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Turquia: há um futuro para os judeus? Istambul, vista da Torre Galata, Turquia

Turquia: há um futuro para os judeus?

A comunidade judaica da Turquia é uma das poucas ainda presentes em um país de maioria muçulmana. Desde a criação da República, na década de 1920, até hoje, o país tem passado por inúmeras mudanças que afetaram a vida dos judeus. A hostilidade e discriminação já existentes nas primeiras décadas da nação turca atingiram novos patamares com a subida ao poder do Partido Islâmico que governa atualmente a Turquia.

Edição 94 - Dezembro de 2016


Apesar de a comunidade judaica mostrar certo dinamismo, os cientistas políticos têm dúvidas quanto à sua continuidade na Turquia a longo prazo. Desde a fundação da República turca, o número de judeus que vivem no país tem minguado, e o êxodo continua. Não há dados exatos sobre quantos lá vivem, atualmente, pois, desde 1965, o censo excluiu a pergunta sobre a religião do cidadão e, dependendo da fonte, os números diferem, mas estima-se que, em 2005, havia quase 20 mil judeus no país e, atualmente, o número tenha caído para 17 mil.

É bem verdade que os judeus que vivem na Turquia enfrentaram menos problemas do que outras comunidades em países islâmicos, mas apesar da liberdade religiosa, da concessão dos direitos civis e da participação na vida econômica, não se pode falar em aceitação dos judeus enquanto tal na sociedade turca; pelo contrário. Desde seu estabelecimento no país, eles são alvo de discriminação, assimilação forçada e pogroms.

A partir do final da década de 1940, o sentimento anti-israelense e o antissemitismo permeiam a sociedade turca, e os judeus têm sido alvo da crescente retórica hostil dos setores islâmicos e ultranacionalistas. E o quadro que se vê atualmente sob o atual presidente, Recep Tayyip Erdogan, islamista convicto, não difere do que já existia, apesar do reatamento das relações diplomáticas com Israel, em junho de 2016.

A criação da República Turca

Sempre houve judeus vivendo, interruptamente, na região onde fica a República da Turquia desde o século 4º a.E.C., principalmente na Península da Anatólia. No entanto, a grande imigração judaica ocorreu no final do século 15 e 16 com a chegada de judeus e conversos ibéricos à região, na época parte do Império Otomano. Em fins do século 19, a população judaica que vivia na atual Turquia era numerosa e próspera. Em um relatório, a Alliance Israélite Universelle afirma que “são poucos os países, mesmo os mais esclarecidos e civilizados, onde os judeus desfrutem a igualdade que têm na Turquia”.

A Turquia como país com a configuração atual surgiu após o término da 1a Guerra Mundial. O debilitado Império Otomano aliara-se à Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), que acabou sendo derrotada pela França e Grã-Bretanha. No final da Guerra, o Império foi desmembrado, ficando o território turco dividido entre os vencedores.

Em de maio de 1919, a ocupação de Istambul por tropas britânicas, francesas e italianas, e de Esmirna pelos gregos foi o estopim para o início da Guerra de Independência Turca. Durante o conflito, oficiais liderados pelo general Mustafa Kemal, mais conhecido como Atatürk (Pai dos Turcos), enfrentaram e venceram as tropas gregas, britânicas e francesas.

Em julho de 1923, as partes envolvidas assinaram o Tratado de Lausanne que reconhecia o governo dos nacionalistas turcos e definia as fronteiras da nova nação. O novo Estado turco, com Ancara como capital,  irá ocupar a península da Anatólia.

Em outubro de 1923, Mustafa Kemal proclama a República da Turquia, tornando-se seu presidente. Convoca também a Grande Assembleia Nacional (GAN) que agiria como Poder Legislativo. A Turquia passa a ser governada por um sistema político unipartidário e, nas três décadas seguintes, o poder está nas mãos do “Partido Republicano do Povo” (CHP), fundado e encabeçado por Atatürk.

