Os judeus de Sefarad viveram sob o domínio de reis cristãos desde o século 10 até serem expulsos, em 1492. Durante esses séculos, um grande número de comunidades, ricas e importantes, lá floresceram. Mas, à medida que crescia o poder da Igreja, a posição dos judeus se enfraquecia. Os pogroms de 1391 marcaram o fim de uma era de relativa tranquilidade. Eram o prenúncio do sofrimento que os aguardava...

As forças muçulmanas que haviam invadido a Península Ibérica no início do século 8 jamais conseguiram dominar toda a Península. Uma parte das Astúrias, ao Norte, ficou em mãos cristãs, resistindo às investidas muçulmanas. No século 9, a Península Ibérica já estava dividida entre reinos cristãos, ao Norte, e o domínio islâmico, ao Sul, em Al- Andaluz.

Quando, nos primeiros anos do século 11, o califado de Córdoba se decompôs em vários pequenos reinos islâmicos, chamados Taifas, os cristãos se sentiram fortalecidos e retomaram as tentativas de reconquista da Península.

A ofensiva contra os mouros, a “Reconquista”, como os historiadores a intitularam, foi um longo e tumultuado processo que durou quase 200 anos Os principais Reinos Cristãos que surgiram nesse período foram: o Reino de Navarra, de Castela, de Aragão, de Leão e de Portugal. A Reconquista foi concluída, para todos os efeitos, com exceção do pequeno enclave muçulmano de Granada que durou até 1492, por Ferdinando III (1217-1252) e Alfonso X (1252-1284), do Reino de Castela e Jaime I (1213-1276), do Reino de Aragão. Com a capitulação de Sevilha, que ocorreu em 1248, forçada por Ferdinando III, estava praticamente concluída a Reconquista.

Há um consenso entre historiadores de que o ideal que permeou as guerras de reconquista foi, em grande parte, religioso – derrotar o inimigo islâmico para que a Península voltasse às mãos dos cristãos; e, em parte, de conquista. O elemento religioso é de suma importância, pois os guerreiros cristãos acreditavam estar lutando por sua fé em uma grande cruzada. A Igreja também via a Reconquista como parte do movimento geral das cruzadas que se estendeu do final do século 11 até o final do século 13. Os sentimentos religiosos e anti-judaicos que vieram à tona acabam minando a posição das populações judaicas que viviam nos Reinos Cristãos.

Durante a Reconquista os judeus estiveram em constante movimento. À medida que os mouros se defrontavam com o inimigo cristão tornavam-se cada vez mais intolerantes em sua religião, principalmente em relação aos não muçulmanos. Perseguidos, forçados a escolher entre sua fé e a morte, os judeus passam a procurar refúgio entre os cristãos. Para eles, tratava-se de escolher viver no lugar que naquele momento histórico representava o menor perigo. Assimtrocaram o domínio islâmico onde reinava uma intolerância ativa, pelo domínio cristão, onde no passado haviam enfrentado grande animosidade.

O início do domínio cristão

Pouco se sabe sobre o reduzido número de judeus que vivia no Norte da Península nos anos de formação dos primeiros Reinos Cristãos – Astúrias, León e nas serranias do Norte e Noroeste da região. Sabe-se, porém, que nos primeiros estágios da Reconquista os cristãos não poupavam as populações judaicas, destruindo sinagogas e matando rabinos e sábios.

Mas, as perseguições acabaram à medida que os governantes perceberam que precisavam dos judeus. Hábeis artesão e comerciantes, sua presença era vital para a continuidade da vida urbana nas áreas conquistadas aos muçulmanos. Fluentes em árabe, assim como nos vernáculos utilizados nos Reinos Cristãos, os judeus eram intermediários entre os muçulmanos derrotados e os cristãos vitoriosos.

Ademais, os cristãos não eram capazes de atuar nos campos nos quais os judeus eram hábeis, entre outros, não tinham a cultura e conhecimentos dos habitantes de Al-andaluz, pois na Europa cristã apenas a Igreja mantinha o controle absoluto do saber erudito. Pode-se dizer que durante a Reconquista criara-se um tácito acordo: enquanto as populações cristãs cuidavam da agricultura e do pastoreio e os nobres dos assuntos de guerra, os judeus cuidavam da reorganização do Estado e da economia. Isso levou os judeus a acreditarem que poderiam replicar o tipo de vida que tinham em Al-Andaluz.

