Morashá
Ascensão e Declínio dos Sefarditas em Jerusalém

Ascensão e Declínio dos Sefarditas em Jerusalém

por Nimrod Etsion Koren

Por mais de 400 anos, a comunidade judaica sefardita em Jerusalém permaneceu como uma pequena comunidade com poucos recursos e influência, relegados à periferia do império Otomano. Essa realidade mudou na virada dos séculos 19 e 20 quando a comunidade alcançou um status sem precedentes.

Edição 104 - Junho de 2019


Por mais de 400 anos, a comunidade judaica sefardita em Jerusalém permaneceu como uma pequena comunidade com poucos recursos e influência, relegados à periferia do império Otomano. Essa realidade mudou na virada dos séculos 19 e 20 quando a comunidade alcançou um status sem precedentes.

A comunidade judaica sefardita em Jerusalém, embora existisse continuamente desde o final do período mameluco, permaneceu como uma pequena comunidade, com poucos recursos e influência, mesmo sob ocupação otomana, nos séculos 16 e 17. Mesmo que o Império concentrasse em seu território a grande maioria dos exilados sefaradim, apenas alguns se estabeleceram em Jerusalém.

A maior parte deles escolheu as principais cidades dos Bálcãs, onde desfrutavam de hegemonia numérica e cultural, bem como de sua proximidade com o governo imperial. Em Jerusalém, por outro lado, eles viviam em um contexto judaico diversificado, ao lado dos mustárabes (judeus árabes)1, cuja situação agravou-se durante o século 18, com o empobrecimento de sua comunidade e seu resgate, ao custo da perda da autonomia, pelo ‘Comitê de Constantinopla’2. Porém, essa realidade começou a mudar no primeiro terço do século 19, e o clímax do processo no início do século 20, quando a comunidade prosperou e ganhou um status sem precedentes em sua história.

Seus líderes eram os representantes mais importantes de toda a comunidade judaica de Jerusalém; seus iniciadores estavam envolvidos nos maiores projetos públicos na Palestina otomana; seus membros mais influentes estavam ligados por relações comerciais e bancárias com as maiores empresas europeias; seus intelectuais publicavam seus artigos nos jornais mais populares do Levante e seus agentes políticos desfrutavam de uma porta aberta com altos funcionários e administradores, em Jerusalém e em Istambul.

A Era das Possibilidades

A mudança de tendência nessa situação deve ser vista, em primeiro lugar, contra o pano de fundo da melhoria do status de Jerusalém. Em contraste com a imagem que comumente é associada à mesma, como uma cidade congelada, mergulhada em tradições e dilacerada por disputas religiosas, novos estudos revelam que Jerusalém, no final do século 19, era uma cidade cosmopolita, diversificada em população, híbrida, sincretizada e multifacetada.

Evidências disso podem ser vistas no grande número de consulados abertos, durante aquele século, ou o enorme investimento em sua infraestrutura - uma rede viária abrangente, uma ferrovia - Jerusalém-Jaffa (1892) - que precedeu a famosa linha no Hejaz3 por 16 anos, e dezenas de locais religiosos e turísticos que foram restaurados e construídos em toda a cidade.

A comunidade sefardita hierosolimitana contribuiu decisivamente para essa mudança, que varreu a cidade. No entanto, assim como a imagem que ficou na cidade, seus moradores também sofreram com uma imagem negativa. Fazendo parte do Antigo Yishuv4, eles foram descritos pelos autores do movimento Haskalá5 como "não produtivos e tendo existência parasitária”. E, como judeus orientais, foram descritos por judeus ocidentais em cores sombrias, atribuindo-lhes ignorância, intolerância e casamento precoce.

É interessante notar que foi precisamente aos olhos dos viajantes cristãos que a imagem dos homens e mulheres sefarditas tornou-se muito mais positiva, mais do que a dos asquenazitas. “As mulheres nos vestidos de seda são embelezadas com bordados de ouro. A maioria delas é bonita, de pele clara” (Henry Tristram, 1863). De qualquer maneira, aparentemente, a distância entre a descrição dos escritores da Haskalá sobre os sefarditas da cidade e a realidade era semelhante à distância entre sua residência e Jerusalém.