O objetivo de Atatürk era criar uma nação homogênea e secular sobre as ruínas do multiétnico Império Otomano. A Constituição de 1924, em teoria, não fazia distinção entre os muçulmanos e não muçulmanos, no entanto, Kemal almejava a “turquização” de toda a população. E consequentemente todas as minorias veem-se forçadas a se integrar, adotando a cultura e idioma turcos. As principais minorias que viviam na época em território turco eram: um número reduzido de armênios, pois mais de um milhão e meio haviam sido dizimados pelo governo otomano; os gregos cristãos, a maioria vivendo em Istambul, pois os que viviam em outras regiões tinham sido transferidos para a Grécia, e, em contrapartida, os muçulmanos que viviam na Grécia tinham ido para a Turquia; e os judeus que, de acordo com o primeiro censo, realizado em 1927, eram 80 mil pessoas, e estavam basicamente concentrados em Istambul, Izmir e Edirne.

As reformas rumo à secularização

Ao assumir a presidência, Kemal deu início à ocidentalização da Turquia. Nos anos que se seguiram e até sua morte, em 1938, implantou um programa de reformas que transformaram a sociedade turca. Pretendia secularizar uma sociedade que, durante séculos tinha-se pautado pelas leis da shari’a1. Queria fazer da Turquia um Estado moderno, democrático e laico. As reformas instituídas traduzem a ideologia “kemalista” que servirá de base para a estruturação da nação.

Não há dúvida de que a principal reforma empreendida por Atatürk foi a separação entre o Estado e o Islã, que deixou de ser a religião do Estado. O turco tornou-se a língua oficial das preces nas mesquitas. Foram abolidas as cortes islâmicas e criado um código jurídico baseado nos códices europeus. Adotou-se o calendário gregoriano, o domingo e não a sexta-feira se tornando o dia do descanso. Tornou-se obrigatório adotar um sobrenome de família, proibiu-se a poligamia e as mulheres passaram a ter os mesmos direitos legais que os homens, inclusive o de voto. O novo regime estimulou o uso de roupas ocidentais, e, em 1934, foi decretada a Lei do Vestuário, que proibiu o uso de véus e turbantes em instituições públicas.

De suma importância foram também as reformas na área de educação. A escola primária tornou-se gratuita e obrigatória, e ficou sob a responsabilidade direta do Estado, acabando, assim, com o domínio islâmico.  Foi também adotado o alfabeto turco, de grafia latina.

As expectativas das várias minorias de total integração, porém, não se realizaram. Tanto os kemalistas, como o povo em geral eram xenofóbicos, e consideravam “suspeitas” as minorias e todos os não-muçulmanos.  A pressão por uma “turquização” – como “prova” de lealdade à Turquia, era intensa.

Não faltaram críticas no âmbito internacional ao programa de turquização, pois violava disposições do Tratado de Lausanne, que garantia os direitos dos não-muçulmanos. Para colocar um ponto final na discussão da validade do programa do governo turco, em 1925 essas minorias abriram mão da proteção de suas singularidades, imbuídas nesse Tratado.

O xenofobismo teve sérias consequências para os não-muçulmanos, pois resultou em uma série de leis, principalmente na área econômica, que faziam uma distinção entre os verdadeiros “turcos”, ou seja, muçulmanos de etnia turca, e os não-muçulmanos. De acordo com essas leis apenas “turcos étnicos” podiam exercer inúmeras funções econômicas e uma série de profissões. A lista é imensa, mas para se ter uma ideia, apenas os “turcos étnicos” podiam trabalhar em instituições públicas, bancos, correio, hotéis, e assim por diante. E, apenas os “turcos” podiam ser médicos, dentistas, parteiras, vendedores ambulantes, fabricantes de roupas...

A vida judaica

Foi substancial o impacto na vida judaica, em decorrência dessas reformas. Os judeus logo perceberam que a igualdade de juri de direitos não lhes garantia a igualdade de facto dos mesmos na esfera social e pública. A maioria muçulmana continuava a considerá-los “não turcos”, dhimmis2, cidadãos de 2ª classe, pessoas que não “mereciam” os mesmos privilégios que os turcos étnicos. Eles eram constantemente “lembrados” de sua classificação de “convidados”, cabendo-lhes, portanto, demonstrar sua gratidão mediante sua turquização.