À medida que iam conquistando novos territórios, os reis cristãos ofereciam aos judeus que lá viviam uma série de garantias: entre outras, a proteção real e isenções fiscais. Concediam terras aos que queriam se estabelecer em seus domínios. Essas, geralmente, incluíam fortalezas que, em tempos de perigo, os judeus deviam defender contra os inimigos do rei. Nas cidades recém-fundadas não havia, inicialmente, diferenças entre áreas destinadas aos cristãos e aos judeus.

Alfonso V de León (999-1027), por exemplo, atraiu judeus para seus territórios oferecendo terras, privilégios e liberdade. Na cidade de Léon, a partir do século 10, os judeus controlavam o comércio têxtil e de pedras preciosas, possuindo muitas propriedades no reino e atuando, também, na agricultura e viticultura. Em Barcelona, tornaram-se importantes proprietários de terras, indicando algumas estimativas que chegaram a possuir cerca de um terço das propriedades do condado.

Os Reinos Cristãos eram monarquias feudais e na estratificada sociedade feudal não havia lugar para os judeus. Assim sendo, direitos, “privilégios” e obrigações eram definidos pelos governantes em cartas de direitos (fueros). Em termos gerais, pois cada reino era independente, tais cartas de direitos declaravam que os judeus eram legalmente “propriedade” do rei e estavam sob sua proteção. Mas tais direitos podiam ser cancelados ou mudados pelo rei no poder num piscar de olhos, em muitas ocasiões em decorrência de pressões da Igreja ou da população local.

Em épocas de estabilidade isto significava nada mais do que a obrigação de pagar impostos diretamente ao Tesouro Real. Os reis não tinham interesse em interferir na estrutura interna das comunidades – conhecidas como aljama (o nome em árabe foi mantido), entidades autônomas politicamente independentes.

A partir do final do século 12, um número cada vez maior de judeus – em fuga das perseguições dos Almorávidas e, mais tarde, dos Almôadas, refugiaram-se nos Reinos Cristãos. Entre eles havia “judeus cortesãos” que haviam servido príncipes muçulmanos e que se colocaram à disposição dos governantes cristãos. Um número significativo passou a ocupar cargos importantes. Para os monarcas, os judeus eram mais “confiáveis”, pois não representavam um perigo em termos políticos, como era o caso dos cristãos que podiam se aliar com nobres e tentar tomar o poder, tampouco militares, como era o caso dos muçulmanos que podiam se aliar às forças mouras.

Os judeus tornaram-se, entre outros, médicos, conselheiros, administradores financeiros, inclusive de ordens religiosas católicas. Por dominarem vários idiomas, tornaram-se diplomatas para os Reinos Cristãos, e intérpretes capazes de traduzir rapidamente os textos árabes para o idioma castelhano e catalão. Os sefarditas transformaram-se em uma ponte cultural, um vínculo vital para a transmissão de obras clássicas gregas e romanas, assim como islâmicas para a Europa cristã.

A vida judaica na Espanha cristã floresceu. Durante a Reconquista, formou-se nos Reinos Cristãos um grande número de importantes e ricas comunidades organizadas e seguramente estabelecidas. Essas comunidades foram-se fortalecendo à medida que os antigos bairros judaicos se expandiam ou novos eram estabelecidos.

Enquanto o status social e econômico dos judeus rapidamente voltou a ser o que era na Al-Andaluz antes que o fanatismo dos Almôadas imperasse completamente, ainda levou algum tempo para que a cultura judaica renascesse. Eventualmente, porém, comentaristas talmúdicos e bíblicos, halachistas e poetas produziram obras que influenciaram todo o mundo judaico. A vida cultural e religiosa floresceu. Os antigos centros de estudo judaico, Córdoba, Lucena, Granada, estavam em ruínas, mas o estudo continuou a florescer em Toledo e Barcelona.

O perfil do judaísmo sefaradita, porém, havia mudado. O hebraico e não mais o árabe passou a ser principal expressão da cultura judaica. Apenas na poesia e na arquitetura continuaram a ter os traços da cultura andaluza. Ademais, no seio das comunidades judaicas surgira uma nova realidade: à medida que a Espanha cristã se distanciava fortemente do mundo islâmico, as tradições do judaísmo do norte europeu passaram a influenciar o judaísmo sefaradita. O estudo do Talmud se tornara o novo ponto focal de estudo. Os judeus também estavam desenvolvendo um interesse novo e profundo em disseminar as noções de misticismo judaico, a Cabalá.

