árabe.

Quando, no dia 30, o rei Hussein, da Jordânia, curva-se perante o Egito, Israel entendeu que não  teria como evitar uma guerra.  O rei voara até o Cairo para assinar uma aliança colocando seu exército sob o comando egípcio. Ao retornar, foi recebido por uma multidão entusiasmada e ele, também, foi contagiado pela euforia que tomara conta do mundo árabe. Ao ser interpelado pelo embaixador americano em Amã sobre suas ações, Hussein respondeu que “o pacto era seu seguro de vida”.

Logo em seguida, o Iraque assinou um acordo similar, e a Síria concordou em enviar à Jordânia uma brigada para lutar ao lado dos iraquianos, enquanto contingentes de outras nações árabes estavam a caminho. Nas palavras do presidente iraquiano Abdul Rahman Arif, “O mundo árabe foi unido por um denominador comum – riscar Israel do mapa”.

O período de espera

As Forças de Defesa de Israel observavam com crescente preocupação a concentração de forças inimigas ao longo de suas fronteiras. Na época, Levi Eshkol acumulava os cargos de primeiro-ministro e ministro da Defesa. Para frustração e fúria dos israelenses, suas atitudes perante as provocações egípcias eram por demais moderadas. Eshkol relutava em tomar uma ação militar e, em busca de uma solução diplomática, enviou Abba Eban, então ministro das Relações Exteriores, à Europa e aos Estados Unidos.

Mas, diante da grande possibilidade de estourar uma guerra, as FDI começaram a se preparar.  Em 20 de maio o general Yitzhak Rabin, então Chefe do Estado Maior, inicia a mobilização dos reservistas, apesar de o fato significar a paralisação da economia. As FDI são fundamentalmente um exército de reservistas. Na época, os efetivos ficavam entre 50 – 60 mil soldados, mas mobilizando os reservistas chegariam a 264 mil.

Durante o chamado “período de espera”, em hebraico, Hamtana, do dia 23 de maio a 4 de junho, o clima em Israel era de incerteza e preocupação. O noticiário era  repleto de informações sobre as tropas de Nasser no Sinai e as declarações incendiárias dos líderes árabes. A TV do Cairo transmitia imagens de multidões gritando “Morte aos Judeus” e uma rádio egípcia, “a Voz do Trovão”, repetia ameaças do tipo “Façam as malas antes de serem mortos”. “O único método a ser aplicado contra Israel será uma guerra total que resultará na exterminação da existência sionista”.

Ao relembrar aquelas semanas o general Yossi Peled, certa vez revelou: “Tínhamos visto imagens das vítimas de ataques egípcios a gás no Iêmen... estávamos começando a pensar em termos de aniquilação, tanto nacional quanto pessoal’. A seguinte declaração de oficial israelense revela o clima reinante: “Seria uma segunda Massada, não encontrariam ninguém vivo”. Era consenso entre os soldados que caso os egípcios entrassem em Israel era melhor matar-se e matar suas famílias do que cair em mãos inimigas. No final da guerra, os prisioneiros egípcios, estupefatos pelo bom tratamento que lhes fora dispensado, revelaram que a ordem recebida era “matar os homens e estuprar as mulheres”.

As peregrinações de Abba Eban em busca de uma solução diplomática foram inúteis. Enquanto a União Soviética armava o Egito e a Síria, tornou-se claro para Israel que nenhum país agiria em sua defesa. Era doloroso admitir, mas o mundo estava mais uma vez inerte diante do que muitos acreditavam ser a provável destruição do Estado Judeu. Os Estados Unidos não se prontificaram a ajudar, advertindo Israel de que não atacasse primeiro. As posições dos governos britânico e francês, aliados na Campanha do Sinai em 1956, foram decepcionantes. A Inglaterra, entre outros, temia o boicote dos países produtores de petróleo a qualquer país que ajudasse Israel. Charles de Gaulle havia adotado uma política pró-árabe, e simplesmente disse a Eban que o compromisso da França com Israel fora acordado “em 1957, e agora estamos em 1967”. Para piorar a situação, de Gaulle ordenou a suspensão de todos os embarques de armamentos para Israel.

A decisão de Eshkol de tentar evitar uma resposta militar era condenada inclusive pela mídia mais liberal, como o jornal Ha’aretz. Ele era visto como destituído das qualidades necessárias para conduzir o país  em tal crise. A tensão cresceu na noite de 28 de maio após seu pronunciamento pelo rádio. Em tom vacilante, o primeiro-ministro pediu paciência e disse que continuaria a trilhar o caminho da diplomacia. Não era a mensagem que a Nação esperava. No dia seguinte, abismados com o fato de que governo continuava paralisado pela indecisão, a mídia e a opinião pública  clamaram por ação. Exigiam a formação de um governo de  unidade nacional e a renúncia de Eshkol do cargo do ministro da Defesa. O nome mais cogitado para substituí-lo era Moshé Dayan, para os israelenses um sinônimo de vitória.