Numa demonstração de “patriotismo”, os judeus abdicaram de seus direitos como minoria, e muitos renunciaram à sua nacionalidade estrangeira. Historiadores acreditam que se os judeus não foram abertamente forçados, eles foram “induzidos” a tomar essa atitude.

Como vimos, como outras minorias os judeus foram proibidos de exercer inúmeras profissões, muitas das quais haviam exercido sob domínio otomano. Em 1934, 24% dos judeus trabalhavam no comércio, 20% na indústria e 45% em atividades que não necessitavam qualificação e apenas 4% na administração pública e no setor de serviços.

A secularização da República acelerou a secularização dos judeus, iniciada meio século antes. Estes últimos foram obrigados a adotar sobrenomes turcos, e a utilizar o idioma turco sempre que estivessem em público e, pasmem, até nas sinagogas! Em 1928, a campanha cujo slogan era “Cidadão, fale turco!” espalhou-se pelo país. Centenas de judeus foram assediados em público, multados ou presos por utilizar o ladino ou francês – com total apoio do governo.

Em aderência às reformas kemalistas, a comunidade judaica teve que fechar organizações religiosas e beneficentes. As escolas judaicas deixaram de ensinar hebraico e religião, enquanto que, como dissemos, tornava-se obrigatório o ensino do idioma turco, da história e geografia do país – por um professor “turco”. A proibição de ensinar a religião nas escolas foi um sério golpe, colocando em questão a manutenção de um sistema educacional separado. Em 1929 havia em Istambul 10 escolas judaicas, com cerca de 2.500 alunos, mas, após a 2a Guerra, eram raras as que ainda funcionavam. Eram escassas as perspectivas de uma vida judaica plena para a maior parte da população judaica, pois toda uma geração não teria fácil acesso à instrução religiosa, enquanto era grande a pressão pela turquização.

Contudo, apesar de todas essas mudanças, a integração dos judeus  na sociedade maior continuava limitada. Eles permaneceram separados, mantendo low profile, de certa forma interiorizando o rótulo de “convidados” que lhe havia sido imposto. Mesmo assim, por causa de seu sucesso econômico, a burguesia judaica enfrentava quase que diariamente um ressentimento que beirava o antissemitismo.

A imprensa emergia como um importante fator no fomento aos sentimentos antijudaicos. Nas primeiras décadas proliferavam as publicações antissemitas com caricaturas de judeus retratados como gananciosos, parasitas, traidores desleais e mal-agradecidos, que deviam ser expulsos do país. 

Os pogroms na Trácia

Em 1934, durante os últimos dias de junho e primeiros de julho foram registrados ataques violentos contra os judeus nas cidades de Edirne, Çanakkale e Kirklarel, localizadas na Trácia turca, onde viviam por volta de 20 mil judeus. A violência teve início com um boicote aos mercadores. Em 24 de junho, o bairro judaico de Çanakkale foi atacado e muçulmanos atacaram lojas e residências de judeus. No dia 3 de julho, foram atacados os de Kirklarel e, em seguida, os de Edirne. As notícias de judeus espancados, atacados e mulheres judias estupradas disseminaram o pânico entre os judeus da Trácia. Mais de 15 mil abandonaram suas casas e fugiram para Istambul.

De acordo com os documentos atualmente disponíveis, os ataques ocorreram por uma série de motivos. Havia por parte dos muçulmanos um forte ressentimento em relação aos judeus da região que não falavam o turco e uma inveja de seus comerciantes que dominavam a economia. Havia ainda o interesse do governo e das forças armadas de militarizar o Estreito do Bósforo e restabelecer no local a presença turca implantando-se bases militares. Tanto políticos quanto militares não queriam não-muçulmanos nessa área. A estratégia utilizada para forçá-los a abandonar o local consistia em incentivar ataques e campanhas de intimidação. Não calcularam que, uma vez desencadeado, seria difícil conter o antissemitismo da população e tampouco imaginaram a explosão de ódio de grande escala que, de fato, ocorreu.

Tragédia dos refugiados judeus durante o Holocausto

A Turquia se manteve neutra durante a 2ª Guerra. Apesar de os judeus turcos não correrem os perigos enfrentados por seus irmãos em outros países, foi um período de grandes dificuldades para a comunidade.