O brilho dourado da vida judaica era, no entanto, ofuscado pela forte antipatia que existia contra os judeus nos domínios cristãos, especialmente entre as massas. Apesar da atitude benevolente dos monarcas em relação aos judeus – por mais interesseira que fosse – de modo geral os cristãos consideravam o visível exercício de poder dos judeus ofensivo e contrário à doutrina da Igreja. Mas, em comparação com o resto da Europa, os Reinos Cristãos eram lugar de grandes oportunidades para os judeus, e o judaísmo de Sefarad desempenhou um papel central no mundo judaico durante os séculos, atuando como uma das principais forças da vida cultural judaica na Europa.

Os judeus de Toledo

O Reino de Castela e Toledo são exemplos típicos do desenvolvimento da vida judaica nos domínios cristãos. Já no século10 os governantes de Castela outorgaram aos judeus, em muitos aspectos, condições de igualdade em relação aos cristãos. Quando o rei Alfonso VI reconquistou Toledo, em 1085, não apenas garantiu aos judeus que lá viviam igualdade total de direitos, mas concedeu-lhes outros desfrutados apenas pela nobreza.

Historiadores acreditam que Alfonso VI,o Bravo, rei de Leão e Castela (1043–1109) foi o monarca ibérico que criou a tradição de que os cortesãos judeus, ainda que permanecessem fiéis à sua religião, exerciam autoridade considerável sobre os habitantes do reino. Durante o reinado de Alfonso VI havia judeus atuando em vitais missões diplomáticas e alguns chegaram a ocupar importantes funções na corte e nas forças armadas. O grande favoritismo do rei pelos judeus despertou a inveja e o ódio dos cristãos, e o Papa Gregório VII advertiu-o para que não permitisse que os judeus governassem sobre os cristãos.

O confidente e médico pessoal de Alfonso VI era o judeu Joseph ha-Nasi Ferrizuel (também conhecido como Cidellus). Ferrizuel, que ocupou vários cargos importantes, usufruiu amplo poder político e econômico. Entre outros, os nobres do reino que não se aventuravam a abordar diretamente o rei, pediam a Ferrizuel para fazê-lo em seu nome. Como Nasi da comunidade judaica de Toledo, trabalhou seu crescimento e consolidação. Muitos judeus vindos de Al- Andaluz se estabeleceram na cidade ajudados pelas atividades de resgate de Ferrizuel. No século 12, intelectuais judeus e não judeus dirigiam-se a Toledo vindos de várias partes da Europa. Na Toledo do século 12 e 13, os judeus trabalharam harmoniosamente lado a lado com cristãos e muçulmanos. A cidade tornou-se um centro de conhecimento. Obras clássicas gregas e romanas antes esquecidas na Europa foram recuperadas e traduzidas. E o conhecimento vindo do mundo muçulmano nas áreas de Matemática, Filosofia, Medicina, Botânica, Astronomia e Geometria, tornado acessível ao Ocidente.

O exemplo de Alfonso VI em relação aos judeus foi seguido nos Reinos de Aragão e Navarra. Porém, mesmo nesse período, havia tensões latentes que poderiam minar a situação favorável aos judeus tanto em Castela quanto em Aragão. Revoltas contra a Coroa geralmente levavam à violência contra judeus, principalmente em Léon, na região Norte do Reino de León-Castela. Em 1108, depois da desastrosa Batalha de Ucles, na qual 30 mil soldados cristãos foram mortos, manifestações anti-judaicas eclodiram em Toledo. Muitos judeus foram assassinados e tiveram suas casas e sinagogas incendiadas. Alfonso VI queria punir os culpados, mas morreu antes que pudesse fazer o que pretendia. Depois de sua morte os habitantes de Carrion atacaram os judeus, matando muitos, prendendo outros e pilhando suas casas.