Logo após o discurso de Eshkol, foi realizada uma reunião de emergência da qual participaram generais das FDI e o Gabinete. Os líderes militares queriam que o primeiro-ministro e seu Gabinete entendessem ser necessário uma resposta aos desafios lançados por Nasser. Disseram que entre 1956 e 1967 todo oficial das FDI sabia que outra guerra com o Egito era só questão de tempo, e que haviam sido traçados minuciosos planos de guerra. As FDI tinham sido treinadas para enfrentar todo tipo de crise. Os generais da Força Aérea e do Exército expressavam sua confiança em uma vitória caso Israel atacasse primeiro. Um ataque aéreo preventivo era fundamental para diminuir a esmagadora superioridade numérica árabe.

Mas Eshkol ainda hesitava em tomar uma decisão militar, e respondeu que daria aos norte-americanos o tempo que haviam pedido. A atitude enfureceu os generais, abismados com que o governo confiasse na possível ajuda externa, que sabiam que não viria, ao invés de em suas próprias Forças Armadas. ”A sobrevivência do Estado está ameaçada”, disse-lhe um general, expressando o sentimento de perigo sobre o qual a maioria hesitava em falar. E lhe avisaram que cada dia a mais que os inimigos tinham para se preparar significava mais 200 israelenses mortos quando a guerra eclodisse.

Dois dias mais tarde, após Hussein  e Nasser assinarem a aliança,  Eshkol se convenceu de que a guerra era inevitável. No dia 1º de junho, ele se rendeu às pressões, inclusive do próprio Ben-Gurion, de Shimon Peres e de Menachem Begin, líder da oposição, e nomeou Moshe Dayan ministro da Defesa.  Foi formado um governo de  união nacional e Menahem Begin foi integrado ao Gabinete.

Em 31 de maio, o Secretário de Estado Norte-americano, Dean Rusk, relatou a um Comitê do Congresso que os Estados Unidos não planejavam uma intervenção militar em separado no Oriente Médio, “mas apenas dentro do arcabouço das Nações Unidas...”. Em outras palavras, não haveria tal intervenção. Rusk foi além, dizendo: “Não creio que seja nosso interesse refrear nenhum dos lados”.

A mobilização  de toda a sociedade

“Se querem guerra”, desafiara Nasser, “estamos prontos para vocês”. Israel não queria a guerra, pois mesmo a vitória teria um alto custo. O general Rabin estimava que o número de israelenses mortos poderia chegar a dez mil. As estimativas de Moshe Dayan eram ainda mais pessimistas, dizendo que se Israel não atacasse preventivamente seriam dezenas de milhares de mortos...

Ao contrário do que Nasser esperava as ameaças não abateram o espírito dos israelenses, despertando, pelo contrário, os mais profundos instintos de autopreservação. Quaisquer diferenças pessoais ou políticas desapareceram perante a convicção de que, para Israel, havia apenas uma saída agora, e teria que ser pela espada. A frase que estava na boca de todo israelense era “Ein brerá”, não há alternativa, estamos cercados por inimigos de todos os lados; é vencer ou vencer”.

O setor civil se mobilizou. Milhares de voluntários – homens, mulheres, velhos e jovens que não estavam no exército cavavam trincheiras e preparavam escolas e edifícios públicos para serem centros de evacuação, e estádios de futebol e parques para serem cemitérios. Nos hospitais, pacientes que não corriam perigo receberam alta; os médicos precisavam dos leitos. Nos prédios havia listas de doadores de sangue e seu tipo sanguíneo.

O Rabinato declarou que a crise então enfrentada era uma situação de Pikuach Nefesh (uma questão de vida ou morte), pois a sobrevivência de Israel estava sendo ameaçada, e advertiu que no Shabat não apenas era permitido trabalhar na defesa do país, mas obrigatório. Os alunos mais velhos da Ieshivá do Rabino Kook deixaram as salas de estudo e se apresentaram em seus batalhões, pois muitos eram comandantes das tropas de elite das FDI.

A decisão de atacar

Os eventos tomaram um impulso próprio. O que as FDI mais temiam era um ataque surpresa e o bombardeio da central nuclear de Dimona. Temiam, também, o uso por parte dos egípcios de agentes químicos, especialmente gás nervoso, como acontecera no Iêmen, e a Inteligência de Israel reportara que o Egito levara cartuchos e bombas de gás para o Sinai.

Os meios de comunicação árabe anunciavam um iminente ataque.  No Sinai, as forças egípcias já estavam na fronteira israelense; o exército iraquiano preparava-se para reforçar a frente oriental jordaniana, e a Síria apontava sua artilharia do alto do Golã.