Na década de 1930 o país instituiu uma política de imigração seletiva, admitindo apenas refugiados judeus altamente qualificados. Por volta de 300 médicos, cientistas e artistas judeus foram convidados para lá se estabelecer. Entre eles estavam as mais brilhantes mentes da Europa, que se tornaram instrumentais no empenho turco de melhorar seu sistema educacional e infraestrutura econômica.  Em 1934, havia 82 judeus alemães dando aulas na Universidade de Istambul.

Em contrapartida, foi severa a política adotada em relação aos outros milhares de judeus que procuravam asilo. Em 1938 foi proibida a entrada a todos aqueles sem passaporte ou documentos de cidadania. Em seguida foi promulgado um decreto para impedir a entrada na Turquia de “Judeus cujos direitos foram limitados em seus países”. Em 1941, a outorga de visto de residente ou turista a judeus perseguidos foi proibida por lei, sendo apenas permitida a concessão de vistos de trânsito àqueles que tinham visto de entrada a outros países. Assim, 13.240 judeus usaram a Turquia como caminho para a então Palestina, enquanto outros 3.234 conseguiram se estabelecer na Turquia.

As leis turcas permitiam a volta à Turquia aos judeus com cidadania turca que viviam em países ocupados pela Alemanha, desde que tivessem documentos válidos. Em muitos casos, a situação dos que não possuíam papeis em ordem dependia da boa vontade dos cônsules turcos. Eles podiam reconhecê-los como cidadãos do país, salvando-os da deportação, ou não. Alguns deles, como Necdet Kent, Namık, Kemal Yolga, Selahattin Ülkümen e Behiç Erkin, fizeram de tudo para salvar a vida do maior número possível de judeus, e seus nomes constam entre os Justos das Nações, em Jerusalém. 

A lei de refugiados foi cumprida ao pé da letra, mesmo em situações extremas, como foi o caso dos refugiados a bordo de três navios que atracaram nos portos da Turquia. O SS Parita, com 850 refugiados, atracou no dia 8 de agosto de 1939, na costa de Izmir. As autoridades não permitiram o desembarque e, após uma semana sem água ou alimento, o capitão foi forçado a seguir viagem. Algumas revistas turcas ridicularizaram os refugiados judeus que procuravam refúgio pelo mundo afora. Após a partida do navio, o jornal semi-oficial Ulus escreveu: “Finalmente se foram os judeus que perambulavam por aqui”.

O segundo navio foi o Salvador que chegou em 6 de dezembro de 1940. A bordo havia 327 judeus. Mais uma vez as autoridades não permitiram o desembarque. No dia 12 os turcos forçaram o navio a seguir para alto-mar apesar da forte tempestade. O navio afundou e 204 pessoas se afogaram, entre elas 70 crianças.

O incidente mais famoso foi o do Struma. O navio, com 769 judeus a bordo, tentou aportar em Istambul, em 15 de dezembro de 1941. As autoridades recusaram-se a autorizar o desembarque sem a garantia da Grã-Bretanha de que os passageiros poderiam prosseguir viagem. O impasse durou 70 dias, durante os quais os refugiados sobreviveram graças à mobilização da comunidade judaica local. Em 23 de fevereiro, os turcos rebocaram o Struma até alto-mar. No dia seguinte, a casa de máquinas explodiu e o navio afundou. Somente uma pessoa sobreviveu. Após o incidente, o então Primeiro Ministro Refik Saydam declarou: “A Turquia não pode se tornar a casa daqueles que não são aceitos por ninguém”.

Variam os dados sobre o número de judeus salvos pela Turquia durante a Shoá. De acordo com Stanford Shaw foram 100 mil; o renomado historiador Rifat Bali estima em 15 mil e Tuvia Friling, um especialista israelense nos Balcãs e Oriente Médio, em 20 mil.

Os turcos não-muçulmanos na 2ª guerra

A Turquia, apesar de neutra e de cooperar com um ou outro país beligerante, mantinha fortes relações com a Alemanha – econômicas e militares. Em Istambul, existia desde 1933 um núcleo do partido nazista que era tolerado pelo governo turco, e muitos turcos simpatizavam com o nazismo.