Alfonso VII manteve os judeus nas mesmas condições de igualdade que os cristãos. E, mais uma vez um judeu, Judah ben Joseph ibn Ezra (Nasi), exerceu grande influência sobre o monarca. Judah foi nomeado comandante da fortaleza em Calatrava, depois de sua conquista em 1147. A seu pedido, o rei não apenas permitiu que judeus fugidos das perseguições dos Almôadas se estabelecessem em Toledo, mas também permitiu que o fizessem em outras cidades, como Fromista, Flascala, Palencia, nas quais novas comunidades acabaram por se formar.

Durante o reinado de seu sucessor, Alfonso VIII, O Nobre, que ascendeu ao trono de Castela e de Toledo em 1158, os judeus exercem uma influência ainda maior, entre outros fatores beneficiados pelo amor do rei pela linda judia Rachel (“A Formosa”). Afonso VIII é lembrado principalmente pelo seu papel na Reconquista, levando à queda do Califado Almóada. Em sua guerra contra os mouros, o rei foi muito auxiliado pela riqueza dos judeus de Toledo. Mas, em1212, esses judeus foram atacados pelos cruzados que o arcebispo de Toledo chamara após Afonso VIII ser derrotado pelos Almôadas. Os cruzados deram início a uma “guerra santa”, roubando e massacrando os judeus. Se o rei não tivesse intervindo todos os judeus da cidade teriam sido mortos.

Durante o reinado de Alfonso VIII os judeus ergueram a Sinagoga Ibn Shushan, hoje Santa María la Blanca. Inaugurada em 1180, foi construída em estilo arquitetônico mudejar1. A sinagoga convertida na segunda metade do século 15 em Igreja é considerada por alguns como a mais antiga da Europa, ainda de pé. Atualmente, é propriedade da Igreja Católica, que a mantém.

A vida judaica a partir do século 13

A história da Península Ibérica chegou a um ponto crucial no século 13, quando Ferdinando III (1217-1252) de Castela, e Jaime I (1213 – 1276), de Aragão, concluíram um longo processo da Reconquista.

O século 13 iniciou-se com os judeus tendo alcançado posições de grande poder político, econômico e social muitas vezes superior às dos cristãos. E ainda se destacavam por seu conhecimento científico e empresarial superior. Os cristãos se ressentiam profundamente de seu poder e de sua presença. Apesar da inclinação religiosa e das pressões do papado para que os governantes adotassem medidas mais duras contra os judeus, tanto Ferdinando III como Jaime I reconheciam o valor dos judeus na economia de seus reinos. Sendo assim, não cederam as pressões e mantiveram seus direitos e privilégios. Continuaram a recompensar os judeus pelos serviços prestados à Coroa, colocando-os em cargos importantes como secretários, coletores de impostos nas cidades e nos campos, e intérpretes e agentes comerciais. Deve-se ressaltar que as razões econômicas por trás de tal política não eram insignificantes: estima-se que entre 35 a 60% dos recursos de cada reino era proveniente de judeus.

Nas cidades conquistadas, Ferdinando III encorajou os judeus a usarem seus talentos e potencial a serviço dos projetos da Coroa. Após a conquista de Sevilha, deu-lhes terras. E, apesar da objeção da Igreja, permitiu que os judeus de Córdoba construíssem uma nova e magnífica sinagoga, erguida em estilo mudéjar foi inaugurada em 1315.

Quando Jaime I, rei de Aragão, conquistou Maiorca, não havia ninguém capaz de redigir o documento de capitulação da cidade, exceto dois judeus que atuavam como intérpretes em Saragosa. Ao consolidar seu reinado, o rei garantiu aos judeus de Aragão inúmeros privilégios e incentivos financeiros para que ali se estabelecessem.

É difícil caracterizar a vida judaica nos anos que se seguiram às conquistas cristãs do século 13, e precederam o início dos ataques anti-judaicos no final do Século 14. Não se podem negar os efeitos da hegemonia cristã na Península e, portanto, a consequente importância da Igreja nos assuntos dos Reinos. Tampouco podemos esquecer o fato de que os judeus ainda exerciam um grande poder e importante papel. Mas, por volta de 1300, após os cristãos terem completado suas conquistas mais significativas, a população cristã da Península começou a desenvolver os talentos urbanos que tanto lhes faltavam no século anterior. A aquisição de habilidades comerciais foi especialmente rápida em Aragão e, como resultado, o status dos judeus locais declinou, diferentemente da situação em Castela, onde continuou relativamente estável.

