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O Maestro em Busca da Última Música O maestro italiano Francesco Lotoro

O Maestro em Busca da Última Música

Para marcar os 75 anos da libertação dos campos de concentração, o KKL Brasil trouxe a São Paulo, em novembro último, o maestro e pianista italiano Francesco Lotoro. Criador de um projeto de resgate de músicas criadas nos campos nazistas, Lotoro regeu, no Auditório Simón Bolívar, do Memorial da América Latina, o concerto “O Maestro - Em Busca da Última Música”, executado pela Orquestra Jazz Sinfônica.


Lotoro esteve no Brasil no segundo semestre de 2018 para a exibição do documentário “O Maestro, em Busca da Última Música”, dirigido por Alexandre Valenti. O documentário, exibido em São Paulo, no Cinesesc, durante a Mostra Internacional de Cinema, narra a trajetória do maestro. Ao término da sessão, Lotoro presenteou o público com a apresentação de algumas músicas compostas nos campos, um repertório ainda desconhecido do grande público.

Há 30 anos Lotoro dedica-se à missão de resgatar obras compostas durante a 2ª Guerra pelas vítimas do Terceiro Reich. As obras foram compostas em sua maioria por judeus, mas há também músicas de autoria de ciganos, presos políticos e outros perseguidos pelo nazismo.

Ao resgatar peças compostas durante o tempo em que seus autores estavam presos, Lotoro busca preencher o vazio deixado na história musical da Europa, mostrando como mesmo os horrores do Holocausto não conseguiram abafar a inspiração e a criação artística. Até hoje o maestro catalogou cerca de 1,6 mil compositores e transcreveu mais de 8 mil peças musicais. Muitas das partituras encontradas foram escritas usando o material que caía nas mãos de seus criadores, nos campos de concentração: papel higiênico, sacos de carvão, o que quer que fosse...

Sua vida

Francesco Lotoro nasceu em Barletta, cidade no sul da Itália. Seu pai era alfaiate e a mãe, costureira. Desde pequeno ele demonstrava ser uma grande promessa musical. Matriculado no conservatório de música da cidade, parecia destinado a uma grande carreira de pianista. O destino, no entanto, lhe apontava outra direção, muito diferente, quando seguindo o conselho de um colega de classe, ele se transferiu para a Academia de Música Franz Liszt, em Budapeste. Os professores eram bem mais exigentes do que no sul da Itália, e é quando ele descobre o trabalho musical de Gideon Klein1 e Viktor Ullmann, dois compositores judeus que estiveram presos em Terezin, sendo depois enviados para Auschwitz, onde foram mortos.

A obra e destino dos dois músicos o marcaram profundamente. Foi o primeiro passo de uma longa jornada que o levaria a vários países em busca de mais músicas compostas clandestinamente nos campos.

Ao voltar a Barletta, Lotoro praticamente enfurnou-se nos 12 volumes da magistral Deuum, a enciclopédia italiana de música. Enquanto lia os verbetes biográficos, dois nomes voltavam sempre: Auschwitz e Theresienstadt. À medida que se aprofundava seu interesse por esses lugares mórbidos, também ele entendia cada vez mais sua própria família.

Como as várias gerações de Lotoros que o precederam, Francesco foi criado como católico. Mas, desde os 15 anos, sentia ter alma judia e, por conta própria, começou a estudar judaísmo. Foi quando seu avô lhe contou que as origens de sua família de fato eram judias. Seus ancestrais eram espanhóis marranos, “judeus ocultos”, que haviam chegado à Itália no século 16. Como viviam em uma cidade pequena, sem comunidade judia, durante anos ele se manteve “judeu apenas em seu coração”. Lotoro e sua mulher se converteram plenamente ao judaísmo em 2004.

Da colisão dessas experiências ele acabou tendo uma epifania que o fez dedicar sua vida a uma operação ampla e muito solitária de resgate – rastrear, transcrever e executar todas as músicas escritas nos campos de concentração e de morte.

Ação do acaso

Como costuma dizer, nos tempos pré-internet ele tinha que ser seu próprio desbravador, visitando bibliotecas, museus e copiando documentos, muitas vezes à mão. Nessa jornada, quanto mais músicos descobria, quanto mais canções e poesias encontrava, mais forte se tornava sua paixão pelo projeto. “Tornou-se uma missão, algo que tomou conta de minha vida. Tudo que importava era fazer mais viagens, procurar mais sobreviventes e encontrar mais trabalhos… Não me dediquei a esse estudo apenas porque estava me tornando judeu, mas porque, como músico, eu estava interessado na música. Mas como judeu, sinto como se estivesse cumprindo uma obrigação sagrada, uma mitzvá. A música pode vir a ser o último testamento de algumas pessoas. Em alguns casos, como na época do Holocausto, foi o que se perpetuou para as futuras gerações. Assumi a missão de fazer com que essas obras voltem à vida e que sejam ensinadas, tocadas, cantadas e assobiadas por todos, de forma a perpetuar a vida onde havia morte”.