O terreno era fértil para o crescimento do antissemitismo. Na mídia apareciam cada vez mais artigos que apontavam as minorias, principalmente os judeus, como “responsáveis” pelos problemas da Turquia. As caricaturas estereotipadas de judeus eram comuns.

Nesse clima, o governo adotou uma política discriminatória em relação aos não-muçulmanos. Após a eclosão da guerra, foram mobilizadas 20 classes de reservistas, entre 18 e 45 anos. Judeus e outros não-muçulmanos foram separados dos demais e enviados aos Batalhões de Trabalho. Eles não receberam armas nem uniformes e eram insultados por soldados “turcos” que os chamavam de “soldados infiéis”. Os “soldados” dos batalhões foram despachados para vários locais da Anatólia, obrigados a trabalhar em condições sub-humanas na construção de bases aéreas, túneis e rodovias. Muitos morreram. Os batalhões só foram dispensados em julho de 1942.

Apenas quatro meses após a dissolução dos batalhões, os não-muçulmanos seriam novamente alvo de mais um decreto discriminatório. Em 11 de novembro de 1942, é promulgada a Lei sobre Imposto de Renda. Em princípio, a nova lei foi promulgada como uma oportunidade para o governo sanear suas finanças.

A lei dividia os contribuintes em quatro grupos: os muçulmanos, os não-muçulmanos, os estrangeiros, e os dönmes3 . Os impostos para os não-muçulmanos eram quatro vezes superiores aos dos muçulmanos. Estima-se que, na média per capita, os muçulmanos eram taxados em 5% de suas rendas anuais, os gregos em 156%, os judeus em 179% e os armênios em 232%. Para piorar a situação, os não-muçulmanos tinham que pagar a totalidade dos impostos em 15 dias, em dinheiro, caso contrário seriam enviados a campos de trabalhos forçados na Anatólia Oriental. Estima-se que 1.400 acabaram sendo deportados para Askale. Em 1943, o governo libertou os que enviara a essa localidade e, em março do ano seguinte, o Imposto de Renda foi suspenso e as dívidas, perdoadas.

A lei de taxação foi um grande golpe para a burguesia não-muçulmana. Os tributos arruinaram a vida e as finanças de muitas famílias. Historiadores acreditam que a lei tenha sido criada para enfraquecer a posição econômica das minorias e criar uma burguesia verdadeiramente turca. A legislação discriminatória empobreceu a comunidade judaica deixando-a desorientada e desconfiada. Os acontecimentos prepararam o caminho para a ampla emigração ocorrida após a 2ª Guerra – especialmente após a independência de Israel, entre 1948 e 1949.

Em 1945 havia 76 mil judeus na Turquia, em 1955, 45.995, número que continuou a diminuir na década seguinte, chegando a 38.267 em 1965.

Cresce o Movimento Islâmico

No pós-guerra a Turquia entrou num período de transição política de um regime unipartidário para o multipartidarismo. Em 1946, formou-se o Partido Democrático, que assumiu o poder em 1950.

Mais uma vez, havia motivos para as minorias não muçulmanas acreditarem que a igualdade prometida na Constituição de 1924 poderia tornar-se realidade, garantindo-lhes o mesmo tratamento dos muçulmanos. Mas as esperanças foram frustradas e a situação, principalmente da população judaica, tornou-se mais difícil.  A volta ao islamismo tornara-se uma forte tendência política que iria determinar as futuras décadas.

Até o CHP, partido de ideologia kemalista, defensor da secularização que até então governara o país, teve que adotar uma atitude mais moderada sobre as questões religiosas. Com a subida ao poder do Partido Democrático, foram abolidas muitas das proibições em relação ao Islã que vigoravam desde as primeiras décadas da República. Gradativamente o Islã reconquistava seu lugar na sociedade turca. Essa tendência não secularista e pró-islâmica acabou abrindo espaço ao islamismo político.

O Movimento Islâmico e os judeus turcos

O crescimento constante do movimento islâmico turco que acompanhou a transição do país à democracia multipartidária trouxe consigo uma crescente onda antissemita. Na última década isso vinha aparecendo constantemente na imprensa ultranacionalista e islâmica, tornando-se gradualmente um princípio que caracterizava ambas as ideologias.