O poder da Igreja

Cresce no século 13, na Península Ibérica, o poder da Igreja Católica assim como seus esforços dirigidos contra os judeus. Durante séculos, a Península ficara fora do alcance da Igreja, mais importante instituição do mundo feudal.

Neste século, a Europa estava obcecada por dois temas: dogma e fé. O temor à heresia era também muito forte. Para conter a ameaça da heresia, a Igreja criou as ordens dos franciscanos (1209) e dominicanos (1216), dando-lhes poder para combater todas as manifestações religiosas consideradas heréticas. Para combater contra as heresias, em abril de 1233, o Papa Gregório IX editou duas bulas que marcaram o início da Inquisição2 e os dominicanos foram incumbidos de lhe dar assistência e direção.

As raízes da futura perseguição aos judeus em toda Europa remontam ao 4º Concílio de Latrão, que teve início em novembro de 1215, sob o comando do Papa Inocente III. As determnações do Conciílio tinham como intuito regulamentar o relacionamento judaico-cristão e estabelecer restrições sobre as comunidades judaicas. O Conciílio ordenou aos judeus, para impedi-los de se relacionarem com os cristãos, que usassem distintitvos especiais de identificação em suas roupas. Ademais, não podiam relacionar-se com cristãos, viver sob o mesmo teto que eles, comer e beber em sua companhia ou usar o mesmo banheiro, entre outros. Um cristão não podia tomar um vinho produzido por um judeu. A bula papal de 1250 proibia aos judeus de construir uma nova sinagoga sem uma autorização especial.

Os judeus de Sefarad fizeram o impossível para impedir o cumprimento da humilhante obrigação de usar distintitvos especiais de identificação em suas roupas. Tudo em vão. Tanto Jaime I de Aragão como Teobaldo I, de Navarra, adotaram a medida. Apenas Ferdinando III de Castela se recusou. O Papa Honorius III enfureceu-se quando o rei de Castela não exigiu que os judeus usassem uma roupa especial e o distintivo. Quando exigiu uma explicação ao rei, este disse que os judeus de seu reino iriam fugir para a Granada muçulmana se tais medidas humilhantes fossem impostas e que tal êxodo teria resultados desastrosos para seu reino.

As determinações da Igreja eram um sinal da crescente hostilidade dos cristãos contra os judeus. A situação tendia a se tornar cada vez mais frágil, principalmente, face ao fato de para Igreja a conversão dos judeus ter-se tornado prioritária. Para os pontífices, a sobrevivência do judaísmo era uma afronta pessoal. Coagidos apenas pela lei canônica de que a conversão pela força era ilegal, a necessidade de converter judeus e, depois, evitar sua recaída se tornou uma obsessão.

Naquele então, porém, os defensores da tolerância prevaleceram, pois, apesar de a maioria concordar com a visão da Igreja em relação aos judeus, os reis espanhóis estavam de acordo sobre as vantagens de terem judeus em seus reinos. Assim, apesar das novas determinações da Igreja e das nocivas percepções sociais e teológicas que haviam tomado conta das populações cristãs, os judeus continuam a manter cargos importantes na administração e em funções públicas até 1492.

Jaime I de Aragão

Jaime I, de Aragão (1208 -1276), é um exemplo da ambivalência da época em relação aos judeus. Como vimos acima ele manteve seus direitos e privilégios, e muitos judeus ocupavam cargos importantes em seu reino. No entanto, durante todo esse período, os judeus foram obrigados a ouvir os sermões do clero que visavam a conversão. E, foi ele que organizou o famoso debate religioso entre um frei dominicano apóstata, Pablo Christiani, e o Rabi Moses ben Nahman, ou Nahmanides. Uma das mais importantes personalidades judaicas de todos os tempos, Nahmanides era um grande estudioso bíblico e talmúdico, além de cabalista.

Instigado por Christiani, o rei armou o debate e no verão de 1263, Nahmanides, então com cerca de 60 anos, recebeu ordem do rei Jaime I para se apresentar no Palácio Real em Barcelona. Durante o debate os dois oponentes representando o cristianismo e o judaísmo iriam discutir sobre vários temas: a missão messiânica havia sido cumprida por Jesus? Havia no Talmud provas de que Jesus fora de fato o messias? Era o messias divino ou humano?