Ascensão ao status hegemônico

A mudança no status da comunidade começou no início da Reforma Tanzimat6, com o reconhecimento exclusivo dos sefarditas como a única comunidade religiosa judaica oficial na então Palestina otomana. O rabino-chefe sefardita, o Rishon LeZion, recebeu um status especial (foi apelidado, em turco, de Chacham Bashi), e sua nomeação foi acompanhada de títulos de honra que tornaram a posição uma fonte de prestígio.

O crescimento demográfico também teve impacto sobre o assunto, já que no século 19 a comunidade incluía não apenas o seu núcleo, que preservou os costumes sefarditas e a língua ladina, mas também aqueles que vinham de países islâmicos. Uma série de migrações durante o século, estabeleceram-se em Jerusalém (vindas da Pérsia, em 1816; da Argélia, Tunísia e Marrocos, nos anos 1830-40; da Geórgia, na década de 1860; do Iêmen, em 1881), propiciando a preservação de seu status de a maior comunidade no Yishuv.

Entre o Antigo Yishuv e o Novo

A penetração europeia no Levante, como mencionado, afetou indiretamente os súditos sefarditas, através da modernização do governo otomano. Mas a influência ocorreu através de outro canal, mais direto, liderado pelos judeus ocidentais, que, após o Caso Damasco (1840), começaram a voltar seu olhar para o destino de seus irmãos no Leste. No entanto, ao contrário dos ashquenazim, que experimentaram a crise de modernização que dominava a ortodoxia europeia, a comunidade sefardita não se opôs à “regeneração” de sua comunidade, e seus membros foram os primeiros a enviar seus filhos às instituições educacionais ocidentais, abertas em Jerusalém.

Como aponta o historiador Israel Bar-Tal, da Universidade de Jerusalém, na comunidade sefardita não houve polarização tão acentuada entre o novo e o antigo. Os líderes da comunidade ficaram entre os dois mundos. Para eles, “novo” significava integração nos processos econômicos que levaram à modernização da Terra de Israel e à adaptação das influências europeias.

Empreendedorismo sefardita de Jerusalém

Uma das melhores figuras para contar a história das conquistas do empreendedorismo sefardita é Joseph Navon (1858-1934). Joseph Klas, que escreveu extensivamente sobre ele, descreve seu caráter elegante, seu domínio de várias línguas e, especialmente, seu talento inato para promover projetos, o que lhe permitiu alcançar os mais altos cargos na sociedade. No início dos anos 1880, aos 20 e poucos anos, já comprou a ‘Weisberg’, a maior empresa comercial de Jerusalém, que se dedicava ao comércio com Paris, Viena e Zurique, e começou a funcionar como cônsul não oficial de Portugal. Mas sua conquista mais significativa está relacionada às negociações iniciadas em 1885 com a administração otomana, durante as quais recebeu uma concessão para construir e operar uma ferrovia de Jaffa a Jerusalém.

A ferrovia de 87 km e suas 176 pontes foram solenemente inauguradas em 1892. Navon não conseguiu completar o projeto7, mas esteve no centro da celebração de inauguração. Por seu papel na construção, foi agraciado com o título de 'Bey', concedido pelo sultão.

Esta primeira linha ferroviária construída no Levante, levou a uma mudança nos sistemas de comunicações e transporte na Terra de Israel. O cônsul britânico Dickson informou que: “A abertura da ferrovia será considerada um evento histórico de importância global”. Efetivamente, a ferrovia abriu novos horizontes - Jaffa estava agora a 3 horas de distância, em vez de 14, em um trem postal, o que a tornou uma cidade portuária de Jerusalém.