Durante as primeiras décadas da República o antissemitismo era desencadeado pela “resistência” dos judeus à turquização e à sua posição socioeconômica. A partir de 1948, um novo elemento é adicionado e vai predominando: a existência e fortalecimento do Estado de Israel. Os turcos, sentindo-se humilhados pelas sucessivas derrotas dos exércitos árabes, passaram a alimentar um ódio contra Israel e a comunidade judaica identificada como sinônimo de Israel.

A retórica negativa sobre Israel e o sionismo e a crença de uma suposta conspiração judaica mundial para enfraquecer e dominar a Turquia e o Islã permeiam toda a sociedade turca - não apenas a direita, mas também os esquerdistas e círculos kemalistas. Esse tipo de crença explica, entre outros, porque nenhuma instituição judaica internacional tem autorização para abrir escritórios ou atuar no país. Essa nova vertente do antissemitismo tem-se intensificado paralelamente ao crescimento do radicalismo islâmico.

Com o aumento da virulência antissemita, cresciam os ataques físicos aos judeus. Em 6 de setembro de 1986, a Sinagoga Neve Shalom foi vítima de um ataque suicida executado por palestinos ligados à organização terrorista de Abu Nidal. Sete judeus ficaram feridos, e 22 dos que tinham ido para as orações do Shabat foram mortos.

Na década de 1990 há um crescimento do antiamericanismo e antiisraelismo. Novas teorias de conspiração passam a circular, apontando para os americanos judeus ou israelenses como os principais arquitetos da primeira Guerra do Golfo (agosto de 1990 a fevereiro de 1991) que, segundo essa teoria, teria sido realizada para beneficiar o Estado Judeu.

As várias teorias de supostas conspirações judias contra muçulmanos conseguiram maior credibilidade com a publicação do livro de Soner Yalçın’s Efendi, em 2004, e Efendi II, em 2006. Mais de 150 mil cópias foram vendidas. Os livros contém divagações obsessivas e sem nexo sobre a suposta influência judaica no país. As obras, caluniosas e fantasiosas, disseminaram entre a população o discurso antissemita radical, até então limitado aos círculos ultranacionalistas islâmicos. Nesse clima político qualquer pessoa que se atreva a fazer comentários favoráveis a Israel é considerada traidor ou alguém que vendeu a alma ao “Estado sionista”. Portanto, é compreensível que os judeus turcos prefiram não dar declarações, e manter silêncio.

O ano de 2003 foi marcado por atos de violência que não deixam dúvida em relação à hostilidade vigente no país contra os judeus, apesar do discurso oficial de tolerância e igualdade. Além do assassinato do dentista Yasef Yahya – cujo perpetrador confessou tê-lo matado só por ser judeu – foram realizados atentados a bomba em duas das principais sinagogas de Istambul. No dia 15 de novembro, um Shabat, carros-bomba explodiram em frente à Sinagoga Neve Shalom, no distrito de Galata, e da Beth Israel, no bairro de Osmanbey. As explosões mataram pelo menos 20 pessoas e deixaram cerca de 300 feridos. Os dois atos foram cometidos pelos grupos Islamistas turcos, simpatizantes da Al-Qaeda.

Mavi Marmara

Um dos momentos mais difíceis na história dos judeus turcos foi o incidente com a chamada Flotilha de Libertação de Gaza, organizada pelo Movimento Gaza Livre e a Fundação de Direitos Humanos, Liberdade e Ajuda Humanitária da Turquia. O objetivo era romper o bloqueio à Faixa de Gaza, imposto por Israel para impedir o contrabando de armas para o Hamas através de suposta ajuda humanitária. As autoridades israelenses exortaram o governo turco a não autorizar a partida da flotilha, alertando que não permitiriam, em hipótese alguma, sua entrada em águas sob seu controle. O regime de Ancara desconsiderou o aviso, apoiando totalmente a iniciativa.

No dia 31 de maio de 2010, quando a flotilha tentava romper o bloqueio, as Forças de Defesa de Israel (FDI), conforme alertado, interceptaram o Mavi Marmara, o maior navio do grupo. O saldo da operação foi a morte de oito cidadãos turcos e um americano-turco.