Pablo Christiani, um judeu convertido que havia se tornado frei dominicano, esperava acelerar a conversão dos judeus de Sefarad convencendo Nahmanides de que o messias já tinha de fato vindo, na pessoa de Jesus, e que havia textos judaicos comprovando tal tese. Historiadores modernos acreditam que o debate era, de fato, parte de um plano dominicano para converter todos os judeus na Europa.

Mesmo após se terem passado mais de sete séculos, ainda evoca pesar e tristeza a figura solitária de Nahmanides no palácio real confrontando corajosamente as forças combinadas da Igreja e do Estado, na pessoa do rei, os líderes dominicanos e franciscanos, além de elementos hostis da população, de modo geral.

Os judeus tinham muita relutância em participar de qualquer debate religioso, seja com muçulmanos ou cristãos. Tais debates eram cheios de perigo, uma situação impossível de se vencer para o adversário judeu. Se Nahmanides falasse livremente poderia despertar a ira de seus poderosos oponentes, mas se não rebatesse as acusações e alegações de Christiani poderia desmoralizar seus correligionários, judeus. Assim, como defensor do judaísmo, ele tinha que satisfazer duas audiências simultaneamente. No final do debate, o rei disse: “Nunca vi ninguém que estivesse defendendo uma causa errada e argumentar tão bem quanto você”.

Algum tempo após o fim do debate Nahmanides voltou a Gerona e fez seu relato, dando uma cópia ao bispo da cidade, que provavelmente caiu nas mãos dos dominicanos, que o acusaram de blasfêmia. Ele foi forçado ao exílio em 1267, deixando sua família e indo sozinho para a Palestina.

Afonso X, o Sábio

Afonso X, o Sábio (1221-1284), rei de Castela e León, é outro exemplo de ambivalência em relação aos judeus. Amante das ciências e das artes mantinha relações com os judeus antes mesmo de sua ascensão ao trono, em 1252. Em virtude de sua inclinação pelos estudos, ele convidava judeus à sua Corte especialmente para traduzir obras de hebraico e do árabe. Durante seu reinado, o chazan da sinagoga de Toledo, Isaac ibn Sid, editou as famosas tabelas astronômicas conhecidas como Tabelas Alfonsinas, enquanto três dos seus médicos, Judah Kohen e Samuel e Abraham Levi, traduziram trabalhos de Astronomia e Astrologia do árabe para o castelhano.

Alfonso X, que mantinha judeus nas funções de tesoureiros e coletores de impostos, garantiu privilégios e benefícios à população judaica que vivia em seus territórios. Permitiu, também, que a aljama de Toledo construísse uma magnífica sinagoga, e, em 1264, destinou casas, vinhedos e terras aos judeus que se instalassem em Santa Maria del Puerto.

No entanto,apesar dessas atitudes, o monarca submeteu os judeus às limitações expressas no corpo normativo das Siete Partidas 3, no qual é inegável a influência das determinações do 4º Concílio de Latrão. No texto os judeus define como “suspeitos de malignidade”.

A separação de judeus e cristãos se sobressai em quase todos os artigos e uma das leis determina que os judeus usassem algum distintivo para destacá-los e separá-los do restante da população. Exige-se que os judeus fossem quietos e organizados para não causar tumultos, praticando de forma reservada os próprios ritos religiosos. A doutrina da Igreja de que “os reis não podiam permitir aos judeus serem senhores dos cristãos ou terem qualquer autoridade sobre eles” foi incorporada às Siete Partidas. E, o novo corpo normativo não apenas endossavam o alcance missionário aos judeus, mas também oferecia incentivos econômicos aos que se convertiam.

Nas Cantigas de Santa Maria, entre suas 426 composições a figura do judeu aparece em 30. Nenhuma delas de uma forma positiva. Há dúvidas sobre a autoria direta do Rei Afonso X, mas ninguém duvida de sua participação direta como compositor em muitas delas.

Uma nova realidade

Os tratados legais do século 13, apenas moderadamente favoráveis à população judaica, marcam o início do fim de uma era de tranquilidade e tolerância religiosa. Ao longo do século 13 organizaram-se cada vez mais forças com o objetivo de neutralizar os benefícios concedidos aos judeus pelos reis de Castela e Aragão. Com a solidificação da sociedade após a Reconquista, as atitudes contra os judeus tornaram-se mais abertas e constantes. Ademais, após a determinação de que os hereges não poderiam mais ser tolerados pela Igreja e que deveriam ser extirpados nem que fosse pela força, veio à tona a inevitável questão sobre a contínua tolerância em relação à presença judaica na Europa.