Conexões sociais entre comunidades

Parece que a raiz do poder e influência da liderança da comunidade - rabínica, cultural e econômica - residia em sua vasta rede de conexões sociais e políticas. Primeiro, no contexto inter-étnico: o rabino Yaakov Elyashar (líder da comunidade, 1906-1893) estabeleceu relações amigáveis e cooperação com os líderes da comunidade asquenazita, chefiada pelo rabino Slant. Além disso, o rabino Elyashar também contribuiu para fortalecer os laços com a população árabe. Ele apoiou o estudo do árabe nas Yeshivot, argumentando que aprender a língua não prejudicava a fé, uma vez que gigantes da Torá, como Maimônides, escreviam livros em árabe.

Na realidade, a comunidade urbana sefardita manteve uma afinidade cultural e linguística com seus vizinhos árabes. Figuras como Esther Lazzari, intelectual sefardita nascida em Beirute e que se estabeleceu na Palestina otomana em 1898, estavam profundamente enraizadas na cultura literária árabe. Ela escrevia em Fusha, o árabe clássico. Quando criança, Esther conhecia o Alcorão de cor. Na idade adulta, suas matérias, que foram publicadas nos principais jornais do Império, foram elogiadas pelos maiores escritores árabes, como o filósofo Jamal al-Din al-Afghani.

Contribuição para o projeto de assentamento judaico

No entanto, a conexão mais significativa estabelecida pela comunidade foi com dignitários muçulmanos e representantes do regime. Tanto através de canais oficiais, por meio do Chacham Bashi, como de canais privados, por figuras como Albert Antebi, o diretor da escola de Alliance Israélite Universelle em Jerusalém, nascido em Damasco, que se dizia ter “uma tremenda influência no governo turco na Terra de Israel” (Ha-Herut, 1942). As estreitas relações que ele e seus colegas sefarditas cultivaram com efêndis árabes e altos funcionários otomanos em Jerusalém e Istambul tiveram um impacto não apenas sobre a comunidade sefardita, mas sobre a comunidade judaica como um todo.

Yehiel Pines, que chegou a Eretz Israel em 1877 como representante do comitê “Mazkeret Moshe Montefiore” para ajudar a estabelecer as primeiras colônias, escreveu a seus gerentes na Europa, logo após chegar, que “Terras para vender são muitas, mas o processo para adquiri-las é complicado por suborno e destreza”. De fato, como a maioria dos primeiros imigrantes mantinha sua cidadania russa, e como não falavam a língua local nem conheciam os costumes, para lidar com os mistérios da burocracia imperial precisavam da ajuda dos sefarditas.

Yosef Navon e seu tio, Haim Amzalak, um dos mais respeitados cidadãos de Jaffa, por exemplo, ajudaram a comprar terras em Rishon Letzion. Por seus trabalhos, os fazendeiros da moshavá8 agradeceram-lhes em uma carta pública no jornal Havatzelet: “Éramos Guerim9 quando chegávamos à Terra Santa, e não sabíamos como escolher um lugar e comprar terras, e somente com os esforços desses dignitários, Rabino Amzalak e o Sr. Yosef Navon, alcançamos nosso objetivo” (8 de junho de 1883). Antebi, por sua vez, assumiu a responsabilidade pelo primeiro assentamento judaico sefardita em Eretz Israel - Hartuv, perto de Jerusalém, fundado por imigrantes da Bulgária. Ele também manteve contato constante com Dizengoff, Ruppin e Levontin, altos funcionários do Yishuv, sobre as diferentes formas de compra de terras. Enquanto isso, acompanhava atentamente as mudanças da política antijudaica, em Istambul. (Na década de 1910, ele se dirigiu ao governador de Jerusalém e acusou Nashashibi e Khalidi, dois dignitários árabes, de promover o antissemitismo e pressionar contra a venda de terras aos judeus, e acabou levando a um acordo que transferiu aos judeus cerca de 5.000 dunams de terra perto de Latrun).

O domínio da liderança sefardita no espaço imperial islâmico teve um impacto adicional sobre o Sionismo, na Terra de Israel. Como resultado, muitas das declarações dos intelectuais árabes sobre os primeiros sionistas foram positivas e até impressionantes.

