Morashá
A inesperada descoberta do Arquivo Judaico do Iraque 1. LIVROS E DOCUMEnTOS DO JUDAÍSMO IRAQUIANO JÁ EMPACOTADOS PARA EMBARQUE, JUN. 2003 2. HAGADÁ DE PESSACH MANUSCRITA, BAGDÁ, 1902 3. LIVRO "HISTÓRIA DO MILAGRE DE CHANUCÁ", BAGDÁ, 1926

A inesperada descoberta do Arquivo Judaico do Iraque

Quando as tropas americanas invadiram o Iraque, em 20 de março de 2003, jamais poderiam imaginar que, numa missão de busca e apreensão, acabariam recuperando dezenas de milhares de documentos, 2.700 livros e outros tantos objetos narrando a vida, os hábitos e a herança de uma das mais antigas comunidades judaicas do mundo.

Edição 115 - Junho de 2022


Esse verdadeiro tesouro recebeu o nome de Arquivos Judaicos Iraquianos e se estende de meados do século 16 à década de 1970. E fornece um registro vívido e sem paralelo da vida judaica em Bagdá.

Em 6 de maio de 2003, poucos dias após as forças de coalizão assumirem o controle de Badgá, uma equipe exploratória do Exército Americano, composta por 16 soldados a quem fora atribuída a busca por armas nucleares, biológicas e químicas, entrou no porão do Mukhabarat, a polícia secreta de Saddam Hussein. Inundado com mais de 1,5 metros de água fétida, esse porão continha, boiando nessa água, um patrimônio inestimável de livros, artefatos e documentos judaicos. O porão abrigava material relacionado à vida da comunidade judaica iraquiana. Não ficou claro como e por que razão esses registros de valor incalculável sobre a vida dos judeus e seus textos religiosos tinham ido parar nos porões da Mukhabarat. O fato é que claramente haviam sido pilhados de sinagogas e organizações comunitárias. Membros da comunidade haviam relatado editos os obrigando a levar seus livros em hebraico e outros textos judaicos às sinagogas, onde caminhões aguardavam para transportá-los não se sabia para onde. Também não estava claro o que, exatamente, a Mukhabarat esperava encontrar neles. Quaisquer fossem os motivos, a captura do material cultural judaico pela polícia iraquiana fez lembrar pilhagens semelhantes perpetradas pelos nazistas, durante a 2a Guerra Mundial.

Resgatando os documentos

Não tardou para que o exército norte-americano percebesse a importância de sua descoberta e prontamente procurasse ajuda. No clima quente e úmido de Bagdá, os documentos e livros encharcados rapidamente se emboloravam, apesar dos esforços para os secar. O material foi armazenado em um caminhãorefrigerado, de modo a impedir que se deteriorassem ainda mais. Congelamentoéum método comum para se estabilizar materialúmido. Em 2003, encontrar-se caminhões refrigerados em Bagdáera umafaçanha das mais impossíveis, mas eles não pouparam esforços para salvar os Arquivos Judaicos Iraquianos.  

Solicitaram auxílio à Administração de Arquivos e Registros Nacionais, em Washington, DC, e, em junho de 2003, foram enviados especialistas em conservação para Bagdá. Essa instituição é conhecida pela manutenção e preservação de documentos antigos de grande valor, como o original da Declaração da Independência dos Estados Unidos.

As autoridades iraquianas deram seu consentimento para que os documentos fossem levados aos Estados Unidos para serem recuperados, sob a vaga premissa de que seriam devolvidos ao Iraque após sua recuperação. As forças armadas transportaram o material ainda congelado em mais de 20 caixas de metal para o Texas e, de lá, para a Administração de Arquivos e Registros Nacionais, na capital norte-americana.

Preservação e restauro

Essa instituição não mediu esforços para recuperar a coleção. Investigado o estado de cada item, tomaram as devidas medidas para estabilizar os documentos a fim de poderem ser manuseados. Cada um deles foi fotografado e catalogado.

Foram vários os agentes que causaram danos ao rico material: lama, insetos e mofo, além de alguns estarem rasgados e outros colados devido à umidade. O trabalho foi gigantesco, buscando remover o bolor, consertar o que estava rasgado, limpá-los e até mesmo voltar a encaderná-los. A transformação foi milagrosa, de fato. De folhas bolorentas, os milhares de livros e documentos se transformaram em acervo de museus.

Visando facilitar o acesso a esse rico material, os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos e seus parceiros catalogaram e digitalizaram os livros e documentos, criando um inventário de banco de dados na Internet. Após mais de uma década de trabalho diligente e um investimento de milhões de dólares, o acervo judaico iraquiano estáhoje preservado.

