A Luz do Mundo - ed.47 - Página 1

Shabat e Festas
Nossas Festas: A luz do mundo

Foto Ilustrativa

"Pois que o mandamento Divino é o lampião e a Torá, a própria luz" ... (Provérbios 6:23)

 
Edição 47 - Dezembro de 2004

Chanucá, a festividade de oito dias que se inicia na noite de 25 de Kislev (este ano, após o anoitecer do dia 7 de dezembro), celebra um grande milagre na história judaica, ocorrido há mais de 21 séculos. A história é muito conhecida, mas sempre se aprende algo ao recontá-la.

A Terra de Israel estava sob ocupação dos greco-sírios, que haviam violado o Templo Sagrado de Jerusalém, tentando impor ao povo judeu o helenismo - a cultura grega prevalente, uma mescla do hedonismo com a filosofia secular. À época, os gregos eram a superpotência militar do mundo e seu exército, altamente treinado e equipado, era tido como praticamente invencível. Desafiando tudo e todos, um pequeno grupo de judeus, conhecidos como os "macabeus", levantou-se contra os gregos, vencendo-os no campo de batalha e retomando o Templo Sagrado - que, de imediato, foi novamente consagrado ao serviço de D'us. Mas, quando os judeus quiseram acender a Menorá do Templo, apenas encontraram um pequeno frasco de azeite de oliva com o lacre do Sumo Sacerdote. Tal selo era a garantia de que o azeite continuava puro para uso ritual. Todos os demais frascos tinham sido violados, propositalmente, pelos gregos. Os judeus acenderam o azeite encontrado que, milagrosamente, ardeu durante oito dias - o tempo necessário para que fosse produzido óleo puro, de acordo com o ritual. Este milagre de luz foi um sinal Divino de que Ele lutara, lado a lado com os judeus, contra os greco-sírios.

O Talmud ensina que o Templo Sagrado de Jerusalém era o epicentro da Presença Divina manifesta na Terra. A Menorá do Templo somente podia ser alimentada com azeite de oliva produzido de acordo com o ritual, em condições de pureza espiritual; sua luz era uma expressão física da luz espiritual que emanava do Templo. Os gregos profanaram o azeite purificado para tão elevado fim pois, desta forma, expressavam seu desejo de suplantar, com seu paganismo, a espiritualidade do povo judeu. Não é de surpreender, portanto, que os gregos, diferentemente dos babilônios e dos romanos, não tenham causado dano físico ao Templo. Bem pelo contrário, trouxeram imagens e ídolos para praticar seu culto idólatra no recinto sagrado. Seu objetivo primordial era a alma judaica; a opressão e a violência contra nosso povo foram mero subproduto de sua guerra contra o judaísmo.

O tema de Chanucá é fundamentalmente diferente do leit-motif dos outros dias santos que marcam o triunfo de nossos antepassados sobre seus inimigos e algozes. Pessach celebra nossa libertação do jugo egípcio, enquanto Purim comemora a derrubada de um decreto genocida contra nós, judeus. Apesar de o milagre de Chanucá ter ocorrido no escopo de uma guerra física, os judeus lutaram acima de tudo por seu ideal espiritual. Pois, ao contrário do que ocorreu no caso do Faraó e de Haman, os greco-sírios nunca tentaram escravizar nem tampouco exterminar o povo judeu. De modo semelhante aos inquisidores espanhóis, utilizaram a violência e a matança para coagir os judeus a abandonar o judaísmo. Eles proscreveram certos mandamentos específicos da Torá, como a circuncisão e a guarda do Shabat, sinais do pacto entre D'us e o povo judeu. E violaram nossas mulheres, tentando destruir as famílias judias: quando uma das filhas de Israel se casava, era forçada a passar a noite de núpcias com um general grego. Mas seu alvo principal era a própria Torá. Permitiam aos judeus que a estudassem como importante livro de literatura e conhecimento humano, mas não como a Vontade e Sabedoria Divina.

Num olhar menos atento, judeus e gregos tinham tudo para conviver bem. Ambos valorizavam a busca da sabedoria, beleza e verdade; ambos buscavam o significado e o propósito da vida. Maimônides, o maior dos filósofos judeus, declarou que Aristóteles, o grande pensador grego, era praticamente um profeta. Desde a época de Alexandre da Macedônia os judeus toleravam o domínio grego. Muitos, inclusive alguns sábios, estudavam filosofia grega e declaravam que esse povo era sábio e talentoso. Estes, por sua vez, admiravam a sabedoria contida na Torá; um de seus reis, Ptolomeu, mandou traduzirem-na ao grego.

Então, por que motivo teria irrompido uma guerra entre os judeus e esse povo? Porque os gregos começaram a oprimi-los de forma brutal no momento em que se aperceberam que os princípios fundamentais do judaísmo e do helenismo não se podiam conciliar. E, de fato, não podiam. O helenismo cultua o homem e o corpo humano; o judaísmo cultua D'us e a alma humana. Para o helenista, a vida tem início e fim no corpo; para o judeu, o corpo é sagrado por ser o templo da alma eterna. Ética, para um grego da Antiguidade, significava fazer o que era certo aos olhos da sociedade. Para o judeu, tanto de então como de hoje, significa fazer o que é certo aos olhos de D'us.

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