Quando lhe perguntam como faz a seleção do que deve ser preservado, responde, sem hesitar, que qualquer um que tenha passado por um campo de concentração, tenha sobrevivido ou não, e tenha criado algo, merece estar presente no seu acervo, mantendo-se vivo através de sua obra. “Esta música pertence à humanidade, não é minha. Eu sou apenas a pessoa que a encontrou e organizou. Precisa voltar a fazer parte do mundo da música e isso significa que precisa ser tocada como se toca qualquer outro tipo de música, seja Chopin, jazz ou música country. Se não for tocada, é como se não tivesse sido libertada, como se ainda estivesse presa nos campos”.

Lotoro concentrou suas pesquisas no período que vai de 1933, quando o nazismo dava início às perseguições aos judeus, até 1944, quando a Alemanha começou a perder a guerra.

Posteriormente ampliou esse universo, incluindo não apenas os judeus, mas todos os que estiveram nos campos nazistas, como os cristãos, ciganos, homossexuais e prisioneiros políticos. Alterou também o período inicial e final – indo de 1933, quando foi aberto o campo de Dachau, o primeiro de seu gênero, até 1953, com a morte de Stalin. Sobre esta mudança disse: “Eu percebi que o fim da 2ª guerra não representou o fim da experiência dos campos e de sua música”.

Para ele, esta abordagem mais ampla não diminui o significado da experiência dos judeus, sendo, pelo contrário, extremamente judaica. “Nós não somos como outros povos da história que celebram seus próprios triunfos. Como judeus nós temos outras missões. A Torá diz: ‘Sejam uma luz entre as nações. Nós temos a responsabilidade de ser um modelo para os outros. Os italianos não gravaram as músicas que criaram nos campos. Coube a um judeu gravá-las, bem como a de todos os outros. Para nós, preservar a memória não é opcional. É uma obrigação, um preceito. A memória é universal, não apenas judaica”.

Ele mantém o acervo em sua casa, na pequena cidade de Barletta. Reúne óperas, operetas, música sinfônica, lírica, jazz, até canções populares, cantigas e paródias e será transformado pelo governo italiano na “Cittadella Della Musica Concentracionalle”, um Centro Cultural com teatro, cinema e biblioteca e tratará apenas de músicas dos campos.

Ao longo de suas pesquisas Lotoro fez mais de 300 horas de entrevistas, conversou com sobreviventes, entre os quais, Wally Karveno, então com101 anos, que lhe explicou exatamente como deveria tocar sua música. O acervo inclui, ainda, uma canção composta por Bela Lustman, polonesa de 85 anos residente no Rio de Janeiro. Aos 14 anos, presa no campo de trabalhos de Pachnik, na antiga Tchecoslováquia, compôs com duas amigas uma canção sobre as terríveis condições de vida em mãos dos nazistas. Aleksander Laks, outro polonês naturalizado brasileiro, falecido há alguns anos no Rio, também compôs canções que fazem parte do projeto. “Este projeto simboliza a resistência dos judeus ao Holocausto.

Essas músicas serão as futuras testemunhas dos horrores desse escuro período da História. É importante fazermos uma ponte entre passado, presente e futuro, libertando essas músicas, e recuperando a relevância de cada músico que esteve preso nos campos, dignificando essas obras de resistência em meio ao caos. Trata-se de um legado para a humanidade e que merece todo o nosso apoio e respeito”, disse Eduardo El Kobbi, produtor do espetáculo e presidente do KKL Brasil.

Parte da renda da venda dos ingressos foi revertida para o “Projeto 100 viagens”, coordenado pelo maestro italiano e que visa a continuidade à pesquisa de novas partituras junto aos poucos sobreviventes do Holocausto ainda vivos. Como parte das comemorações, foi realizada a exposição “Rostos do Holocausto”, do fotógrafo Eduardo El Kobbi, com imagens dos sobreviventes que residem no Brasil.

Trinta anos se passaram desde que Lotoro deu início a uma intensa busca por músicas compostas nos campos, mergulhando na vida e no pensamento das vítimas que, em meio à escuridão que os cercava, encontraram formas de escrever letras e compor melodias. “Cada um deles tinha sua história, suas letras… Eles não podiam usar sua língua materna nos campos – era proibido – e isso também modificou o que eles escreveram”.