O general Aharon Yariv, então chefe da Inteligência, advertiu o governo de que a situação era extremamente delicada: o general egípcio Riadh estava em Amã implantando um posto de comando avançado.

Mesmo assim, o Gabinete relutava em tomar a decisão de atacar. Quando o general Mordechai Hod, comandante da Força Aérea, revelou que Israel poderia destruir a Força Aérea do Egito e de qualquer outro país árabe que interferisse sem colocar Tel Aviv em perigo, ninguém no governo acreditou. Mas, com a inclusão de Dayan no Gabinete, havia alguém no governo que compreendia tanto a situação política de Israel quanto a militar. Juntamente com os generais Ezer Weizmann e Mordechai Hod, ele era um dos poucos que sabia que a Força Aérea de Israel (FAI) poderia entregar o prometido.

Desviando as atenções

Ironicamente, um dos fatores que permitiu aos israelenses realizar o ataque preventivo foi o fato de Israel ter recuperado o “elemento surpresa”, devido às semanas de espera. Observadores no Oriente Médio, fossem jornalistas, diplomatas, estrategistas militares, quase sem nenhuma exceção, acreditavam que a posição estratégica de Israel tinha-se agravado.

Um plano de dissimulação foi posto em ação. Sábado, 3 de junho, em seu primeiro pronunciamento público como ministro da Defesa, Dayan afirmou que era “muito tarde para uma reação militar espontânea ao bloqueio egípcio do Estreito de Tirã – e ainda muito cedo para se tirar qualquer conclusão dos possíveis resultados de uma ação diplomática. Nosso Governo – antes de que eu me tornasse parte dele – optou pela diplomacia: temos que dar-lhe uma chance”.

Naquele final de semana, milhares de soldados foram dispensados e a mídia recebeu fotos de unidades de folga nas praias.

No Cairo, após dias de tensão, os círculos governamentais começavam a relaxar e a acreditar que já tinham ganho a guerra.

Operação Moked

Em uma reunião secreta na manhã de domingo, 4 de junho, o governo tomou a decisão de atacar. Naquela altura, Israel já estava cercado e teria que lutar em duas ou três frentes, dependendo das ações da Jordânia. O Egito tinha 210 mil homens, 100 mil deles no Sinai. Ao Norte, a Síria tinha 63 mil homens, e, a Leste, a Jordânia contava com 55 mil soldados. Após a mobilização, Israel tinha 250 mil combatentes. Os inimigos tinham mais do que o dobro de tanques e 682 aviões de combate. Compunham a Força Aérea de Israel 202 aviões.

Na manhã do dia 5 de junho, no bunker do Comando Geral das FDI, em Tel Aviv, Yitzhak Rabin, Chefe do Estado Maior; Ezer Weizman, Chefe de Operações; Yaakov ‘Yak’ Nevo, planejador da Operação; e Motti Hod, Comandante da Força Aérea, aguardavam o início da Mivtzá Moked, Operação Foco. Até então, Hod revelara um único elemento da operação – a hora zero, 7h45.

O comandante de uma das companhias, enquanto seus homens estavam em formação prontos para decolar, citou duas passagens dos Salmos: “Não confieis em príncipes” (146:3) e “Israel, confia no Eterno, que é teu amparo e teu escudo” (115:10). Para os soldados, a mensagem era clara: “Não podemos confiar na ajuda de outras nações. Estejam preparados”.

Precisamente às 7h451 da manhã, hora de Israel, nove bases aéreas egípcias foram simultaneamente atingidas por aviões israelenses, a décima ainda encoberta por névoa alguns minutos depois. O objetivo era liquidar a Força Aérea egípcia no solo, sendo os principais alvos as pistas de decolagem e os aviões. Todos os esquadrões participaram, ficando apenas 12 aviões para defender os céus de Israel. Os pilotos sabiam que a sobrevivência da Nação dependia deles.

Para a operação ter sucesso era imprescindível manter o elemento surpresa o máximo de tempo possível. O planejamento e treinamento dos pilotos haviam  sido minuciosos. O horário da decolagem fora cronometrado para que todos os esquadrões atingissem seus alvos ao mesmo tempo. As rotas foram definidas de modo a não serem detectadas pelos radares árabes e os pilotos teriam que voar a altitudes extremamente baixas e sem nenhum contato de rádio. Sobrevoaram o Mar Mediterrâneo a uma altitude de 30 metros.

Por que o horário de 7h45 foi escolhido para o ataque? O plano havia sido traçado após a Inteligência militar israelense obter informações precisas e detalhadas de seus alvos: o layout das bases, a rotina dos comandantes e pilotos egípcios, e assim por diante. Israel sabia, por exemplo, que aviões egípcios patrulhavam os céus até às 7 h, pois supunham que qualquer ataque israelense ocorreria ao amanhecer. Às 7h45 os pilotos egípcios já estavam em terra, indo tomar café da manha. Os comandantes da Força Aérea chegavam às bases por volta das  8 h; às 7h45, estariam a caminho, sem condições de tomar nenhuma decisão. E, de modo geral, às 7h45,  o tempo e a visibilidade sobre o Nilo, o Delta e o Canal do Suez eram ótimos por causa do ângulo do sol.