Pela primeira vez, turcos foram mortos num confronto com as FDI, e, como era de se esperar, a mídia turca questionou a posição da comunidade judaica local, “perguntando de que lado estavam”. O Rabinato Chefe emitiu um comunicado afirmando que a comunidade estava profundamente angustiada. Dizia o comunicado: “Às primeiras informações de que havia mortos e feridos, aumentou nosso pesar”. A imprensa turca exigiu que o único jornal judaico do país, o Salon, publicasse uma declaração oficial da comunidade. Mas, nenhuma outra declaração foi feita, além da difundida através do Rabinato Chefe. 

Ainda que a Turquia seja marcada por acentuadas diferenças ideológicas, o antagonismo a Israel e ao sionismo, percebidos como a “origem de todos os males”, é uma das poucas questões em que islamistas, nacionalistas, liberais, esquerdistas e kemalistas estão de acordo.

Diante da onda de antissemitismo disseminada pela mídia turca depois do incidente com o Mavi Marmara, a imprensa internacional publicou uma série de artigos sobre o medo dos judeus de serem vítima de ataques físicos contra indivíduos e instituições comunitárias.

Essa reação internacional obrigou o governo a declarar que os extremistas islâmicos que protestavam contra Israel deveriam fazer uma diferença entre o governo e o povo de Israel, e entre os judeus turcos e o Estado de Israel.

Para a comunidade judaica turca, no entanto, ficou claro, mais uma vez, que para a opinião pública e a mídia turca, um bom judeu é um judeu antissionista, que tem uma atitude crítica em relação ao sionismo e a Israel. Enquanto que um mau judeu é o judeu sionista. Ou seja, é impossível para os judeus da Turquia serem aceitos, a menos que adotem a retórica de “bons judeus”. Contudo, a adoção dessa retórica é um problema, pois o sionismo e a ligação com Israel são os principais temas ensinados à juventude judaica turca como forma de ajudá-los a preservar sua identidade judaica.

Segundo uma pesquisa feita pela Liga Anti-Difamação em julho de 2013, 69% dos turcos têm sentimentos antissemitas que aumentaram ainda mais desde 2014. São comuns os cartazes em locais públicos e restaurantes com os dizeres: “Não é permitida a entrada de cães e judeus” e ataques com ovos contra aqueles que se dirigem à sinagoga. Apesar da condenação de tais atitudes por parte do governo e da afirmação de que os judeus do país “são nossos cidadãos”, pouco se fez para impedir a repetição desses atos.

Ainda que sem chamar muita atenção, a comunidade mantém uma estrutura que permite a manutenção da cultura judaica. Em 2001 foi inaugurado o Museu de Judeus Turcos. Em 2003 foi instituído o Dia Europeu da Cultura Judaica, em Istambul. Desde 2005 vem sendo realizado um festival de cultura judaica intitulado Limmud, palavra hebraica para o termo aprendizado. Em 2006, aconteceu pela primeira vez o Karakare Film Days, visando celebrar o Holocausto através do cinema.

No mesmo ano, foi inaugurado o Centro de Pesquisa da Cultura Sefaradi Turco-Otomana cuja missão é preservar a herança cultural sefaradita e a língua ladina, com a apresentação de grupos musicais. Realizam, também, várias atividades em diferentes instituições para incentivar a juventude a manter a cultura e as tradições judaicas. Em Ulus, moderno distrito de Istambul, funciona uma escola judaica particular de nível médio que oferece 12 anos de ensino em inglês, além das matérias hebraicas.

Turquia e Israel

Apesar da retórica antissionista, até maio de 2010 as relações diplomáticas entre Israel e a Turquia eram relativamente tranquilas.  O intercâmbio comercial entre os dois países somava milhões de dólares, incluindo a cooperação em diversas áreas, além do fluxo de turismo, principalmente partindo de Israel.

Após o incidente com o Mavi Marmara, as relações entraram em colapso, até junho de 2016, quando foi anunciada a normalização das relações diplomáticas, visando uma eventual cooperação para explorar reservas de gás natural no Mar Mediterrâneo. Israel afirma que o acordo com Ancara não anulará o bloqueio naval à Faixa de Gaza, mas criará oportunidades adicionais de assistência humanitária à região. A Turquia, por sua vez, se compromete a não permitir “ações terroristas contra Israel a partir de seu território”.