No entanto, o fator novo mais alarmante que começa a se impingir sobre a vida judaica em Sefarad não provém dos níveis mais altos da Igreja nem do Estado, mas do meio do povo e do baixo clero onde toma forma uma imagem popular, sem precedentes, do judeu como uma figura condenável, até mesmo diabólica. Baseando-se nas antigas fontes pagãs e cristãs, a imaginação popular invocava a imagem dos judeus como destruidores do Cristianismo, profanadores de relíquias cristãs, feiticeiros, inimigos da humanidade – de fato, “verdadeiras encarnações do diabo”, ou, no mínimo, seus parceiros no mal. A identificação dos judeus como envenenadores já havia aparecido nas Siete Partidas, que decretavam que um cristão poderia tomar um medicamento de um judeu apenas se um médico cristão conhecesse o conteúdo.

Disseminando-se por toda a parte – na arte e nos ornamentos arquitetônicos, na música e na literatura, assim como nos cortejos religiosos, nos sermões semanais e nos rumores espalhados pelos padres – esta descrição extremamente danosa foi reforçada, com cruel ironia, pelo crescente isolamento e segregação das comunidades judaicas.

Em tal atmosfera, não surpreende que os judeus recebessem a culpa por desastres naturais. Em 1348, a temida Peste Negra varreu misteriosamente a Europa. Surgindo praticamente da noite para o dia, dizimou entre 25 e 75 milhões de pessoas (por volta de um terço da população europeia), sendo que alguns pesquisadores acreditam que o número mais próximo da realidade é de 75 milhões, aproximadamente metade da população da época.

O horror inconcebível, na época inexplicável, levou a explosões populares de histeria contra os judeus, que foram acusados de espalhar a doença envenenando os poços. Esses rumores de envenenamento dos poços varreram a França, Espanha e Alemanha, ganhando crédito imediato, pois ninguém duvidava que os judeus estivessem ligados com bruxaria. Na verdade, os judeus sofreram igualmente com a Peste; o número de suas vítimas era tão grande que novos cemitérios tiveram que ser adquiridos. Mas nem a lógica nem pedidos reais de contenção puderam silenciar as vis acusações.

Apesar do crescente anti-judaísmo e das acusações, os judeus dos Reinos Cristãos não sofreram o tipo de persecuções que sofreram seus irmãos do resto da Europa. Em Castela, o sucessor de Alfonso, Pedro, o Cruel, reempregou os cortesãos a seu serviço, permitindo que Dom Samuel Meir ha-Levi Abulafia, se tesoureiro chefe, construísse uma sinagoga particular em Toledo, em 1357 (posteriormente chamada de El Transito).

Os massacres de 1391

Num ambiente de crescente tensão, o prelado Ferrant Martinez, de Sevilha, lançou uma campanha anti-judaica em 1378, “alertando” a população da cidade para a “iniquidade” dos judeus. Suas pregações destilavam ódio e encorajavam a violência contra a população judaica.

Suas propostas para “minimizar” o “problema judaico” eram drásticas: destruição das 23 sinagogas da cidade, confinamento de todos os judeus no gueto, fim de qualquer contato entre judeus e cristãos e a remoção de todos os judeus das posições de influência.

Suas atividades tornaram-se mais belicosas e nefastas após as mortes do arcebispo de Sevilha e do rei de Castela, em 1390, que deixara como herdeiro ao trono um filho menor de idade. Como era a Coroa que atuava como protetor, os judeus viram-se indefesos. (Por outro lado, os Reinos de Navarra e Portugal eram governados por monarcas fortes e poderosos, o que garantiu a segurança das comunidades judaicas lá instaladas).