No jornal egípcio Al-Muqattaf, o intelectual Rashid Rida afirmou que “os judeus que vieram para a Terra de Israel tiveram um bom desempenho”. O mesmo jornal também destacou a solidariedade judaica: “Devemos aprender com os laços corajosos que os unem, apesar de sua dispersão [...] e do modo como se ajudam mutuamente e ajudam seu povo”. Al-Manar, publicado no Cairo, publicou (1898) uma carta de Rohi Al-Khaldi a Theodor Herzl, afirmando que seria “uma visão maravilhosa quando os judeus talentosos forem transformados de novo em uma nação independente [...] que pode servir à humanidade pobre, como no passado”.

Fim da hegemonia

No entanto, esse período de prosperidade da comunidade em Jerusalém durou pouco tempo, e o declínio de seu status hegemônico foi ainda mais rápido do que sua ascensão. O começo desse processo está na arena inter-étnica. Como foi dito, a comunidade sefardita era a representante oficial exclusiva dos judeus de Eretz Israel, incluindo a comunidade ashquenazi. Mas quando os judeus asquenazitas descobriram que no lugar da proteção sefardita eles poderiam contar com o patrocínio consular europeu, começaram a se distanciar da subordinação aos sefarditas. Em 1856, foram libertados da Chevra Kadisha (sociedade funerária), e, em 1867, receberam permissão separada para o abate de animais. Mas isso não foi feito sem resistência.

Os sefarditas alegaram que, por causa de sua primeira ocupação da Terra Santa, eles mereciam as mais altas honras e se recusavam, veementemente, a se separar. Como parte da disputa, a comunidade publicou uma proibição de comprar nos açougueiros asquenazitas, e os shamashim10 da comunidade até chicoteavam os compradores relutantes. Os sefarditas chegaram a se recusar a testemunhar que os asquenazim eram de fato judeus (somente com a ajuda de subornos o Conselho Muçulmano decidiu que seu abate era casher, ou seja, feito de acordo com a lei judaica, e seus líderes respiraram aliviados). Durante todo o período, os asquenazitas não receberam reconhecimento oficial, embora se tenham tornado maioria nos anos 1890. Porém, sua separação organizacional também teve impacto nas comunidades internas.

Por muitos anos, a liderança da comunidade sefardita conseguiu impedir as divisões intra-étnicas, retendo, até mesmo, o controle sobre o dinheiro coletado em seus países de origem. Mas quando os imigrantes norte-africanos (Ma’aravim) perceberam que uma grande proporção dos fundos do Kolel11 sefardita tinha origem em seus países, a sensação de privação e amargura aumentou. Durante a controvérsia que se seguiu, foram presos o Meshulach12 e seu filho, mas em 1860 chegaram a um acordo. A comunidade georgiana foi a segunda a receber a semiautonomia, em 1863, e, nas décadas seguintes, após divergências ferozes, os persas e os iemenitas receberam aprovação semelhante (não antes de um noivo iemenita ser retirado de seu casamento, e, como relatado em Havatzelet, “foi colocado em detenção porque comprou uma ketubá13 no mercado [...] ao invés de ter uma da corte rabínica sefardita”).

Em qualquer caso, as divisões internas de fato corroeram o status da comunidade, mas não levaram à sua separação total, já que cada estrutura permaneceu conectada à comunidade materna e ao Chacham Bashi - como o líder do Yishuv.

Crise de liderança

No entanto, precisamente por causa da importância da posição e da própria pessoa do rabino Elyashar, a controvérsia surgida em sua morte, em 1906, teve um significado mais dramático para o destino da comunidade. Pela primeira vez, dividiu a sua liderança. O grupo avançado liderado por Antebi, que buscava a mudança, apoiou o rabino Yaakov Meir. No entanto, seus adversários o acusavam de ser um “traidor do Reino”, em parte por sua proximidade com o movimento sionista, e, como prova, apresentavam uma cópia de sua assinatura com uma Estrela de David (um símbolo identificado com o Sionismo).