Os sentimentos anti-Israel, no entanto, são fortes. Em 2013, Erdogan ficou em segundo lugar numa pesquisa do Centro Simon Wiesenthal de classificação de personalidades antissemitas. Em 12 de janeiro de 2015 o Presidente teve um cordial encontro em Ancara  com Mahmoud Abbas, negacionista do Holocausto e glorificador do terrorismo. Antes disso, em 27 de dezembro de 2014, o dirigente do Hamas, Khaled Mashaal, discursou perante o congresso do Partido da Justiça e do Desenvolvimento no poder, enquanto a multidão gritava slogans do tipo “Morte a Israel”!

Um despacho oficial do MEMRI (Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio), em novembro de 2014, dizia: “O antissemitismo atinge novos patamares na Turquia: ameaças contra judeus turcos, manifestações de admiração a Hitler, exortações para que os judeus sejam enviados a campos de concentração, os judeus deveriam pagar um tributo especial etc. ”.

Ainda de acordo com o despacho, ao mesmo tempo em que Erdogan negava, em seu discurso de 22 de setembro de 2014, no Conselho de Relações Exteriores, que ele ou seu governo fossem antissemitas, membros de seu partido estavam tuitando elogios a Hitler.

Conforme destaca o MEMRI é óbvio que no atual governo o antissemitismo na Turquia está atingindo novos patamares. A situação é tão delicada que muitas vezes as sinagogas ficam fechadas para evitar eventuais tragédias. A Sinagoga Neve Shalom não abre mais para o Shabat, a segurança foi reforçada e, atualmente, funciona como museu.

Segundo a liderança judaica, as ameaças maiores vêm da própria população turca, constantemente bombardeada com um discurso de ódio. Mensagens ameaçadoras são enviadas a membros da comunidade, além de alertas frequentes de terrorismo emitidos por Israel. Ademais, membros da comunidade foram instruídos a não dar entrevistas para a mídia, pois qualquer palavra pode ser mal interpretada e ter sérias repercussões.

O único autorizado a falar em nome da comunidade é seu presidente, Ishak Ibrahimzadeh. Para entender ainda mais o contexto basta dizer que pais recomendam a seus filhos que não usem Estrelas de David, kipá, e outros símbolos judaicos de forma ostensiva, que não falem de seu amor por Israel em público e que ignorem comentários maliciosos sobre o Estado Judeu ou sobre a própria comunidade.

A recente tentativa de golpe (julho de 2016) liderada por alguns militares contra o governo islamista de Erdogan e a rápida e violenta resposta das autoridades em reprimi-la, apoiada pela população que saiu às ruas para se manifestar contra a queda do presidente, sinalizam que, por enquanto, nada vai mudar na Turquia, a não ser para uma radicalização islâmica maior, com um regime cada vez mais centralizado no presidente Erdogan, que hoje conta com o total apoio dos setores islâmicos e nacionalistas.

Para a situação dos judeus na Turquia mudar o país teria que passar por uma profunda mudança cultural, afastando-se do nacionalismo islâmico que permeia todos os segmentos sociais e assumir um caminho mais liberal. Não há nada que indique que esta será a opção turca, nos próximos anos. Mesmo com a reaproximação com o Estado de Israel e o reatamento das relações diplomáticas entre os dois países, em junho de 2016. Eitan Naeh, primeiro embaixador de Israel na Turquia desde 2010, chegou no dia 1º de dezembro a Ancara,  selando a normalização das relações bilaterais após anos de crise.

Bibliografia
Prof. Bali, Rifat,The Slow Disappearance of Turkey’s Jewish Community, publicado em 6 de janeiro de 2011 no site :The Jerusalem Center for Public Affairs http://jcpa.org/
Prof.Bali, Rifat “Model Citizens of the State: The Jews of Turkey during the Multi-Party Period, 2013 -kindle edition
Brink-Danan, Marcy Jewish Life in Twenty-First-Century Turkey: The Other Side of Tolerance, 2011- kindle edition