Nenhuma voz se levantou para se opor ao discurso venenoso do prelado e os judeus de Sevilha foram atacados no dia 4 de junho de 1391. Tanto a matança quando seus resultados devastadores foram inesperados. Na escolha entre o batismo ou a morte muitos escolheram a morte, mas tantos outros o batismo. Relatos da época afirmam que, após incendiar os portões do bairro judaico, os cristãos “mataram muitos de seu povo… e muitos morreram para santificar O Nome de D’us e muitos violaram o Pacto Sagrado” (através da conversão...). Obviamente, os ataques de Martinez haviam caído em solo fértil. Os pogroms espalharam-se rapidamente de uma cidade para outra através da Ibéria e das Ilhas Baleares. Em todos os lugares era oferecida a mesma opção aos judeus: conversão ou morte.

Em Castela, em particular, as multidões sentiram que podiam promover arruaças impunemente por causa da ausência de poder central e poucas comunidades foram poupadas. Em certos casos, os judeus conseguiam evitar a conversão pagando generosas somas aos nobres, que concordavam em escondê-los em fortalezas locais, mas no final eram entregues às multidões enfurecidas e convertidos à força. Em Maiorca, o governador evacuou os judeus para uma fortaleza em Palma, mas lá, também, a multidão invadiu o local e obrigou os judeus a escolher entre a morte e o batismo.

Foi apenas graças à intervenção do Rabi Hasdai Crescas (ca. 1340–1410) que essa foi salva da total destruição. Rabi Cresca, uma das principais autoridades rabínicas de seu tempo, era o líder da comunidade judaica de Aragão e, de várias formas, do judaísmo espanhol durante um de seus períodos mais críticos.

O fervor religioso que motivava os perseguidores era inconfundível, pois quem se convertia era poupado sem exceção. Os vândalos avançaram sobre os bairros judaicos como se estivessem em uma cruzada. Os distúrbios só cessaram quando os judeus se converteram e suas sinagogas foram transformadas em igrejas.

As massas, em particular, eram motivadas, também, pela inveja econômica pelo tamanho, riqueza e proeminência da comunidade judaica medieval. Não é por acaso que os primeiros objetos destruídos foram os arquivos referentes aos empréstimos feitos por judeus a cristãos.

Após a devastação de 1391, os judeus tentaram reintegrar os fragmentos de suas comunidades sobreviventes sob a liderança do Rabi Hasdai Crescas. As aljamas tiveram que ser reconstruídas e a normalidade restabelecida. Mas, era necessário mais do que a reabilitação física nas juderías arruinadas, pois os sobreviventes estavam traumatizados e angustiados. Não era fácil restaurar sua autoconfiança tampouco encontrar uma explicação para a destruição de sua glória passada.

As estimativas sobre o total da população judaica em 1391 variam muito, mas acredita-se que, quando a calma foi restaurada – cerca de um ano após os massacres, por volta de 100 mil foram mortos, outros 100 mil sobreviveram de alguma forma, seja se escondendo nas florestas ou fugindo para terras muçulmanas, e 100 mil se converteram.

Até 1391, a conversão diante da perseguição era algo impensável em terras cristãs. Quando os judeus se defrontaram com a fúria das massas na Renânia, durante a 1a e 2ª Cruzadas, 1096 e1147, escolheram o martírio sem a menor hesitação, tornando-se um exemplo que ecoou na liturgia judaica e na memória coletiva do povo.

A presença dos novos convertidos, conhecidos como conversos, vai se tornar uma fonte de prolongada angústia para os judeus e de antagonismo por parte da população cristã. Como cristãos, os judeus recém-convertidos não estariam mais sujeitos à legislação discriminatória, sendo que assim poderiam ascender socialmente de forma rápida, como de fato aconteceu. Muitos, no entanto, convertidos à força e contra sua vontade, tornar-se-iam criptojudeus.

Em um nível prático, os judeus tinham que enfrentar a questão mais difícil de todas: como lidar com o crescente contingente de conversos, que, afinal, eram seus próprios parentes. Em um nível espiritual, eles tinham que entender o significado daquela onda de conversões à sua volta.Em última instância, a questão dos conversos levaria diretamente a Expulsão de 1492. Assim sendo, o ano de 1391, determinou o desenrolar do último capítulo do da história dos judeus na Península Ibérica.

BIBLIOGRAFIA
Cohen, Malcolm, A Short History of the Jews in Spain, eBook Kindle
Gerber, Jane S., The Jews of Spain, eBook Kindle

Lowney, Christopher, A Vanished World: Medieval Spain’s Golden Age of Enlightenment, eBook Kindle