Documentos e livros recuperados

Alguns datam de muitos séculos, outros são mais recentes. E fazem a crônica da vida judaica no Iraque. Entre os milhares de itens contam-se livros de oração, fragmentos de Rolos da Torá, livros sobre a Lei Judaica e documentos da vida comunitária judaica nesse país. A maioria dos livros religiosos são escritos em hebraico e muitos dos documentos estão em árabe.

Sobre os documentos e materiais

Perto de 1.200 livros judaicos foram recuperados do porão da Mukhabarat, sendo mais de 400 deles livros de oração.

Com início em 1862 e durante mais de 100 anos, as prensas de impressão em caracteres hebraicos produziram uma enorme variedade de livros, entre os quis trabalhos litúrgicos que seguem os costumes locais. Cerca de um quarto das obras recuperadas foram impressas em Bagdá, no final do século 19 ou no século 20; as demais foram importadas de centros gráficos, em língua hebraica, como a França, Lituânia, Alemanha e Índia.

Entre os livros de rezas impressos no país, contam-se um livro de orações para as festas de Pessach, Shavuot e Sucot (1912); um livro de orações (Sidur Kehilat Ya’akov) para os dias da semana (1962); um guia religioso para mulheres, de 1906, de nome Kanun al Nisa (Leis para as Mulheres), de autoria de Ben Ish Hai. Esse guia religioso é um texto em árabe transcrito em letras hebraicas.

Entre os livros religiosos não-iraquianos que conseguiram ser preservados estão umaBíbliade Veneza, em hebraico e com comentários rabínicos, datada de 1568, e um Talmud Babilônico de mais de 200 anos atrás, de Viena (1793), que discute leis e tópicos referentes a Yom Kipur. Foi encontrada, também, uma pequena Hagadá de 1902, escrita à mão, bem como um livrinho de orações colorido, em francês, de 1930, e ainda uma linda edição de 1692, feita na Alemanha, com uma coletânea de sermões feitos por um rabino.

Entre os objetos resgatados encontra-se uma caixa para Sefer Torá, de Bagdá, do século 19-20. Apesar de não terem sido encontrados Rolos completos da Torá, foram recuperados 48 fragmentos de pergaminhos de Torá, provenientes de Badgá. A grande maioria dos documentos recuperados pertencem a organizações comunitárias judaicas, como o gabinete do Rabino-Chefe, hospitais e escolas. Entre eles, mais de 200 fichários com registros escolares da década de 1920 até 1975, bem como fotos escolares.

Entre os inúmeros documentos interessantes encontra-se uma Carta do Gabinete do Governador Militar Britânico, em Bagdá, ao Rabino -Chefe da cidade acerca de uma solicitação para o fornecimento de Matzá aos prisioneiros judeus durante a festividade de Pessach, no ano de 1917. Interessante, também, uma carta de 1918, enviada pelo Gabinete do Governador Militar Britânico em Bagdá ao Rabino-Chefe, sobre o provisionamento de carneiros para a festa de Rosh Hashaná.

Os Arquivos Judaicos Iraquianos narram décadas e mesmo séculos da vida judaica no Iraque. E são de particular importância para que se entenda a vida dos judeus iraquianos na segunda metade do século 20, quando a maior parte da comunidade fugiu desse país levando quase nada consigo – e os que ficaram foram alvo de severas consequências.

Graças ao trabalho incansável para sua conservação, o material encontrado no porão da sede do serviço de inteligência de Saddam Hussein está disponibilizado online. Esses milhares de documentos nunca foram devolvidos ao Iraque e, desta forma, o Arquivo Nacional Judaico Iraquiano se tornou propriedade cultural disputada pelo Governo dos Estados Unidos, grupos judaicos e a diáspora judaica iraquiana – e pelo governo iraquiano.

A notável sobrevivência desse incalculável registro histórico da vida judaica no Iraque nos fornece uma oportunidade inesperada de melhor entendermos essa comunidade que conta 2.500 anos de História.

BIBLIOGRAFIA

Preserving the Iraqi Jewish Archive, artigo publicado pelo site https://www.archives.gov/exhibits/ija/

Archives readies a schoolgirl’s records and a trove of Jewish treasures for return to Iraq, artigo publicado por Michael Ruane pelo jornal Washington Post em 13 de Agosto de 2013

Accessing the Iraqi Jewish Archive, artigo de Dina Herbert publicado pelo site https://jewishlibraries.org/