Com o ataque surpresa, a maior parte da Força Aérea do Egito foi destruída no solo. Em menos de  três horas foram arrasados 300 dos 340 aviões de combate do país.  Israel perdeu 19, alguns pilotos foram aprisionados e um foi linchado pelos egípcios.

A batalha em terra

Assim que a primeira onda de aviões atingiu as bases aéreas egípcias, o exército atacou. Dayan determinara que a maior parte dos recursos militares israelenses fossem utilizados contra o Egito, o inimigo mais perigoso.

Na manhã daquele dia mais uma mensagem foi enviada ao rei da Jordânia para não entrar no conflito. Dayan queria evitar que Israel  tivesse que lutar em mais  uma frente, tendo inclusive instruído o exército a mostrar contenção diante dos jordanianos, e não  entrar na Cisjordânia. Tampouco  se cogitava tomar a Cidade Velha  de Jerusalém. (ver “A batalha por Jerusalém”)

No Sinai, os soldados de Israel esperavam o sinal verde para atacar. Às 8 h, o Comando do Sul, sob a liderança do general Yeshayahu Gavish, deu ordem para avançar. Três divisões de blindados, comandadas pelos generais Ariel Sharon, Israel Tal e Abraham Joffe atacaram sete brigadas egípcias e mil tanques. Não demorou para que as divisões blindadas rompessem as defesas egípcias e seguissem em direção oeste.

O rei Hussein viu-se em meio a  um dilema: permitir que a Jordânia fosse arrastada para a Guerra e aguentar o impacto da força da resposta israelense, ou continuar neutra, arriscando-se a uma insurreição em alta escala entre seu próprio povo. Decidiu não atender os apelos de Israel. Na manhã do 1º dia da guerra, forças jordanianas abriram fogo, atingindo povoados e cidades israelenses, inclusive os arredores de Tel Aviv e Jerusalém. As forças de Israel partiram ao ataque. Jerusalém ficou, assim, ao alcance de Israel. Na tarde do dia 5, Dayan realocara a 55ª Brigada de paraquedistas para defender a Jerusalém judaica e após 48 horas  a Bandeira de Israel estava içada  no Muro das Lamentações. Uma vitória gloriosa – e totalmente inesperada.

Quando forças sírias atacaram Tiberíades e Megido, as FDI reagiram. Aviões israelenses atacaram as Forças Aéreas síria e jordaniana e um campo de pouso no Iraque. No final do primeiro dia, a Força Aérea jordaniana e mais do que a metade da síria haviam tido o mesmo destino que a egípcia, tendo sido destruídas em solo.

Enquanto a maioria das unidades das FDI lutavam contra os egípcios e os jordanianos, poucos soldados restaram na defesa da fronteira Norte contra os sírios. Somente após os jordanianos e egípcios terem sido dominados, pôde-se enviar reforços às Colinas do Golã, onde os atiradores sírios, que detinham a posição estratégica elevada, dificultavam ao máximo a penetração das forças israelenses. Em 9 de junho, após dois dias de pesado bombardeio aéreo e muitas mortes as FDI conseguiram romper as linhas sírias e atacaram o Golã.

Na manhã daquele mesmo dia 9, às 5h45, o chefe do Comando do Sul informou ao Chefe do Estado Maior: “As FDI estão às margens do Canal do Suez e do Mar Vermelho! A Península do Sinai está em nossas mãos...”. Após meros seis dias de luta, Israel estava em uma posição que lhe permitia marchar, triunfal, sobre o Cairo, Damasco e Amã.

Em 10 de junho, Israel aceitou o armistício, contabilizando 777 mortos, 115 dos quais no Golã; e 2.586 feridos. Ao término da guerra, Israel conquistara territórios que triplicavam o tamanho de seu território – o Sinai, as Colinas do Golã, a Faixa de Gaza e a Margem Ocidental (Cisjordânia). Mas, a maior de todas as conquistas foi ter possibilitado a reunificação de Jerusalém, Capital Eterna do Povo Judeu.

BIBLIOGRAFIA
Churchill, Randolph S. e Churchill, Winston S, The Six Day War, eBook Kindle
Pressfield, Steven, A Porta dos Leões, Editora Contexto
Rabinovich, Abraham, The Battle for Jerusalem: An Unintended Conquest (50th Anniversary Edition), ebook Kindle
Webb, Ryan, David v. Goliath: What Caused the 1967 Arab-Israeli War?, ebook Kindle