As lutas se intensificaram e levaram à intervenção externa de Chacham Bashi de Istambul, que decidiu nomear apenas um substituto temporário e, com efeito, privou a comunidade e o Yishuv da capacidade de decidir diretamente sobre o mais prestigioso e importante oficial da Terra de Israel.

Oposição ao sionismo

Outro fator importante que contribuiu para o declínio da hegemonia sefardita foi o confronto com várias personalidades do movimento sionista e seu direcionamento. No início do século 20, o movimento começou a ganhar força no Yishuv, e, aos olhos dos círculos sefarditas, isso solapou a soberania otomana e colocou em risco sua comunidade.

Sua abordagem, que alguns chamam de “Sionismo moderado”, também atribuiu grande importância ao lugar dos árabes na Terra de Israel.

A comunidade estava ciente da agitação nacional que se havia intensificado entre eles, no início do século, e a reconhecia como um perigo para o projeto sionista.

De fato, os sefarditas viam os árabes como parceiros na vida em Israel (em oposição à abordagem da liderança asquenazita, que os excluía da ideia de viverem juntos em Israel). Uma das figuras proeminentes que falou sobre a necessidade de se assimilarem com o povo do país foi o Dr.   Nissim Malul, que deu origem a uma organização única chamada Maguen, que visava proteger o fortalecimento dos laços entre judeus e árabes. No documento fundador de 1914, outro membro da organização, Avraham Elmaliach, escreveu: “Nosso país também é deles, a pátria é comum”.

No entanto, esta iniciativa foi duramente criticada por pessoas como Eliezer Ben-Yehuda, que afirmou que eles estavam “pregando um nacionalismo romântico judaico-espanhol que contribuiria para a assimilação dos judeus na sociedade árabe”.

Antebi, que compartilhava desses temores e acreditava numa ideologia otomana que se opusesse às demandas nacionais, escreveu para o chefe da Alliance, em 8 de janeiro de 1900: “Você sabe que eu não sou sionista. Estou em Jerusalém e posso estimar a extensão do dano desta jornada [sionista], que está prejudicando o judaísmo [...] que incitou as autoridades otomanas contra nós e tornou a população muçulmana suspeita de todas as conquistas que alcançamos”. Juntamente com David Yellin, ele pediu a adoção da cidadania otomana. “Somente a livre Turquia nos permitiu viver em nosso espírito como judeus”.

O debate esquentou após à revolução dos ‘Jovens Turcos’, com exigências mais assertivas de soberania por parte dos líderes sionistas. Mas quanto mais evidente se tornava o projeto sionista, mais forte se tornava a resistência sefardita. Aos seus olhos, as exigências de soberania contradiziam a utopia supranacional da revolução. “Eu quero ser um representante judeu no parlamento otomano e não no templo hebraico de Moriah”, Antebi escreveu. Ele também fez um alerta: “Se o sionismo político continuar sendo um partido de protesto contra a perseguição de nossos irmãos, tudo bem, mas eu lutarei contra se tornar um partido no poder”.

Porém, Antebi e seus colegas sefarditas pertencem aos perdedores da História, e não apenas porque, diferentemente do novo Yishuv, foram incapazes de se levantar durante a 1ª Guerra, mas principalmente porque o novo regime imperialista (o britânico) se aliou ao movimento rival - deu status oficial à Agência Judaica e seus líderes, em vez de às comunidades sefarditas e ao Chacham Bashi.

A combinação desses processos levou à perda gradual de status da comunidade. Suas instituições foram interrompidas, seus cofres diminuíram, a comunidade caiu em dívidas e suas instituições foram danificadas. Seus líderes também caíram do palco da História. O rabino Elyashar foi o último Chacham Bashi. Antebi foi traído por seus aliados turcos e exilado do país durante a guerra, e Navon e Amzalak desceram de sua posição ainda em anos anteriores, em parte devido ao fortalecimento das instituições concorrentes e à ascensão da comunidade ashquenazi.

No entanto, o caso dos sefarditas de Jerusalém não era incomum. A era dos estados-nações exigia um preço mais alto dos sefarditas, em todo o Império. A transição de uma sociedade pluralista para uma sociedade monolítica, e de uma área geográfica sem fronteiras para os estados-nações, causou um golpe fatal em muitas comunidades. O modelo organizacional étnico otomano foi particularmente útil para preservar uma herança cultural única e ajudar os judeus sefarditas a preservarem sua identidade. No entanto, a influência da comunidade sobre a paisagem da cidade, seus bairros, e até mesmo sobre a cultura e os costumes de seus moradores, muçulmanos e judeus, é evidente até os dias de hoje.

1Pequeno grupo de judeus que nunca saiu de Israel durante toda a Diáspora. Viviam principalmente na aldeia de Peki’in, na Galileia Superior, entre árabes e drusos.

Um corpo econômico fundado em Istambul em 1726, principalmente para apoiar os judeus da cidade, levantando fundos vindos de judeus na Diáspora. Evoluiu para se tornar a diretoria executiva de assuntos judaicos, em Jerusalém.

3A linha ferroviária do Hejaz foi uma linha de estrada de ferro que ligava Damasco a Medina, na região do Hejaz, atualmente parte da Arábia Saudita. Um dos seus ramais, a linha do vale de Jezreel, ligava a linha principal a Haifa, na costa do Mediterrâneo.

4A mais antiga sociedade judaica em Eretz Israel, que lá existiu nas gerações anteriores à imigração sionista e continuou a existir até depois da 1ª Guerra Mundial.

5 Haskalá é o nome dado ao Iluminismo Judaico, movimento surgido dentro do Judaísmo na Alemanha do século 18. Adotava os valores iluministas, incentivando a integração com a sociedade europeia e a valorização da educação secular, aliada ao estudo da história judaica e do hebraico.

6O período de reformas no Império Otomano, sob influência européia (1839-1876), que foi aberto por um decreto real que garantiu a vida e a dignidade de todos os cidadãos do sultão, sem levar em conta sua religião.

Embora ele tenha recrutado investidores belgas, alemães e suíços, não conseguiu levantar a soma necessária para o trabalho e vendeu a franquia, em 1889, a uma empresa francesa.

8Moshavá (plural moshavot) é uma forma de assentamento rural em Israel. Em oposição aos assentamentos comunais, como o kibutz e o moshav, nas moshavot toda a terra e os bens são de propriedade privada.

Guerim, em hebraico, estrangeiros, forasteiros.

11Kolel, comunidade ou congregação de habitantes judeus em Eretz Israel que recebiam suporte financeiro dos fundos da Haluká, a coleta e distribuição organizada de fundos de caridade.

12Emissário rabínico enviado para coletar fundos para caridade. Originalmente, significava coletar fundos para resgatar os primeiros judeus de Eretz Israel. Hoje usado para a pessoa que coleta fundos de caridade para qualquer instituição judaica.

13Ketubá, o contrato de casamento judaico.

BIBLIOGRAFIA

Lemire, Vincent, Jérusalem 1900: la ville sainte à l’âge des possibles, Armand Colin, 2013.

Benbassa, Esther, and Rodrigue, Aron, Sephardi Jewry: a history of the Judeo-Spanish community, 14th-20th centuries, Univ. of California Press, 2000.

Bezalel, Yitzhak, ]Hebraico], Nasceram sionistas, os sefarditas na terra de Israel no reavivamento hebraico, Yad Ben-Zvi, Jerusalém, 2008.

Shenhav Yehuda, ]Hebraico, O Sionismo e os Impérios, Instituto Van Leer, Jerusalém, 2015.

O artigo é baseado em uma palestra dada na conferência multidisciplinar conjunta de programas de Mestrado em História, Estudos Culturais e Estudos sobre Democracia, em Israel.

Nimrod Etsion Koren é aluno de pós-graduação no Departamento de História, Filosofia e Estudos Judaicos na Universidade Aberta de Israel.